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Mário de Morais é o responsável de ride-hailing da Bolt em Portugal
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▲Mário de Morais é o responsável de ride-hailing da Bolt em Portugal

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Mário de Morais é o responsável de ride-hailing da Bolt em Portugal

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Bolt “preparada” para ter filtro de motoristas por língua, mas defende que obrigação legal pode criar “discriminação negativa”

A Bolt concorda com necessidade de "revisitar" lei TVDE e com propostas como integrar táxis em plataformas. Em entrevista, responsável Mário de Morais diz que empresa está a avaliar filtro por língua.

Sete anos após ter chegado a Portugal, a Bolt diz ter ultrapassado a Uber, a sua principal e atualmente única concorrente, e conquistado a liderança do mercado de viagens através de plataformas digitais em Portugal. Em entrevista ao Observador, num escritório que conta com cerca de 160 trabalhadores, Mário de Morais, responsável de ride-hailing (transporte de passageiros) da empresa no mercado português, afirma que o setor é “muito competitivo” e fala em “orgulho” pela (proclamada) conquista do primeiro lugar. “Somos líderes num mercado em que entrámos mais tarde.”

Salienta que não existiram motoristas a pedir para serem integrados na empresa ou para terem um contrato de trabalho, e que não existe “nenhuma” queixa nas autoridades por “questões criminais e de abusos”. Mário de Morais reage ainda a algumas das propostas de alteração dos partidos à Lei TVDE, criada em 2018.

Na passada sexta-feira foram discutidas as propostas no Parlamento, com as do PSD e da Iniciativa Liberal a serem aprovadas na generalidade. O responsável concorda com a necessidade de “revisitar” a legislação e vê com bons olhos a possível integração de publicidade nos veículos TVDE (Transporte Individual e Remunerado de Passageiros em Veículos Descaracterizados a partir de Plataforma Eletrónica) e a possibilidade de os carros ou carrinhas registadas como táxis também operarem neste setor.

Quanto à possibilidade de os passageiros selecionarem e filtrarem os motoristas pela língua que falam, Mário de Morais diz que a Bolt já o faz noutros países e nota que “é normal” que esses profissionais falem português, defendendo “cada vez mais isto não é tema”. No final, “não há uma viagem má, o mau é não ter viagens”.

“No final deste trimestre o IMT vai ter a certeza de quantos motoristas registados e ativos existem”

A Bolt chegou a Portugal há sete anos. Como é que o mercado mudou ao longo destes anos e quais são os principais números que destaca?
Em primeiro lugar, eu acho que o mercado transformou-se completamente. O que há sete anos era o início de algo que ninguém sabia para onde caminhava, a questão da mobilidade partilhada, hoje em dia é algo que já faz parte do dia-a-dia. Acho que nós, enquanto Bolt, sentimos muito orgulho porque fizemos uma parte muito importante desta mudança. Ao mesmo tempo, vemos que é [um] objetivo cumprido, mas longe daquilo que ainda pode ser a mobilidade. Hoje em dia vemos que o TVDE é um mercado muito forte, a Bolt está bem presente em Portugal, mas nós olhamos para a mobilidade e o desafio ainda está só, como diz o nosso CEO [Markus Villig], 1% feito. O mercado transformou-se e as pessoas usam diariamente [a Bolt] como devem usar, em complemento a tudo o que é a rede de transportes. Mas, infelizmente, ainda só uma pequena percentagem da população é que usa. Acho que há aqui um caminho ainda grande a fazer para garantirmos que o setor passe a representar aquilo que seria o ideal para uma mobilidade em grandes cidades e mesmo em todo o país. A nível de números, o crescimento da Bolt tem sido enorme. Podemos separá-lo em duas fases, a inicial, em que estávamos a crescer a três dígitos ao ano — 90%, 100%, 120% — e depois vem a Covid-19, onde as pessoas, obviamente, não se movimentavam e tinham que estar resguardadas. Após a Covid, continuámos a crescer anualmente acima de 50% em média. O que faz com que se veja o que é a penetração da Bolt no mercado português e a confiança que os portugueses põem em nós. Somos, ao dia de hoje, líderes do mercado, num mercado onde entrámos mais tarde [do que a concorrente, Uber]. É um grande orgulho para nós.

O crescimento do ano passado também ficou acima dos 50%? Consegue dar uma percentagem mais concreta?
Não vamos entrar em dados específicos ano a ano, porque, obviamente, havendo dois concorrentes, estaríamos aqui a dar informação muito importante. Mas continuamos garantidamente nos dois dígitos de crescimento.

E acima dos 50%, como mencionou?
Alguns anos sim, outros não, mas em média baterá nisto.

Porque falou em liderança, numa entrevista que deu ao jornal Eco há um ano dizia que o objetivo era alcançar essa posição em 2024. Naquela altura estava “taco a taco” com a concorrência, a Uber. Neste momento, já se pode dizer que a Bolt é a plataforma líder em Portugal?
É importante referenciar que este é um mercado muito competitivo. Ao dia de hoje, segundo os dados que nós temos, somos líderes. Obviamente, há várias formas de analisar, não há informação completa sobre o setor, portanto ainda temos de fazer algumas estimativas. Agora, se eu tiver que responder se sou líder ou não, respondo sim, sou. Pelos dados que eu tenho, somos líderes.

