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Stock Images Of Boris Johnson Stuck On Zip Line
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Barcroft Media via Getty Images

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Boris Johnson cada vez mais na corda bamba. E Dominic Cummings vai fazer tudo para que caia

Antigo assessor é obstinado e próximo de Rishi Sunak. Aliado tornado inimigo, lidera agora uma ofensiva mediática contra Boris Johnson. O PM que se prepare: vêm aí mais notícias de escândalos.

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Andrew Bridgen sempre foi um dos maiores apoiantes de Boris Johnson. Apesar disso, o deputado conservador declarou publicamente na noite de quinta-feira, numa entrevista ao podcast do Telegraph Chopper’s Politics, que para ele o primeiro-ministro tem de sair: “O dano é irrevogável”, sentenciou o até aqui seguidor fiel. “Mesmo que não haja mais revelações a saírem — e tenho a certeza absoluta de que vão sair mais revelações nos próximos dias e possivelmente nas próximas semanas —, isto distrai a capacidade dele para gerir o país.” O veredito estava dado: com notícias de festas em Downing Street durante o confinamento a saírem todos os dias, está na altura de Boris Johnson se demitir.

Coronavirus - Tue Jan 26, 2020

Boris Johnson está debaixo de fogo à medida que são conhecidas mais festas em Downing Street durante o confinamento

PA Images via Getty Images

Para além do valor noticioso da perda de apoio de um apoiante, as declarações de Bridgen são também reveladoras de um sentimento geral que paira sobre a política britânica: a de que vão sair mais notícias danosas para o primeiro-ministro nos próximos tempos. E a imprensa britânica tem uma ideia de quem pode estar por trás desta ofensiva mediática: Dominic Cummings, estratega do Brexit e antigo aliado de Boris que saiu do governo com estrondo.

Esta quinta-feira, o radialista Jeremy Kyle perguntou diretamente ao ministro dos Assuntos Parlamentares, Jacob Rees-Mogg, se não teme que Cummings lance mais revelações em breve. “E se sair outra foto? E se [sair] outro pedaço de informação de Dominic Cummings?”, perguntou ao ministro, que preferiu chutar para canto e dizer que quem decide quem deve ser o primeiro-ministro é o país e não “um Dominic Cummings chateado porque foi despedido”.

Foi a primeira vez que alguém confrontou diretamente um governante com o facto de Cummings poder estar na origem destas fugas de informação, que dão conta de festas regadas a álcool na residência oficial do primeiro-ministro quando vigoravam regras apertadas de confinamento contra a Covid-19. A especulação é muita: na New Statesman, o jornalista Henry Lambert aponta que algumas das notícias têm sido dadas pelo jornalista Robert Peston, conhecido no meio por ter Cummings como fonte.

E, como lembra o jornal The Guardian, pode ser improvável que a fotografia da equipa a comer queijo e beber vinho tenha sido divulgada por Cummings, já que ele aparece na foto — mas o mais recente escândalo do Partygate foi divulgado abertamente pelo antigo assessor, que não escondeu a autoria da informação: “Eu e outro assessor dissemos que isto parecia ir contra as regras e que não devia acontecer. Fomos ignorados. Eu estava doente e fui para a cama cedo nessa tarde, mas disseram-me que este evento aconteceu mesmo”, afirmou, referindo-se à festa do dia 20 de maio de 2020.

Cabinet Ministers And MP's Attend Meetings In Downing Street

Dominic Cummings e Boris Johnson trabalharam juntos na campanha pelo Brexit e no governo

Getty Images

Um antigo colega de Cummings garante que haverá mais. “Cada vez que Boris consiga recuperar de um escândalo, aí estará o Dominic para lhe dar outro golpe”, disse ao Daily Mail. “Ele tem um arquivo repleto de dados, mensagens e emails danosos que vai publicar periodicamente para acabar com Boris Johnson.”

A Lady Macbeth na origem da zanga entre Dominic e Boris

O relato bate certo com a personalidade conhecida do antigo assessor. “Cummings é o tipo de pessoa que, quando se foca em algo, continua e continua até sentir que ganhou”, resumiu outro antigo companheiro ao The Guardian. “É isso que o torna difícil e é isso que faz dele brilhante.”

Em agosto, o ex-assessor disse publicamente que a mulher do primeiro-ministro era “maluca”. “Parte do seu cérebro sabe isso, mas ele também está encurralado”, acusou.

