Numa época em que o mercado europeu e norte-americano de festivais de música se encontra em declínio — com uma saturação provocada pela quantidade massiva de eventos, a repetição de cartazes ou o aumento dos preços e dos custos — eis que de Angola surge uma pequena luz no horizonte chamada Canjala. Trata-se de outra realidade e de outro mercado, é certo, mas há lições desta experiência com saldo mais do que positivo, que se tem vindo a cimentar no hemisfério sul.
Tudo começou em 2017, com uma festa informal de quintal em Luanda que, numa cena digna de filme, atingiu proporções épicas. Hoje, a Canjala é um evento profissional que recebe cerca de cinco mil pessoas na zona exterior do Centro de Conferências de Belas, na capital angolana. Tem sido um exemplo e uma influência para o ecossistema local de organização de eventos, ao mesmo tempo que é disruptivo em várias frentes. O Observador acompanhou a edição de 2025, que se realizou a 27 de dezembro, ao longo de mais de 12 horas de festa.
A ideia pode ser uma espécie de anti-climax para os padrões europeus, mas dezembro é o mês em que tudo acontece em Luanda. Marca o início do verão em Angola, celebram-se o Natal e o Ano Novo, muitos emigrantes regressam para o período de festas e há eventos dia-sim, dia-sim — para todos os gostos, contextos e carteiras — numa cidade onde vivem mais de oito milhões de pessoas, de acordo com os dados dos Censos de 2024.
Ao longo da sua história, a Canjala tornou-se um festival de culto. Os bilhetes esgotaram há vários meses e há quem venha de quase todas as províncias de Angola — ou mesmo do estrangeiro, com 16 nacionalidades presentes entre o público — para participar naquela que para muitos é a festa do ano. O cartaz não só é secreto, tendo em conta que nunca é divulgado previamente, como pouco importa — na verdade, é o público e o próprio ambiente da Canjala que são, ano após ano, os protagonistas da noite.
De aniversário “doido” no quintal a festival para cinco mil pessoas
Chegamos ao recinto poucos minutos depois das 19 horas, momento de abertura do festival, e sente-se de imediato o burburinho nas imediações. Existe um forte dispositivo policial e de segurança em torno do local, uma fila ordeira para entrar e passar pela revista, e os festivaleiros são logo presenteados com uma pulseira luminosa que muda de cor consoante o ritmo da música e com um copo que se ilumina assim que é preenchido por alguma bebida. Dentro de um universo futurista e tecnológico, cada edição da Canjala tem um tema diferente — que se nota sobretudo no ambicioso design de palco, desta vez uma enorme máquina de arcade, com as laterais de palco a serem representadas por gameboys, numa viagem retro ao mundo dos videojogos.
Para chegarmos ao parque do festival, e mantendo a ideia de jogo, temos de passar por um pequeno labirinto até alcançarmos o túnel iluminado que marca a entrada oficial no recinto. O entusiasmo paira no ar, foi um ano de espera pelo regresso da Canjala, e pelo caminho deparamo-nos com arcas repletas de gelo a transbordar latas de cerveja ou refrigerantes. O bilhete custa 60 mil kwanzas, o equivalente a cerca de 55 euros — o que faz com que seja um evento frequentado por uma classe média, tendo em conta que é um valor superior ao salário mínimo, numa sociedade onde realidades muito distintas coexistem — mas toda a alimentação e bebidas estão incluídas no preço do ingresso.
▲ Ambicionam organizar uma Canjala de grande dimensão, mas têm a consciência de que não será de um momento para o outro, que precisam de ir crescendo aos poucos como têm feito até aqui
Do final da tarde até ao início da manhã, qualquer uma das cinco mil pessoas pode comer e beber o que quiser — mantendo o espírito de uma festa de quintal angolana, onde o ambiente é familiar e não se paga por provar isto ou aquilo. Os toldos que percorrem todo o recinto nas laterais do palco informam quais são as iguarias da noite, as mesmas todos os anos: o tradicional cabrité do norte de Angola, o frango no churrasco, os hambúrgueres, o boi no espeto, as bolas de Berlim ou as bancas de cocktails e máquinas de cerveja.
