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LUIS FERREIRA

LUIS FERREIRA

Capicua: "Houve pessoas que foram pela primeira vez a um concerto de rap porque eu fiz música" /premium

Sem meias palavras, sem falsas modéstias, sem falinhas mansas. Em entrevista, a rapper e cantora fala do seu novo disco, do hip-hop português e do seu percurso. "Não sei se faço mais discos", revela.

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O alerta vem logo num dos primeiros singles revelados de Madrepérola, o próximo álbum da rapper e cantora portuense Capicua, que chega na próxima sexta-feira (24 de janeiro) e sucede aos discos anteriores Língua Franca — que fez com os rappers Valete, Rael e Emicida —, de 2017, Mão Verde, de 2016, o álbum de remisturas Medusa, de 2015 e Sereia Louca, este último a sua afirmação definitiva no hip-hop e na música portuguesa.

Num tema em que se ouve uma gravação de Amália e um refrão de Camané, no qual Capicua dispara farpas para a crítica musical e para os puritanos do hip-hop (que “desdenham do sucesso”), ouve-se uma frase inesperada: “E aproveitem este disco porque pode ser o último”. Não é bluff, explicou Ana Matos Fernandes, conhecida na música como Capicua, ao Observador: “Não sei se vou ter vontade de fazer mais. Demora-se dois ou três anos a fazer um disco e depois tem uma vida de cinco minutos no vórtice da novidade. Hoje ninguém tem paciência para ouvir um disco inteiro”.

Sorridente e conversadora, sem meias palavras e sem falsas modéstias, Capicua falou de quase tudo ao Observador, não discorrendo apenas sobre um disco novo que soa “mais solar”, como diz, do que os anteriores, mas que ainda assim, dizemos nós, contém algumas das suas melhores rimas e letras na carreira. Não são só os jogos de palavras, porque isto não é só modas e bordados, é a forma como Capicua molda e joga com os múltiplos sentidos dos termos — e o seu léxico é tudo menos básico — para servir um discurso lúcido e refrescante, quer na perspetiva que traz quer nos temas que trata.

Em Madrepérola, Capicua fala de muita coisa, da tendência vigente para o bota-abaixismo (não interessa bem qual é o tema nem qual é o argumento) às discussões atuais sobre o estado do hip-hop, passando por um Porto que está a desaparecer.

Ainda a ouvimos discorrer sobre o amor, o efeito das redes sociais na comunicação e bem-estar, a pressão de lidar com modelos de vida, ou “lifestyle”, impostos como perfeitos (“porque há brunch e sumos detox / laser e botox / porque há secas e dietas / e profetas e blogs”) e as experiências da gravidez e parto que viveu recentemente. É só? Nem por isso, também passam pelo disco as dificuldades de construir uma carreira na música — numa “Carta a Jovens Poetas” possivelmente inspirada pelas cartas de Rainer Maria Rilke —, o machismo no hip-hop e no mundo (“sonho meu é enterrar o machismo no museu”) ou as referências femininas que inspiraram Capicua a ser quem é, citadas abundantemente no tema que dá título ao álbum.

A capa do próximo disco de Capicua, que sai na próxima sexta-feira, 24 de janeiro

Se hoje discute-se muito quanto tempo demora um álbum a ser considerado um clássico no hip-hop, se — como lembrou o rapper e também portuense Keso numa entrevista recente — escasseiam artistas que marquem e mudem o rumo da escrita no hip-hop português, dificilmente Madrepérola não encaixará nas duas categorias. Quando se junta letras como as que Capicua escreve, batidas instrumentais elaboradas ao detalhe e nada simplistas como as aqui presentes (assinadas por Stereossauro, DJ Ride, Minus, Holly, Virtus e a dupla Branko e PEDRO, entre outros) e convidados de luxo como Camané, Karol Conka, Mallu Magalhães, Ricardo Ribeiro, Lena d’Água, Emicida, Rael e Rincon Sapiência, é sinal que os ingredientes estão todos no sítio.

O disco novo é um mote para ouvir o que Capicua tem a dizer sobre tantos temas, desde a maternidade (“deixamos de ser uma coisa para nos tornarmos mães, é um processo de renascimento”) ao interesse que há pelo “arquétipo do artista fracassado e trágico, o tipo incompreendido” — se for compreendido, consensual e popular “já é desinteressante e pouco alternativo”, nem interessa bem o que faz, considera. Reconhecendo o seu papel de relevo no rap nacional, assume ainda sem problemas que muitos ouvintes que não conheciam hip-hop tiveram contacto com esta música por sua causa — e isso “é uma cena fixe” — e diz que há machismo fora do movimento rap e dentro do movimento rap. Este último ainda é “um boys club cheio de gajos que nunca tiveram uma amiga”, embora acredite que isso esteja para mudar, como nos diz em entrevista e como refere no disco.

“Aquilo que está ali é a minha voz grávida de oito meses”

O anúncio do disco chegou com a informação de que o título, Madrepérola, era uma “clara alusão à maternidade”, por ter sido gravado — pelo menos em parte — enquanto estava grávida.
Sim. Foi quase totalmente, até.

Houve algum tema em especial ou alguma parte de alguma letra que reflita mais a sua experiência da gravidez?
Sim. A “Parto Sem Dor” é sobre isso. Mas a “Última Mergulho”, com a Lena d’Água, apesar de não parecer tem muito a ver com a fase pré e pós parto, porque foi a única música a que acrescentei [versos] à posteriori. Houve música que regravei e que alterei, mas essa senti que faltava no disco e escrevi-a depois. É um bocadinho sobre torcer para que tudo corra bem e depois sair invicta no fim. “Para ser motriz cumprindo a função (…) Para ser feliz cumprindo a missão”, que é o que está na letra. É um bocadinho menos óbvia…

"O óvulo de onde nascemos foi criado pelas nossas avós. Criamos os óvulos não para nós próprias, mas para nós próximas — é uma espécie de enxoval genético."