Quanto a números, em termos de motoristas, também registam um aumento ao longo dos anos?
É engraçado, os motoristas têm aumentado, mas têm aumentado numa proporção muito inferior aos passageiros. A nível dos motoristas que trabalham com os nossos operadores de TVDE, tem havido um crescimento de ano para ano mais lento, mas a procura cresce muito mais. Isto faz, e é para onde nós trabalhamos, com que haja uma sustentabilidade no setor. Há cada vez mais serviço para estas pessoas que estão a trabalhar e parece-nos que ainda há espaço para existirem mais operadores no mercado, com os seus motoristas. Ainda há pouco tempo nós fizemos um estudo com a Altice e o Programa de Mobilidade Urbana Sustentável de Lisboa fez um estudo independente e concluímos a mesma coisa: apenas 4% das pessoas deslocam-se em mobilidade partilhada.

O estudo [promovido pela Bolt com a Altice e a Kido Dynamics] concluiu que as pessoas continuam a preferir os carros particulares ao TVDE.
Mais do que isso. Preferem o veículo particular a qualquer outra forma. O estudo incluía transportes públicos, TVDE e táxi, a micromobilidade, e 80% continua no veículo privado. Parece-me que ainda há aqui um caminho longo e há espaço para muito mais gente entrar, consoante houver esta transição do veículo privado para a mobilidade partilhada.

Quantos motoristas estão inscritos na plataforma em Portugal, neste momento?
Nós normalmente não partilhamos esse número. Mas há uma boa notícia. Nós, enquanto setor, temos uma parceria, promovida pela Bolt, com o IMT [Instituto da Mobilidade e dos Transportes] de partilha de dados. Acho que algures no final deste trimestre o IMT vai ter a certeza de quantos motoristas registados e ativos existem. E aqui o ‘ativos’ é a parte fulcral porque efetivamente desde 2018 registaram-se muitas pessoas — os números que o IMT partilha são 70 mil registos — e eu diria que nem metade estão a conduzir. Isto é importante a nível de proporção. Mas vamos deixar para o IMT comunicar porque vão ter acesso a toda a informação de ambas as plataformas [Uber e Bolt] e vão poder dizer ao público que efetivamente existem x pessoas [ativas]. E eu acho que isso vai desmistificar muita coisa que existe em relação ao número de pessoas a trabalhar.

Há motoristas a pedir para serem integrados na Bolt? “De todo, não”

No ano passado, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) fez fiscalizações ao setor e às plataformas digitais. A Bolt foi alvo destas fiscalizações? Foi notificada? Tem algum processo a decorrer em tribunal?
Em relação a operadores de TVDE e os seus motoristas, nós não fomos notificados de absolutamente nada, não houve nenhum processo em tribunal. Aliás, do que sabemos, não houve nenhum processo em tribunal para o setor. Nós, garantidamente, não tivemos nenhum. Aqui, nós temos que compreender que esta profissão, o motorista que trabalha com o operador, beneficia muito da independência e da flexibilidade. Não há interesse do setor, não vemos nenhum movimento do setor em querer ter essa discussão, porque [os motoristas] querem manter a sua independência. E o rendimento que tiram é superior à média nacional, portanto não há nenhum incentivo para que eles troquem a sua flexibilidade. A ACT não nos chegou com nenhum processo, provavelmente porque também viram que não faria sentido.

Existem processos em tribunal, mas são relacionados com a situação laboral dos estafetas e não dos motoristas. O setor TVDE acaba por ser só um. Estava-se a referir aos motoristas?
Aos motoristas, exatamente.

Não existiram motoristas a pedir para serem integrados na Bolt, para ter um contrato de trabalho?
De todo, não. Nós temos uma discussão muito aberta com as associações do setor, recebemo-las periodicamente (neste momento há três, duas nacionais e uma regional) e efetivamente a discussão nunca tem a ver com empregabilidade. Tem sempre a ver com sustentabilidade, com o que é que faz sentido para o setor ou não, que tipo de desenvolvimentos podemos fazer em conjunto. A empregabilidade é um tema que nem as associações que representam os operadores e os motoristas têm como principal. Ninguém dessas associações nos pede [a integração] e as próprias entidades que têm essa função não nos abordam nesse sentido.

Acha que isso se deve também ao facto de os motoristas da Bolt e da Uber terem outra profissão, outros trabalhos?
Aí temos um mercado dividido em dois tipos. Temos uma boa parte dos motoristas que fazem TVDE como trabalho principal e a tempo inteiro, normalmente utilizando as duas plataformas. Quando eu falo em rendimento acima da média nacional estou-me a focar nas pessoas que trabalham a tempo inteiro na plataforma, obviamente. Depois, há uma grande parte que usa como complemento e também não tem nenhum incentivo a fazê-lo. Mais uma vez, querem flexibilidade, querem poder adicionar um rendimento extra, e isto ajuda bastante porque, se pensarmos, é um dos poucos setores em que nós estamos a trabalhar assim que saímos da porta de casa. Eu ligo a aplicação e estou a trabalhar. Não há perda de tempo a ir para um sítio ou para outro. E isto para quem quer um complemento também é muito interessante. Posso começar a trabalhar assim que saio do meu outro trabalho.

Falou numa “boa parte” dos motoristas que têm o setor TVDE como ocupação principal. Consegue dar um número?
Esse número não posso partilhar.

