“Assustadoramente feio”. Estas foram as palavras usadas pelo embaixador francês em Madrid em 1661 para descrever o bebé que seria o próximo Rei de Espanha. Carlos II nasceu a 6 de novembro, filho de Felipe IV e Mariana da Áustria, que era sua sobrinha. Ficou conhecido como “O Enfeitiçado” e aos quatro anos, com a morte do pai, subiu ao trono — tendo governado apenas entre 1685 e 1700. Morreu aos 39 anos, sem deixar descendentes, e é um dos exemplos mais famosos das consequências negativas dos muitos casamentos entre parentes próximos dentro das casas reais.
Há muitos relatos históricos que confirmam a saúde frágil do Rei. Diz-se que Carlos II só caminhou depois dos cinco anos de idade, tinha episódios de epilepsia e atrasos cognitivos. “O Rei é mais baixo do que alto, não é malformado e tem um rosto feio. Tem um pescoço longo e curvado para cima; o lábio inferior é típico dos Habsburgos; os olhos não são muito grandes, azul-turquesa, e a sua tez é fina e delicada. O seu cabelo é loiro e longo, penteado para trás de modo que as suas orelhas ficam expostas. Ele não consegue endireitar o corpo a caminhar, a menos que se apoie numa parede, mesa ou qualquer outra coisa. O seu corpo é tão fraco quanto a sua mente. Ocasionalmente, mostra sinais de inteligência, memória e certa vivacidade, mas não agora; geralmente, ele parece lento e indiferente, desajeitado e indolente, aparentemente entorpecido. Pode fazer o que quiser com ele, pois não tem vontade própria”, descreve o então núncio papal Savo Millini.
▲ Os retratos de Carlos II mostravam as características faciais dos Habsburgos
Para além das características de saúde, a sua aparência é ainda mais documentada: os retratos do monarca mostram o maxilar protuberante e o nariz a apontar para baixo, uma característica própria dos reis da dinastia Habsburgo, bem visível, por exemplo, em Filipe I, Filipe II e Filipe III, que governaram Portugal entre 1580 e 1640. Um estudo publicado em 2019 confirmou que a “mandíbula de Habsburgo”— condição que a ciência designa por prognatismo mandibular — é resultado dos muitos casamentos entre familiares próximos dentro da família. “É a primeira vez que se confirma que existe uma relação direta entre a endogamia e o aparecimento do maxilar dos Habsburgos”, indica Román Vilas, pesquisador da USC que liderou a investigação, ao site de divulgação científica catalão gCiencia. O estudo analisou a árvore genealógica da dinastia, chegando a seis mil pessoas pertencentes a 20 gerações, além de usar como base 66 retratos pintados a vários membros da família, incluindo monarcas portugueses. “O rosto dos pertencentes à Casa da Áustria é uma combinação de duas coisas: o prognatismo e a deficiência da mandíbula, que faz com que as bochechas, o nariz e os olhos sejam caídos”, diz Francisco Ceballos, outro investigador que fez parte do estudo.
Mas a consanguinidade elevada na família não resultou apenas numa deformação na face. Em 2009 os investigadores já tinham chegado à conclusão que a dinastia Habsburgo terminou por causa dos casamentos endogâmicos. A análise concluiu que 25,4% do genoma do Rei era herdado dos mesmos ancestrais de ambos os lados da família, o que é o mesmo que ser filho de dois irmãos ou de pai e filha. De acordo com o estudo, a combinação de genes idênticos recessivos resultou nos vários problemas de saúde documentados pela história, como a debilidade física, o atraso neurológico, a aparência física, a saúde frágil, as doenças crónicas e a infertilidade. Carlos II foi sucedido por Filipe V, que deu início à dinastia Bourbon na Espanha.
D. Sebastião: o “caso suspeito” português
Dos Habsurgo a prática passou para a Casa de Avis, em que o neto do fundador da dinastia, Afonso V, casou-se com a filha do seu tio e regente, Isabel de Coimbra, e o seu filho, João II, casou-se com uma prima em primeiro grau, Leonor de Viseu. Aliás, cerca de um século antes de Carlos II causar tanta impressão em Espanha pelas suas características físicas e de saúde, um Rei em Portugal, também descendente de Carlos V de Habsburgo, gerou uma crise de sucessão por não ter deixado herdeiros, o que até hoje não é consensual entre historiadores e especialistas, mas há quem aponte o dedo à consanguinidade. “Quem tinha essa prática eram os Habsburgos. O grande perito nestas estratégias de casamento era Carlos V, pai de Filipe I e avô de D. Sebastião, que foi Rei de Portugal. Eram objetivos diplomáticos, alianças políticas que se faziam, e que continuaram por muitas gerações“, diz ao Observador a historiadora Maria Augusta Lima Cruz, autora da biografia de D. Sebastião, relançada em 2024 pela Temas & Debates.