Era aí que queria chegar, porque a “Parto Sem Dor” tem referências mais explícitas.
Sim, a “Parto Sem Dor” é sobre esse processo de transformação, sobre as metamorfoses do corpo e do espírito e sobre a passagem do tempo. É uma letra que na verdade nasceu de uma crónica que escrevi na “Visão” muitos meses antes, sobre a fertilidade, quando descobri que as mulheres nascem com os óvulos que vão ter durante a vida toda. À nascença as mulheres já têm os óvulos todos, o que quer dizer que os óvulos com que vimos ao mundo são na verdade feitos pelas nossas mães e não por nós próprias. De certa forma, o óvulo de onde nascemos foi criado pelas nossas avós. É uma coisa super poética e simbólica, essa cadeia matriarcal de sementes, mas também é fisiológica.

Criamos os óvulos não para nós próprias, mas para nós próximas — é uma espécie de enxoval genético. Achei isso tão poético que na altura fiz uma crónica. Depois quando estava grávida repesquei a crónica e acabei por lhe dar uma abordagem mais emocional. Acabei por resgatar uma lenga-lenga do Sérgio Godinho de 1979, do disco Campolide, que se chamava “Parto Sem Dor”. Levei-a para o universo dos partos e não das partidas. Essa metamorfose também é um processo de luto, porque deixamos de ser uma coisa para nos tornarmos mães. Há uma pessoa que morre para nascer uma mãe, é um processo de renascimento e senti-o um bocadinho. Diria que este é um disco marcado mais pela própria gravidez do que pela maternidade, porque a maternidade é posterior à maior parte das coisas do disco. Fiz uns 85% do disco antes de ter o bebé. Os últimos 15% que faltavam era regravar umas coisas, misturar, masterizar e tratar da parte burocrática — mas esses 15% demoraram tanto ou mais do que a parte criativa, que é supostamente a parte mais longa.

Isso aconteceu pelas consequências da maternidade?
Com o bebé deixei de ser dona do meu tempo, o trabalho deixou de ser uma prioridade. A história deste disco é marcada por esse momento — adiei-o um ano por causa da maternidade, porque se não tivesse tido o bebé já tinha saído o ano passado. O disco é marcado por isso e a metáfora da pérola é um bocadinho isso. É um pouco os desconfortos, os obstáculos que às vezes nos acontecem, não só no ofício de fazer música — que nem sempre é fácil e ainda mais num tempo em que a nossa arte não se coaduna com o tempo do mercado — mas também na maternidade, que é uma coisa que é difícil e cheia de desconfortos, apesar de muito bonita e intensa.

"No geral aquilo que está ali é a minha voz grávida de oito meses", diz Capicua (@ Andre Tentugal)

ANDRE TENTUGAL

É muito habitual dizer-se que quando se está para ser pai ou mãe — mas sobretudo quando se está grávida — é recomendável não sentir muito stress e ansiedade. É possível fazer um disco sem isso?
É possível no sentido em que a parte criativa, que é escrever, e mesmo gravar, não são as partes mais stressantes de fazer um disco. A parte mais stressante é a parte da produção em si, tratar do artwork, do vídeo, da calendarização dos lançamentos, lidar com a parte mais burocrática e contratual. Essas coisas são mais chatas, a parte criativa é a parte que eu gosto.

Claro, é uma fase bastante emocional por causa das hormonas e de toda a novidade, sobretudo quando se trata de um primeiro filho. Acho que a escrita e gravação ficaram um bocadinho marcadas por essas emoções: acho que estava com menos filtros, um bocadinho a marimbar-me para o que as pessoas iam achar do que estava a escrever. Depois para a gravação em si, [a gravidez] condicionou fisicamente a própria prestação porque a minha voz estava diferente.

Ia perguntar-lhe precisamente isso, se é verdade ou é mito que a voz fica diferente — e mais rouca.
Não senti a minha voz mais rouca, senti-a um bocadinho mais aguda. A dada altura já estava com oito meses de gravidez e o diafragma estava bastante subido. Tinha menos fôlego, o que para cantar rap é bastante difícil, porque os pulmões estavam um bocadinho mais apertados [sorri]. Tudo isso fez parte do disco. Houve uma ou outra coisa que depois quis voltar a gravar já quando não estava grávida, achei que fazia falta, mas no geral aquilo que está ali é a minha voz grávida de oito meses [risos].

Há algum tempo, numa entrevista, a cantora Cristina Branco falava sobre como é difícil conciliar a maternidade ou paternidade com uma vida artística, com uma profissão que obriga a estar fora de casa muitas vezes. A Mariza também já falou várias vezes sobre isso. É algo em que tem pensado? Tem-se debatido com isso?
Para já, nesta fase inicial, até tem sido uma coisa boa. Não tive de pôr o bebé na creche porque o meu horário é flexível, trabalho muito em casa. No futuro próximo, quando ele for para a creche ou escola primária, vai ser mais complicado porque os nossos horários são um bocadinho diferentes. A nossa vida [o pai também é músico: Pedro Gonçalves, dos Linda Martini], algo nómada, acaba por não facilitar a que existam rotinas, que é uma coisa de que as crianças em geral precisam. Mas ainda vou descobrir como tudo isso funciona.