Na passada sexta-feira foram discutidas no Parlamento propostas de alteração à Lei TVDE. Considera que existe a necessidade de a legislação ser revista? Porquê?
A lei foi feita em 2018 com uma ótima intenção, que foi regular um setor que não estava regulado. Portugal até foi bastante rápido a reagir a toda esta economia que apareceu. A lei foi feita com parâmetros que fazem muito sentido, [entretanto] passaram sete anos, obviamente que partimos de uma base muito pequena para algo que está no dia-a-dia dos portugueses. Há efetivamente uma necessidade de revisitar a lei, de garantir que cobrirmos todos os casos que fazem sentido e de perceber também o que é que faz sentido para este setor. E há muitas propostas em cima da mesa, mas, felizmente, todas se encaminham para os mesmos parâmetros, com algumas diferenças. Por exemplo, poder haver publicidade nos veículos TVDE é algo que faz sentido.

Partidos defendem revisão da lei sobre TVDE com exceção do PS

Faz-lhe sentido?
Faz todo o sentido, por duas razões. Se olharmos para o outro tipo de veículos de mobilidade partilhada, sejam autocarros, sejam táxis, já têm. Acho que há aqui uma equiparação que faz sentido. E, em segundo lugar, é um complemento de rendimento que os operadores vão poder ter e de que os motoristas vão poder também beneficiar. Passamos a ter também alguma identificação, com regras que têm de ser definidas, como que tipo de publicidade que é permitida, mas faz sentido e acho que vai trazer benefício económico a todo este setor. É algo muito simples de mudar na lei. Percebo que quando foi feita a lei [em 2018] se calhar nem se pensou nisto e agora faz todo o sentido revisitar o tema.

▲ Mário de Morais assumiu o negócio de ride-hailing da Bolt em outubro de 2023

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Não temos queixas de problemas de comunicação dentro dos TVDE”

Outra das propostas, feita pelo PSD, é a possibilidade de os utilizadores selecionarem as línguas faladas pelos motoristas. O que acha da proposta? Seria exequível do ponto de vista da aplicação?
Obviamente, e havendo um contexto que até já foi alterado em decreto de lei [no ano passado], de a examinação ser em português e haver mais algum rigor, é normal que os motoristas falem português. Acho que cada vez mais isto não é tema. De qualquer forma, nós estamos preparados para o fazer, já o fazemos noutros países, temos categorias para utilizadores que querem pessoas a falar a língua nativa ou a falar inglês. O turista, se calhar, precisa de um motorista que fale inglês e se calhar há certas alturas do ano em que a maior parte dos clientes até são mais provenientes do turismo do que locais. Eu acho que há espaço para tal, desde que seja definido de uma forma inclusiva e de melhoria de serviço, que é o contrário de ser uma imposição. Há mercado para termos motoristas a trabalhar a falar português, inglês, francês, espanhol, mas desde que seja uma questão adicional e não um requisito à entrada.

Ou seja, que sejam as aplicações a decidir se querem ou não ter [essa opção] ao invés de estar legislado…
Exatamente, não legislado porque eu acho que depois vai criar um bocado uma fricção que nós vemos muitas vezes de um tema que não é tema ao dia de hoje. A base de motoristas é maioritariamente portuguesa ou dos PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa], portanto falam português. Mesmo dos que não são, grande parte fala. Se nós discriminarmos positivamente, em que temos uma categoria extra onde é possível escolher que o motorista sabe língua X, Y ou Z, fantástico. Se for para uma discriminação negativa já acho que não é tão produtivo para o setor.

Se a Bolt tem essa opção na aplicação noutros países porque é que não tem em Portugal?
Porque até ao dia de hoje não sentimos a necessidade. Acho que toda a nossa base de motoristas que está a trabalhar tem-se adaptado ao que é a necessidade do mercado e não estamos só a falar de motoristas estrangeiros que aprendem português, estamos também a falar de motoristas vindos de países de língua portuguesa que aprendem outras línguas. Eu acho que isso também é importante. De qualquer forma, nós temos apostado mais em ter parcerias com escolas de línguas, que têm vários idiomas a ser lecionados, e os motoristas podem beneficiar dessas escolas e deixar que o mercado funcione por si só. Não vemos como crítico [adicionar essa opção], mas está em análise do nosso lado e poderá ser algo que lancemos no futuro.

Então, neste momento, a aplicação da Bolt não tem nenhum tipo de ferramenta para controlar a dificuldade, que às vezes pode existir, de comunicar com o motorista?
Nós temos alguns testes de auto-tradução do texto, em que podemos falar por mensagem, e sempre que é preciso temos ferramentas de apoio ao cliente que são de ação imediata. O cliente tem uma resposta imediata se tiver uma dúvida. Agora, na verdade, e mais uma vez diferenciando o que é perceção do que é realidade, não temos queixas, nem volume de queixas, que nos digam que temos problemas de comunicação dentro dos TVDE.