Para que tudo flua com rapidez e para que não se perca tempo desnecessário nas filas, cada banca tem um semáforo que se vê do outro lado do recinto — o “verde” significa que a respetiva comida está pronta e é só ir buscar; o “vermelho” indica que estão a preparar mais uma fornada para os festivaleiros. Além de algumas ativações de marca de dois ou três patrocinadores — que, tendo em conta o tema deste ano, também incluem jogos — existe ainda um stand de massagens e uma banca de maquilhagem (os únicos dois serviços pagos no interior da Canjala), onde os festivaleiros podem relaxar e preparar-se para a batalha do ano com pinturas de inspiração tribal.
Canjala não é uma palavra de qualquer língua nacional de Angola — as mais conhecidas são o umbundu, o kimbundu e o kikongo, mas há muitas outras — mas sim o nome de uma localidade na província de Benguela. É uma das muitas terras, no extenso território angolano, que ficaram associadas a conflitos durante a guerra civil que se estendeu desde a independência no pós-25 de Abril, em 1975, até aos acordos de paz em 2002.
“Já estamos em paz há muito tempo, mas não se estava a fazer um rebranding dos nomes associados à guerra”, explica ao Observador um dos principais organizadores da Canjala, Mauro Sérgio, um criativo especializado em marketing que é um dos líderes da Team Arrogância, coletivo responsável pelo evento. “Vi a possibilidade de começar a brincar com a situação e fazer um rebrand, dando um significado mais positivo a cada nome.”
Foi no seu quintal que tudo começou a 1 de julho de 2017. Mauro Sérgio fazia 28 anos e já era conhecido entre os amigos pelas festas que organizava para celebrar o seu aniversário — algo que por si só já é comum na cultura angolana. “Todo o angolano é um potencial organizador de eventos”, acredita. “Crescemos com ajuntamentos, há sempre alguma coisa ao fim de semana, a família está junta, há sempre uma reunião, mesmo com pouco havia sempre alguma coisa. Crescemos com os churrascos, as feijoadas e aquelas festas em casa.”
Como não podia passar das 40 ou 50 pessoas em casa, Mauro Sérgio implementou uma política que viria a marcar o seu futuro e revelar-se uma eficaz técnica de marketing. “Eu não convidava as pessoas, eu convocava-as. Tens de aparecer a não ser que aconteça algo de força maior. Se não vieres, já não te chamo para a próxima.”
Na festa de 2017, Mauro Sérgio estava, como habitualmente fazia, a passar música no seu quintal. Por volta das 21 ou das 22 horas, foi para a cozinha com a noiva — hoje sua mulher e parceira na Canjala — preparar caipirinhas para os convidados. Quando regressou ao quintal, encontraram a casa recheada de desconhecidos. “Do nada, eu não conhecia ninguém”, recorda. “Aparentemente, alguém tinha feito um Snapchat com a localização da minha casa e a hashtag #Jamba2017. Jamba é outra terra de Angola que ficou conhecida pela guerra, e nós chamávamos Jamba ao meu quintal porque começávamos às 16 horas e íamos até às oito ou nove da manhã. Diziam que era guerra, que isso nos ia matar, então era a Jamba!”
A mensagem propagou-se rapidamente online e as imagens de uma festa a fervilhar atraíram mais e mais curiosos. “As pessoas acabaram por tirar as colunas do meu quintal e meteram no meio da rua, fecharam a rua com os carros, acenderam os faróis… E eu voltei a ser o DJ. Começaram a aparecer jogadores de futebol, músicos, os meus vizinhos mais velhos juntaram-se, foi uma coisa doida.” Inclusive, um artista que era para ter tocado nessa noite num evento público de grande dimensão na Marginal de Luanda acabou por não comparecer porque estava demasiado entretido na festa de aniversário de Mauro Sérgio.
