Bernard Arnault. O bilionário francês que define o gosto dos milionários do mundo inteiro /premium

05 Março 2019135

CEO do grupo LVMH, o aglomerado de luxo que inclui a Louis Vuitton, o mais rico da Europa chega aos 70 anos esta terça-feira. O perfil do empresário, colecionador e cúmplice dos VIPs.

Ainda há quem perca tempo a perguntar ao Google: “Bernard Arnault é rico?”. Não vale a pena estafar o motor de busca. Não, Bernard Arnault não é rico. Bernard Arnault é privilegiado a níveis estratosféricos. Tem uma fortuna avaliada em 67,5 mil milhões de euros, o que o converte, em termos líquidos, no homem mais rico de França, e segundo os mesmos barómetros o mais rico da Europa — em abril de 2018 Amancio Ortega, o dono do império Zara, era ultrapassado pelo gaulês, responsável pelo poderoso grupo LVMH, que inclui as marcas Louis Vuitton, Christian Dior, Guerlain e a popular Sephora.

A chegar aos 70 anos, marca que alcança terça-feira, 5 de março, afirma-se como “um dos últimos taste makers”, assim o definiu a Forbes, que no ano passado o posicionava na quarta posição dos mais abastados do mundo, ao leme de um valioso aglomerado de 70 marcas. O rótulo é apropriado, não fosse o acrónimo LVMH (Moët Hennessy-Louis Vuitton) a candeia mais luminosa e relevante no segmento do luxo. Bernard, um “lobo em caxemira” (mais uma alcunha granjeada pelo caminho) que não se cansa de ver expandido o seu gigante, tem lugar mais que garantido no BoF 100, o ranking elaborado pelo Business of Fashion que avalia o impacto neste território, e nem este índice consegue esquecer que o seu universo está muito longe de se esgotar em acessórios para vestir. O grupo Arnault investiu na Netflix e na Blue Capital, tem uma participação de peso no grupo Carrefour, outra na empresa fabricante de iates Princess Yachts, comprou hotéis como o famoso Cipriani e é dono do Expresso do Oriente, só para citar alguns dos inúmeros investimentos.

O mestre de cerimónias das estrelas, o encantador de millennials

A constelação LVMH é composta por variadíssimas estrelas, que vão assegurando a renovação e brilho permanentes de cada uma das marcas sob a sua alçada. O modelo de rotatividade inscreve-se no principal desígnio desta estrutura muito familiar, seja pelos vínculos de sangue ou por afinidade laboral: criatividade. É ela o motor de toda a reinvenção, e o pretexto para recrutar os melhores talentos da indústria. E porque o apelo do luxo desconhece idade, o grupo recorreu a nomes como o popular Virgil Abloh da Off White para darem o seu input na Vuitton e atrair millennials com invejáveis contas bancárias. Nem de propósito, prepara-se para abrir um novo espaço no epicentro do luxo londrino, centrado nas “experiências”, e não tanto nos produtos, nu prenúncio do futuro reservado a este mercado.

A aposta no sangue novo é puro ADN, seja de dentro para fora ou de fora para dentro. Em 2017, a LVMH anunciou a compra de 80% da alemã Rimowa, e colocou Alexandre, filho de Bernard de apenas 24 anos, aos comandos. Nada de novo para quem desde cedo foi confiando o rumo da casa aos seus herdeiros. Antoine, de 41 anos, filho do seu primeiro casamento, com Anne Dewavrin, é um dos nomes mais presentes, com um mediatismo extra alavancado pelo enlace com a super modelo russa Nadia Vodianova. E rapidamente desfaz a imagem do pai rodeado de folhas de Excell, enfiado no seu escritório parisiense, com vista para um Rothko na parede — “Nada mais longe disso”, sublinhou em tempos –, não fosse o número um presença regular nas célebres FROW, uma sigla quase tão preciosa como a LVHM. Falamos da contração de front row (primeira fila), a zona mais cobiçada nos desfiles de moda, onde Bernard se faz rodear da A List de cada momento. Da editora chefe da Vogue Anna Wintour a atrizes de Hollywood e super modelos, raramente falha, sempre de fato e gravata, como um infalível Dior azul escuro.

E por falar em Dior, é impossível dissociá-la do controverso John Galliano. Foi Arnault quem contratou o designer para revitalizar a marca. E quem mais tarde o afastou na sequência da polémica anti-semita, em 2011, quando o criador ofende um casal num bar. Sucedeu-lhe Raf Simons.