Sebastião morreu aos 24 anos (desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir) sem nunca se ter casado, o que muitos atribuem a uma doença que fazia com que o Rei expelisse uma secreção pelo órgão genital. Fala-se numa possível uretrite crónica, há ainda o palpite do historiador Harold B. Johnson, que acredita que a doença era uma gonorreia, transmitida por um pedófilo do seu círculo próximo, ou uma espermatorreia, causada pela consanguinidade parental, a aposta do médico e historiador espanhol Gregorio Marañon — hipóteses que provavelmente nunca poderão ser confirmadas.
▲ D. Sebastião: os seus pais eram primos direitos pelos lados materno e paterno
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Para além da doença no órgão genital, embora menos frequentes, também existem relatos de deformidades físicas. É o caso das características que Frei Estevão de Sampaio reuniu em 1599, ao contactar com pessoas que conheceram o Rei, no intuito de identificar um homem que apareceu em Itália e que alegava ser o falecido monarca. A lista tem 22 itens, entre os quais a mão direita maior que a esquerda, o braço direito mais comprido que o esquerdo, o corpo curto com pernas longas, a perna direita mais comprida que a esquerda, o lado esquerdo do corpo menor do que o direito que o faziam coxear, os pés pequenos, as pernas curvas e ainda o já mencionado fluxo de sémen. “D. João III deixou, pois, como sucessor, uma criança débil de três anos de idade, cujas esperanças de vida não eram grandes. D. Sebastião revelou-se um doente, tanto física como mentalmente”, escreve o historiador português António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques, no livro Breve História de Portugal, de 2001. As características físicas e a doença reforçam a tese de alguns historiadores, que apontam para o alto nível de consanguinidade do Rei. “É uma hipótese, essas relações eram muito próximas, quase incestuosas”, destaca Maria Augusta Lima Cruz, recordando que Sebastião era filho do príncipe João Manuel e da princesa Joana da Áustria, primos-irmãos pelos lados materno e paterno — eram ambos bisnetos de Isabel de Castela e Fernando II de Aragão.
“Ele tem um primo, que é o filho de Filipe I, que geneticamente é praticamente irmão dele, Carlos. E este tem problemas de personalidade. Morreu com 23 anos. Os filhos do D. João III, entre os quais está o pai de Sebastião, morreram muito cedo e eram todos muito doentes“, destaca Maria Augusta Lima Cruz, que na biografia descreve a morte do príncipe João Manuel aos 17 anos por diabetes juvenil — foi o último filho de D. João III e D. Catarina a morrer. Dos nove, apenas Maria Manuela sobreviveu além desta idade, morrendo aos 18 anos depois do parto do primeiro filho.
Leonor: na calha para primeira Rainha de Espanha sem consanguinidade desde o século XIV
Apesar do caso de Carlos II, uma tese genética mais recente contradiz a ideia de que a consanguinidade foi responsável por acabar com as dinastias europeias. A tese de doutoramento defendida em março de 2025 na Universidade Complutense de Madrid por Teresa Perucho, geneticista da Clínica Universitária de Navarra, analisou os dados disponíveis sobre 143 Rainhas e Reis das Astúrias, Aragão, Navarra, Portugal, Castela e Espanha, desde Pelayo, em 711, até Felipe VI, o atual Rei de Espanha — período que inclui as gerações de D. Sebastião e os casamentos entre primos e tios e sobrinhos impulsionados por Carlos V. “Considerando o que sabemos sobre a longevidade, a fertilidade e o histórico médico dos portadores da coroa, podemos dizer, contrariamente ao estereótipo estabelecido na opinião pública, que a consanguinidade não é a causa de todos os males dos monarcas”, assinala a investigadora, em declarações ao site da Clínica Universitária de Navarra. “Exceto no caso de Carlos II, elas não têm causa direta demonstrável”, considera Perucho, que diz que “as patologias reais mais comuns — gota, cálculos renais, doenças infecciosas como sífilis ou tuberculose, ou depressão — estavam mais associadas à qualidade e ao estilo de vida cortesão do que a fatores genéticos herdados”.
