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O candidato socialista esteve por Évora e Beja. À noite seguiu para Faro para um comício com António Costa

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

O candidato socialista esteve por Évora e Beja. À noite seguiu para Faro para um comício com António Costa

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Bloco de notas de reportagem no PS. Dia 2. Pedro Marques, a graínha que incomoda a campanha e o ministro /premium

Mais três empresas, uma delas a herdade da uva sem graínha. Já a campanha, avança com uma semente que incomoda: pouca mobilização. Ainda que com a ajuda preciosa de um ministro no fato de dirigente.

O sentido mediático não é mesmo o forte de Pedro Marques ou não será — a julgar pelo que diz — coisa que o preocupe, mesmo que esteja em plena campanha oficial e seja ele o cabeça de lista da eleição em que o PS joga muito mais do que o número de eurodeputados que quer eleger. Foi o próprio António Costa quem colocou neste tabuleiro a avaliação do seu Governo. Não há nada que faça o candidato sair da sua ideia inicial de campanha, nem mesmo um trator cor de rosa no meio da vinha interminável da Herdade Vale da Rosa que parecia ali posto de propósito para dar aquele brilho que qualquer campanha agradece, sobretudo uma campanha-sempre-menos-atrativa das Europeias. Nada disso. Aquele serviu apenas para a comitiva socialista aproveitar a sombra, na tarde que queimava em Beja.

Na Praça do Giraldo, em Évora, Pedro Marques tomou um café para contactar com a população de seguida

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

O candidato esperou o reforço do dia, o ministro Capoulas Santos, e seguiu da sombra para cinco minutos, ali a dez passos, debaixo das videiras que dão a uva sem graínha. De manhã tinha ficado claro que a sua campanha não tem nada a ver com esta produção livre de sementes irritantes, porque nestes dois dias tem seguido com um grão que incomoda. Não há pessoas. E se não há pessoas, não há a quem passar a mensagem da forma mais direta possível quando um político se mete à estrada: panfleto na mão, beijo ou passou-bem pronto e a deixa do apelo ao voto alinhada.

O tractor cor de rosa que o PS não aproveitou na ação de campanha

ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR

No programa previsto para Évora não havia rua, mas à última apareceu o aviso para um café na Praça do Giraldo. Vislumbrava-se rua e até aconteceu. Mas a convicção não era muita. Pedro Marques fez os mínimos, andou uns 50 metros, cumprimentou os dez portugueses que ali estavam — teve de contornar alguns turistas –fez declarações e depois: “Agora temos de ir para a Embraer”. O receio de um gesto lido como cedências às críticas encurtou o momento que foi acompanhado por alguns militantes locais e um punhado de jovens socialistas, de bandeiras panfletos e canetas para distribuir. Para Pedro Marques ficou a tarefa de apelar ao voto, não interessava em quem. “Veja lá, é importante votar na Europa”.

Pita Ameixa, Pedro Marques, Capoulas, o comendador António Silvestre Ferreira e Carlos Zorrinho, no Vale da Rosa

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

O seu conceito de campanha é, segundo diz, “fazer uma campanha de esclarecimento das pessoa e falar com trabalhadores” — disse-o logo de manhã em Évora. Mas tanto na Embraer, como na Edia, como na Herdade da Rosa, não esteve mais do que com administrações a ouvir a apresentação das empresas e o trabalho que desenvolvem, sempre preocupado em dali tirar a mensagem específica que tinha para passar: a importância dos fundos europeus para as zonas do interior, fosse na asa em construção de um avião, fosse numa uva sem graínha, fosse na expansão do regadio. Trabalhadores comuns contactados? Zero ou muito perto disso.

Carlos Zorrinho, sétimo da lista a Bruxelas e eborense, acompanhou-o o dia todo. Também apareceu, em Beja, o autarca de Ferreira do Alentejo, Pita Ameixa, e ainda o deputado Pedro do Carmo, mas o nome maior foi o de Capoulas dos Santos. O ministro da Agricultura apareceu na Herdade para dar um apoio ao candidato, e deu-lhe a mão no ataque ao PSD em matéria de fundos. Na despedida Pedro Marques deu-lhe conta da importância do gesto: “Capoulas, muito obrigado por nos ter dado este pedaço. Sabe como isso é importante para nós”. António Costa chegaria ao fim do dia, para o comício da noite.

Pedro Marques deu um saltinho à rua (à última hora). E teve o Governo a dar uma mão na campanha

“Como já referi nós fizemos dezenas e dezenas de ações de rua, o que se passou é que foi aqui que nos encontrámos com a nossa equipa e daqui vamos para a Embraer com toda a normalidade. Estamos a fazer a campanha que fizemos ao longo de três meses”.