Em 2009, na Semana de Moda de Paris, no desfile Louis Vuitton pronto-a-vestir. Arnault entre Milla Jovovitch e a mulher, Helene Mercier Arnault, e a atriz Virginie Ledoyen e Antoine Arnault, um dos cinco filhos do empresário e desde 2018 responsável pela direção da imagem e comunicação da LVMH © Pascal Le Segretain/Getty Images

Apesar da omnipresença do glamour, também há percalços. Em 2016, Bernard chegou a responder ao documentário satírico “Merci, Patron!”, que acompanhou um casal que perdeu o seu trabalho num ramo do grupo. “LVMH é a ilustração, a encarnação do demónio, segundo esses observadores da extrema-esquerda”, ironizou em jeito de resposta. “Fizemos tudo errado”, continuou. “Primeiro que tudo, somos uns dos maiores no CAC 40, temos bons resultados, e ainda estamos a piorar as coisas porque contratamos pessoas. Quando cheguei à empresa éramos 20 mil, hoje somos 120 mil”, rematou então. É natural que os adversários cresçam à mesma velocidade dos seus cofres.

O homem de negócios “do champanhe, do conhaque e da alta costura”

Há várias datas redondas por assinalar este ano no trajeto de Arnault, casado, pai de cinco filhos (quatro dos quais ligados aos negócios da família), nascido em Roubaix, em 1949, onde frequentou o liceu, completando depois a formação em Lille, com passagem pelo Politécnico. Foi como engenheiro que começou a sua carreira profissional, na empresa de construção do pai, a Ferret-Savinel, onde o bom desempenho motivou sucessivas promoções — com apenas 25 anos assumiu o cargo de direção de produção. Em 1978 sentou-se na cadeira mais poderosa, a de chairman.

Em 1981 partiu para os EUA para um exílio voluntário em Miami, mas os negócios não correram como esperado. O regresso a França, de onde se afastara devido ao avanço da esquerda no poder, foi ensaiado através da Boussac, empresa do norte do país do setor têxtil à beira da falência, que detém a conhecida Dior, a pedra de toque deste processo. Em 1984 ano, liderou a reorganização da empresa Financière Agache, devolvendo a saúde financeira ao grupo e apontando já para a aposta estratégica no setor dos produtos de luxo. Com o auxílio do costureiro Christian Lacroix, criou uma marca própria de alta-costura. Nos anos seguintes, adquiriu também os champanhes Moët e Krug e a casa Hennessy, de conhaques.

Em 1988, com o então vice presidente do grupo Louis Vuitton-Meot Hennessy Alain Chevalier. Bernard presidia à empresa Financiere Agache © Pierre Guillaud/AFP/Getty Images)

Em 1989, tornou-se o principal acionista do grupo LVMH (Louis Vuitton Moët Hennessy). Na qualidade de presidente, criou o primeiro grupo mundial do setor do luxo. Mais tarde, o empresário passaria também a presidir ao conselho de administração do Grupo Arnault S.A. e à Companhia Financeira do Norte, liderando uma série de investimentos internacionais através das suas holdings familiares. Data de 1993 a aquisição da Berluti e da Kenzo, e ainda do jornal económico La Tribune, que venderia mais tarde. “The Taste of Luxury: Bernard Arnault and the Moet-Hennessy Louis Vuitton Story” é o nome da biografia não oficial lançada nesse mesmo ano, que traça um destino feito, justamente, de “champanhe, conhaque e alta-costura”.

Givenchy, Guerlain, Marc Jacobs , Sephora, Emilio Pucci , Fendi, Loro Piana, Nicholas Kirkwood , Thomas Pink, R.M Williams, EDUN, Moynat, Donna Karen, TAG Heuer, De Beers, Bulgari. A lista de nomes adicionados ao seu portfólio não parou de aumentar ao longo dos anos. E agora? Subsiste alguém resistente à ofensiva LVMH? Ainda há potes de ouro no final do arco-íris para um bilionário? Bom, em solo francês, há uma empresa familiar comparável à aldeia de Astérix. Falamos da histórica Hermès. Em 2011, o grupo de Arnault comprou 22,3% do negócio mas a longa linha de herdeiros da maison promete fazer de tudo para garantir que a marca permanecerá nas mãos do clã. No ano seguinte, novo caso. Quis processar o jornal Libération quando este faz capa com ele, de mala na mão, com o título garrafal “Vai-te embora idiota rico” . Tudo porque Bernard resolveu pedir a nacionalidade belga, decisão vista por muitos como uma tentativa de fuga aos impostos, mas para o próprio um passo estritamente baseado em questões “pessoais e empresariais” e com a garantia de que continuaria a fazer as suas contribuições fiscais em França. Acabou por desistir do pedido no ano seguinte, na sequência da polémica.