O diretor-geral da Uber, Francisco Vilaça, disse numa entrevista à Antena 1 que não via “problema” no facto de os motoristas não falarem português. Pergunto-lhe se a posição da Bolt é a mesma, ainda que tenha dito que a maioria dos motoristas fala português, e se os imigrantes são, neste momento, essenciais?
Não vou comentar a questão do Francisco, tenho muito apreço por ele, mas não vou fazer comentários. O que é que eu acho? Eu acho que, efetivamente, as pessoas adaptam-se e é importante porque o português, ao dia de hoje, utiliza muito o TVDE. A maioria da utilização é por pessoas locais e é importante que haja uma base que saiba a língua portuguesa. Agora, eu acho que esse movimento é natural. Não é um movimento que tenha que ser forçado porque se eu estou a trabalhar num setor e percebo que preciso de ter esta ferramenta de comunicação, porque isso depois reflete-se nas estrelas que eu tenho, nas viagens que eu tenho, eu vou-me adaptar e é isso que vemos. Mas mais uma vez lhe digo que a grande maioria [dos motoristas] é de países de língua falante portuguesa. Em relação à questão da imigração, é importante em Portugal para N setores e este não é exceção. Nós temos vários tipos de imigração. Temos a dos PALOP, que é muito importante e a nível de motoristas estrangeiros é a mais representada. Estamos a falar de Brasil, de Angola, de Cabo Verde. Depois, e se calhar matando um bocado o elefante na sala, temos o que está mais em voga, que é a imigração do Sul da Ásia, que tem vindo a crescer em Portugal, mas não é a mais relevante na nossa aplicação. Continua a ser relevante e é importante que estejam a trabalhar dentro das condições, é isso que nós queremos, daí que tudo o que estamos a fazer com o IMT vem nesse sentido. A examinação passa para o IMT, com o protocolo de partilha de dados passámos para o regulador a real responsabilidade de nos dizer quem é que pode trabalhar. A partir daí, o que temos visto é que quem está a trabalhar no setor trabalha bem, as pessoas que têm de aprender as línguas adaptam-se, e que é essencial que continue a ser assim. O problema da imigração regula-se antes, não dentro do setor, porque eles [os imigrantes] podem vir para o setor TVDE, como podem vir para outros setores, e acho que já é assim há algumas dezenas de anos.

Portanto, vê proatividade por parte dos motoristas de tentarem aprender línguas que percebem que têm de falar, como português e inglês.
Sem dúvida. Aliás, eu acho que é algo que quem vem para Portugal depois vê. Isto é culturalmente o nosso credo, nós, portugueses, falamos muitas línguas para receber o turismo, as pessoas que trabalham neste setor falam as línguas que são necessárias para lidar com os seus clientes. É normal ver até, se calhar, um bocado mais de cultura linguística nestas pessoas do que a média porque há uma necessidade evidente para prestar um bom serviço.

Regressando à revisão da legislação. Outra das propostas em cima da mesa é a instalação de um botão de pânico, tanto para os utilizadores como para os motoristas. Corrija-me se estou errada, mas penso que a Bolt já tem esta funcionalidade. Desde quando e como é que funciona?
Pôr numa lei ‘botão de pânico’, acho que cria o contexto incorreto. Efetivamente, tem que haver mecanismos de ação imediata. Depois, se é um botão, se é um contacto com as autoridades… nós temos a partilha de viagem, tudo isto tem que fazer parte. Eu acho que estes são temas que devem ser discutidos e nós estamos mais que dispostos a participar, que é para termos o framework [enquadramento] correto para legislar. A intenção que eu percebo, que é muito boa, é ‘eu quero segurança nas viagens e quero que as pessoas se sintam seguras’. Mas, para isso, numa lei, que é algo mais abrangente, têm que estar definidos os mecanismos de segurança que têm que existir, mecanismos de ação imediata, mecanismos de prevenção, tudo isto tem que estar previsto. Botão de pânico em si é uma coisa que me assusta um bocadinho, parece que estamos à espera de haver um desastre. Tirando isso, nós já temos a funcionalidade de chamar as autoridades diretamente há dois anos, se não estou em erro, e efetivamente não algo é muito utilizado, mas é muito útil tanto para motoristas como para passageiros porque dá uma perceção de segurança na viagem muito grande. E isto é que é importante. Se sentir que tenho mecanismos, eu vou estar muito mais confortável e provavelmente corre tudo muito melhor, há menos fricção. E falamos dos dois lados porque muitas vezes nós focamos esta discussão só no passageiro, mas eu também quero garantir que os motoristas se sentem seguros. Agora, mais uma vez, uma coisa são factos, outra coisa são perceções. Se formos para o campo dos factos, não há efetivamente crimes a ocorrer em TVDE. Se formos para as perceções, há um empolar de casos que, às vezes, não têm informação certa, e, de repente, há uma perceção de insegurança que não existe nos factos. Nós temos que separar estas duas realidades.

▲ O responsável diz que a Bolt é líder de mercado

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ou seja, os motoristas também podem através da aplicação chamar as autoridades caso esteja a acontecer alguma coisa na viagem que não era suposto?
Exatamente. Há essa opção e há uma opção que nós temos, interna, em que se um caro pára numa autoestrada às três da manhã e está parado cinco minutos, algo que é completamente anormal, nós vamos proativamente contactar o motorista e o passageiro para perceber se está tudo bem. Estes mecanismos de ação imediata já existem na Bolt. Eu acho que devem ser obrigatórios para qualquer plataforma, mas vamos chamar-lhes mecanismos de ação imediata, mecanismos de prevenção. Não um botão de pânico.

As queixas têm aumentado? Recentemente temos visto notícias de queixas de violações contra motoristas de TVDE, por exemplo…
Na Bolt, especificamente, o número de queixas praticamente não alterou.