Acho, de qualquer forma, que qualquer experiência de maternidade ou paternidade é difícil de conciliar com uma vida profissional. A exigência de tempo e disponibilidade é muito superior à de qualquer profissão no mundo, acho. Se calhar há profissões um bocadinho mais exigentes mas acho difícil, porque [ser mãe ou pai] não tem hora para acabar, são 24 horas, sete dias da semana, 365 dias por ano, para a vida toda [risos]. Acaba por tirar-nos um bocadinho o foco e a energia para tudo o resto. Já por isso é que adiei bastante a maternidade, porque sabia que não poderia ter dedicado os últimos anos da minha vida ao rap da forma intensa com que dediquei.

"Senti que já dominava os temas mais político-sociais e as coisas mais emocionais, mas não dominava aquilo que os brasileiros e africanos fazem com grande classe, que é fazer música alegre que não soe pateta."

Já em 2018 dizia que estava a fazer um álbum mais “solar”. O estado de espírito e a sua vida nos últimos anos também a levaram a querer fazer um álbum deste tipo? Ou não teve nada a ver e foi uma disposição e interesse meramente musicais?
Acho que foram as duas coisas. Os álbuns são sempre um retrato do momento que se está a viver. O facto de estar numa fase feliz e “de esperanças”, como se costuma dizer — esperanças por estar com olhos no futuro e vontade de criar um mundo um bocadinho mais luminoso para a minha cria —, nota-se no disco. O álbum espelha esse momento e essa intenção, mas também foi uma espécie de exercício para mim própria. Em cada disco faço uma espécie de desafio e neste era ir procurar uma abordagem mais solar do que a que é habitual na minha música. Senti que já dominava os temas mais político-sociais e as coisas mais emocionais, mas não dominava aquilo que os brasileiros e africanos fazem com grande classe, que é fazer música alegre que não soe pateta.

Às vezes versando sobre coisas bastante sérias, mas com uma leveza e uma descontração…
Sim. Aquele jeito alegre de ser triste, não é? Consegui durante o processo de escrita de Língua Franca — disco que fiz com o Emicida, com o Valete e com o Rael —  ver de perto essa postura. Os processos criativos do Emicida e do Rael têm um bocadinho disso, aliás o último disco do Emicida, que também saiu há poucos meses, propõe-se a ser uma janela de luz num Brasil que está bastante escuro. A forma como eles criam, a alegria que imprimem no processo criativo e na forma como flirtam com a língua portuguesa, a intuição que têm para ir atrás da melodia ou da rima… tudo isso fez-me pensar que tenho uma forma muito mais cerebral, racional e filtrada de escrever.

Os portugueses têm, em geral?
Acho que temos mais tendência para fazer música melancólica. É-nos mais fácil, conhecemo-la melhor, é cultural. Também bebemos muito disso, o nosso universo de referências e o nosso património cultural vêm muito daí, da melancolia e da saudade. Não falo só da música ou do fado, sequer, refiro-me também à literatura, à forma de estar e às pessoas dizerem “vamos andando” e “saúdinha” quando se lhes pergunta como estão. Muitas vezes pendemos para uma atitude que talvez seja mais tristonha. Isso dá resultados incríveis, temos todo um cancioneiro de letras e músicas incríveis que nascem dessa melancolia e da forma que temos de tratar a língua portuguesa, com o respeitinho e a reverência com que se tratam os avós. Tratamo-la de uma forma muito delicada mas ao mesmo tempo contida, racional, filtrada.

"O mundo está tão anos 1930, a caminho do regresso aos fascismos, às intolerâncias e à pouca empatia, que é preciso fazer música como forma de celebrar a humanidade."

Apetecia-me experimentar o outro lado. Como digo no último tema do disco, “Mátria”, “quando tudo é adverso, eu faço o inverso para que equilibre”. Acho que o mundo está tão anos 1930, a caminho do regresso aos fascismos, às intolerâncias e à pouca empatia, que é preciso fazer música como forma de celebrar a humanidade, não de uma forma patética e alienada mas pro-ativa. Por isso, o disco não é só o retrato de uma época que estou a viver, é também essa proposta que me fiz, esse exercício criativo de pegar nos temas e, mesmo que sejam sérios, ir por um caminho cómico, irónico.

Há alguns temas em que isso é especialmente notório…
Há. A “Gaudí”, por exemplo, é uma música que fala sobre o stress e a saturação do quotidiano, mas no refrão canto “bora colar estes caquinhos e fazer um Gaudí”. O “Quadrado Perfeito” é um tema que fala sobre as redes sociais como fonte de stress, de exigência de perfeição e de ilusão de cidadania online, mas tento falar sobre isso de uma forma irónica, no final até sou obviamente contraditória e sugiro: já que tem de ser, não se esqueçam de fazer like no post. A “Todo Chão Quer Ser Floresta” fala sobre o pós-apocalipse de uma forma otimista, no sentido em que digo que quando nos formos tudo vai virar floresta. Normalmente olhamos para o lado mais dramático, e é dramático obviamente, mas tentei ir pelo lado solar da força.

“Quando um artista é compreendido, consensual, já é desinteressante e pouco alternativo”

Além de convidados portugueses, tem no disco o Emicida e o Rael, com quem trabalhou em Língua Franca, mas também a Karol Conka, o Rincon Sapiência e a Mallu Magalhães. Todos brasileiros. Tem-se falado nos últimos anos de uma tentativa de levar a música portuguesa ao mercado brasileiro — temos exemplos recentes como a Carminho e o António Zambujo, com algum sucesso. No hip-hop vão começando a acontecer algumas coisas, também. Tem uma vontade consciente de ter mais impacto no Brasil com este disco?
Isso nem chega a ser uma ambição porque qualquer pessoa que tenha ido ao Brasil dar concertos ou fazer promoção de um disco sabe que aquilo é um continente. Teria de ter um clone que vivesse no Brasil para tentar algum dia ter algum micro-impacto no mercado musical brasileiro. Tenho noção que esse tipo de internacionalização nem sequer é viável, não é uma questão que se põe.

