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No meu inaginário, Basileia é um clube de futebol. Se tinha absolutamente presente que era uma cidade na Suíça? De todo. Até porque geografia é o meu calcanhar de Aquiles em estado necrótico. Curiosamente, ao dia de hoje, vivem-se duas finais que muito me entusiasmam. Eu sou a prova viva que é possível viver a Eurovisão e o futebol com igual entusiasmo…. No fim das contas, só eu sei porque fiquei em casa. Foi para escrever este artigo. E é bom que me deem valor por isso. Assim sendo, e sem mais demoras, vamos à música. Devo ressalvar que as apreciações que se seguem foram feitas antes de conhecer o vencedor, portanto o potencial para me espalhar ao comprido é altíssimo. E é isso que o meu povo gosta.

Noruega

Kyle Alessandro, “Lighter”

Fait divers: Kyle é o benjamim desta edição com 19 aninhos, meu rico menino, mas já anda nestas andanças desde os 10 anos. Tenho que destacar que fez parte de uma boy band chamada Umami Tsunami que é definitivamente o melhor nome de boy band que já me passou pelo estreito. Quanto à canção, diz que é um mix do barroco e de elementos medievais do folclore norueguês. Acreditem ou não, é segmento musical que não domino, portanto vou tomar por bom. O tema tomei por mais ou menos. Bom para menear ancas, sejam elas barrocas ou não, mas pouco mais que isso.

Luxemburgo

Laura Thorn, “La poupée monte le son”

Pois, pois, pois, pois… Não vou ser hipócrita. Não é só isto, mas é muito isto que faz da Eurovisão o que ela é. Atuações que me arremessam o queixo ao chão com estrondo, qual trivela na boca do Quaresma. E não é de todo pela voz, melodia ou letra da cantiga, que nestes casos não é uma arma. É mais um taser que nos deixa assim meio dormentes e sem saber de que terra somos.  Em La poupée monte le son (“A boneca sobe o som”, em português), Laura veste-se de boneca, mexe-se como uma boneca e canta como se fosse uma boneca, mas não na versão cantora, lamentavelmente. E sim eu percebo a analogia da letra de já não sermos as bonecas de antigamente e termos ganhado vontade própria como mulheres. Mas não é por isso que não vou dizer que a música é uma… Não vou dizer por decoro e respeito pelos leitores. Acho que perceberam a ideia. P.S.: tem um momento tipo “Vale tudo” em quem por momentos pensei que aparecesse o Manzarra. Lamentavelmente, não aconteceu.

Estónia

Tommy Cash, “Espresso Macchiato”

Epá, gosto. Epá, ri-me. Epá, prendam-me, atirem a chave fora e levem-me cigarrinhos de vez em quando. É, com enorme probabilidade, o tema que mais me vai ficar na memória nesta edição, a seguir ao dos NAPA. “Ah, mas depois de descascares na Cindy do Luxemburgo, vens defender este cruzamento entre o Steve Aoki, o Kevin Kline no Amar-te-ei até te ámatar e uma gelatina?” A resposta é sim. Lidem com isso. Bom staging, ótimo o momento da invasão de palco, maravilhosos seguranças e uns moves que toda a gente, secretamente, gostaria de ser capaz de reproduzir. Ten points from me. Porque os doze está-se a ver, está a visto.

Israel

Yuval Raphael, “New Day Will Rise”

Para limpar vidros, comece por retirar a sujidade mais grossa com um pano macio ou esponja. Em seguida, aplique um produto de limpeza adequado (limpa-vidros, solução de água, vinagre e álcool, ou detergente) e limpe com um pano de microfibra ou flanela. Por fim, seque bem com um pano seco ou jornal para evitar manchas.

Lituânia

Katarsis, “Tavo akys”

Rock experimental lituano, para aqueles que acham que a Eurovisão é só pop, purpurina e óleo vegetal, que o azeite está pela hora da mote. O refrão de Tavo akys reza assim: “Tu nebijok, tavo sapnuose verkiu / Tik tavo sapnuose verkiu / Tavo, tavo, tavo, tavo…”. O quê? Não dominam lituano? Ok… Creio que deviam reavaliar como é que andam a gerir o vosso tempo, mas… Ouvimos, mas não julgamos. Então, cá vai: “Não tenhas medo, eu choro nos teus seus sonhos /Apenas nos teus sonhos, eu choro / Teus, teus, teus, teus, teus…” Pedrada no charco, ou não?

