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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

"Cheguei a fazer 18 chamadas para receberem um doente nosso em UCI". Uma manhã no combate à Covid-19 nas Caldas da Rainha

Hospital das Caldas tem a área Covid em salas improvisadas. Situação acalmou, não há filas de ambulâncias, nem corredores de macas. Mas a arca frigorífica de motivos turísticos está cheia de corpos.

É um dia anormalmente tranquilo no Hospital das Caldas da Rainha. Desde o início do mês, embalado pelo aumento do número de casos de infeção pelo novo coronavírus, que se vivia uma situação de rutura, com os internamentos por Covid-19 a entupirem a um ritmo cada vez maior a Área Dedicada ao Atendimento de Doentes Respiratórios. Este fim de semana, o controlo regressou aos labirínticos corredores do hospital: “Talvez o confinamento comece a fazer efeito”, teoriza Cristina Teotónio.

É ela, a diretora do serviço de urgência desta unidade do Centro Hospitalar do Oeste, que nos serve de bússola pelas salas agora improvisadas de enfermarias dedicadas à Covid-19. Há um leve odor a desinfetante no ar, a atmosfera fria do hospital contrasta com as viseiras embaciadas dos profissionais de saúde e cinco cadeirões azuis-marinho encostados à parede testemunham os dias sobrelotados que se viveram recentemente por ali. A qualquer momento podem ser necessários novamente: “Pode ser transitório e piorar a qualquer altura”, avisa a médica.

O ritual para aceder a estes corredores demora dez minutos aos experientes médicos, enfermeiros e auxiliares que percorrem a Área Dedicada ao Atendimento de Doentes Respiratórios todos os dias desde há dez meses, mas pode demorar o dobro para quem nunca fez isto antes. Primeiro, é preciso tirar toda a roupa trazida da rua e vestir um fato-pijama semi-transparente, de mangas curtas, feito de polipropileno. Tem-se frio. Depois põe-se um par de luvas, uma máscara FFP2, uma touca, protetores nos sapatos. Por cima, um fato astronáutico protetor, o famoso EPI, mais um par de luvas e uma viseira. E tem-se calor.

Quando se entra finalmente na área alocada à Covid-19, de nós só se vêem os olhos. O espaço por onde passamos já estava em construção quando o novo coronavírus foi detetado pela primeira vez em Portugal: seria primeiro para uma extensão da urgência geral, mas já tinha sido improvisado para acolher a unidade de pediatria, que também estava em obras. Assim que elas acabaram e a pediatria pode voltar à área original, o novo edifício passou a ser dedicado exclusivamente à doença provocada pelo SARS-CoV-2 que entretanto se tornara uma pandemia mundial.

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Mas se já havia o espaço, faltavam camas e faltava quem cuidasse dos doentes que as iriam ocupar. Encontrar estes recursos traduziu-se num esforço digno de uma partida de Tetris: o internamento em Medicina foi completamente transferido para o polo do Centro Hospitalar do Oeste em Peniche, um hospital livre de Covid-19; a Cirurgia passou a funcionar no mesmo espaço que a pediatria porque era a zona menos saturada nas Caldas da Rainha; e o serviço de Ginecologia passou para as vizinhanças da Maternidade.

Nas Caldas da Rainha, casos fatais já não cabem na morgue do hospital. Nas traseiras, uma arca frigorífica, ornamentada com motivos turísticos, vai guardando os corpos de quem não sobrevive. Uns morreram de Covid-19, outros com outras doenças, mas como o vírus se transmite a partir de gotículas emitidas durante a respiração, o perigo de contaminação entre cadáveres é diminuto.

Assim, aos poucos, e à medida que a pressão sobre o hospital aumentava, as Caldas da Rainha criaram um total de 57 camas de internamento Covid-19. Estão todas ocupadas mas, mesmo assim, esta segunda-feira, início de fevereiro, trouxe motivos a Cristina Teotónio para algum alívio: não há uma fila de ambulâncias à porta do hospital à espera de espaço para mais um doente em estado grave, como nos últimos dias, não há macas encostadas às paredes dos corredores com doentes em dificuldade respiratórias e a sala que chegou a receber 30 doentes suspeitos de estarem contagiados só tem sete.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O percurso de um doente Covid-19 no labirinto do hospital das Caldas

Há várias semanas que o Hospital das Caldas da Rainha faz aquilo que o Hospital Santa Maria começou a praticar na última sexta-feira: um enfermeiro está à porta do edifício a fazer uma pré-triagem a todos os doentes que chegam em busca de ajuda médica, seja em ambulâncias ou pelos próprios meios. Aqueles com sintomas condizentes com uma doença respiratória são todos encaminhados para esta área, os outros entram para a urgência geral — que, neste momento, só tem três, às vezes quatro médicos, fixos naquele serviço.

