Brexit: o dilema de Jeremy Corbyn que pode condenar o Labour “à desgraça” /premium

09 Setembro 2019

O Labour quer ganhar tempo para subir nas sondagens antes de ir a eleições, mas isso pode não chegar. A política hesitante e pouco clara para o Brexit está a afastar eleitores e a dividir o partido.

Jeremy Corbyn nunca foi o político mais envolvido no tema Brexit, nem sequer durante a campanha do referendo. Basta recordar o que aconteceu na noite eleitoral: enquanto a maioria dos políticos britânicos ficou acordada toda a noite, até à hora da manhã em que David Cameron apresentou a sua demissão, perante a vitória do ‘Sair’, o líder trabalhista aproveitou para ter algumas horas de sono reparador. O episódio foi contado no livro All Out War do editor de política do The Times, Tim Shipman (Guerra Aberta, sem edição em português): “Depois de quase um ano a não ser levado a sério pela liderança, o normalmente calmo Brian Duggan [diretor de campanha] finalmente passou-se. ‘A sério que me estão a dizer que os mercados estão em crash, a libra está a cair, acabámos de sair da União Europeia [UE], o primeiro-ministro está à beira de se demitir e o líder da oposição está na cama?’”.

A política de Corbyn para o Brexit nunca foi apaixonada. A posição em que o líder trabalhista mais à esquerda dos últimos anos se encontra é complicada: depois de uma vida inteira de críticas à UE, lidera agora um partido cuja maioria é a favor da permanência na União. Para fazer a quadratura do círculo que não desilude militantes e eleitores, ao mesmo tempo que mantém os votos nos círculos eleitorais trabalhistas que votaram Leave e não contradiz as suas convicções de sempre, o líder do Labour vai recorrendo a uma política para o Brexit que os jornais britânicos recorrentemente apelidam de “triangulação”, mas a que também poderíamos chamar de pingue-pongue. Evitando trancar-se em posições firmes, Corbyn vai batendo a bola: ora anunciando que quer um segundo referendo, ora evitando dizer como votaria nessa nova consulta popular.

Jeremy Corbyn num dos poucos eventos de campanha pela permanência na UE (Matt Cardy/Getty Images)

A situação atual complica tudo. Depois de meses a pedir eleições antecipadas, o primeiro-ministro Boris Johnson estendeu-lhe essa possibilidade de bandeja. A oposição recusou, afirmando que só aceitará ir a eleições depois de ser garantido que o Reino Unido pede um adiamento da data do Brexit na cimeira europeia de 17 e 18 de outubro. É com base nessa argumentação que, ao que tudo indica, o Labour fará o mesmo esta segunda-feira, votando para chumbar a nova proposta de eleições antecipadas de Boris.

Mas, mais tarde ou mais cedo, o país irá às urnas, como os próprios trabalhistas tanto têm pedido. E as sondagens não jogam a favor do Labour, deixando-o apenas em segundo lugar, com 25% dos votos — menos do que os 35% esperados para os conservadores. Como explicar que, no meio de uma situação de aparente caos do Governo, o maior partido da oposição não se consiga afirmar como alternativa sólida? Para os especialistas, a resposta tem seis letras: Brexit. Ou, como explicou o veterano politólogo britânico John Curtice à rádio LBC, o “Labour tem perdido votos tanto dos eleitores Leave como dos Remain. E porquê? A resposta foi dada recorrendo à culinária e a um doce cremoso, o fudge, semelhante ao caramelo: “O problema do fudge é que pode tornar-se enjoativo, por um lado, e acabar por não satisfazer ninguém, por outro.”

Uma vida dedicada a combater as políticas europeias

Steven Fielding, professor de História Política da Universidade de Nottingham e um estudioso do Partido Trabalhista, vai direto ao assunto em conversa com o Observador: “O problema para Corbyn é que ele não quer permanecer na UE.” E porquê? “Porque no fundo, no fundo, ele é um leaver de esquerda. A situação ideal do ponto de vista dele para o Reino Unido era termos um soft Brexit”, ou seja, uma saída com acordo.