Espanha

Melody, “Esa diva”

Sinto que os espanhóis, ultimamente, escolhem os artistas a concurso com base em critérios semelhantes aos dos protagonistas do sketch dos Gato Fedorento, apresentando variações com mais ou menos requinte. E eu não tenho absolutamente nada contra pandeiretas de sonho, vamos lá ver, mas se for só isso é poucochinho. É que não é Foureira quem quer, é só quem pode. Esta é para os cromos da Eurovisão. Não sabem vão ao Google, homessa!

Ucrânia

Ziferblat, “Bird of Pray”

Eu sei, eu sei. Está tudo muito certo, percebo perfeitamente. Mas não chega, gente. Ajudem-nos a ajudar-vos. Somos empáticos, mas não somos surdos.

Reino Unido

Remember Monday, “What the Hell Just Happened?”

Três considerandos sobre o tema com o título mais auto-explicativo de sempre e as respetivas intérpretes. 1: Parecem uma versão inglesa de um hipotético trio musical formado pela Liliana Filipa, a Constança Ariza e a Helena Coelho. Desconheço o talento musical destas três “criadoras de conteúdo”, mas aposto uma parceria da Prozis que não lhes iam ficar atrás. 2: Não me quero armar em Polícia da Moda, mas parece que estão a encarnar uma versão slutty dos figurinos de Bridgerton. Nada contra versões slutty de seja o que for, mas é tudo feio que dói. 3: Faz sentido terem sido escolhidas pelos mesmos (ou pelo menos uma parte significativa deles) que votaram no Brexit e no dia seguinte foram ao Google pesquisar se dava para voltar atrás.

Áustria

JJ, “Wasted Love”

Um rapaz, um contratenor, uma jangada, vários faróis. Tudo somado, a mim, deu-me uma valente enxaqueca. Se é difícil e virtuoso o que intérprete faz? Parece-me, mas não é agradável de se ouvir. Mas o rapaz parece-me um querido, verdade seja dita. Mas aparentemente deve ser de mim, porque o tema austríaco está em segundo lugar nas casas de apostas. Veremos se o destino deste JJ não é, também, cair de joelhos. Eu sei, piada descabida, não devia, não se justifica, as minhas desculpas.

Islândia

VÆB, “RÓA”

A minha filha passou as semi-finais a dizer “Mas isto era o melhor que eles tinham para mandar?”. No caso da Islândia, é provável, que aquilo é tão pouca gente, que eles têm uma app para verificar o grau de parentesco com potenciais parceiros românticos e evitar a consanguinidade. Eu não vou dizer que os pais destes dois irmãos borrifaram-se para isso e, se dúvidas houvesse, fica comprovado pelo outfit escolhido. Mas, na verdade, não estavam assim tão mal. Além disso, os meus pais são primos.

Letónia

Tautumeitas, “Bur man laimi”

Não tenho muito a dizer. Acho ótimo que tenham reaproveitado garrafões de água para fazer os acessórios para a cabeça. Aposto que devem fazer o ritual do cacau, praticar a biodanza e devolver o sangue à terra, mesmo sem o consentimento da dita. Se não sabem do que eu estou a falar, parabéns. O vosso algoritmo é mais vosso amigo que o meu, e não vos mostra publicações patrocinadas sobre o Sagrado Feminino e bonita prática de aspergir os solos com menstruação. Agora, não sei como é que vou sair deste buraco que acabei de cavar (má escolha de palavras), mas não desistam já.

Países Baixos

Claude, “C’est la vie”

Era mesmo disto que estávamos a precisar para limpar o palato. O Malato, durante a primeira semi-final, não se cansou de dizer que este Claude era muito, muito querido. E, de facto, tem ar disso. Não é assim um vozeirão por aí além, mas também não comprometeu. A música não é extraordinária, mas é simpática. E ele tem um sorriso lindo. Bem dispõe. E olhem, filhos, se la vie for isto, já não é nada mau.

Finlândia

Erika Vikman, “Ich komme”

Então, o que é que temos aqui? Uma música desinteressante e repetitiva, interpretada por uma louraça cavalona (termo elogioso no meu dicionário pessoal) que canta muito pouquinho, não dança nada por aí além. Mas domina o tripé como poucos, tem um movimento pélvico de alto lá e pára o baile e montou um microfone dourado a cuspir fagulhas, pendurada num balouço  com a confiança de poucos ou, arrisco-me a dizer, nenhuns. E não tenho dúvida que ela cumpre o que afirma no refrão. Abençoada.