Lisboa. Jovem francesa apresenta queixa contra motorista de TVDE por violação

Em comparação a?
Queixas de 2024 versus 2023. E estamos a falar de queixas que não são de segurança, são queixas no geral, podem ser de preço ou ‘a minha viagem não aconteceu’. Há muito poucas queixas (na ordem de um para 150 mil). A nível de queixas efetivas de questões criminais e de abusos não existe nenhuma nas autoridades. Existem, algumas vezes, queixas de pessoas que não se sentiram confortáveis e nós temos de continuar a atacar este ponto, que é garantir que tanto o motorista como o passageiro sabem que há ali um contrato e um serviço e que há um nível de respeito que tem de ser mantido. Mas não me parece que seja um problema estrutural do setor TVDE, nem na Bolt.

Ou seja, as queixas que veem são feitas na plataformas, são reclamações, mas não são propriamente queixas que cheguem às autoridades.
Sim. E as queixas que nos chegam do regulador, da AMT [Autoridade da Mobilidade e dos Transportes], não têm a ver com questões de segurança, têm a ver com discussões, se o preço foi certo, se o preço não foi certo, se a rota foi errada ou não. São mais tecnicalidades do que propriamente questões de segurança.

Pode ser importante salientar isso [de não serem queixas que cheguem às autoridades], numa semana em que se escreveu muito de alegadas violações por motoristas TVDE?
É um tema sensível, obviamente, mas há um trabalho que tem de ser feito tanto por nós, como depois por todo o setor e pelos media. Eu lembro-me que aqui há uns meses havia uma notícia que dizia ‘motorista de TVDE preso por maus-tratos’ e depois vai-se ler a notícia e era uma questão de violência doméstica, era uma má pessoa que por acaso trabalhava em TVDE como podia trabalhar noutro setor qualquer. E muitas vezes a primeira notícia sai e eu percebo que há uma necessidade de informar, mas não há um seguimento para perceber efetivamente depois se aquele caso teve a ver com TVDE ou se não. E aqui há um tema que eu acho que é muito relevante: nós assistimos, felizmente não tem crescido muito, a viagens paralelas, pessoas que fazem viagens sem serem motoristas de TVDE. E aí, porque já houve casos onde nós percebemos que não tinha sido em nenhuma plataforma, é que existe um risco efetivo. Ao dia de hoje, uma plataforma tem o registo todo, sabe onde é que o motorista parou, onde é que ele foi. Tem todos os botões e os mecanismos para acionar. Parece-me muito difícil e muito pouco inteligente de alguém que tenha más intenções fazê-lo numa viagem TVDE. Se há setor onde temos um controlo bom para podermos fazer este acompanhamento é o nosso. Às vezes é fácil, digamos, atirar as culpas para cima do TVDE. Mas se calhar dois meses depois vamos ver os processos e não teve nada a ver com o motorista ou com a viagem, ou o que seja.

“Já tivemos táxis na plataforma em Portugal Continental e vamos voltar a ter”

Em outubro, a Bolt anunciou um investimento de 100 milhões de euros em segurança até 2027 em 18 dos 50 mercados em que operam. Quanto deste montante já foi aplicado em Portugal e, até agora, que novas funcionalidades já foram implementadas?
Não lhe consigo dar números, posso é dizer que Portugal, felizmente, é um dos grandes mercados da Bolt e há uma parte maior do que a média que vai ser distribuída para o nosso país. O que é que já fizemos? Temos a questão da anomalia em viagem, da partilha de viagem, que desenvolvemos neste período e que já estão implementados e a funcionar muito bem. Vamos ter mais algumas funcionalidades, como contactos de confiança que podem ter acesso a toda esta informação, que vão ser lançadas muito em breve e depois temos muitas campanhas de sensibilização. A nível de produto estamos cada vez mais robustos e sinto muita confiança no que temos para garantir a segurança. A nível de sensibilização e de comunicação também temos um grande trabalho a fazer porque se desmistificarmos todos estes mitos as pessoas passam a utilizar mais confortavelmente [o serviço], há menos fricções no mercado e corre tudo melhor.

Plataforma europeia Bolt vai investir 100 milhões de euros em segurança nos próximos três anos

Como é que vão funcionar os contactos de confiança e de que forma são diferentes da partilha de viagem com um familiar ou um amigo?
O produto está em fase final de desenvolvimento, mas a ideia é que o utilizador tenha uma série de contactos que podem, a qualquer momento, aceder às suas viagens, um parceiro, um familiar, que vai conseguir também atuar e saber a informação sobre automaticamente, sem ter que ser uma coisa proativa.

Ou seja, sem que o utilizador tenha que partilhar que está a fazer aquela viagem.
Exatamente.

Retomando as propostas de alteração à legislação. Alguns partidos defendem o fim da proibição de os motoristas avaliarem os utilizadores, travão que só existe em Portugal. Noutros países, a Bolt permite que os motoristas avaliem os utilizadores? Faz sentido?
Acho que faz todo o sentido, haver uma partilha de feedback é sempre importante. Há uma questão de educação, do setor, que tem que ser sempre feita quando fazemos esta transição, mas não perdemos nada em que um motorista possa dar um feedback ao passageiro e dizer se gostou ou não da viagem ou se houve algo que o incomodou também. Esta troca de informação traz sempre algo positivo. Nós temos noutros países essa funcionalidade e serve-nos também para perceber um bocadinho onde é que nós temos que sensibilizar o passageiro. Por exemplo, quanto a tempos de espera, não estar no local correto ou fazer algo na viagem que não deixa confortável o motorista.