Sou é uma consumidora de tudo o que é música lusófona e o Brasil é o país que tem mais lusófonos no mundo inteiro. Tem uma produção cultural interessantíssima e não falo só da música, estou a falar da literatura, do cinema, da dramaturgia. Consumo muito a cultura brasileira no geral e o facto de ter tido oportunidade de fazer música com o Emicida e o Rael fez com que criasse algumas pontes que me permitiram convidar para o meu disco pessoas que admiro muito.

Conheceu algumas delas através do Rael e Emicida?
Conheci a Karol Conka e o Rincon Sapiência através do Emicida, do Rael e do Fióti, que é o irmão do Emicida e CEO da Lab Fantasma — a editora deles. Foi uma questão de aproveitar as pontes que fui criando para fazer música com pessoas que admiro imenso. Nunca pensei: vou fazer uma música com esta pessoa e de repente vou ficar conhecida no Brasil. Tenho noção, porque já fui lá algumas vezes, que mesmo indo à televisão, à rádio e falando com a imprensa, para ter uma verdadeira internacionalização seria preciso muito mais. Era preciso um investimento de tempo, dinheiro e trabalho que nunca vou sequer ensaiar.

Agora, não invalida que haja um micro-público que ouviu Língua Franca ou que foi ao festival Terra do Rap, a que fui em 2014, que conheça e siga o meu trabalho. E sendo um micro-público no Brasil inteiro, em comparação com a nossa realidade acaba por ter impacto na demografia dos meus ouvintes. Lembro-me que depois de Língua Franca, durante muito tempo a cidade do mundo em que tinha mais ouvintes era São Paulo. Em segundo estava o Rio de Janeiro, Lisboa estava em terceiro lugar e o Porto que é a minha cidade estava em quarto. Essa discrepância na dimensão dos dois países acaba por fazer alguma diferença, mas não tenho nenhuma ambição de conquistar o Brasil. Era uma proposta inglória à partida.

A “Passiflora” é uma segunda abordagem a um instrumental que tem um excerto da Amália a cantar. A primeira foi a “Flor de Maracujá”, do Stereossauro, em que escreveu a letra para o Camané cantar. A segunda é esta, em que o Camané canta o refrão mas no resto da letra está a Capicua a rappar. Quando estava em estúdio com os headphones a ouvir a voz da Amália, não sentiu um arrepio na espinha?
Senti esse arrepio logo quando ouvi o instrumental pela primeira vez. Aliás, a história desta música é esse arrepio. Já tinha feito um tema para o álbum do Stereossauro, o Bairro da Ponte, que se chamava “Duas Casas”. Até já tinha gravado. Ele depois mandou-me aquele beat e disse-me: olha este que fiz. E eu: não acredito, é incrível, quero esse beat para mim, já escrevi para o teu disco, vais ter de me dar esse instrumental para o meu. Mas depois o Camané acabou por escolhê-lo e acabei por fazer um negócio com o Stereossauro. Acordei com ele que escrevia a letra para o Camané mas depois fazia uma segunda versão para o meu disco.

Senti o arrepio e a responsabilidade logo no primeiro momento. Quando ouvi a música, senti que tinha de escrever e que tinha de estar à altura do chamamento. Gosto muito do tema [“Flor de Maracujá”]. Nem é sequer pela letra, acho que o todo — o instrumental, a letra e a voz do Camané — casou muito bem e que a música é especial. Depois a segunda versão não podia ficar aquém [sorri], quando a fiz já tinha uma fasquia a cumprir, porque se ficasse fraquinha mais valia não ter feito nada. Tinha de ser igualmente intensa. O mote da primeira letra foi pegar nos versos da Amália, “Cantar como quem despe / eu canto este meu sangue / este meu calor”, e falar nisto de cantar não só como ato de generosidade — pomos no canto a nossa emoção, sangue e vísceras — mas como necessidade vital. O mote da segunda já foi: ok, faço isto por necessidade e é um ato de generosidade, mas há muitos embates pelo meio com a realidade: com a indústria, com a crítica, com a tribo… há tantos desconfortos no ofício que precisava de fazer uma certa catarse.

"Damos mais valor aos artistas quando acabam a carreira. Criou-se um culto póstumo. Não acontece só em Portugal, basta ver a quantidade de discos póstumos."

E essa catarse aconteceu. “Eles preferem os mitos dos que poderiam ter sido / os que poderiam ter feito / o que queriam ter ouvido / preferem os mortos / eles fartam-se dos vivos”. Isto é mesmo assim? E quem são “eles”?
Acho que é. Estou a falar de várias coisas e várias dimensões. Acho que há um certo fetiche, também em Portugal, por bandas que já acabaram e que hão-de voltar um dia. É o mito do D. Sebastião aplicado às bandas e aos artistas. Damos mais valor aos artistas quando acabam a carreira. Criou-se um culto póstumo. Não acontece só em Portugal, basta ver a quantidade de discos póstumos de artistas que estiveram não sei quantos anos no ativo. Acho que a finitude da carreira dos artistas é uma coisa muito atraente para o mercado e acho que as pessoas valorizam mais aquilo que já perderam e que pode ou não um dia voltar.

É o fenómeno da nostalgia?
Sim… e acho que há ainda um pouco o arquétipo do artista fracassado e trágico. O Van Gogh dos nossos imaginários, o tipo incompreendido.

Aquele que só é compreendido anos mais tarde? E que quando é compreendido no seu tempo, é sinal que alguma coisa não está bem?
Sim. Quando é compreendido, consensual, mainstream, já é desinteressante e pouco alternativo. Aí quebra-se um bocadinho o romantismo que existe em torno da carreira do artista fracassado e suicida, sofredor, pobre, mas cujos quadros vão valer milhões quando morrer. Estou a falar desse mito.