Jeremy Corbyn sempre foi, toda a vida, um político de esquerda, defensor de um socialismo democrático à antiga. Corbyn é uma memória viva do Partido Trabalhista dos anos 80, que teve consigo na liderança um comeback, ajudado pela defesa de causas progressistas mais modernas. Por um lado, Corbyn defende nacionalizações, erradicação da política de austeridade e combate à pobreza. Por outro, desloca-se de bicicleta, é vegetariano e defende firmemente direitos de minorias como os LGBT. A receita tem sido de sucesso entre alguns eleitores trabalhistas, sobretudo os mais jovens. Nas eleições de 2017, as primeiras com Corbyn à frente do partido, o Labour não conseguiu, ainda assim, derrubar os tories, mas acabou por ter um resultado muito melhor do que as sondagens previam — roubando a Theresa May a maioria absoluta na Câmara e forçando-a a coligar-se com os unionistas do DUP.

Mas entra a questão europeia e tudo se complica para Corbyn e para a relação com o seu eleitorado. As críticas à UE, que, durante anos, considerou um clube não-democrático que promovia o neoliberalismo, ficaram sempre espelhadas nas suas votações e campanhas: foi contra a adesão do Reino Unido à CEE em 1975, criticou os tratados de Maastricht e de Lisboa e, em 2011, fez parte da lista de 18 trabalhistas rebeldes que furaram a disciplina partidária e votaram a favor de um referendo à permanência da Grã-Bretanha na UE.

Corbyn afirma que votou Remain no referendo de 2016, mas não há dúvidas de que nunca se envolveu a fundo na campanha, como fez David Cameron pelos conservadores. E, desde que o Leave ganhou e o líder trabalhista esteve desaparecido nas primeiras horas do dia a dormir, a política do Labour para o Brexit foi sempre tudo menos clara.

Jeremy Corbyn na juventude. Já na altura estava claramente à esquerda e era crítico da entrada do Reino Unido na CEE (Michael Daines/Mirrorpix/Getty Images)

Começou pela reação ao referendo, com Corbyn a afirmar que o Artigo 50 devia ser ativado o mais rapidamente possível e a recuar dias depois. Seguiu-se a tentativa dos seus próprios deputados de o afastarem, através de uma moção de censura (172 deputados votaram pela sua saída e apenas 40 pela permanência), a que Corbyn reagiu com indiferença, mantendo-se na liderança. O discurso oficial do partido passou depois para a defesa de um acordo de saída que estabelecesse uma união aduaneira entre o Reino Unido e a UE. Agora, e desde julho, o partido tem defendido um novo referendo, cujas hipóteses podem incluir um no deal, um acordo de saída e a opção de ficar na UE. Nessas circunstâncias, se o acordo fosse um semelhante ao negociado por May, Corbyn afirma que votaria Remain.

A situação complica-se, no entanto, quando se fala de um possível acordo negociado pelo Labour, se chegasse ao poder. O paradoxo ficou claro num recente debate na BBC onde estava ministra-sombra para os Negócios Estrangeiros, Emily Thornberry. A jornalista pergunta-lhe: “Vocês regressariam à Europa, tentariam conseguir um acordo melhor e organizariam um referendo onde o Remain é uma das opções. Iriam fazer campanha pela permanência, contra o vosso próprio acordo, que vocês negociaram? Ou diriam ‘Não, apoiem o nosso acordo’?” Thornberry balbucia, gagueja, é interrompida pelos aplausos da audiência à pergunta e acaba por responder “Eu, pessoalmente, votaria Remain.” A incógnita é se Corbyn faria o mesmo.

A pedra no sapato chamada Brexit

Há muitos apoiantes de Corbyn que concordam com ele em todos os outros temas, mas que têm tremendas diferenças de posição no Brexit. São trabalhistas que querem que a posição do Labour seja uma de ficar na UE e reformá-la, de mudar a Europa por dentro”, explica o professor Fielding. “Esta posição que o Labour tem tido, de tentar agradar tanto aos que votaram Leave como aos que votaram Remain, não está a funcionar. Basta ver as eleições europeias, onde perderam cerca de 30% dos seus eleitores.”

A sair de casa com escolta policial no mesmo dia em que lhe seria apresentada uma moção de censura interna pelos deputados do Labour (Carl Court/Getty Images)

Os números indicam que a razão para essa sangria está mesmo na indecisão face ao Brexit. Em janeiro, um artigo do Sunday Times apontava para uma saída de 150 mil militantes do partido por discordâncias sobre o tema; no mês seguinte, a Economist afirmava que 79% dos militantes do partido apoiavam um segundo referendo.

