Passou uma semana, mas ainda ninguém se esqueceu. Há escassos dias, em Doha, Portugal venceu a Áustria com um golo solitário de Anísio Cabral e conquistou o Campeonato do Mundo Sub-17, juntando o título mundial ao Europeu alcançado no verão. Para além de Anísio, também Mateus Mide, Romário Cunha, José Neto ou Mauro Furtado saltaram para as bocas de todos os portugueses — em comum, naturalmente, têm o facto de terem atuado sob a batuta de um maestro.
[Ouça aqui a entrevista de Bino Maçães à Rádio Observador:]
Aos 52 anos, apenas três depois de ter entrado nos meandros da Federação Portuguesa de Futebol, Bino Maçães é agora campeão europeu e mundial e um dos treinadores mais bem sucedidos da história recente das seleções portuguesas. Depois de ter começado o percurso nas camadas jovens do FC Porto, passou pela equipa B e também pela equipa principal do V. Guimarães, orientando ainda a União de Leiria antes de aceitar o desafio de ser selecionador nacional.
No programa “E o Campeão é…” da Rádio Observador, uma semana depois de ser campeão do mundo no Qatar, Bino lembrou a quebra de motivação depois da derrota com o Japão na fase de grupos, abordou o futuro dos jovens jogadores e garantiu que, com contrato válido até junho de 2026, estará “atento ao que vier” na hora de tomar uma decisão sobre a própria carreira, lembrando que não é “um treinador de formação”.
▲ O treinador natural da Póvoa de Varzim começou a carreira nas camadas jovens do FC Porto
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A ambição de treinar equipas profissionais mantém-se?
Sim, é uma ambição natural. Embora já comece a perceber que me apelidam de “treinador de formação”, porque tive agora estes sucessos. Mas na minha cabeça isso não faz grande sentido, gosto muito de achar que sou treinador de futebol e quando somos treinadores de futebol temos de estar abertos a todas as possibilidades. Foi um desafio representar as seleções, até porque vir de treinar todos os dias e começar a treinar só algumas temporadas, durante só um mês, cria-nos alguma estranheza num primeiro momento. Depois vamo-nos adaptando, vamos assimilando o que temos de assimilar, e agora sinto-me plenamente confortável nestas funções de selecionador nacional.
Mas está aberto a novas oportunidades?
Sou ambicioso e estou aberto a tudo o que possa surgir, como sempre estive. Não foi uma escolha, não optei pelo futebol de formação ou pelo futebol sénior. As coisas surgiram. Fui aproveitando as oportunidades que fui tendo. Nunca tive empresário, daí alguma dificuldade, por vezes. Tenho de ser sempre eu a tratar das minhas coisas e gosto muito de estar no meu canto, o que fez com que não tivesse algumas oportunidades que podia ter tido. Mas o que foi surgindo fui aproveitando, fui dando o máximo do que sei e posso e continuo a crescer como treinador, a evoluir. Estarei atento ao que vier para depois tomar uma decisão, independentemente de ser seleção ou clube.
Ser apelidado de “treinador de formação” é um problema?
Não, não, não é problema nenhum. Eu não gosto é de rótulos, porque nós treinadores vivemos do que nos vai aparecendo e vamos tomando as nossas decisões. É sempre interessante podermos fazer a gestão da nossa carreira, sempre que é possível. Só referi isso porque começo a ver algumas notícias com esse apelido, até porque tive uma ligação curta ao futebol profissional. Um dia mais tarde falarei dessa minha passagem pelo V. Guimarães, do porquê de ter acontecido e do porquê de ter ido para as seleções. Posso só adiantar que aconteceu por algum desencanto que fui tendo nesse período. Quando surgiu a oportunidade de representar a nossa Seleção, até porque me pareceu algo muito mais estável, aceitei com todo o gosto e ainda bem que o fiz.
▲ Os jogadores portugueses tiveram algumas dificuldades para ultrapassar a derrota com o Japão ainda na fase de grupos do Mundial
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E é uma estabilidade que pretende manter nos próximos anos? Ou é a curto prazo?
Quando falo em estabilidade não é a estabilidade de ter um lugar para treinar com frequência. Estabilidade é… É sentir que nos clubes quando perdemos dois ou três jogos temos logo o nosso lugar em risco. E ao representar a Seleção sabia que pelo menos um ano de contrato teria. Depois, eventualmente e se as coisas não corressem bem, estaria sempre sujeito ao que pudesse surgir, como todos os treinadores. Mas quando falo de estabilidade é por isso, queria essa estabilidade que é cada vez mais difícil de alcançar no futebol profissional, os resultados contam muito mais do que a qualidade de qualquer treinador. Vejo-me a representar a Seleção, a continuar, desde que haja esse interesse também do outro lado. Vou analisar o que surgir, tentar perceber o que é melhor para mim e depois tomarei uma decisão.
Tem-se falado muito sobre a necessidade de gerir o ego ou a expectativa destes jogadores, que ainda são muito jovens e de repente são campeões europeus e mundiais. Como é que isto se faz? Não há uma fórmula mágica, mas como é que se diz a rapazes de 17 anos que é preciso continuar a trabalhar?