Ninguém sabe ao certo qual foi o desentendimento entre Cummings e Johnson que levou o assessor a sair de Downing Street. Aquilo que parece claro é que resultou de uma perda de influência do assessor, que sentia estar a perder o ouvido do primeiro-ministro para a sua noiva, Carrie Symonds, e para os que lhe eram mais próximos, como os assessores Simon Finn e Henry Newman. Em julho do ano passado, fontes de Downing Street confirmavam ao Guardian o ambiente que se vivia na residência do primeiro-ministro: “São coisas típicas de uma corte medieval”, comentava um conselheiro, que admitia que Symonds mantém “enorme influência” sobre o agora marido. Outro desvalorizava: “O Boris está na casa dos 50. É um homem crescido. Não estamos na Macbeth, afirmava, referindo-se à peça de Shakespeare em que a mulher de um general afasta os seus inimigos por ele.

Independentemente do nível de influência que Carrie Symonds detém sobre Boris Johnson, certo é que Cummings detesta-a. Em agosto, o ex-assessor disse publicamente que a mulher do primeiro-ministro era “maluca”. “Parte do seu cérebro sabe isso, mas ele também está encurralado”, acusou, divulgando uma alegada conversa que teve com o primeiro-ministro em que este teria dito que gostava de a colocar num cargo em que viajasse mais, para não a ter por perto.

Prime Minister Boris Johnson Marries Fiancee Carrie Symonds

Carrie Symonds, mulher de Boris Johnson, estará na origem do desentendimento entre o PM e o assessor

Downing Street via Getty Images

Não há nenhum facto para provar esta conversa — até porque se trata de uma conversa privada —, mas ela é ilustrativa do estilo arrasador de Cummings, que parece disposto a dizer o que for preciso para passar a sua mensagem. Afinal, o homem que está a divulgar informações sobre as festas em Downing Street é o mesmo que pode ter criado essa mesma estratégia de motivação de equipa. “Para ganhar campanhas”, escreveu em tempos, é preciso “mulheres giras e cerveja e pizza e música no gabinete todas as noites de sexta-feira e sábado, porque assim o local fica a rebentar de energia”, escreveu na sua newsletter pessoal em tempos. Só que agora há uma grande diferença: Cummings referia-se à campanha para o referendo do Brexit, altura em que não vigorava um confinamento contra a Covid-19.

Dominic Cummings, o homem que consegue “plantar ideias”

“Implacável” é uma palavra que se adapta que nem uma luva a Dominic Cummings. Nascido em Dunham, no norte de Inglaterra, é filho de um engenheiro petrolífero e de uma professora especialista em comportamento. Estudou em boas escolas e entrou em Oxford para estudar História Moderna, onde deu nas vistas: “Ele era muito mais engraçado e fixe do que eu”, resumiu um antigo colega ao Telegraph em 2020. “É fácil de perceber como é que ele acabou a aconselhar o primeiro-ministro. Podia ter acabado a fazer algo louco, como ser o ditador de um país distante. Isso não seria surpreendente”.

Uma personagem atípica, que encontrou lugar para a sua inteligência na política. O seu primeiro grande sucesso foi como conselheiro da campanha North East Says No, contra a criação de um parlamento regional, em 2004. As sondagens indicavam a vitória do “Sim”, mas o “Não” acabou por vencer com quase 80% dos votos.

À altura, Cummings criou uma série de slogans que deram nas vistas: “Os políticos falam, nós pagamos” e “Mais médicos em vez de mais políticos”. Curiosamente, é também da sua autoria um outro slogan político que marcou uma campanha para sempre: “Take back control” (“Tome o controlo de volta”), da campanha pelo “Sim” no referendo do Brexit, que Cummings liderou. Considerado o maior estratega da campanha e parcialmente responsável pela vitória do “Sim”, Cummings inspirou até a personagem principal do telefilme The Uncivil War, onde foi interpretado pelo ator Benedict Cumberbatch. Só para dar um exemplo da sua eficácia: num debate televisivo durante a campanha, Boris Johnson usou a expressão “tomar o controlo” sete vezes na declaração inicial.

Dominic Cummings Appears At Commons Science And Technology Committee

Dominic Cummings foi o criador do slogan "Take Back Control"

Getty Images

Homem sem grande convicção ideológica, mas cheio de ideias reformistas, Cummings não hesita em partilhar com o mundo as suas propostas — num blog, no Twitter e agora numa newsletter que tem centenas de subscritores. As opiniões sobre Cummings dividem-se. “Ele acredita mesmo que aquilo que quer fazer vai melhorar a sociedade. É por isso que está na política, não pela glória ou pelo status”, dizia o professor Tim Bale, especialista no Partido Conservador, em 2019. Já a escritora Hilary Mantel comparou Cummings — a quem David Cameron chamou em tempos um “psicopata de carreira” — à figura histórica protagonista de alguns dos seus romances, Thomas Cromwell. Mas considera que o assessor fica aquém do conselheiro de Henrique VIII: “Cummings cria uma ideia de si como um outsider. Mas Cromwell conquistou a hierarquia.”