“Quando fui para a cama, lá para as 10 horas, pensei que tínhamos ali algo interessante. No dia seguinte, era #Jamba2017 por toda a Internet. E também apareceram aquelas pessoas a dizer que estávamos a brincar com a história do país, que não éramos sérios… Mas percebi que tínhamos os condimentos certos para apimentar a situação e juntei uns amigos para nos organizarmos e experimentarmos fazer algo em dezembro.”
O primeiro evento oficial chamou-se Zenza do Itombe, outra localidade angolana marcante na história da guerra civil, palco de um massacre a um comboio. Engenheiro de formação, Mauro Sérgio é um empreendedor e criativo que se move entre diferentes áreas profissionais. Apaixonado por fotografia, sempre percorreu Angola para fotografar pessoas, natureza e os animais selvagens que povoam as províncias rurais — aliás, desde 2017 que trabalha como fotógrafo da National Geographic no país, embarcando regularmente em expedições. Zenza do Itombe era um local pelo qual tinha passado diversas vezes. “Quem não nos conhece vai atacar-nos por achar que estamos a falar do que aconteceu com aquele comboio, mas quem nos conhece sabe que estamos a falar de conhecer e celebrar o nosso país.”
Fizeram um primeiro evento para 300 pessoas, mantendo o registo das convocatórias — só quem fosse convidado poderia aparecer, os anfitriões ofereciam a comida e os convidados levavam as suas bebidas. Criaram mesmo um site para a festa, “o que não era normal até porque havia muitas empresas sérias sem sites em condições naquela altura”, até porque pretendiam criar um burburinho e divulgar no mercado as diferentes valências que possuíam. “Qualquer empresa que vir isto vai querer saber: quem está a fazer isto? Como é que está a conseguir?”
O grande problema no Zenza do Itombe é que os amigos convocados decidiram levar mais amigos. Rapidamente a festa encheu ao ponto de terem de encerrar o portão, deixando pessoas convidadas do lado de fora. “Para quem estava fora poder entrar, quem estava dentro tinha de sair. Mas também não íamos abrir a porta e selecionar: ou entram todos ou ninguém entra. Na altura, ainda fazíamos aquilo com a ideia de que nos pudéssemos todos divertir, mas de repente eu já não conseguia ser DJ enquanto estava a organizar as coisas e o meu amigo Ricardo [Buta, responsável pela segurança dos eventos] já não se conseguia divertir porque estava a lidar com as situações na porta.”
▲ A programação inclui sobretudo DJs angolanos, especialistas em fazer a multidão vibrar com a música local, do semba ao rebita, da kizomba ao tarraxo, do kuduro ao afrohouse
Planearam outro evento no ano seguinte, para abril de 2018. Tinham suscitado o interesse de uma marca patrocinadora, que quis reunir com Mauro Sérgio, Ricardo Buta e outros dos organizadores, mas uns dias após a reunião ainda não tinham recebido quaisquer notícias. “Mauro, isso não vai rolar. É melhor esqueceres este evento”, ter-lhe-á dito um amigo com contactos na empresa. “Não, isso já acabou, na era da Internet não é assim… Sem dizer nada a ninguém, fui ao Facebook e publiquei: #Canjala2018. Fui dormir. Quando acordei, o post estava cheio de comentários! Acho que vamos mesmo ter de organizar isto.”
A primeira Canjala, nome que se revelaria uma marca tão forte que permaneceu até aos dias de hoje, também não esteve livre dos seus contratempos. Afinal, Mauro e os amigos foram aprendendo com os reveses, ao lidar com as dores de crescimento, para terem hoje um modelo aprimorado de festival. Só cabiam 600 pessoas na primeira edição da Canjala, mas muitas mais apareceram.