Quando falo nos “discos que ainda não saíram”, estou a falar na imprensa especializada em música. Há um bocadinho a ânsia de antecipar os discos que vêm, especular sobre o que vai ser o ano em termos musicais, mas depois os discos saem e passado uma semana já não nos ligam nenhuma. Interessa aquilo que não aconteceu, as bandas que hão-de vir e voltar. Aquilo que existe no momento, o quotidiano de trabalho na música que é pouco glamouroso — porque isto é um trabalho como outro qualquer — é um bocadinho desmerecido. Os que estão por aqui no dia-a-dia, que se pode ir ver à ZDB, ao festival ou ao Coliseu, já são um bocadinho desinteressantes porque o que interessa é o inacessível, o que ainda não aconteceu ou que já aconteceu e já não volta.

Também fala nessa letra dos “puritanos que desdenham o sucesso”.
Aí é um bocadinho mais a questão do apreço pelo underground, que acho que tem tendência para desaparecer dentro da própria tribo, no hip-hop. É um bocadinho a ideia que a tribo aprecia os tipos que estão por descobrir, que só são conhecidos dentro da tribo, mas depois quando o resto do mundo descobre excluem-nos unilateralmente porque agora já são transversais e já não são do hip-hop.

“Houve muitas pessoas que foram pela primeira vez a um concerto de rap porque eu fiz música”

Tem uma história já longa e de crescimento no movimento hip-hop. Hoje consegue estar a editar um disco com convidados de renome, com produtores de batidas reconhecidos e numa editora major [Universal]. Vai ouvindo bocas como “agora já é comercial” e “agora já não é underground“?
No meu caso, nunca aconteceu muito porque fiz sempre música alternativa e nunca me esforcei muito para ser mainstream ou consensual — apesar de às vezes chegar ao circuito mediático. Cheguei ao público mais transversal, nomeadamente com o [disco] Sereia Louca e em especial com a [canção] “Vayorken”, mas foi um acaso, não aconteceu de forma consistente ao longo da minha carreira. Depois desse tema, não tive uma agenda de êxitos radiofónicos propositados. Fiz sempre música alternativa e as pessoas percebem isso. Mesmo o pessoal do hip-hop percebe isso, quem me ouvir percebe que não me orientei propositadamente para esse mercado. E se não fiz “hits” de verão, não é por não saber como.

Interessa-me fazer a música que faço, música alternativa, não me interessa fazer 300 concertos por ano nem ser platina. A minha proposta não é essa, nunca foi e acho que as pessoas perceberam isso. O que acho que não perceberam é que é um bónus para mim e para a cultura hip-hop ter um público transversal, com pessoas muito diferentes, de idades e de  diferentes. Chegares a um concerto meu e veres crianças, idosos, mulheres de 40, homens de 60 e adolescentes de 16 é uma cena fixe, é uma conquista. Houve muitas pessoas que foram pela primeira vez a um concerto rap porque eu fiz música. Houve muita gente que perdeu o preconceito em relação ao rap porque as minhas letras são poéticas ou bem escritas. Não tenho nenhum tipo de modéstia em relação a isso, houve portas que se abriram pela primeira vez para um concerto rap porque eu fiz música. Isso é uma cena fixe.

"A partir do momento em que tive abertura a outros públicos, acabei por sentir que muitas pessoas no meu contexto de origem, o hip-hop — do qual sou muito orgulhosa e agradecida —, deixaram de contar comigo para as estatísticas. Quase que excluíram-me naturalmente do clube."

Se falarmos do rap feito por mulheres, então, é inédito. Há um antes e um depois da Capicua no rap português, é factual.
Sim. Nunca uma mulher tinha feito uma carreira com longevidade no rap em Portugal e eu consegui isso. Esses méritos acho que não são devidamente reconhecidos. A partir do momento em que tive abertura a outros públicos, acabei por sentir que muitas pessoas no meu contexto de origem, o hip-hop — do qual sou muito orgulhosa e agradecida —, deixaram de contar comigo para as estatísticas. Quase que excluíram-me naturalmente do clube por acharem que eu já não correspondo àquele arquétipo habitual do rapper que tem um público jovem, que faz músicas sobre os temas habituais, que se apresenta com a estética comum, que fala com o calão habitual. Realmente não correspondo a esse arquétipo, mas isso nunca chateou ninguém quando eu era underground.

Há uma história que o Sam the Kid conta sobre um dia ter chegado um rapaz ao pé dele e dizer-lhe: ‘gosto da tua música, mas agora está um bocado comercial’. Parece que o rapaz ia-se embora mas ele segurou-o e disse: agora vais ter de explicar isso, não estou comercial, posso ser mais popular mas faço isto do coração, a minha música não mudou para ter sucesso, tenho é mais pessoas a ouvir-me.’
É isso mesmo. Parece-me que esta geração nova se está a marimbar para essa questão. O sucesso é aliás uma coisa que perseguem de uma forma orgulhosa [ri-se].

E obsessiva.
E um bocado obsessiva. Também digo isso na “Último Mergulho”, que eles esquecem-se das letras e andam só atrás dos números. De repente parece que o hip-hop são números, não são letras, o que é uma coisa irónica. Mas acho que essa geração mais nova está-se a marimbar para se algo é ou não underground. É um bocadinho mais desconfortável para algumas pessoas que cresceram na era em que não havia perspetiva de se fazer uma carreira no rap — como também eu cresci. Nunca pensei fazer disto uma profissão, havia os Mind da Gap, o Boss AC, um ou outro, mas eram exceções.