Quer o adorem quer o odeiem, todos os que fazem parte da bolha política britânica são unânimes em apontar que Cummings é capaz de um grande poder. “Ele consegue plantar ideias na cabeça das personagens de Westminster”, resumia o jornalista da Sky News Sam Coates. E isso é um problema para os seus inimigos — que são muitos. Cummings já classificou o conservador David Davis como “preguiçoso como um sapo”, chamou a alguns deputados pró-Brexit “idiotas úteis” e adjetivou alguns economistas como “charlatães”.

A escritora Hilary Mantel comparou Cummings — a quem David Cameron chamou em tempos um “psicopata de carreira” — à figura histórica protagonista de alguns dos seus romances, Thomas Cromwell. Mas considera que o assessor fica aquém do conselheiro de Henrique VIII: “Cummings cria uma ideia de si como um outsider. Mas Cromwell conquistou a hierarquia”.

Agora, Boris Johnson parece ser o adversário mais recente. E Cummings não tem pudor em atacar sempre a jugular: “Ele próprio admite regularmente que é ridículo ele ser primeiro-ministro”, disse o antigo conselheiro em julho sobre o primeiro-ministro.

Rishi Sunak, o cavalo em que o ex-assessor aposta

A 18 de dezembro de 2021, Dominic Cummings decretou uma sentença: “O novo primeiro-ministro vai chegar ao poder em 2022”, escreveu na sua newsletter, dando 85% de probabilidades para tal vir a acontecer. E talvez até Cummings já tenha definido quem gostava que viesse a substituir Boris: Rishi Sunak, o jovem ministro das Finanças que tem dado sinais de estar interessado no cargo.

Dominic Cummings Portrait Session 2001

Na Universidade de Oxford, Cummings destacava-se pela inteligência e humor

Getty Images

Quando Cummings ainda estava em Downing Street, era conhecida a sua proximidade com Sunak. “O Dom achou que o Rishi era muito inteligente e impressionante desde o início”, declarou uma fonte do Partido Conservador ao Daily Mail. “Desde cedo que ele achou que ele era material para primeiro-ministro e ainda acha isso”.

Mais relevante ainda, como destacava um artigo do Politico em setembro, grande parte da equipa que trabalhava com Cummings está agora a trabalhar para o ministro das Finanças. Nerissa Chesterfield, antiga colega de Cummings na campanha pelo Brexit, é agora conselheira de Sunak; Michael Webb e Alex Hickman são outros exemplos. E, mais relevante ainda, Liam Booth-Smith, frequentemente elogiado por Cummings, é agora “conselheiro especial” de Rishi Sunak. “Ele é totalmente pró-Rishi. Era inevitável, agora que o padrinho Cummings saiu”, comentou com o jornal um antigo colega de Booth-Smith.

Ninguém sabe até que ponto Dominic Cummings pode estar envolvido na promoção de Sunak como uma alternativa a Boris Johnson, mas não há dúvidas de que ele é neste momento o mais bem colocado para lhe suceder. O timing dessa substituição, porém, não é fácil, o que pode ajudar a explicar a hesitação dos conservadores em avançar já para uma moção de censura ao primeiro-ministro. Para já, apenas três deputados confirmaram que escreveram a Graham Brady, presidente do Comité 1922, para que seja convocada essa votação (e Andrew Brigen é um deles). São necessárias 54 cartas para isso acontecer — mas também não é sabido se podem ter sido escritas mais cartas cujos autores não se identificaram.

Johnson And Sunak Visit Brewery In South East London

O ministro das Finanças Rishi Sunak (à esquerda) é o favorito para suceder a Boris Johnson

Getty Images

A pressão da opinião pública, porém, pode acelerar esse processo. Esta sexta-feira, a revista Spectator relembrava que alguns deputados estão a ser pressionados pelos seus eleitores, descontentes com as sucessivas festas em Downing Street. Uma sondagem divulgada na noite de quarta-feira coloca o Partido Conservador no pior lugar desde o ano de 2013 — o que ilustra bem o descontentamento popular com as festas em Downing Street, ao mesmo tempo que a Rainha tinha de lidar com a morte do marido, o Príncipe Filipe, sozinha.

Não é certo se esta pressão vai acabar por ditar o afastamento de Boris Johnson e, muito menos, se Sunak será o homem que se segue. Aquilo que é certo é que Dominic Cummings ficaria feliz com esse resultado e está a fazer tudo por tudo para consegui-lo. O que não quer dizer que, no futuro, Cummings não se vire contra Rishi Sunak. Afinal, não seria a primeira vez.

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