▲ Fruto do casamento não endogâmico dos pais, Leonor será a primeira Rainha de Espanha sem consanguinidade desde o século XIV
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Tal conclusão inclui a hemofilia, que foi introduzida na monarquia espanhola no casamento de Afonso XIII com Vitória de Battenberg, “uma patologia que nada tem a ver com consanguinidade, mas com a mutação de um fator de coagulação localizado no cromossoma X”. A hemofilia chegou a ser chamada “a doença da realeza”, por ter sido diagnosticada a vários membros de realezas europeias. Acredita-se que a fama tenha começado a partir da Rainha Vitória da Inglaterra, que era portadora da doença e teve nove filhos — sendo um hemofílico e duas portadoras. Assim, a hemofilia acabou por chegar às gerações seguintes, como é o caso de Vitória de Battenberg, neta da Rainha. Curiosamente, o casamento com Afonso XIII de Espanha foi o único de toda a dinastia Bourbon em que não houve consanguinidade antes de Felipe VI se casar com Letizia.
O casamento do filho de Juan Carlos foge bastante à regra da família: a escolhida pelo então príncipe além de ser plebeia, era divorciada. Letizia Ortiz vem de uma família de classe média do norte da Espanha, licenciou-se na Universidade Complutense de Madrid e tornou-se jornalista, trabalhando em canais de televisão como a CNN e a Bloomberg. Em 1998 Letizia casou-se pela primeira vez, com o escritor Alonso Guerrero Pérez, de quem se divorciou pouco mais de um ano depois. O romance rendeu um livro publicado em 2018 pelo ex-marido. Em 2002, num jantar na casa do jornalista espanhol Pedro Erquicia, a na altura pivô conheceu o então príncipe Felipe — o casal trocou alianças numa grande cerimónia em 2004.
▲ O casamento de Felipe VI e Letizia, em 2004, foi o primeiro sem consanguinidade dos Bourbon desde Afonso XIII com Vitória de Battenberg
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O estudo de Teresa Perucho também destaca que a princesa Leonor “será a primeira rainha da Espanha sem consanguinidade desde Henrique II de Castela, que era filho ilegítimo de Afonso XI de Castela e Leonor de Guzmán”, nascido em 1332. Isso porque os casamentos dentro da família foram ficando mais distantes ao longo dos anos: Juan Carlos e Sofía, por exemplo, são primos em terceiro grau, porque têm a mesma trisavó, a Rainha Vitória. Já os pais do Rei emérito, Juan de Bourbon e Maria de las Mercedes de Bourbon, eram primos em primeiro grau. “Tanto Juan Carlos quanto Sofía necessariamente têm níveis de consanguinidade, mas não como nos séculos XVI ou XVII”, explica o professor de genética Álvarez Jurado, que em 2014 propôs-se a estudar os casamentos endogâmicos dentro da realeza espanhola. O especialista considera que o Rei Emérito terá um nível abaixo de 6%, que cai sigificativamente nas gerações seguintes, o que faz da neta Leonor uma Rainha muito provavelmente sem consanguinidade.
▲ Juan Carlos e Sofía que são primos terceiros, casaram-se em 1062
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Casamentos como projetos políticos
O historiador André Canhoto Costa, autor de A Corte das Mulheres, no qual descreve algumas práticas da realeza no século XVI, destaca que a estratégia de casamentos entre parentes próximos era uma tendência comum “no sul da Europa, e estamos a falar até mais da Península Ibérica. Existe, até certa altura, esta visão puritana de que os casamentos deviam ser muito centrados dentro das relações familiares próximas. E era uma política que foi sempre muito popular na alta aristocracia portuguesa e espanhola, quer relativamente às famílias reais, quer relativamente a algumas das grandes famílias aristocráticas. As casas iam-se reproduzindo entre si, sem querer que existissem grandes misturas”, explica o escritor.
“Os Reis determinavam uma linha política e atribuíam as filhas a um determinado projeto de casamento”, diz, destacando o caso de Santa Joana de Aveiro. “À partida, ela entra para um convento sendo uma princesa, filha do Rei que entretanto morre, irmã do Rei D. João II. Mas o caso dela é curioso porque, apesar de entrar no imaginário popular e até em certa historiografia como alguém que abandona a corte para se dedicar a uma vida religiosa e uma vida afastada do mundo, a verdade é que ela nunca professou oficialmente porque era uma espécie de reserva política em caso de necessidade da morte do Rei, sem herdeiros. De poder casar para garantir um herdeiro à coroa de Portugal.”
