A Madeira nunca foi um terreno fértil para o Chega: em 2023 e 2024 ficou longe do sucesso que André Ventura tem conseguido a nível nacional e, depois de provocar a queda de Miguel Albuquerque, o partido caiu a pique. Ainda que no final das contas só se reflita na perda de um deputado, o Chega teve menos 4720 votos. O presidente do partido está mais preocupado com o “resultado moral” de quem não joga com base em cálculos eleitorais. Além do mais, o Chega na Madeira tem uma pedra extra na engrenagem chamada JPP.

De setembro de 2023 a maio de 2024 o Chega cresceu praticamente 500 votos, manteve o número de representantes na Assembleia Legislativa da Madeira e, nem assim, festejou como se de um grande feito se tratasse. Razão: estava mais preocupado com o resultado tremido de Miguel Albuquerque. Apesar de ter passado a campanha a prometer que com o líder do PSD/Madeira à frente do executivo regional não havia espaço para entendimentos, Miguel Castro acabou a viabilizar o programa e o orçamento de Albuquerque.

Jurou que o fez, única e simplesmente, em nome da estabilidade e não por estar a dar a mão ao líder do PSD/Madeira. A postura foi gerando controvérsia (e divisões internas); André Ventura, a partir do continente, começou a pressionar Miguel Castro e as notícias sobre investigações que envolveram cinco governantes de Albuquerque foram usadas como gatilho. O líder do Chega/Madeira, que tinha ficado com a salvação de Albuquerque colada à pele, acabou por ser protagonista da reviravolta que atirou a Madeira novamente para eleições: apresentou uma moção de censura e viu a oposição em peso (à exceção do CDS) levantar-se ao seu lado para derrubar Miguel Albuquerque.

André Ventura, que nunca quis que o partido ficasse como o salvador de Miguel Albuquerque — muito menos tratando-se de um caso com suspeitas de corrupção, contra a qual se ergue a maior e mais audível bandeira do partido —, não faltou à chamada. Ao contrário de Luís Montenegro e de Pedro Nuno Santos, juntou-se à campanha da Madeira, como já tinha feito no passado, e nas ruas do Funchal agiu como se fosse o candidato. Nada de novo. Aliás, nem no arquipélago faltam cartazes com a fotografia do líder do Chega ou carros onde ecoa a sua voz e, escusado será dizer, que a presença de Ventura ali foi um trunfo usado até à exaustão.

Nas selfies, nos cartazes e nas ruas, Ventura passeia na Madeira como se fosse candidato e pressiona PSD

Mas nem a presença de Ventura chegou. Contados os votos, o Chega ficou aquém das expectativas e, mais do que números, saiu derrotado em toda a linha: derrubou o Governo regional e viu o PSD/Madeira reforçado; trabalhou nas comparações entre Albuquerque e Montenegro e acabou com o líder do PSD/Madeira a cantar vitória e, no plano nacional, ainda assistiu ao presidente do PSD a colar PS e Chega e a culpabilizar ambos por crises políticas nos Açores, na Madeira e no continente. As duas últimas deu-as como arrumadas, a última espera que vá pelo mesmo caminho.

Miguel Castro ainda tentou desvalorizar tentando ludibriar os jornalistas, dando conta de que o grupo parlamentar do Chega “há um mês e meio” que tinha apenas três deputados e que, portanto, mantinha o mesmo número de representantes. Mas o sorriso não apagava a realidade: ainda que a deputada Magna Costa tenha abandonado o grupo parlamentar, passando a não inscrita, nada muda os números. Há menos de um ano o Chega elegeu quatro deputados, agora ficou-se pelos três. Não esquecendo o tombo de 4720 votos que levou a isso.

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Ainda assim, assegurou o líder do Chega/Madeira, “mesmo que [o partido] desaparecesse e que os madeirenses [lhe] dessem um cartão vermelho”, continuariam “convictos” de que tinham “feito o mais indicado para fazer” — leia-se: derrubar Albuquerque.

André Ventura, que assumiu que esperava mais, inverteu a lógica e explicou longamente que há um “resultado moral” a retirar do quase regresso de Albuquerque à maioria absoluta: não é porque o partido perde votos ou mandatos que o Chega vai deixar de lutar contra a corrupção. “O Chega, em caso algum, cede nos seus princípios e na luta contra a corrupção”, concluiu, deixando claro que o partido “não vende convicções por cálculos eleitorais, por achar que vai ter mais ou menos votos”. Enquanto apanhava os cacos da ambição de subir nas urnas, Ventura preparava terreno para uma realidade que tem sido comparada entre a Madeira e o continente, entre Albuquerque e Montenegro. Se o guião a 18 de maio for idêntico, está escrito por Ventura.

Há apenas um pormenor que pode deixar o presidente do Chega mais defendido: há um partido de índole regional que é bem capaz de ser a pedra na engrenagem do Chega na Madeira. O Juntos pelo Povo (JPP), ainda que dispense rótulos de direita ou de esquerda, tem um de que não escapa: o de partido populista. Élvio Sousa chega a reconhecer que tem um modo de proceder “popular”, os adversários chamam-lhe “populista”, e tem uma forma de atuar comum a partidos desse género: tem povo no nome, vem do povo, é feito para o povo e pelo povo. Chama descontentes com a política, os políticos e a forma de fazer política. Fala para os que estão cansados de políticos. E pode bem ser que tenha ocupado o lugar do Chega ainda antes de Ventura criar o partido.

Na Madeira há muito que se acredita que um partido como o JPP tem sido um travão ao Chega, até pela linguagem usada na forma de fazer campanha, nomeadamente por Élvio Sousa. E a verdade é que, no arquipélago, Ventura tem ficado longe dos resultados conquistados no continente. Por outro lado, não é o único: a IL mantém-se apenas com um deputado e desceu em número de votos, o CDS-PP perdeu votos e um representante, o PAN saiu do parlamento regional. Bloco e CDU também não recuperaram os lugares perdidos em 2024.