“Na Grã-Bretanha de hoje, tudo gira à volta de Leave e Remain. O eleitorado está partido”, explica Fielding. “Theresa May tentou que fosse assim na campanha de 2017, mas não conseguiu. O Labour introduziu temas como a austeridade e a economia, que os beneficiam, e foi por isso que teve um resultado bom. Vão tentar fazer o mesmo agora, mas não acho que vá funcionar, tendo em conta quão próximos estamos da data de saída e quão polarizado está o país. As pessoas deixaram de pensar em termos de ‘conservadorismo’ ou ‘trabalhismo’ — é ‘Sair’ ou ‘Ficar’.”

Na semana passada, o Governo de Boris Johnson perdeu a maioria efetiva na Câmara dos Comuns, com a passagem de Philip Lee para a bancada dos Liberais-Democratas, e a sua política para o Brexit foi claramente vetada com o apoio de outros 21 conservadores, que votaram a favor da proposta de lei Benn para adiar o Brexit até 31 de janeiro de 2020 e evitar assim uma saída sem acordo.

Aparentemente encurralado, o primeiro-ministro só vê como saída umas eleições legislativas, onde possa fazer campanha declarada pela saída e tentar conquistar uma maioria confortável na Câmara dos Comuns, que o possa ajudar a pôr em prática a sua política. O Labour hesita. E, embora continue a repetir que quer eleições, não aceita a data de 15 de outubro proposta por Boris Johnson, temendo que, caso ele conquiste essa maioria deseja, reverta a lei Benn.

Como explicou John Curtice no Guardian, para o Labour só faria sentido ir a eleições de imediato se houvesse sinais de que o primeiro-ministro está à beira de conseguir um acordo — e, ainda esta semana, um porta-voz da Comissão Europeia disse não ter havido “propostas concretas” por parte do Governo britânico nesse sentido. Assim, com a garantia de que o Reino Unido irá pedir um adiamento caso não haja acordo (seja com Boris, seja com um Governo interino), aos trabalhistas resta esperar e tentar contribuir para que a ida às urnas seja o mais tarde possível. Esse período de espera, aposta o professor Fielding, não prejudicará os trabalhistas, já que se trata apenas de “um hiato temporário” que rapidamente será esquecido quando a campanha tiver de facto início.

Aí, explica, os problemas serão outros. A começar no congresso do partido, que tem data marcada para os dias de 21 a 25 de setembro: “Se Corbyn continuar com esta posição ambígua face ao Brexit, o congresso provavelmente será uma luta”, aponta. “Até [o ministro-sombra das Finanças] John McDonnell, que é daqueles que pensa que a UE é composta por ‘um bando de neoliberais’, acha que não vale a pena manter uma postura destas no Brexit se significar que o Partido vai perder as eleições”. Estas tensões poderão transpirar ainda mais durante a definição do programa eleitoral, “onde os sindicatos têm voto na matéria, os deputados também, mas o líder é que decide”, aponta o professor de História Política.

Corbyn com John McDonnell, ministro-sombra das Finanças e seu homem-forte na política económica mais à esquerda (Leon Neal/Getty Images)

Tudo seria mais fácil para Corbyn sem o “imbróglio do Brexit”, como admitiu o jornalista Tom Bower, insuspeito de cultivar simpatia pelo líder trabalhista, na biografia altamente crítica que escreveu sobre ele, Dangerous Hero: Corbyn’s Ruthless Plot for Power (Sem edição em português, o título pode ser traduzido por Perigoso Herói: A Trama Implacável de Corbyn para chegar ao Poder). Aí, Bower admite que “a cavalgada de Corbyn e McDonnell para controlar os excessos do capitalismo e os seus falhanços apelou aos jovens e até a alguns tories de classe média, revoltados com a guerra fratricida no seu partido e enojados com o silêncio sobre os mais pobres e sem formação do país”.

Ao movimento de entusiasmo em torno de Corbyn, movido em parte pela energia dos mais novos, foi dado o nome de Corbynmania. Mas a febre está a descer, muito por causa da saída da UE. Os números são claros: em fevereiro, um estudo do respeitado académico Tim Bale concluía que 61% dos militantes do partido consideravam o Brexit o tema mais importante para o país naquele momento e menos de metade apoiava a política do partido nessa matéria. Só em julho deste ano Corbyn passou a admitir a realização dessa segunda votação — não deixando, porém, claro o que defenderia na campanha.

E os sinais vêm de todo o lado, como relembra o Politico, que notou o aviso feito pelo movimento da sociedade civil pró-Corbyn Momentum, quando Theresa May apresentou o seu acordo pela primeira vez: “Qualquer deputado do Labour que vote com os tories para sairmos da UE sem qualquer noção de onde nos vamos meter não merece ser um deputado do Labour.”