Nada que abalasse reputações ou uma fórmula partilhada há décadas. “Quando me juntei ao grupo LVMH sabia o que a maior parte das pessoas sabia: que tinha um leque de marcas prestigiadas, muitas delas com 150 ou 200 anos. O que me despertou mais interesse foi o fator inovação e como a criatividade estava no centro de tudo. Para Bernard Arnault, isto é a vitalidade de tudo o que faz na organização, seja na moda tradicional, no vinho, nas joias, ou nos perfumes. Não significa que estamos sempre a fazer alterações em peças icónicas, mas aplicamos essa criatividade para que sejam sempre relevantes”, descreveu numa entrevista, em 2004, Pierre-Yves Roussel, anterior CEO da LVHM e atual CEO da Tory Burch LLC.

O homem de família, o patrono das artes e o tenista amador que se cruzou com Federer

Foi em 2014 que o magnata, um verdadeiro patrono das artes, viu abrir as portas da fundação Louis Vuitton, uma obra concebida pelo arquiteto Frank Gehry no parisiense Bois de Boulogne, e que custou 135 milhões de dólares. Bernard e a sua mulher, a pianista Hélène Mercier, com quem casou em segundas núpcias em 1991 (mãe de três dos seus cinco filhos), figuram entre os maiores colecionadores do mundo, um elenco anualmente atualizado pela Art News. Em 2016, conseguiu mesmo convencer o MoMA de Nova Iorque a ceder 200 peças dos maiores mestres para serem expostas na capital francesa. A mostra atrai 750 mil visitantes.

Em abril de 2018, vai para o ar “The Brave Ones”, no canal CNBC. “Família, trabalho e triunfo” são as prioridades e paixões na vida do protagonista de uma série de oito episódios que conta com a participação de nomes como Richard Branson, Jack Ma, Bill McDermott, Karl Lagerfeld e Anna Wintour. “Quando me levanto de manhã, penso sempre: ‘Hoje vou divertir-me com isto ou com aquilo’. Nunca me sinto aborrecido. E sou muitíssimo competitivo. Tal como no ténis, quero sempre ganhar. Isso é divertido”, confessou o perfilado nesse programa, notando ainda que um negócio de cunho familiar, especialmente no ramo do luxo, é a chave do sucesso. “Quando estás numa família como esta tens duas grandes vantagens: uma delas é que podes pensar a longo prazo. Não me interessa muito pensar quais serão os números daqui a seis meses, pretendo assegurar que o interesse pela marca se mantenha daqui a dez anos. A segunda vantagem está na contratação de pessoas. Os empregados sabem que quando vêm para aqui vêm para uma família, e que serão bem tratados”.

Em 2004, com a mulher, a pianista Helene Mercier, numa recepção no palácio do Eliseu oferecida pelo então presidente Jacques Chirac, em honra de Isabel II © Patrick Kovarik/AFP/Getty Images

Em fevereiro do ano passado, Arnault despediu-se de Pierre Godé, seu conselheiro durante mais de 30 anos, figura “polida, charmosa e deliberadamente low profile“, resumiu o The New York Times no seu obituário. Conheceram-se em 1973, quando Godé era advogado de Jean, o pai de Bernard. Já nessa outra, e influenciado pela mãe, Bernard toca piano, instrumento a que costuma regressar, muitas vezes para dar vida a composições de Chopin, um dos compositores preferidos. Quanto a casas e viagens, divide-se entre a cidade-luz, a ilha que comprou nas Bahamas, o reduto de praia em Saint Tropez, o seu hotel nos Alpes ou a enorme mansão na região de Bordéus.

Discreto por natureza, Arnault é o workaholic com um lado mais divertido do que à partida se poderia pensar. Palavra da prole, que não raras vezes o desafia para outra das suas predileções, o já referido ténis, tão distrativo como formador de carácter. Para a história fica o dia em que o filho Fréderic o surpreendeu no court: o campeoníssimo Roger Federer, uma das suas referências, apareceu inesperadamente para bater umas bolas com o empresário. Nessa entrevista ao The Telegrah, em 2015, revelou ainda não apreciar as “mulheres que se vestem para parecerem mais novas do que são” e recordou o dia em um jovem Bernard de 21 anos apanhou um táxi no aeroporto JFK, em Nova Iorque, e ouviu o comentário que nunca o fez abrandar. “Quando perguntei ao taxista se já tinha ido a França ou se sabia quem era o presidente francês, ele abanou a cabeça e disse: ‘Não, mas sei quem é Christian Dior'”.

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