A frase já serviu para Pedro Marques jurar que não há nada que o afaste da rua e esta terça-feira serviu para justificar porque foi à rua em Évora e que não foi para mostrar nada a ninguém. “Com toda a normalidade”.

O alto deste dia foram os poucos quilómetros feitos, permitindo que o candidato concentrasse a mensagem e o trabalho numa região específica, o baixo Alentejo. A caravana deslocou-se apenas entre Évora e Beja e com a mensagem concentrada num tema que é caro ao candidato e ao PS: os fundos comunitários. Na Embraer, Pedro Marques ouviu o reconhecimento do trabalho “dos vários governo” por parte da empresa brasileira de aeronáutica, mas à tarde, na Herdade da Rosa, teve ao seu lado o ministro da Agricultura, Capoulas dos Santos, a apoiá-lo no ataque ao PSD nesta matéria. “Vamos fazer — ao contrário do que fez o Governo anterior que entregou a Bruxelas 20 milhões de euros depois de ter feito uma festa — a execução a 100%. Estamos empenhados em executar plenamente juntando todas estas variáveis de forma positiva”.

O ponto baixo foi a tentativa de desvalorizar a cedência, logo de manhã em Évora, à crítica de falta de contacto com as pessoas no seu programa de campanha. Daí resultou uma arruadinha sem história relevante, a não ser a de vir em resposta — porque não estava prevista e aterrou à última hora no programa depois de um primeiro dia a ser questionado porque preferia empresas e salas a ações fora de portas — à falta de contactos menos institucionais e controlados.

Então, como tem visto isto de fora? “Com a expectativa que tinha de um bom resultado do PS”, diz Capoulas dos Santos para logo a seguir admitir — ele que bem conhece esta poda, pelos dez anos que esteve como eurodeputado em Bruxelas — que é difícil mobilizar as pessoas para os temas europeus. “As pessoas só vão despertar quando perceberem que a coisa pode desmoronar”, desabafa com o Observador.

Capoulas apareceu para dar uma ajuda ao candidato que Pedro Marques agradeceu: "Sabe como isso é importante para nós"

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

O ministro apareceu em campanha em Beja porque estava por ali perto e, na Herdade da Rosa, quando ouviu Pedro Marques falar dele como uma “referência”, preveniu-o logo que estava ali como dirigente nacional do PS e não como ministro da Agricultura. O que é certo é que foi o primeiro membro do Executivo a deslocar-se para um apoio personalizado ao cabeça de lista do PS. E, claro, essa vertente pesa, sobretudo quando é para dar uma ajuda ao candidato no principal ataque que tem feito à direita, numa matéria que domina.

Capoulas traz dez anos de Parlamento Europeu, relator de duas negociações da PAC em Bruxelas, e gaba-se de ter conseguido reintroduzir no programa comum para a agricultura os apoios financeiros ao regadio para todos, que em 2014 a Comissão Europeia queria limitar aos novos Estados-membros. Na próxima PAC “também já está garantido. No período 2021-27 vamos ter apoios ao regadio”. Não consegue decidir-se sobre que trabalho lhe dá mais gozo, o europeu ou o nacional. Embora reconheça que Bruxelas é “mais estimulante intelectualmente”, “vê-se o todo e não apenas este canto”, diz ao Observador.

Diz que os tema da Agricultura é (a par com as pescas) dos verdadeiramente comuns, de aplicação direta cá do que se decide lá. Isto ainda sobre a dificuldade de passar mensagem. Nem o Brexit ajudou a alertar consciências? “O Reino Unido sempre esteve com um pé dentro e outro fora. Há uns anos o [Michel] Barnier disse-me — longe do Brexit, quando era Comissário europeu — que tinha estado em Edimburgo, numa cerimónia da Commonwealth e perante tanta variedade de povos que a comunidade junta, questionou-se se a Europa seria o verdadeiro sítio do Reino Unido”. Anos depois seria o negociador-chefe da União Europeia para o Brexit.

É aquele clássico de campanha: o candidato de óculos esquisitos e tampões nos ouvidos. Não foi preciso touca, porque a visita às oficinas da Embraer não o exigia. Mas foi uma visita algo enigmática. O candidato esteve reunido com a sua comitiva numa sala fechada, afastado dos jornalistas com o vice-presidente da empresa para a Europa. As regras de segurança e de sigilo são apertadas e o representante da Embraer nem quis revelar aos jornalistas quantos dos 93,6 milhões de euros em investimento elegíveis para apoios comunitários tinha de facto sido aprovado.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Não foi a loucura do dia anterior. O candidato socialista fez o seu dia entre Évora e Beja, 124 quilómetros feitos nesta terça-feira. Ao fim do dia, quando chegou a Faro para o comício da noite com António Costa, já acumulava 762 quilómetros em dois dias de campanha oficial das Europeias.

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