Uma outra proposta é que os veículos registados como táxis possam operar como TVDE. O setor dos táxis já se manifestou contra. O que acha a Bolt?
Não foi o setor do táxi, foi uma associação, porque há outras que apoiam, que é muito importante. Nós temos táxis na plataforma na Madeira, temos táxis na plataforma em Porto Santo, funcionamos com as associações perfeitamente. Já tivemos táxis na plataforma em Portugal Continental e vamos voltar a ter. Temos aqui que diferenciar duas coisas. A nova lei dos táxis, de 2023, define claramente que os táxis podem trabalhar em plataformas. O que esta iniciativa faz é dizer que faz sentido que os táxis possam ter uma abrangência maior do que a sua atividade normal para trabalharem também de uma forma mais similar aos TVDE, o que a mim me parece positivo. Porque se nós pensarmos ao dia de hoje o que acontece com os táxis, é que viajam para fora do seu município, cobram o retorno ao cliente e têm de voltar vazios, o que me parece muito pouco eficiente para a mobilidade de uma cidade, andarem carros vazios a fazer uma série de quilómetros. A intenção da proposta é tentar garantir que há uma forma deste setor também poder estar mais ocupado, porque é isso que nós queremos, queremos carros que estão a circular ocupados e não o contrário. Nós somos muito a favor de que todos estejam na plataforma. [A integração dos táxis na Madeira] tem corrido muito bem para nós enquanto plataforma e para o cliente, porque ganha uma série de opções e tem uma categoria clara, segregada, a dizer que quer apanhar um táxi, mas pela plataforma. Para a questão da economia é fantástico, passamos a ter muito mais transparência e para o taxista também é muito bom. A Bolt vai ser sempre a favor da integração de todos os veículos. […] Parece-me positivo. Não vejo a razão para que exista um argumento contra. Ainda não me conseguiram convencer nem apresentar um argumento que seja suficientemente forte. E nós vamos sempre fazer o trabalho para que os táxis possam estar connosco.

Associações representativas dos táxis contra possibilidade de serem também TVDE

Disse que já tiveram táxis em Portugal continental. Quando é que deixaram de ter e quando é que vão voltar a ter?
Deixámos de ter em junho do ano passado. Aqui, mais uma vez, estava em discussão uma nova lei dos táxis, estava a ser feito um regulamento para a implementação e nós achámos, em coordenação com o regulador, que devíamos suspender a atividade. Vamos voltar a ter táxis na plataforma, ainda não lhe sei dizer data, mas muito, muito em breve.

O regresso está a ser discutido com o regulador?
Já está completamente discutido. Na Madeira já estamos a operar de acordo com as novas regras e até que haja uma revisão da lei que nos dê outras regras. É uma questão de passagem para o continente.

▲ Proposta para acabar tarifa dinâmica é uma "iniciativa que é razoável"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Ano após ano, o preço médio da viagem tem vindo a crescer. E parece-me que em 2025 não vai ser diferente”

Falando sobre preços. A Bolt planeia um aumento para o custo das viagens ao longo de 2025?
Isso é sempre uma pergunta difícil porque a Bolt aumenta e diminui preços conforme a localização, conforme a hora, conforme o tipo de cliente. Se eu estiver numa zona como um aeroporto tenho um preço diferente do que se estiver em Loures ou no centro da cidade. O preço é definido consoante um equilíbrio de procura e oferta e com uma guia clara: nós queremos que o motorista esteja ocupado o máximo de tempo possível e que tenha o maior rendimento possível. Esta é a nossa política. Daí, o preço vai sendo alterado. O que posso dizer é, que ano após ano, o preço médio da viagem tem vindo a crescer, com todas estas dinâmicas. E parece-me que em 2025 não vai ser diferente. Se pegarmos num caso concreto, pode subir ou descer consoante a dinâmica da região.

Falou da localização, mas existem outros fatores externos. Esta terça-feira, durante um encontro de motoristas do setor, uma das reclamações era que os combustíveis aumentavam e as tarifas não acompanhavam a subida. A Bolt faz ajustes tendo em conta este fator?
Nós estudamos toda a estrutura de custos que o operador tem e que, por sua vez, o motorista tem para garantir que os rendimentos são adequados ao setor. Esse é o nosso trabalho. Obviamente estamos muito atentos ao preço dos combustíveis. Na segunda-feira tive uma conversa com um motorista, gravada para o nosso grupo de motoristas, em que ele dizia que estava a transitar para um carro elétrico porque efetivamente a poupança é de 60% a 70%. A Bolt está também a promover que esta transição aconteça, não só por questões ambientais, mas por questões económicas também. Do nosso lado, vamos manter-nos atentos. Claro que o preço reflete aquilo que é o rendimento e se reflete o rendimento reflete os custos, combustíveis, seguros, tudo o que estiver envolvido.

Ainda sobre os preços. O PSD quer acabar com os limites à tarifa dinâmica. A Bolt tem esta tarifa na sua plataforma. Que impacto poderia ter um eventual fim?
Eu acho que é uma iniciativa que é razoável. O que diz a lei é que a tarifa nunca pode mais do que dobrar o preço base, tem um limite de duas vezes. Não é algo que aconteça assim com tanta frequência. Pode acontecer noite de passagem de ano, eventos muito específicos em localizações específicas. Concertos, mas já de uma dimensão elevada, porque quando há um concerto os motoristas, vão deslocar-se e a dinâmica não ajusta tanto porque a procura e a oferta continuam relativamente equilibradas. Nós vamos ajustando a tarifa dinâmica aos poucos, não vai de 0 a 100 de uma vez. Não me oponho [à possível alteração], não me parece que haja um problema, mas não acho que vá ter um impacto de incremento dramático na atividade. Acho que em alguns dias muito específicos vai incrementar os preços, mas não acho que é isso que muda nem o rendimento dos motoristas, nem a aceitação dos passageiros.