Acho que essa é uma das minhas funções enquanto selecionador nacional. Quando estão comigo tento sempre alertá-los para essas situações. É verdade que esta geração tem tido muito sucesso, mas o futebol não pára e há sempre trabalho pela frente. Já passou uma semana e eventualmente a partir de agora começamos a falar de outras coisas, a pensar noutras coisas, há já um dérbi para se falar também. Os jogadores têm de continuar a trabalhar, têm de regressar aos clubes e dar o máximo. Acho que aumentam a responsabilidade por tudo o que têm conseguido conquistar e quando falo de responsabilidade é uma responsabilidade boa, que vem da qualidade que têm demonstrado e do que se foi fazendo, dessa maturidade.
E que papel é que os clubes podem ter nesse processo?
Tem de haver continuidade nos clubes, para que possam continuar a jogar com frequência, porque isso é fundamental para um jovem poder crescer. Tem de jogar com muita regularidade, para passar por adversidades, para saber resolver os problemas, para ir crescendo. Eventualmente, se puderem também ir subindo patamares nos seus clubes, subindo escalões, isso para mim também é fundamental. É na superação que conseguimos evoluir e vai fazer-lhes muito bem jogar em escalões acima, desde que o contexto seja o adequado para eles. Tenho a certeza absoluta de que todos os clubes de todos os jogadores convocados vão ter isso em conta, porque são ativos do clube. Sabemos que os clubes portugueses são vendedores e vão querer aproveitar a qualidade e o potencial destes jogadores para poderem também tirar partido daí, quer jogando nas equipas principais quer posteriormente com vendas.
▲ Instantes depois do apito final em Doha, no Qatar, quando ficou confirmada a conquista do Campeonato do Mundo Sub-17
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Olhando para este Mundial em específico, o que é que lhes disse depois daquela derrota contra o Japão? Portugal já estava apurado, mas tropeçou ali. De que forma é que isso afetou o balneário?
Afetou. Infelizmente ou felizmente, porque é um processo de crescimento. Não estava à espera de que a equipa sentisse tanto essa derrota, até porque já estávamos apurados e só estava mesmo em jogo o primeiro lugar do grupo. A questão é que três ou quatro semanas antes já tínhamos perdido contra o Japão no Torneio Internacional de Limoges e acho que essas duas derrotas pesaram na cabeça dos jogadores. Até porque a seguir a esse jogo era a eliminar e eles ficaram algo duvidosos do que podiam fazer. Sentimos isso, sentimos que a equipa não estava confortável.
E como é que se resolve uma situação desse género a meio de um torneio tão curto?
Eu e a minha equipa técnica tomámos uma posição, falámos com os capitães primeiro e também individualmente com alguns jogadores, propusemos que conversassem entre eles para perceberem o sentimento de cada um para depois nós também tomarmos algumas medidas. Eles fizeram essa reflexão, nós também falámos sobre o assunto e eles uniram-se, porque o que estavam a passar naquela altura não fazia sentido. Aproveitei, porque senti que estavam a precisar e nunca tinha feito isso, para lhes mostrar os vários bons momentos que tiveram o Europeu e a forma como jogaram, a disciplina que tiveram, como se uniram nos momentos de adversidade, como reagiram quando perdiam a bola. E isso acabou por ser importante na cabeça deles, porque voltou a fazer o clique essencial. E no grito que demos antes da entrada em campo contra a Bélgica [16 avos de final, primeiro jogo a eliminar] eu senti essa energia, senti que a equipa estava de volta. A partir daí tive a garantia de que podíamos lutar pelo Campeonato do Mundo.
▲ Já em Portugal, a comitiva dos Sub-17 foi recebida por Marcelo Rebelo de Sousa em Belém
MIGUEL A. LOPES/LUSA
Este Campeonato do Mundo integrou o football video support, o sistema em que cada equipa técnica pode pedir duas revisões de imagens por jogo se não concordar com a decisão tomada em determinado lance. De que forma é que se prepararam para esta ferramenta e como é que a utilizaram?
Tivemos um workshop sobre o assunto para nos prepararmos e sabermos como é que iria funcionar. Entre nós definimos que íamos ficar com um iPad no banco para termos as imagens, até porque há ali um período em que o árbitro espera para perceber se queremos utilizar o cartão ou não, em que temos de ver as imagens e perceber se vale a pena ou não. Eu acho que é algo interessante, porque na formação não há VAR e a este nível, num Campeonato da Europa ou do mundo, pode ser importante. Não tendo VAR, temos sempre este cartão que podemos utilizar a dada altura se acharmos que estamos a ser injustiçados por algum motivo. Nesse sentido, acho que foi interessante. Mas como existem coisas para melhorar no VAR também há coisas para melhorar neste processo, até por ser inovador.
Há 34 anos tivemos a chamada “geração de ouro”, que ganhou dois Mundiais Sub-20. Agora tem-se utilizado a mesma expressão, mas acha que esta geração merecia outra alcunha?
Não, acho só que é uma geração muito competente e os resultados estão aí para dizer isso. É uma equipa muito homogénea nos vários setores, temos bastante qualidade. Não temos nenhum Luís Figo, mas temos jogadores que no futebol atual podem dar grandes respostas e aquilo de que gostaria mesmo era de que estes jogadores pudessem chegar à Seleção A, porque é para isso que trabalhamos na formação das seleções. Validaria muito as nossas escolhas, naturalmente.