O rap ter-se profissionalizado e gerar oportunidades de carreira fez com que houvesse uma perspetiva de sucesso. O sucesso passou a ser uma realidade. Para muitas pessoas de uma geração anterior isso é uma coisa um bocadinho desconfortável, uma coisa má. Talvez tenha a ver com um síndrome judaico-cristão e salazarista do “pobrezinho mas virtuoso”. Agora com a cultura anglo-saxónica de raiz protestante isso também já é uma coisa boa por aqui. No hip-hop estamos a fazer essa transição.

Mas sentiu que ter ganhado notoriedade gerou desconforto no meio?
Nem me queixo muito de as pessoas dizerem que agora já não sou underground, porque as pessoas perceberam sempre que a minha música não é propriamente fácil. Podia ser, se quisesse podia ligar um azeite e ir por ali fora. Isso é fácil de fazer. Mas também lembro, como digo na “Passiflora”, “não confundam o bom gosto com a falta de público” [risos].

"Não sei se vou ter vontade de fazer mais discos. Demora-se dois ou três anos a fazer e depois tem uma vida de cinco minutos. Hoje em dia toda a gente tem um tempo de atenção tão curto que ninguém tem paciência para ouvir um disco inteiro."

Nesse tema de que fala também diz uma coisa um bocadinho mais assustadora para quem gosta de a ouvir: “Aproveitem este disco porque pode ser o último”…
… Mas pode ser, mesmo. Não sei se vou ter vontade de fazer mais, porque os tempos do mercado não são os tempos da arte. Demora-se dois ou três anos a fazer um disco e depois ele tem uma vida de cinco minutos no vórtice da novidade. Hoje saem 90 discos por dia, toda a gente tem um tempo de atenção tão curto que ninguém tem paciência para ouvir um disco inteiro. Ninguém o faz, as pessoas consomem playlists. Para que é que os artistas vão continuar presos a esse formato? É um bocadinho anacrónico.

Digo isto apesar de gostar de fazer discos. É uma coisa de resistência, mas é também algo que me obriga a pensar sobre o meu trabalho. Há um momento antes de fazer um disco em que penso sobre o que quero fazer, o que já fiz e o que ainda não fiz. Há um período de reflexão, há uma criação de músicas que mesmo sendo diferentes têm um parentesco e cumprem um exercício ou conceito comum. Isso faz com que pense sobre o meu trabalho, sobre o que quero fazer, sobre que proposta é que acho que é importante a cada momento, não só em termos criativos mas também para o mundo.

É muito diferente quando se faz só singles?
Quando se faz singles não há esse cuidado, esse período de reflexão, esse tempo da arte — que depois choca com o tempo do mercado. Mas para além disso [que já foi feito], se calhar até não vou fazer mais [discos]. Aliás, este tempo em que estou a viver da música é um bónus, nunca pensei fazer disto profissão e tenho noção que isto não vai acontecer a minha vida toda.

Em todas as profissões, hoje em dia temos de ter uma capacidade de reinvenção permanente e não podemos pensar que vamos ter a mesma profissão a vida toda. É muito pouco provável e tenho muita consciência disso. Então num contexto como a música que é tão dado a modas e a levas, num país tão pequeno que se cansa rapidamente das pessoas quando elas têm visibilidade pública… tenho de ter plano B, plano C e plano D. Não quer dizer que não continue a fazer música. Agora discos, concertos, trabalhar só nisto? Não sei, não posso garantir. Vamos ver.

“Não chega [às mulheres] sermos boas, temos de ser ótimas e temos de ser decorativas”

Há pouco constatava que foi a primeira mulher a construir uma carreira sólida no rap em Portugal.
Mas tenho pena que isso seja assim, gostava que tivessem existido mais antes.

"O rap ainda é um boys club cheio de gajos que nunca tiveram uma amiga."

Porque é que não vemos mais Capicuas, mais mulheres com carreiras sólidas no rap português?
Acho que é uma questão de proporção. Há, sei lá, milhares de rappers homens em Portugal. Quantos é que vingam e fazem carreiras duradouras? Uns 20? Se há muito menos mulheres a fazer rap, claro que as que sobram e se mantêm são muito poucas. Essa proporção na quantidade de homens e mulheres a fazer rap é muito diferente porque há questões culturais e conjunturais que fazem com que para nós seja mais difícil e menos atrativo começar uma carreira no rap. Não é só por causa da cultura hip-hop em si, é também pela cultura patriarcal em que vivemos. O rap em si é de facto uma cultura masculina, um boys club cheio de gajos que nunca tiveram uma amiga, que não sabem comunicar connosco muito bem.

Imagino que tenha tido de lidar com muitos ao longo destes anos.
Sim, mas também tive sorte de arranjar pelo caminho muitos companheiros de rap que sabem falar com mulheres e que nos tratam de igual para igual. Mas pronto, ainda assim são uma minoria dentro do contexto. Depois é difícil porque no hip-hop não há muitas referências [mulheres], quando comecei não havia praticamente nenhuma e é importante haver para sabermos que é possível. Isso acho que já resolvi.

Não estimulamos as mulheres como estimulamos os homens para desenvolverem os seus talentos, para terem uma auto-estima suficiente para apresentarem o seu trabalho de forma orgulhosa, para subirem a um palco e serem afirmativas. Essas qualidades são todas importantes no rap. Ter espírito competitivo é uma coisa que só estimulamos as mulheres a ter entre si e na luta pela atenção masculina, não pelo mérito profissional ou talento artístico. O espírito de liderança, de dar opiniões e conquistar o espaço público, são coisas que não se estimula muito as mulheres a terem. Ter auto-estima para isso é a base e tê-la é muito difícil quando se é mulher porque todos os dias temos de fazer o triplo, provar três vezes mais o nosso mérito. Há critérios diferentes, muito nitidamente para nos passarem rasteiras permanentemente no nosso percurso. Não nos chega sermos boas, temos de ser ótimas e temos de ser decorativas. Isso tudo faz com que nos seja mais difícil. É mais difícil para as mulheres no hip-hop como é mais difícil no desporto de alta competição, na política, na chefia de grandes empresas, no rock, no punk, no reggae… a história é mais ou menos a mesma.