No encontro que mencionei anteriormente, que se realizou esta terça-feira em Algés, a maior preocupação referida pelos motoristas foi o “excesso de viaturas na rua” porque como trabalham à semana “quanto mais carros, menos o valor que recebem”. É assim?
A realidade diz-nos o contrário, que há menos viaturas por cliente do que existia há dois, três ou quatro anos. O crescimento dos clientes é muito maior do que as viaturas. Eu percebo a reivindicação, qualquer associação quer o máximo de valor para as suas viagens. Acho é que nós temos que perceber o equilíbrio que existe entre o que o cliente está disposto a pagar, as capacidades e o poder de compra do cliente local, e o que é de facto o rendimento. Nós jogamos neste equilíbrio. Quando eu olho para um motorista que faz 40 horas por semana, que faz a réplica de um trabalho normal, que aceita as viagens, que não está a fazer o que nós chamamos de cherry picking (a escolher as viagens específicas), vejo que o rendimento dele continua a ser acima da média nacional. Posto isto, não me parece que haja um problema de excesso de viaturas. Há muito mercado para crescer e isto vai-se fazendo naturalmente. E se continua a haver um crescimento sustentável de viaturas é porque efetivamente há trabalho. Sendo um setor flexível, se não houver rendimento, rapidamente o número de viaturas se ajusta automaticamente. Isso também é, economicamente, algo que faz muito sentido para o setor, que é muito móvel.

Uma centena de motoristas TVDE juntou-se em Algés para debater o setor

Falou do cherry picking [escolher a dedo, em tradução livre]. Uma das queixas que mais vejo são motoristas que aceitam as viagens, mas depois não se deslocam para o local e pedem à pessoa para cancelar a viagem. Isto é comum? Porque é que acontece? Os motoristas não sabem se a viagem será lucrativa antes de a aceitarem?
Este é o ponto que liga perfeitamente com os preços e que eu percebo que seja uma equação difícil. Vamos por pontos. Isto já foi comum, a Bolt tomou uma série de medidas para garantir que os operadores passavam aos seus motoristas a mensagem de que não era aceitável. Quando um motorista aceita uma viagem faz um contrato com o cliente e deverá cumpri-lo ou poderá haver até uma punição por parte da plataforma. Já não é tão comum, felizmente, mas continuamos a ter algum nível de rejeição de viagens que não é positivo para o setor. O que é que eu acho que faz aqui toda a diferença? Este é um setor de mobilidade constante, [na Bolt] os motoristas veem o preço líquido, fora as comissões e tudo mais que vão receber, têm uma visibilidade total sobre o destino e o valor que vão receber. Todas as viagens são acima de qualquer custo que tenham. Está todo o custo coberto, o tempo, o combustível, o carro, o seguro. Há alguns motoristas que pensam que a viagem X ou Y é mais rentável por alguma razão, mas todas são equiparadas. […] Nós cada vez mais estamos a trabalhar com os operadores de TVDE para garantir que os motoristas percebem a necessidade de ter um bom setor. O motorista que diz ‘não, cancela porque esta viagem são só cinco quilómetros’ e vai ficar cinco minutos à espera, teria feito a viagem, depois tinha outra e tinha outra… Os motoristas trabalham à semana e recebem por conjunto de dezenas de viagens, estarem a decidir no momento o lucro de uma viagem é impossível. Não há uma capacidade para fazer estas contas […]. Eu garanto que a plataforma não fará nenhuma viagem que não seja rentável para o motorista.

Disse que tomaram medidas, de que tipo de medidas estamos a falar? Mais sensibilização, mais penalização?
Muito sensibilização, alguma penalização também, e sempre através do operador TVDE e porque a lei também assim o refere. A lei TVDE atual, e eu acho que isto é algo que ninguém está a questionar, também equipara a algo que está na lei do táxi, que é que um motorista não pode aceitar e [depois] cancelar viagens. Não é aceitável porque ao aceitar uma viagem celebrou-se um contrato com o cliente, que tem de ser cumprido.

De que tipo de punições falamos?
Podem ser punições de suspensão do operador, podem ser bloqueios temporários, mas maioritariamente é sobre sensibilização.

E tem resultado? Afirmou que diminuiu…
Diminuiu, continua a diminuir, este é um tópico que eu agradeço que tenha trazido porque é importante. Vou aqui fazer um paralelismo com um setor diferente: é a mesma coisa que eu ter um café e estar fechado 10 das 12 horas da operação e dizer ’em duas horas não faço dinheiro suficiente’. Ou seja, ninguém diria, ‘ai que chatice, não há mercado’. Não, diria, ‘se calhar devias abrir as oito horas por dia ou as 10 horas por dia’ que é o normal. Eu acho que esta discussão também tem que ser trazida para a sensibilização, que é que não há uma viagem má, o mau é não ter viagens.