“As pessoas começaram a saltar o muro. Informaram-nos, dissemos que aquilo tinha de acabar, que íamos lá meter seguranças, mas quando chegámos eram mulheres bonitas a saltar o muro, sapatos a voar, uma delas com um pé dentro e outro fora: ‘então, não nos vão ajudar?’ Fomos lá para retirar as pessoas, demos por nós a ajudá-las a entrar. O Ricardo meteu as mãos na cintura, desesperado com a situação. ‘Já perdemos, isto já não nos pertence mais’, disse-lhe. Só temos uma solução: vamos acelerar este evento, distribuir shots para ver se alguns começam a sair, porque se não, não vai dar…”
Não será o ditado mais popular ou sensato, mas a solução foi colocar gasolina na fogueira. No final da noite, após um “autêntico caos” que se revelou uma “festa lendária”, ficaram com três paredes enormes de grades de cerveja e outras bebidas que as pessoas tinham levado. “Tivemos de convidar as pessoas da zona para virem buscar bebidas… Com 600 grades de cerveja eu abria um negócio ou fazia um evento de bar aberto para três ou quatro mil pessoas, não é possível”, brinca. “Mas quando cheguei a casa naquele dia, não consegui dormir. A ficha caiu-me. As pessoas poderiam ter batido com a cabeça enquanto saltavam o muro, se acontecesse algo de grave seríamos nós os culpados.”
O próximo passo seria organizar uma nova festa em dezembro, desta vez com o nome de Cuito Cuanavale, mais uma terra associada à guerra civil. Desta vez, esperavam duas mil pessoas e lançaram mesmo uma aplicação de venda e gestão de bilhetes, a Uzeka. Já não era suposto ninguém levar nada, simplesmente pagar um valor de entrada e receber em troca um bar aberto e uma noite sem fim de petiscos, modelo que mantêm — por isso mesmo, nos dias de hoje precisam de 250 barris de cerveja, 30 mil latas de refrigerantes ou 350 paletes de água, só para referir alguns números —, sem nunca terem abandonado a ideia das convocatórias.
A diferença é que, atualmente, os clientes mais antigos que recebem convocatórias por parte da organização podem comprar múltiplos bilhetes, levando os seus amigos para a festa. Como sempre, houve um revés no Cuito Cuanavale que representou mais uma aprendizagem: atraíram tanta gente para o recinto numa zona residencial de Luanda que a rede móvel foi abaixo e perderam os scanners para registar os ingressos. Nessa noite, além dos DJs que já contratavam, elevaram a fasquia ao receberem artistas importantes de kuduro como Nagrelha, Puto Prata e Pé do Galo. Ao aperceberem-se da força do nome Canjala, preferiram manter a marca de 2019 em diante: na primeira Canjala promovida no mês de dezembro, esgotaram os dois mil bilhetes numa só noite.
A pandemia, naturalmente, obrigou-os a fazer uma pausa. Ao mesmo tempo, graças ao trabalho de Ricardo Buta no universo do fitness, lançaram em conjunto outras iniciativas e eventos complementares ao longo do tempo. Quando regressaram em 2022, decidiram iniciar as hostes em abril com outro evento. Se a Canjala haveria de ser a “batalha” de dezembro, a festa guerreira, procuraram equilibrar com o evento primaveril que se mantém desde então e que são os Acordos de Bicesse — o nome referencia as negociações de paz ocorridas no Estoril em 1991, mediadas por Portugal, que estabeleceu um cessar-fogo, o multipartidarismo e a criação de um único exército oficial entre os dois principais partidos e opositores, o MPLA e a UNITA, embora a paz definitiva só tenha sido alcançada uma década mais tarde.
A primeira edição do festival Acordos de Bicesse levou mais de três mil pessoas e representou o verdadeiro “ponto de viragem” para se tornar um evento profissional direcionado a um público geral. “Eu estava na porta, como sempre, e já não conhecíamos 80% do público”, conta Ricardo Buta ao Observador.