▲ A infanta Maria, filha de Manuel I de Portugal, nunca se casou
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Outro caso emblemático, que é o centro do livro do historiador, é o da Infanta Maria, a única filha de D. Manuel I e Leonor da Áustria, que nunca se casou. “Os Reis, quando morriam, deixavam por vezes previsto aquilo que eram os dotes das suas filhas e, portanto, os dotes e os rendimentos da Infanta Maria eram de tal ordem que poderiam ir servir os próprios inimigos da monarquia. No caso, por exemplo, dela casar com um herdeiro do Rei de França: Espanha estava em guerra com França e sendo Portugal também nessa nessa época um aliado mais ou menos envergonhado na política europeia da coroa espanhola, mesmo que fosse de um enorme prestígio, porque era uma princesa ibérica a casar-se com o Delfim, o futuro Rei de França, a verdade é que era estar diretamente a financiar um inimigo político“, recorda o historiador.
Tio e sobrinha, cunhados e marido e mulher
A prática permaneceu presente ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX também na Casa de Bragança. Um estudo de 2018 dos mesmos investigadores que analisaram os casamentos entre parentes na família real espanhola confirma que a Casa de Bragança tem níveis elevados de endogamia, especialmente num período após o início da idade moderna. A média de consanguinidade para os monarcas de Bragança ficou nos 0.0530, o que é bastante próximo do coeficiente de consanguinidade resultante do casamento entre primos em primeiro grau, que é de 0.0625. A conclusão dos investigadores é que tal proximidade gerou efeitos genéticos semelhantes aos de casamentos entre primos direitos.
A investigadora Cláudia Thomé Witte, autora de biografias sobre a Rainha Maria II e Amélia de Leuchtenberg, explica que os séculos XVIII e XIX eram um período em que “não havia obstáculos graves aos casamentos endogâmicos. Moralmente não era visto como um problema casar-se entre primos, entre tios e sobrinhas. E mesmo religiosamente, quando era uma questão de uma família real que teria uma implicação na dinastia que iria depois assumir o trono, era necessário uma dispensa papal. Então, quando eram primos próximos até segundo grau, normalmente o Papa precisava dispensar. E na realidade, isso também passava por uma questão política, porque o Papa não era só o chefe religioso, era também um chefe político e passava por ele essa afirmação de poder”.
Há nesta altura vários exemplos de casamentos consanguíneos. Foi o caso de Maria Francisca Benedita, irmã mais nova da Rainha Maria I, que se casou aos 30 anos com o sobrinho, o príncipe José, de 15. “Vão ter um casamento que vai durar 12 anos. Mas nesses 12 anos, não conseguem engravidar. Sabemos que tentavam: faziam viagens para as Caldas da Rainha porque era considerado um dos tratamentos para a infertilidade. D. José ia para a praia da Foz do Arelho para tomar banhos de ondas, porque acreditavam que as ondas a bater no rapaz podiam ajudar com a fertilidade”, conta a pesquisadora, que destaca ainda os fatores económicos que motivavam as uniões entre familiares. “No caso da D. Maria Francisca Benedita, que se casa com o sobrinho, de uma certa forma estavam a economizar o dote. Quando o casamento era em outro país, era preciso pagar o dote. E em certos momentos, para um país, isso é muito crítico. Então em 1777, no meio daquele tumulto todo que foi o pós terremoto, havia a entrada de diamantes do Brasil, mas estavam a reerguer Lisboa. Se tivessem que pagar o dote de três filhas das três irmãs solteiras de D. Maria, teria sido um desfalque para os cofres públicos”.