▲ "Preço médio da viagem tem vindo a crescer" de ano para ano, diz Mário de Morais

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Portal para partilha de comunicação dos dados é “único”. “Provavelmente a União Europeia vai aprender com isto”

Em dezembro, uma portaria que foi publicada pelo Governo fez alterações à formação (por exemplo ao limite dos cursos) e deu mais pelouros ao IMT, desde a análise à certificação das plataformas e dos motoristas. As alterações fizeram sentido? E fazem-se sentir?
As alterações, para nós, fizeram total sentido. Temos que compreender que a lei foi feita rapidamente e se calhar não houve tempo para se pensar em todos os detalhes, até porque os volumes [de negócio] eram diferentes. A Bolt gostou muito e apoiou esta medida, não faz sentido que a examinação não esteja do lado do IMT como está em qualquer questão de condução de veículos, seja privados, seja de mercadorias, seja de passageiros. Esta alteração traz confiança ao setor e isso é muito importante. Alterações práticas? Não existem. Não deixamos de ter a mesma entrada de motoristas que tínhamos no passado, existe é mais confiança porque o IMT puxou a si esta responsabilidade, e bem. Isto traz uma mudança de perceção pública e nós confiamos nas entidades que são, de facto, feitas para regular os setores. E o IMT é feito para certificar motoristas, seja de que tipo for, e veículos. Passar para eles esta responsabilidade só nos tira a nós um peso das costas porque passamos a ter o aval de quem tem esse pelouro a nível do país. Portanto, é muito positivo.

Como já mencionou antes, e porque falamos sobre o IMT, a Bolt desenvolveu em conjunto com esse instituto um portal para partilha de comunicação dos dados. Como é que surgiu esta iniciativa, que é para o setor, mas que foi ideia da Bolt?
Esta iniciativa surge por uma necessidade de garantir que a perceção que existe sobre o setor é a correta, em relação ao número de motoristas, em relação à qualidade das pessoas e dos operadores e dos veículos que estão no setor. Nós percebemos que, por mais que nós fizéssemos o nosso trabalho e pudéssemos passar essa mensagem para fora, é preciso uma entidade que venha garantir, e esta conversa surge daí, para garantir credibilidade ao setor. O IMT, que tem sido muito proativo em tudo o que está relacionado com este setor, abraçou este desafio, que é grande. Estamos a falar de uma partilha automática de todo o setor com o IMT e o IMT responde a qualquer pedido de operador de carro ou de motorista, nomeadamente se é ou não válido para trabalhar no setor. Nós continuamos a fazer toda a verificação documental e de onboarding, mas temos um check final em que nos dizem que está tudo bem. Estamos na fase final de testes neste momento e vemos que, efetivamente, não há discrepâncias grandes do setor, do que está hoje versus o que estará se o IMT nos der ou não um ok. Estamos nos últimos passos para lançar oficialmente [o portal], mas já estamos muito, muito avançados. Foi um desenvolvimento técnico difícil, estamos a falar de duas entidades multinacionais [Bolt e Uber] com um regulador português, e eu acho que isto é um exemplo que podemos levar a nível europeu, a nível mundial. Há muito poucos sítios onde se veja todo um setor a dizer ao regulador ‘nós damos a informação, confiamos em ti a nossa informação para que tu possas validar e ter a perceção exata do que existe’. É isto que Portugal vai ter, que é único, e esta é das iniciativas que mais me orgulho a nível de setor. Eu, sinceramente, acho que assim que isto estiver a funcionar, provavelmente a União Europeia vai aprender com isto e vai pedir que todos os países o façam.

Além de um maior automatismo, estamos a falar de mais transparência? Porque, como disse anteriormente, os dados são comunicados e o IMT irá revelar o número de motoristas.
Motoristas, viaturas afetas à atividade… Sim. Temos que compreender que grande parte do setor trabalha com as duas plataformas. Eu comunico um número, o meu concorrente comunica um número e depois nós não podemos somar. Há uma grande sobreposição. O IMT vai ter uma figura certa, vai poder começar a comunicar dados e vai poder dizer se aumentaram ou não o número total de operadores e de viaturas e de motoristas no setor. E isto vai trazer dados ou uma discussão que tem que ser feita com dados. Nós não podemos dizer que há carros a mais ou a menos sem termos dados.

E será lançado agora no primeiro trimestre?
Será no primeiro trimestre.

Quais são os principais objetivos da Bolt para este ano em Portugal? A nível internacional, o CEO tinha perspetivado um IPO [entrada em bolsa] para este ano. Mantém-se?
A Bolt mantém-se em linha com o ano passado, com o objetivo de estar perto de todos os portugueses e de crescer esta nossa presença e continuar a substituir o veículo privado pela mobilidade partilhada e complementar com os meios de transporte. Este é o grande objetivo, obviamente mantendo a liderança do mercado. Em relação ao internacional, e ao que o Markus [Villig] disse anteriormente, que eu saiba não está prevista nenhum IPO. Até agora, não foi anunciado, e eu acho que quando for oportuno, assim o será. A Bolt continua a focar-se muito na sustentabilidade da própria empresa, das cidades, económica, ambiental, e o nosso repto em todos os países é crescer sustentavelmente. Não é uma empresa que tenha um défice de capital, não é uma empresa que não tenha um crescimento sustentável. Vamos continuar a crescer, em Portugal também, mas de forma sustentável. Se vem um IPO ou não, acho que na certa altura será anunciado, mas logo se verá.

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