Uma festa identitária angolana, sem zonas VIP nem classes sociais
As diferentes localidades associadas à guerra civil que acabaram por fixar o nome Canjala têm uma narrativa subjacente de fazer um festival autêntico angolano — recuperando o orgulho nas raízes e replicando a típica festa de quintal mas numa escala superior e profissional.
“Muitos festivais que existem ou existiram em Angola têm muito a ideia de reproduzir o que acontece lá fora. Eu que já fui ou estou lá fora, porque é que vou ver isso em Angola? Uma réplica que nem sequer vai ser tão bem feita? Queremos chegar mais longe fazendo algo que é daqui e que nasceu aqui. A Canjala permite-nos isso, fazer algo que noutros mundos talvez não estejam ainda a arriscar”, comenta Mauro Sérgio sobre a experiência de entretenimento que criaram, mais do que um mero festival.
É um esforço notório em múltiplas frentes. Num país e num circuito muito virado para o que se faz internacionalmente, apostam nas comidas tradicionais regionais ou em bebidas como a capuca (semelhante ao rum) ou o maruvo, feita através da fermentação da seiva das palmeiras. “Havia um estigma porque são bebidas rurais, não podiam existir num evento cool. Hoje toda a gente tem e procura, até nos eventos mais finos. Tal como as canecas de alumínio, com que crescemos na casa dos nossos avós. O angolano é uma coisa quando põe o pé fora de casa e é outra dentro de casa. E nós queremos o angolano que está em casa. Não queremos aquele que fica de fora a mentir — e a mentir-se a si próprio. Se o cabrité não fosse bom e não valesse a pena, não seria a sensação que é. Quando ficou cool, toda a gente passou a meter cabrité nos seus eventos, passou a haver uma procura.”
▲ Trata-se de outra realidade e de outro mercado, é certo, mas há lições desta experiência com saldo mais do que positivo, que se tem vindo a cimentar no hemisfério sul
De forma espontânea, e num contexto narrativo em torno da ideia de guerra, tal é a intensidade da festa, grupos de amigos que vão aos eventos desde o início começaram a agrupar-se e a identificar-se em determinados clãs, a que deram o nome de batalhões. Se inicialmente eram apenas palavras ou slogans para utilizar nas redes sociais, hoje são organizações que são parte essencial do espírito da Canjala. Existem 13 batalhões oficiais, cada um com bandeiras e uniformes próprios. Há o Batalhão Maruvo, a Frente Sul, a Frente Norte, o Batalhão Paracuca ou, entre outros, o novíssimo Batalhão Comarca de Viana, a cuja estreia assistimos nesta Canjala. São pequenas comunidades integrantes de uma comunidade maior que ajudam a fortalecer os laços e a criar um verdadeiro sentimento de pertença e um espírito coletivo que é a chave para o sucesso — nas redes sociais multiplicam-se as descrições de que o festival aconteceu a 27 de Canjala de 2025, como se dezembro já fosse, acima de tudo, o mês da Canjala.
Os batalhões ganharam entretanto uma vida própria e organizam atividades ao longo do ano, desde campeonatos de futebol a programas de apoio social e iniciativas de doação de sangue. “Têm o seu próprio mundo a acontecer”, atesta Mauro Sérgio.
Tal como na lógica das convocatórias, para continuarem a existir os batalhões têm de aglomerar muita gente e mostrar a sua força festiva na Canjala, entrando quase como uma claque desportiva pelo recinto adentro, mas sempre numa lógica saudável de competição e comunhão. À medida que as horas passam, as camisolas dos diferentes batalhões vão-se misturando no meio da multidão, com as fronteiras entre grupos totalmente diluídas. A festa chega a ser tão intensa que há quem saia de ténis nas mãos depois de uma noite inteira a massacrar os pés.
