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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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640 agentes, sete concelhos e a “doutrina comum”: o novo 'supercomando' da PSP para investigar crimes na Grande Lisboa

Num forte militar, mais de 600 agentes investigam o crime na Grande Lisboa sob a mesma doutrina. Entrámos no quartel-general da PSP para ver o que muda e o que pensa o comandante à frente da DIC.

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Atrás da porta de madeira ainda fechada, o gabinete do comandante Rui Costa, no Forte do Alto do Duque, está carregado de história. Contam-lhe que foi ali, onde agora se encontram chávenas espalhadas pela secretária ainda com vestígios de café, que se instalou o gabinete de Otelo Saraiva de Carvalho no tempo quente do COPCON. “E depois os espiões. Agora é tudo às claras, pela legalidade democrática e pelo cumprimento da lei — que é o que deve defender a polícia”, diz ao Observador o comandante que a partir da última quinta-feira, passou a liderar o novo quartel-general da investigação criminal da PSP na Grande Lisboa.

“Passamos a ser uma estrutura única, com base num comando único para toda a área de intervenção do comando metropolitano. Passamos a ser uma estrutura com um efetivo superior a 600 pessoas, a gerir toda a investigação criminal da área da Grande Lisboa”, explica o comandante e intendente da PSP.

▲ Apesar de a investigação criminal da cidade de Lisboa já operar a partir do forte militar no Restelo, com perto de 150 anos, os concelhos periféricos tinham "assimetrias" na atuação da PSP

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A transição, que coloca a totalidade da investigação criminal da PSP sob a sua alçada, começou a ser feita de forma faseada desde maio. Até culminar, esta quinta-feira, com a integração da esquadra de Vila Franca de Xira. “A ideia base é otimizar recursos e dotar a polícia de uma estrutura mais flexível e capaz de responder melhor com os mesmos meios”, resume Rui Costa, referindo a diminuição de “entropias” e o aumento da “capacidade de resposta sem necessidade de grandes reforços de recursos humanos” como duas vantagens trazidas pela centralização da informação naquele espaço.

Apesar de a investigação criminal da cidade de Lisboa já operar a partir do forte militar no Restelo, com perto de 150 anos, os concelhos periféricos tinham “assimetrias” na atuação da PSP. “Com a reestruturação, queremos garantir que todas estas unidades estão integradas aqui e dependem da Divisão de Investigação Criminal. Queremos estar todos alinhados numa mesma estratégia”, resume o responsável por este supercomando da PSP.

Objetivo: que “um roubo seja tratado exatamente da mesma forma na Amadora ou em Lisboa”

Para lá do portão de grades que apenas permite a passagem a polícias — mas por onde às vezes ainda se esgueiram testemunhas perdidas — está enterrado o Forte do Alto do Duque. Foi dali que saíram ordens durante o PREC e foi àquelas antenas que a Força Aérea chegou a apontar baterias. Mas hoje, a batalha é outra: combater a criminalidade numa região onde as fronteiras entre cidades continuavam a dividir o modo de atuação da PSP.

▲ Atrás do portão de grades que limita a passagem a não polícias está enterrado o Forte do Alto do Duque.

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Se antes as várias divisões dos concelhos à volta de Lisboa “falavam línguas diferentes”, agora a prioridade é criar um “sistema completamente unido”: “A forma como, ao longo destes 23 anos da DIC, construímos a nossa forma de trabalhar vai ter de ser transposta para as outras estruturas, que não trabalhavam da mesma maneira.”

Rui Costa rejeita a ideia de que essa “diferente forma de trabalhar” fosse ainda “rudimentar”, preferindo focar-se na experiência da DIC de Lisboa: “A questão é que temos uma experiência de trabalhar na cidade de Lisboa que é diferente da experiência dos colegas que estavam nos outros locais. E essa experiência, esse know-how, levou-nos a construir uma panóplia enorme de formas de trabalhar.”

No terreno, a maioria dos operacionais continuará instalada nas esquadras locais, de Sintra a Loures — agora com uma linha direta de reporte ao novo comando. Mas o comandante da PSP sabe que a transição exigirá tempo. “Temos de trabalhar todos da mesma forma, e isto não se faz de um mês para o outro. Vamos demorar, porventura, dois ou três anos a ter todos os efetivos alinhados. Mas o objetivo é ter uma doutrina comum para que um roubo na Amadora seja tratado exatamente da mesma forma que um roubo em Lisboa”, afirma ao Observador.