“Muitos dos apoiantes mais jovens e daqueles que apoiaram o partido em 2017 são fortemente pró-Remain, mas também apoiam muitas das mudanças que Corbyn defende. É por isso que isto é um dilema genuíno”, reconhece o professor Fielding. O académico, que estuda há anos o Partido Trabalhista, até arrisca tentar entrar dentro da cabeça do líder: “Consigo ver os argumentos a formarem-se na mente dele: ‘Os jovens vão ficar assustados se falarmos sobre Boris Johnson, porque ele é uma figura muito tóxica entre os mais novos; e, para além disso, estou a oferecer-lhes um referendo, há uma hipótese de eles ficarem. Não somos um partido de Brexit ou Morte’.”

Os liberais-democratas, principal ameaça

Só que, reforça o professor, essa lógica cai por terra quando há outras forças políticas que oferecem posições mais claras no tema Brexit: “Os liberais-democratas andam aí. Têm uma líder nova [Jo Swinson] e é possível que as pessoas digam ‘Não gosto do Boris, não gosto do Corbyn, ela não está nada mal’. Foi isso que aconteceu com o Nick Clegg”, afirma, apontando para o líder dos lib-dems, que conseguiu um resultado tão forte em 2010 que forçou David Cameron a coligar-se com eles. Já para não falar dos círculos eleitorais em zonas da Escócia, onde deputados trabalhistas locais correm sérios riscos de ser suplantados pelos nacionalistas escoceses do SNP.

Corbyn sempre foi altamente popular entre os mais jovens, criando-se para eles até o termo "Corbynmania" (Dan Kitwood/Getty Images)

“Aquilo que Boris Johnson fez desde que chegou à liderança dos conservadores foi fazer de tudo para agradar aos eleitores pró-Leave e neutralizar Nigel Farage. E tem sido bem sucedido. O problema de Corbyn é que, a não ser que altere a sua política face ao Brexit e torne o seu partido num partido pró-Remain, irá dividir os votos com os liberais-democratas e fragmentar o eleitorado, enquanto que do outro lado Boris Johnson agrega os votos à sua volta”, analisa Fielding.

Ainda esta semana, a ex-trabalhista Luciana Berger juntou-se aos liberais-democratas, que classificou como único partido que quer “inequivocamente travar o Brexit”. A entrada de Berger é uma dupla machadada que foca não apenas a política ambígua de Corbyn para o Brexit, mas que deixa também a nu outra mancha no período atual do Labour. Berger abandonou os trabalhistas em fevereiro, juntando-se ao recém-criado Grupo Independente. À altura, a deputada acusou o Labour de, sob a batuta de Corbyn, se ter tornado um partido “institucionalmente anti-semita”.

As acusações de anti-semitismo ensobram o passado de Corbyn, cuja simpatia pela causa palestiniana fez com que tivesse chegado a referir-se a delegados do Hamas e do Hezbollah como “amigos” — uma afirmação feita em 2009 da qual se retratou seis anos depois. As críticas a Israel sempre foram contundentes e é esse enquadramento político que levou Corbyn a resvalar, por vezes, para afirmações que muitos classificam como críticas dos judeus enquanto povo. O próprio antigo colega de Corbyn, Harry Fletcher, disse ao biógrafo Tom Bower que o líder do Labour “não reconhece o seu próprio anti-semitismo”, que, nas palavras de Fletcher é “institucional”. “O que ele queria dizer é que Corbyn subscrevia involuntariamente o preconceito inerente da esquerda [contra os judeus]”, analisa o próprio Bower.

Os defensores de Corbyn destacam a sua postura inclusiva e anti-racista em muitas outras matérias, como prova de que o líder do Labour não pode ser, por natureza, anti-semita. Seja esse o caso ou não, certo é que o partido enfrenta esse problema nas suas fileiras: ao todo, o Labour anunciou em fevereiro ter recebido 673 queixas de anti-semitismo nos dez meses anteriores, tendo sido expulsos 12 militantes na sequência dessas queixas.