“Se vierem com pouca força, acabam extintos”, remata Mauro Sérgio, apontando que também é uma medida que contribui em muito para a segurança. “Se uma pessoa de confiança trouxer 50 pessoas, provavelmente são pessoas como ela, a nível de carácter, comportamento, porque são pessoas amigas. E qualquer pessoa dessas sabe que está lá por causa dessa pessoa que a convidou — e que a organização consegue chegar a ela, por isso se fizer algo que a comprometa, podemos suspender toda a gente que vinha com essa pessoa, então compromete todo o anel de amizades. Imagina que não podes ir ao evento mais cool da cidade porque o teu amigo lutou com alguém!”
O efeito de co-responsabilização contribui tanto para a sensação de segurança como os 300 seguranças, os 50 polícias no exterior do recinto, os 45 bombeiros, uma equipa à paisana que vai percorrendo o recinto ao longo da noite para assegurar que não há qualquer problema e as 25 câmaras de vigilância no recinto e nos acessos, de acordo com números da organização, que tem uma política de tolerância zero relativa a violência, assédio e drogas. Quando metade das pessoas já estão no interior do recinto, fazem um aviso de segurança a partir do palco, lembrando as regras em vigor e a localização das saídas de emergência. À meia-noite, quando encerram as portas e a festa só decorre lá dentro, há um novo aviso a soar das colunas do palco, demonstrando que a segurança é uma das grandes prioridades para a organização.
A programação inclui sobretudo DJs angolanos — nomes como DJ Relâmpago, DJ HD ou DJ O-Mix —, especialistas em fazer a multidão vibrar com a música local, desde os tradicionais semba e rebita ao balanço quente e lento da kizomba e do tarraxo, passando pela energia apoteótica do kuduro e do afrohouse. “Queremos sempre ter pelo menos oito horas de música produzida em Angola, só assim temos uma identidade nossa.” Conhecido pelo talento para a dança e pela vivacidade inesgotável, o público angolano não desilude numa festa em que o mote é dar tudo aquilo que têm, numa altura em que muitos estão de férias e a libertar toda a energia antes de um novo ano. Pequenas ou grandes, as rodas abrem-se naturalmente entre a plateia para que os dançarinos mais inspirados mostrem os seus movimentos no centro dos holofotes. Noutras músicas, a ocasião é para dançar a dois como num baile.
Nas últimas edições, a Canjala programou artistas internacionais. Desta vez, levaram o DJ belga Hide N Seek, que os organizadores haviam visto no famoso Tomorrowland, para um set de EDM. Outra aposta e novidade para esta edição foi, para marcar o nascer do sol às 5h30, levar a banda Nova Energia — quase 20 músicos em palco a entoar clássicos semba para uma multidão que só abandonou o recinto já pela manhã.
Desde o início dos eventos que tocam o hino de Angola, mais um indício do caráter identitário da Canjala. Para muitos, só depois de passar o hino é que a festa começa verdadeiramente. “O nosso hino tem uma frase muito importante, ‘um só povo, uma só nação’. E no nosso dia a dia enfrentamos diversas situações que nos desunem”, aponta Mauro Sérgio. “É importante reafirmarmos a toda a gente que somos um só povo, uma só nação. Temos de semear agora para que os nossos filhos possam aproveitar a sombra da árvore. E isso é um grande desafio porque instalou-se a ideia de que não podemos fazer nada e que tudo tem que vir de cima. É claro que há coisas — como o governo — que nunca vamos conseguir substituir, mas o princípio de união, de olhar para o outro como meu igual, se isso não vem das instituições que nos governam, temos de encontrar uma forma de transmiti-lo aos outros.”
O discurso de Mauro Sérgio está diretamente ligado a outro pilar da Canjala, que é ainda mais disruptivo numa cidade — que foi considerada a mais cara do mundo na década passada — onde a cultura do estatuto e da vaidade está bastante presente. Neste festival, não há quaisquer zonas VIP nem diferenças de tratamento.