Itália

Lucio Corsi, “Volevo essere un duro”

O início faz-me lembrar muito o Romeo and Juliette dos Dire Straits, mas pode ser alucinação minha. Depois, começou a dar-me uns lampejos de Bob Dylan e ainda não tinha pegado na harmónica. Ao nível do visual…. Deixa-me escolher bem as palavras, porque esta é música é sobre o bullying que o intérprete sofreu ao longo da vida e eu não despertar gatilhos a ninguém. Por isso, não vou dizer nada. É isso. Às vezes, é melhor. Já vos estou a ver aí a dizer “Não, é às vezes. É sempre mesmo.” Mas eu vou ser a adulta na sala (outra coisa que não é meu costume) e vou ignorar-vos respeitosamente. Ah, só mais uma coisa: é o tema mais bonito desta edição.

Polónia

Justyna Steczkowska, “Gaja”

Não vou fazer a piada óbvia como o nome da canção. Farei outras tão ou mais óbvias, até porque são 26 músicas e não dá para ser engraçada e/ou surpreendente em todas. Dois terços já me dava por satisfeita.  Nesta, vou só ser brutinha como às casas. Muito latex, muita labareda, pouco talento.

Alemanha

Abor & Tynna, “Baller”

Alemanha traz-nos Electropop dançável, um must-have eurovisivo. Um tema da chamada Eurodance, interpretado por uma pequena muita gira e muito fresca e que deve fazer um figurão nos dance floors lá da terra dela. Mas a música é um loop que resulta durante 30 segundos e depois é enjoativa que só ela. É possível que esteja a ser injusta e parcial. A verdade é que para mim Eurodance só há um, Santa Maria e mais nenhum. Disse.

Grécia

Klavdia, “Asteromata”

Jovens, podem passar para a próxima. Agora nós, que já nos custa a ficar sentados com as pernas à chinês, já para não falar na dificuldade que é levantarmo-nos a seguir: esta moça só não é a reencarnação da Nana Mouskouri, porque felizmente ainda é viva. Ou então, é só dos óculos e eu estou a ser básica. Digam-me na caixa dos comentários. A música começa bem, boa interpretação, staging elegante e bonito…  E depois escorregam ali no banho de óleo tipo barraca das farturas e perdem-me. Mas longa vida à Nana que já vai com 90 anos, fiquem sabendo.

Arménia

PARG, “Survivor”

A Eurovisão proibiu os artistas de usarem bandeiras LGBTQIA+ no palco. Parece mentira, mas estão à vontade para fazer fact check. Ninguém disse no entanto que não se podia subir a palco em tronco nu. Seco e sarado, meio mascarrado de óleo,  como quem acabou de fechar um capot, depois de mudar as velas do transformador (nota-se que não percebo um caracol de mecânica?). Calças de cabedal, a correr numa passadeira para ficar todo suadão. (i)Moral da história: há várias maneiras de hastear bandeiras.

Suíça

Zoë Më, “Voyage”

O pais anfitrião fez as contas à vida e disse “Organizar isto custa um dinheirão. Fora de questão fazer isto outra vez para o ano! O que a gente gastou a alimentar esta gente com raclettes, dava um juro bem jeitoso numa das nossas instituições bancárias. Mas também não vamos mandar uma pessegada qualquer que parece mal… Já sei! Manda aquela pequena, a Zoë. Canta bem, tem bom gosto, zero hipóteses de ganhar.”

Malta

Miriana Conte, “Serving”

Prometeu tudo, entregou o que a organização deixou. Miriana foi apurada com um tema, apresentou-se na final com a versão MTV do mesmo e até o título teve que mudar. Do ofensivo Kant para o family friendly Serving. A letra fazia um trocadilho entre o nome do filósofo alemão e a expressão “serving cunt”. Sendo que “kant” em maltês significa cantar, imagine-se. Uma coisa fica clara: na Eurovisão, Quim Barreiros não se safava.

Portugal

NAPA, “Deslocado”

Não era a minha música favorita, mas até foi daquelas que a quem me fui afeiçoando de escuta em escuta. As casa de apostas davam Portugal em último lugar e aqui estamos nós e bem, digo eu. Foi a única prestação desta edição em que senti uma banda em palco e isso foi refrescante. Acho-os um fofos, eu adoro poncha, eles de poncha gostam, a música é boa, a letra ainda mais e foi hoje melhor cantada do que na semi-final, em o que o vocalista acusou o nervosismo. E é minha convicção, sendo que posso estar enganada (o que acontece amiúde), que a matilha de hienas que foi para as redes sociais arrasar este simpático grupo de jovens madeirenses muito contribuiu para isso.