Steven Fielding destaca que este não será, de todo, o tema definidor da eleição. Esse, como vimos, será o Brexit. Mas tal não significa que o Labour deva desprezar este problema. Mais uma vez, os liberais-democratas podem ser os beneficiados: “Jo Swinson pode apontar para Boris Johnson e destacar as acusações de islamofobia e a expulsão de 22 deputados do partido. E pode apontar para Corbyn e dizer que houve deputados do seu partido a juntarem-se aos lib-dems por causa de anti-semitismo”, destaca o professor Fielding, assumindo-se os lib-dems como “uma terceira via moderada”. Os resultados dessa estratégia prevê, podem trazer frutos ao partido e retirar alguns lugares no Parlamento a trabalhistas: “Com o sistema eleitoral que temos e com o voto fragmentado como está, é um casino. O assunto do extremismo e do anti-semitismo pode ser o suficiente para atrapalhar determinadas estratégias e cálculos.”

A teimosia de um líder e as suas consequências

Com eleições à porta, ameaça de crescimento dos liberais-democratas — e, numa escala menor, do SNP e dos Verdes — e um quebra-cabeças chamado Brexit para resolver, a pressão sobre os ombros de Jeremy Corbyn acentua-se. Irá o líder do Labour manter a rota e não alterar uma vírgula ao que tem feito ou fará uma mudança radical?

Aqueles que o conhecem apostam mais na primeira hipótese. A própria Emily Thornberry, que agora tenta explicar a posição ambígua do partido em programas da BBC, apontou em tempos a determinação e teimosia de Corbyn como sendo características que a faziam “gostar” dele, por ser alguém “que não cede, que é claro naquilo que acredita e que faz campanha por isso” — razões pelas quais decidiu nomeá-lo para se candidatar à liderança do partido, embora não o apoiando na votação final. Mas, nas mesmas declarações feitas ao Guardian em 2015, dizia que essas características não são as de um líder partidário, que necessita de “negociar, ceder e unir o partido”. “O Jeremy assentou a sua reputação no facto de não ceder. E isso faz sentido para um determinado papel. Mas não faz para o líder do Partido Trabalhista”, afirmou à altura.

Corbyn é descrito pelos que o conhecem como determinado e de convicções fortes, mas também inflexível e sem capacidade negocial (Christopher Furlong/Getty Images)

Até visões mais desapaixonadas, como a do historiador David Kogan, apontam para o facto de que Corbyn raramente dá o braço a torcer: “No debate sobre o Brexit, de 29 de janeiro, ele de forma repetida e ostensiva recusou aceitar uma pergunta da deputada trabalhista Angela Smith sobre um segundo referendo e recusou ouvir os pedidos para que convocasse um congresso extraordinário para discutir isso”, aponta o autor no seu livro Protest and Power: The Battle for the Labour Party (sem edição portuguesa, Protesto e Poder: A Batalha pelo Partido Trabalhista). Há muitos anos que Corbyn está habituado a ir contra a corrente e a manter-se firme: só se assim se explica que tenha conseguido votar contra a indicação de voto do próprio partido mais de 500 vezes, desde 2005. E, mesmo assim, chegou a líder dos trabalhistas. Mais: em 2016, quando o Brexit ameaçou afastá-lo através da moção de censura aprovada pelos seus próprios deputados, Corbyn ignorou deliberadamente esse resultado, convicto de que o verdadeiro poder emana dos militantes e não dos parlamentares.

Tudo indica que, por isso, manter-se-á teimosamente na mesma rota. O caminho que tem pela frente, contudo, está longe de lhe ser favorável. Nas sondagens, o Labour continua atrás dos conservadores e a política de pingue-pongue que o partido tem mantido sobre o Brexit está longe de o beneficiar. Em agosto, um estudo da YouGov ilustrava a incapacidade de Corbyn cativar o eleitorado, quer entre os que querem sair da UE e os que querem ficar, com mais gente (48%) a preferir um cenário de no deal mas sem Corbyn primeiro-ministro, do que o contrário (35%).

As eleições até podem ser travadas esta segunda-feira, mas, mais cedo ou mais tarde, chegarão. E Boris Johnson sabe-o, razão pela qual irá fazer tudo por tudo para radicalizar posições e jogar na campanha como se ela fosse a de um segundo referendo. “De um lado, vamos ter Boris a dizer ‘Votem em mim e eu dou-vos o Brexit’ e do outro lado vamos ter Corbyn a dizer ‘Vamos negociar um novo acordo e depois um referendo, onde não é claro o que vamos defender’”, ilustra Steven Fielding.

No meio deste cenário, aquilo que é claro, diz o historiador do Partido Trabalhista, é que “as posições complexas costumam colapsar quando submetidas a eleições”. “Se Boris Johnson conseguir tornar esta eleição numa eleição deste tipo, entre Leave e Remain, temo que o Labour esteja condenado à desgraça.”

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