“A esmagadora maioria dos crimes continua a ser praticada por portugueses”

A transformação aconteceu numa altura em que várias vozes políticas se têm juntado para falar num aumento da criminalidade e dizer que as ruas estão mais perigosas — de Carlos Moedas, na capital, a Pedro Duarte, no Porto. Mas o comandante Rui Costa contrapõe esta ideia, alinhando pela mesma bitola do atual ministro da Administração Interna (e ex-diretor da Polícia Judiciária), Luís Neves.

Moedas “alarmado por muitas situações” que comprometem segurança em Lisboa

Ainda no gabinete, Rui Costa levanta-se para ir à secretária procurar números. Abre um dossiê espesso, com centenas de folhas com gráficos e relatórios, e aponta para a folha com os dados da criminalidade que a PSP faz questão de agregar: “Em termos quantitativos e qualitativos, a área metropolitana tem os seus problemas. Mas há algo de que não se fala muito: cerca de 60% da criminalidade violenta e grave em toda a área de intervenção da PSP ocorre no concelho de Lisboa. Os outros 40% dividem-se por Amadora, Cascais, Oeiras, Sintra, Odivelas, Loures e por aí fora. Às vezes, temos a ideia de que a Amadora é o fim do mundo, mas a grande fatia é na capital.” Não deixa ainda de sublinhar: “Fazemos este trabalho analítico, não falamos à toa.”

E comparações com o passado? Diz que apenas um estudo científico rigoroso, que recuasse no mínimo 10 anos, podia permitir esse tipo de análise. “Como comandante, tento basear-me em evidências, em factos. Não se consegue fazer um trabalho científico credível relativamente à criminalidade se não andarmos no mínimo 10 anos para trás. Compararmos 2025, ou um mês de 2025 com um mês de 2026, em termos científicos, não nos diz nada.”

Recuando ao início dos anos 2000, lembra-se bem de quando chegou a Lisboa vindo das Caldas da Rainha, ainda como cadete da academia da PSP. O jovem — que hoje comanda a nova DIC da Grande Lisboa — confessa que o cenário na capital impressionava. “Via fenómenos na zona de Lisboa, principalmente na cidade de Lisboa, que hoje não vejo. Era horrível o que se passava no Casal Ventoso, no Martim Moniz, no Intendente, etc. Essa realidade, felizmente, hoje já não existe”, explica ao Observador, com uma ressalva: “Temos problemas — claro que temos problemas —, mas estamos atentos e com mais meios para os resolver”.

Há um fenómeno específico onde os estrangeiros entram nas contas da PSP. Não apenas por cá viverem, mas sobretudo porque estão de passagem: a chamada criminalidade itinerante. "Assistimos a alguns nichos de criminalidade graças a esta facilidade que há de viajar, entrar e sair. Assistimos nós, portugueses, e assiste a Europa toda."
Rui Costa, comandante da Divisão de Investigação Criminal da PSP em Lisboa

Do alto da sala panorâmica do forte, onde outrora se controlavam as entradas na cidade pelo Tejo, Rui Costa recusa a ligação entre quem hoje entra no país e o crime: “A esmagadora maioria dos crimes que estamos a investigar continua a ser praticada por portugueses. Sem dúvida alguma. Quer os criminosos, quer as vítimas, na esmagadora maioria, são portugueses.”

Há, ainda assim, um fenómeno específico onde os estrangeiros entram nas contas da PSP. Não apenas por cá viverem, mas sobretudo porque estão de passagem, a chamada criminalidade itinerante: “Assistimos a alguns nichos de criminalidade graças a esta facilidade que há de viajar, entrar e sair. Assistimos nós, portugueses, e assiste a Europa toda. Muito desta criminalidade itinerante em que se consegue um benefício rápido. Carteiristas. Furtos no interior de residência. Esta metodologia dos relógios de luxo. Pessoas que são oriundas de outros países, praticam crimes em Portugal e depois desaparecem.”

Um dos melhores exemplos dessa dinâmica está numa das divisões mais conhecidas da PSP. “A brigada dos carteiristas é uma área em que apostamos bastante e onde temos reconhecimento internacional. Neste momento, tenho uma equipa no Oktoberfest [festival de cerveja em Munique], a pedido das autoridades alemãs. E eles também vêm cá, os belgas ou os espanhóis, para nos dar apoio nos Santos Populares ou noutros grandes eventos”, revela o comandante da PSP.

No piso abaixo do gabinete do comandante, entre os corredores circulares deste forte semi-subterrâneo, esconde-se o cérebro da DIC: a unidade de análise de informação. São oito a dez analistas a cruzar dados, a detetar padrões e a mapear os fenómenos de criminalidade de toda a região.