“Dizemos para trazerem roupa confortável, não é para virem com roupa cara até porque ninguém quer saber quem és fora daqui. Dizemos para virem da forma mais despretensiosa possível porque isto é sobre diversão. E um presidente de um banco ou um artista famoso consegue sentir a sua identidade protegida, consegue estar naquele espaço e ter um momento em que não é tratado como um acessório de luxo. Até os políticos vão, de vários partidos, e encontram-se e toda a gente os vê. A nossa missão como organização é garantir que isto permanece, que isto continua — o que é raro aqui em Angola. No início, as empresas não nos patrocinavam nem queriam parcerias connosco, mas tudo o que fazíamos, imitavam. Hoje já nos conseguimos afirmar no mercado.”
▲ Pretendem manter sempre o conceito da festa de quintal angolana, bem como a época do ano, até porque é um momento em que “a temperatura convida” a que todos se juntem à celebração
Com um padrão de qualidade a que habituaram o público e com um número crescente de procura, Mauro Sérgio, Ricardo Buta e a sua equipa não têm mãos a medir face à avalanche de chamadas telefónicas e pedidos de bilhetes nos dias antes de cada Canjala, quando os ingressos já se encontram esgotados e as convocatórias distribuídas há muito. Não abrem exceções, seja para quem for, o que num país como Angola exige alguma coragem, sobretudo quando são pedidos vindos de figuras ligadas ao Estado.
Quanto ao futuro, ambicionam organizar uma Canjala de grande dimensão, mas têm a consciência de que não será de um momento para o outro, que precisam de ir crescendo aos poucos como têm feito até aqui. “Queremos ir até onde a Canjala nos deixar, porque realmente tem uma vida própria. Às vezes tenho vídeos para partilhar, mas sei que só vai aumentar o hype e nem partilho, porque já estamos numa fase em que não queremos mais pressão. Já há indivíduos a que é complicado dizer que não”, admite Mauro Sérgio.
“Sonhamos fazer isto com 20 ou 30 mil pessoas. Temos estado a aceitar os obstáculos que nos impedem e ir crescendo até onde o nosso braço consegue chegar. É difícil ter um horizonte temporal porque há coisas que precisam de acontecer que não dependem de nós. Se decidirmos fazer algo para 20 mil pessoas, na minha cabeça é descabido fazê-lo sem o apoio do governo: de quantos polícias vamos precisar? Não é só um pedido normal ao comando policial de um município. Vão precisar mesmo de enviar um número de efetivos do comando provincial. Vamos precisar de casas de banho externas, a logística explode a um nível tal que tentarmos fazer por meios próprios, mantendo um valor aceitável… Não acredito que seja possível.”
Pretendem manter sempre o conceito da festa de quintal angolana, bem como a época do ano, até porque é um momento em que “a temperatura convida” a que todos se juntem à celebração, sem grande concorrência no hemisfério norte. Também gostariam, eventualmente, de organizar edições da Canjala fora de Luanda ou mesmo fora do país, mas esses passos também implicam desafios logísticos e custos acrescidos.
“Às vezes olhamos para os números da Europa: 5 mil na Europa é uma coisa pequena, 20 mil já começa a ser interessante, mas conhecemos festivais europeus que levam 100 mil pessoas. Só que o nível logístico é absurdo, são cidades que conseguem comportar esse número de pessoas. O que acontece quando meto cinco mil pessoas que não querem, por exemplo, pagar hotel? Imagina que querem acampar ou ficar em casa das suas famílias — ou voltar, que é pior. E o fluxo de consumo nos restaurantes? A decisão de mover uma marca que faz com que muita gente se comprometa a ir não pode ser tomada de forma leviana. E se não houver voos suficientes? Até vamos precisar de nos coordenar com as companhias aéreas. Não posso pedir às pessoas para voarem cinco dias antes, elas trabalham. Gostaria até de fazer a Canjala na Canjala, até já fui ver um espaço, mas isso seria toda uma operação… Talvez um dia!”
O Observador viajou a convite da Canjala