Dinamarca

Sissal, “Hallucination”

Electropop dançável, bláblábá, coreografia impactante, bláblábá, refrão orelhudo, bláblábá, veio aqui fazer a festa, rebéubéu pardais ao ninho. Ultimamente, a Dinamarca raramente tem chegado à final. Não era o ano para quebrar este ciclo. Fun fact: o meu marido adormeceu a meio desta.

Suécia

KAJ, “Bara bada bastu”

Diz que são os favoritos da casa de apostas. Não concordo e não é para ser diferentona, juro. Mas, para mim, na minha opinião pessoal, mesmo minha não de outra pessoa qualquer Bara bada bastu (Bora para a sauna!) não é bom o suficiente, emocionante o suficiente ou divertido o suficiente ou chalupa o suficiente para me entusiasmar. Mas vai que ganha e eu também não me vou indignar por aí além. É o chamado é o que é.

França

Louane, “Maman”

Os brasileiros têm uma expressão ótima para piadas infantis, escatológicas, primárias: “de quinta série”. Eu sou imatura, não cresço, não tenho vergonha na cara e este momento “quinta série” é uma prova irrefutável disso. Sucedeu durante a atuação de Louane, lá para aos 2 minutos e picos (ver aqui) se dá um efeito de canhão de fagulhas por detrás da gaiata, que a mim me deu uma sensação que ela estava a experiência um momento de diarreia explosiva em palco. É interessante pensar que há grandes probabilidade de Louane ganhar e estou a associar a potencial vencedora desta edição a cocó. Parabéns para mim.

São Marino

Gabry Ponte, “Tutta l’Italia”

Parece o hino de uma claque. É sobre encher a cara, ser o carro vassoura da movida, acordar em cama incerta. Cada país tem o “Beber, cair e levantar” que merece e a São Marino, país que só descobri graças aos “Jogos Sem Fronteiras” (diz-me que és idosa, sem me dizeres que é idosa. Saudade eterna, Eládio Clímaco e Ana do Carmo), calhou isto. Um tema cujo autor é um DJ e os intérpretes estão em palco com naprons na cara. Ouvimos, mas julgámos.

Albânia

Shkodra Elektronike, “Zjerm”

Quando andava na faculdade, em Ciências da Comunicação e da Cultura (caso estejam interessados), tive uma cadeira de Economia para a Comunicação (seja lá o que isso for) de que guardo duas memória: aprendi a fazer a curva da oferta e da procura e nunca consegui chegar à página 5 da Introdução à Economia do Paul Krugman. Se calhar foi por isso que quando ouvi o Malato dizer na semifinal que “Na economia da Eurovisão, faz sentido passar a Albânia”, lamentei não ter chegado a esse capítulo, porque isto para mim não tinha passado de maneira nenhuma. Mais uma dupla eletrónica banal, mas ao mesmo tempo meio assustadora, no que ao contacto visual entre os dois integrantes diz respeito. É minha profunda convicção que quando este dois regressarem ao hotel acontecerá uma de três coisas: a) sexo selvagem; b) um pacto de sangue c) vão retomar o jogo do sério que começaram em palco, passa a noite a sugar o dedo grande do pé direito do vencedor.

Enquanto esperamos pelos resultados, vamos ao balanço da cerimónia. De forma coerente, Suíça apresentou um espectáculo eurovisivo à sua imagem e semelhança: neutro. Confesso que defraudou as minhas expectativas, porque as semifinais foram bem mais divertidas do que a final, que se resumiu a performances de Nemo, o vencedor de 2024, reinterpretações de The Code, o tema de Nemo, e pouco mais. Nada como o belo momento musical Made in Switzerland ou a homenagem a Céline Dion em que Iolanda partiu a louça toda. As apresentadoras estiveram bem, com destaque para a comediante Hazel Brugger, que é a cara chapada da Cara Delevingne e que teve uma performance muito Filomena-Cautelesca.

Quantos aos resultados, se chegaram aqui, acho que não é difícil perceber o meu estado de espírito. Haveria muito coisa que podia dizer, mas os meus advogados não permitem que me adiante. Continuo a achar o JJ um fofo, mas aquela subida arrepia — e não em sítios bons. A European Broadcasting Union deve estar contente, porque consegui evitar as temidas bandeiras arco-íris, porque a Eurovisão é um espaço “apolítico”. Está visto que sim… Mas não se perdeu tudo. Afinal, o Sporting é bicampeão.