No podcast 3 Pancadas, do canal TV Chelas, a [rapper] Eva Rap Diva disse que sentiu que numa fase inicial do seu percurso, por ser mulher e por haver poucas mulheres no rap, foi-lhe mais fácil dar nas vistas porque as expectativas eram poucas. Diz também que isso é um mau sinal.
Sim, uma mulher com um microfone a rappar é uma coisa exótica e por isso é mais fácil sobressair. Estão mil tipos a fazer rap e de repente há uma miúda, as pessoas perguntam-se: “o que é que a miúda faz?”

Certo. Mas nessa conversa a Eva também diz que depois, à medida que uma mulher vai construindo uma carreira e crescendo no rap, chega uma altura em que nunca se coloca uma mulher no mesmo patamar dos homens.
Nunca estamos na mesma liga!

Sente isso também?
Completamente, sem tirar nem pôr. Subscrevo totalmente. Digo aliás na “Carta a Jovens Poetas” que no início o percurso até é mais fácil porque há mais visibilidade, porque somos poucas. Mas depois quando começas a provar que estás aqui para ficar e que tens tanto talento ou mais [do que os homens] começam a ignorar-te e a fingir que não existes. É difícil para eles compararem-se connosco, sobretudo quando conquistamos coisas que eles não conseguem. É uma coisa que lhes dói muito. Mas acredito que é algo que tem tendência para terminar. Tenho muita esperança nesta geração mais recente do hip-hop.

"Continuamos numa liga à parte. Parece que há uma quota unipessoal, que só pode haver uma mulher a fazer rap."

O que vê de diferente?
Desde logo uma coisa: agora a coisa é tão quantitativa, o critério [para destacar rappers] é tão quantitativa, que tem pelo menos o mérito de nivelar tudo por igual. Quando o critério não era tão quantitativo era possível desmerecer o talento do outro, por mais conquistas que tivesse. Havia vários critérios em análise. Se o critério agora é sobretudo quantas “views” tem o vídeo, quantos seguidores tem o artista, deixa de haver géneros, cores e idades, estão todos nivelados. Não concordo que esse seja o critério fundamental [de qualidade], mas pode ter essa vantagem: se só se olha para critérios quantitativos, havendo miúdas que conseguem números tão grandes ou melhores do que os homens ao menos que sirva para nivelar e pôr todos na mesma liga. Agora, até hoje não foi isso que aconteceu, nem pouco mais ao menos.

Acho que continuamos ainda [as mulheres] numa liga à parte e parece que há uma quota unipessoal, que só pode haver uma mulher a fazer rap. Quando aparece outra, começa-se a dizer “esta é melhor que a outra”, começamos a dizer mal da anterior. Se calhar devíamos todas deixar de fazer música ou morrer com 28 [risos].

Voltando ao disco: o tema “Circunvalação” vai ter certamente um impacto especial nos ouvintes portuenses…
[interrompe] Sim, porque os outros não vão entender metade das piadas! [risos]

Quando diz coisas como “aloquete” e “cruzeta”, é capaz de pôr muita gente a coçar a cabeça. Há muitos regionalismos e referências a locais específicos.
Fui à sessão “Purga”, do Nerve, no [festival] Natal do Marginal, no Porto, e li essa letra. Quando digo “empresta-me um eurito para ir comer uma sopa”, toda a gente na sala se riu menos o Nerve [lisboeta]. São aquelas personagens típicas do Porto. Acho que só os portuenses é que vão entender essas private jokes.

ANDRE TENTUGAL

Tinha de ser um produtor musical portuense, o Minus, a compor o instrumental desse tema?
O tema nasceu por causa do beat dele, porque o beat que ele me mandou chamava-se “Champagne na Trindade”. Aliás, digo isso na letra. Achei engraçado, comecei a pensar que era fixe fazer uma música sobre o Porto. Queria falar sobre o Porto estar a viver um momento de descaracterização, por estar a tornar-se demasiado limpinho, cartão postal e cenário para turista ver, e a perder um bocadinho o que o tornava autêntico: as velhas lojas, as velhas tascas, os portuenses que viviam no centro histórico e que estão com cada vez mais dificuldades para manter as suas casas. Queria falar dessas personagens que vão sendo empurradas para fora daquilo que é o cartão postal, falar sobre a cidade real e genuína que tem tendência para desaparecer, procurando o tal lado solar da força.

O beat do Minus, por ter aquele título e aquela coisa meio engraçado, meio Snoop Dogg meio anos 80, funky, tinha uma aura que me levou para aí. Também há uma alusão ao “The Message” do Grandmaster Flash, porque ele diz “don’t push me cause I’m close to the edge / I’m trying not to lose my head”. E eu canto: “Não me empurrem que o meu coração / está entre o Douro e a circunvalação”. Também é um bocadinho uma tentativa de brincar com isso.

A polémica com Valete: “Preferi não estar a meter-me num campo de wrestling”

Referiu há pouco o Valete. Foi-lhe especialmente difícil posicionar-se sobre a polémica recente, em torno da canção dele, “BFF”, e do teledisco que ele publicou? Por um lado tem tido posições feministas claras ao longo dos últimos anos, por outro lado também é rapper e artista e teve um projeto musical com o Valete.
Quando essas polémicas acontecem com amigos, com pessoas a quem podemos telefonar, acho que em vez de fazermos posts ou falar com jornalistas podemos pegar no telefone e se temos alguma coisa a dizer, dizemos. Mas não me foi mais difícil por isso, foi-me difícil posicionar-me porque detesto gritarias e polémicas de redes sociais.