▲ Maria Francisca Benedita, filha de José I e Mariana Vitória de Espanha, casou-se com o sobrinho, o príncipe José, 15 anos mais novo
Já na geração seguinte, Cláudia Thomé Witte cita como exemplo os casamentos dos filhos de D. João VI com Carlota Joaquina. “A filha mais velha, que era a infanta D. Maria Teresa, vai se casar com o primo em primeiro grau, que é D. Pedro Carlos, filho do D. Gabriel com a D. Mariana Vitória da Espanha — e já existia uma consanguinidade nesse relacionamento, porque eles eram primos em segundo grau”. Entretanto, a investigadora recorda que deste casamento resultou um filho, “D. Sebastião, que tem descendência até hoje e não se sabe de nenhum grande problema”. Já as irmãs também se uniram a familiares próximos. “A segunda irmã, que é a Maria Isabel, casa-se com um tio de Espanha, que é o Rei D. Fernando VII. A terceira filha, a Maria Francisca, também se casa com o tio, que é o Carlos Isidro, irmão do D. Fernando VII. São três irmãs que se casam com primo e tios”, recorda a pesquisadora, que destaca que anos depois Maria Teresa e Carlos Isidro, cunhados e tio e sobrinha tornam-se marido e mulher. “O marido de Maria Teresa morre cedo e muitos anos depois ela se casa de novo com Carlos Isidro, que tinha ficado viúvo da irmã dela, Maria Francisca. E cria o filho dela junto com os sobrinhos”.
Uniões entre primos direitos recuam no século XIX
Foi só a partir do século XII que a Igreja instituiu o casamento como um sacramento — mas até o Concilio de Trento, entre 1545 e 1563, bastava o consentimento dos noivos e a promessa proferida um ao outro para serem considerados casados. Foi nesta altura que, para combater os abusos dos “casamentos clandestinos”, que resultavam, em muitos casos, em uniões que eram depois anuladas por impedimentos prévios, que passou a ser obrigatório o consentimento dado perante um membro da Igreja e pelo menos duas testemunhas. A consanguinidade é um dos impedimentos ao matrimónio, sendo que no século XIII estabeleceu-se que ficava proibido o casamento entre parentes até ao quarto grau na linha colateral, o equivalente a primos direitos. Ou seja, para todos os casamentos mencionados neste artigo acontecerem, foi necessária uma dispensa papal, um pedido para que o Papa isentasse os indivíduos da regra definida pela lei canónica.
Os casamentos consanguíneos com laços tão próximos foram ficando mais raros a partir do século XIX por uma combinação de fatores que evoluíram ao longo dos séculos, analisam os especialistas ouvidos pelo Observador. “É no século XVIII que a Igreja vai dar um grande contributo para que os casamentos passem a ser ‘livres’, ou seja, que não precisem do acordo dos pais, em que basta o consentimento dos noivos. É quando se começa a impor essa lógica de que os pais não podem forçar os filhos nem as filhas a casar contra a sua vontade”, começa por dizer André Canhoto Costa. De facto entre os séculos XVII e XVIII o Tribunal da Rota Romana legislou fortalecendo a nulidade dos casamentos contraídos sob coerção familiar, ao mesmo tempo em que o crescente uso das dispensas papais levou a uma redução nos impedimentos por consanguinidade no século XX, para o terceiro grau da linha colateral.
Mas a redução de casamentos endogâmicos também se relaciona com a alteração nas dinâmicas políticas e na legislação dos próprios países, como recorda Cláudia Thomé Witte. Considerando que no início do século XIX a lei portuguesa determinava que o Rei não poderia ser um estrangeiro, a herdeira ao trono também não se poderia casar com um príncipe estrangeiro. Porém, no leito de morte, D. Pedro IV pede que a filha, Maria II, case-se com o cunhado, Augusto de Leuchtenberg. “Era o irmão da D. Amélia, a segunda esposa do D. Pedro, madrasta da Maria II. Eles já se conheciam, tinham ido juntos para o Brasil. Ele era um príncipe constitucional, acreditava na causa liberal”, explica a pesquisadora. “As cortes nesse momento têm que autorizar o casamento com o príncipe estrangeiro“. O casamento acontece, mas Augusto morre apenas dois meses depois de chegar em Portugal. Com o precedente aberto, Maria II casa-se com Fernando II, que se tornou Rei consorte de Portugal depois do nascimento do primeiro filho do casal, Pedro V, em 1837. “A partir daí, passamos a ter vários casamentos germânicos: depois há D. Pedro V que se vai casar com D. Estefânia, que também vem da Alemanha. D. Luís vai se casar com uma italiana. As duas filhas da Maria II, tanto a D. Antónia como a Maria Ana, vão casar-se com príncipes alemães. D. Miguel com uma princesa alemã. A partir dessa altura já não há mais casamentos assim tão emblemáticos entre tio e sobrinha ou primos direitos, isso acaba.”