“Partilhamos experiências. Partilhamos, inclusivamente, conhecimento relativo a alvos. Há pessoas que estão agora no Oktoberfest, que já passaram cá por Portugal, que vão a Barcelona, etc. Isto é criminalidade itinerante. Da mesma forma que há pessoas que se dedicam ao comércio de alguma coisa, de feira em feira, estas pessoas também atuam desta forma.”

“É uma investigação ingrata.” Por dentro da unidade da PSP que investiga o tráfico de droga

No piso abaixo do gabinete do comandante, entre os corredores circulares deste forte semissubterrâneo, esconde-se o cérebro da DIC: a unidade de análise de informação. São oito a dez analistas a cruzar dados, a detetar padrões e a mapear os fenómenos de criminalidade de toda a região. Nessa sala, porém, o Observador não pôde entrar.

▲ No piso de baixo do gabinete do comandante fica a unidade mais reservada da DIC: a análise de informações

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Descemos, por isso, pelo fosso do forte até ao espaço onde funcionam as salas da esquadra especializada na investigação de tráfico de droga, criada em 2024. “No tráfico de droga, demos um salto importante. Isto porque mudámos completamente a forma de o abordar. Além de concentrarmos tudo aqui, criámos uma metodologia que não sei se tem paralelo, mas que veio das nossas cabeças, das experiências e conhecimentos que temos ao longo dos anos. Criámos equipas específicas para diferentes níveis de atuação.”

Enquanto o nível 1 atua na venda direta, nas chamadas bancas de droga — investigações mais rápidas e que exigem mais efetivos —, o nível 2 já se ocupa dos abastecedores dessas bancas. “Por fim, temos uma equipa que só faz o nível 3: investigações mais complexas e em muito menor número. Têm poucas investigações em mãos porque o objetivo é chegar aos high value targets — os grandes traficantes, que no fundo são os gestores do negócio numa determinada zona”.

São os elementos desta equipa que mais encontramos na sala na manhã de quinta-feira. Ao contrário dos outros níveis, onde a rua está mais presente no dia a dia, aqui a investigação passa muitas horas ali. “Quando é para ir para o terreno e fazer apreensões, temos de ter certezas. Não pode ser um ‘hoje ou amanhã’ como nos outros níveis”, explica ao Observador um dos agentes do grupo. “Talvez o mais difícil nesta equipa seja mesmo saber perder. É uma investigação muito ingrata.”

▲ Em cada sala da esquadra especializada no combate à droga, foram os próprios agentes que construíram o mobiliário

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Mas também há o saber ganhar. Foi esta mesma unidade que assinou a apreensão das seis toneladas de haxixe — a maior operação da PSP contra o tráfico de droga —, guardadas durante três dias na garagem da DIC numa operação de segurança reforçada que obrigou a uma segurança mais apertada no forte.

Mais de cinco toneladas de haxixe, meio milhão em dinheiro e drones de videovigilância. A maior operação da PSP contra o tráfico de droga

Nesta parte da DIC, assim como arranjaram o chão da copa que sofreu infiltrações, foram também os próprios agentes que construíram todo o mobiliário que preenche as salas das equipas de combate ao tráfico. “Arranjaram a madeira e construíram tudo. Têm jeito para a bricolage, alguns deles. Cheguei a sair daqui à noite e lá estavam eles com os martelos”, conta o comandante, enquanto cumprimenta os agentes que se preparam para almoçar.

Antes de chegar a essa unidade, percorre-se um corredor longo com mais de 30 gabinetes por onde passam, diariamente, acima de uma centena de pessoas. Em alguns, sobram as marcas das infiltrações, o cheiro a humidade e o chão arrancado. Ainda assim, para o comandante, ter este espaço foi “ouro sobre azul” quando comparado com outras instalações do parque imobiliário da polícia.

Enquanto as chuvas de inverno não regressam, o bom tempo foi aproveitado ao ar livre, com sardinhadas organizadas logo atrás do antigo canhão do forte — uma peça de artilharia que só disparou uma única vez, depois do 25 de Abril, e continua, até hoje, exatamente apontada à direção desse tiro.

▲ Enquanto as chuvas de Inverno não regressam, houve sardinhadas logo atrás do antigo canhão do forte

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Antes de voltar a entrar no forte, o comandante Rui Costa projeta o futuro: “Ainda não conseguimos chegar a algumas áreas a que queremos chegar no futuro próximo, mas penso que esta reestruturação vai ajudar muito nisso. Vai permitir-nos chegar com mais qualidade e mais quantidade. Acho que vamos conseguir.”

[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]

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