Acho que perdemos a oportunidade de falar de uma coisa super interessante, que é a discussão sobre como é que a nossa liberdade criativa depois tem impacto quando se cruza com o contexto, tempo, o mundo e momento histórico em que vivemos. E perdemos a oportunidade de falar sobre a liberdade de reagir que as pessoas depois também têm, de como se gerem todas estas liberdades e tensões. De repente era uma gritaria, parecia um FC Porto x Benfica, com toda a gente aos gritos. Preferi não estar a meter-me num campo de wrestling.

"Vivemos num mundo que tem muitas sensibilidades e em que hoje toda a gente tem megafone e o teclado na mão. De repente criam-se tempestades de ódio e polémica. Tem acontecido sistematicamente, sobretudo nos temas ligados ao feminismo e aos direitos das mulheres."

E no julgamento público?
Tanto no julgamento de um lado como no julgamento do outro. Da mesma forma que acredito mesmo que cada um tem a liberdade total de fazer a música que quer dentro dos limites legais da liberdade de expressão — que são a calúnia, a difamação, o incitamento ao ódio, etc —, as pessoas também têm a liberdade total de dizer “isso foi de mau gosto” ou “isso é bom” ou “isso é péssimo” ou “isso é inaceitável”. As pessoas têm a mesma liberdade e isso para mim é básico.

Nós, artistas, temos de ter consciência que vivemos num mundo que tem muitas sensibilidades e em que hoje toda a gente tem megafone e o teclado na mão. De repente criam-se tempestades de ódio e polémica que acho que são desinteressantes. Tem acontecido sistematicamente, sobretudo nos temas ligados ao feminismo e aos direitos das mulheres. Por causa destas polémicas, criou-se um descrédito total da luta feminista, que é uma luta pelos direitos humanos e que é fundamental. Isto num mundo em que ainda morrem tantas mulheres, em que há uma discrepância salarial tão profunda entre homens e mulheres, em que há ainda tanto trabalho por fazer naquilo que tem a ver com o papel das mulheres nas divisões de tarefas domésticas e do cuidado familiar. Há tanta coisa importante que é descredibilizada porque de repente criam-se estas polémicas e já se diz que as feministas são todas umas histéricas. Cria-se ali uma situação muito chata em que toda a gente grita e ninguém tem razão.

Há pouco falávamos das visualizações e da popularidade ganha por artistas de hip-hop. Identifica-se com a maior parte do rap que se tornou mais popular? 
Não sei se com a maioria… como em outras áreas, não sou muito saudosista. Acho que o hip-hop está a viver um momento de grande expansão e de grande diversidade. Como tal, há coisas muito fixes que aparecem e há coisas péssimas. Quando há expansão e diversidade, isso é habitual. Pelos vistos há espaço para tudo e enquanto há esse espaço, quem sou eu para dizer que as outras pessoas estão a ouvir música de merda?

Certo, estava só a tentar perceber se gosta ou não.
Há coisas que gosto e que detesto, mas o que detesto nem sequer oiço. Não vou dizer “não foi para isto que andámos aqui a trabalhar”. Não, isso seria uma arrogância. Não sou guardiã do templo. Não vou fazer o papel dos puritanos que estou a criticar no “Passiflora”. O tempo dirá o que é para ficar, o que foi válido, o que foi a espuma dos dias e o que foi a anedota do Youtube da semana passada.

Quando foi a última vez que foi pintar muros ou paredes?
Ui, já foi há muito. Foi para aí em 2000 e pouco, há muito tempo. Coincidiu com a altura em que comecei a fazer mais rap, o rap roubou-me tempo e roubou-me o meu coração.

Devo ao hip-hop coisas que nunca pensei um dia viver, que eram impossíveis até de imaginar. Além disso, hoje em dia devo o meu sustento ao hip-hop. Não tenho nenhum tipo de mágoa, tenho tudo a agradecer"

Deixou o graffiti mas continuou pelo hip-hop.
O hip-hop é o meu primeiro amor. Devo muita coisa ao hip-hop. Conheci a maior parte dos meus grandes amigos por causa do hip-hop, conheci o meu primeiro amor por causa do hip-hop, tive por causa do hip-hop oportunidades incríveis como ir tocar ao Brasil, conhecer o Caetano Veloso e partilhar palco com o Sérgio Godinho. Devo ao hip-hop coisas que nunca pensei um dia viver, que eram impossíveis até de imaginar. Além disso, hoje em dia devo o meu sustento ao hip-hop. Não tenho nenhum tipo de mágoa, tenho tudo a agradecer ao hip-hop.

Já tem um percurso mais do que consolidado. Ainda lhe falta fazer alguma coisa na música?
Se este fosse o meu último disco, estava muito orgulhosa daquilo que fiz. Nunca comprometi em nada a minha liberdade criativa e subscrevo tudo o que escrevi até hoje — há coisas que resistiram melhor ao tempo, obviamente, mas orgulho-me muito das minhas conquistas e acho que em geral mantive sempre a qualidade, o bom gosto e a identidade naquilo que fiz. Nesse sentido, o saldo seria positivo se este fosse o meu último disco.

Se tenho vontade de fazer mais coisas? Prometi sempre que ia fazer uma terceira mixtape, portanto falta fazer essa. De resto, não sei. Terei sempre necessidade de escrever e escrever letras, pode passar a ser também para outras pessoas — como já comecei a fazer.

Fê-lo para a Ana Bacalhau, fê-lo agora para os Clã…
… E para a Gisela João, o Camané, várias coisas. Quero continuar a fazer isso. Se vou continuar a fazer música ou não depende de várias coisas, mas acho que não vou arrumar já as chuteiras. Não sei se faço mais discos.

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