Quando um novo caso suspeito de doença respiratória é identificado — segundo Cristina Teotónio, são cada vez mais os casos positivos de Covid-19 que procuram o hospital por agravamento de sintomas,do que casos suspeitos por diagnosticar —, o enfermeiro na pré-triagem avisa por walkie talkie o colega na zona da triagem. Se forem casos urgentes, os doentes entram diretamente para a zona de internamento. Se não, há uma sala de espera onde aguardam por exames e análises; há cabines onde se isolam os casos suspeitos e outras onde aguardam os casos positivos.

O espaço onde tudo isto acontece foi improvisado. O chão ainda está só cimentado, as divisórias são feitas com paredes de plástico brancas e, na falta de melhor alternativa, há zonas do hospital isoladas da região Covid-19 apenas por sacos translúcidos colados com fita adesiva. "Sobrevivemos à conta de muito desenrascanço e improviso", admite Cristina Teotónio.

Quando algum doente respiratório — seja o diagnóstico Covid-19 ou qualquer outra patologia (neste momento, há uma doente suspeita de tuberculose na unidade) — necessita de fazer raios-X ou uma TAC, o corredor que liga esta área ao restante hospital é fechado. O doente passa para o interior das instalações regulares do hospital, faz os exames e regressa pelo mesmo circuito, que se manteve encerrado. Só é reaberto depois de todos os espaços por onde passou terem sido completamente desinfetados. 

Cristina Teotónio recusa que se esteja a praticar nas Caldas da Rainha os princípios da medicina de catástrofe — o conceito de escolher que doentes tratar primeiro, que a pandemia voltou a colocar à medida que o número de internamentos por Covid-19 saturava o SNS. Mas explica que, para todos os doentes é calculado um teto terapêutico, que estabelece até que ponto o doente é tratável. Quanto mais jovem e mais saudável for o doente, mais alto é esse teto. Uns ficam nas Caldas, outros, por serem casos mais complexos, são levados para hospitais com Unidade de Cuidados Intensivos (UCI). “Mas temos ficado com muitos instáveis, quando só exigem ventilação não invasiva, para evitar sobrecarregar os cuidados intensivos”, conta.

Mesmo com a aparente maior tranquilidade que se vive agora nas Caldas da Rainha, quase todos os dias morre alguém por Covid-19 neste hospital, quase sempre idosos com idades mais avançadas e comorbilidades que já lhes fragilizavam o sistema imunitário — aliás, raramente são internadas aqui pessoas mais jovens. Este fim de semana, no entanto, o hospital perdeu um técnico de imagiologia, vítima da Covid-19: Paulo Pereira foi admitido na urgência das Caldas da Rainha, mas o agravamento do quadro clínico ditou que fosse transferido para os cuidados intensivos do Hospital de Santa Maria. Foi lá, no último sábado, que acabou por morrer. Tinha 59 anos.

Com a epidemia, o pequenos quadro habitual de profissionais apenas foi reforçado com prestadores externos. São pediatras, psiquiatras, oftamologistas e cirurgiões, por exemplo — não precisam de ser internistas, como a médica. "É o que se apanhar", confessa a diretora do serviço de urgência desta unidade do Centro Hospitalar do Oeste. E mesmo assim não chega: há noites em que todos os internamentos, com dezenas de doentes, ficam nas mãos de dois médicos.

Nas Caldas da Rainha, casos fatais já não cabem na morgue do hospital. Nas traseiras, uma arca frigorífica, ornamentada com motivos turísticos, vai guardando os corpos de quem não sobrevive. Uns morreram de Covid-19, outros com outras doenças, mas como o vírus se transmite a partir de gotículas emitidas durante a respiração, o perigo de contaminação entre cadáveres é diminuto, uma vez que todos eles estão guardados em sacos de plástico brancos e identificados com uma etiqueta. É lá que são recolhidos pelas agências funerárias, explica a médica.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Falta de médicos e espaços improvisados dificultam o trabalho

O espaço onde tudo isto acontece foi improvisado. O chão ainda está só cimentado, as divisórias são feitas com paredes de plástico brancas e, na falta de melhor alternativa, há zonas do hospital isoladas da região Covid-19 apenas por sacos translúcidos colados com fita adesiva. “Sobrevivemos à conta de muito desenrascanço e improviso”, admite Cristina Teotónio: “Os nossos hospitais não estão preparados nem para infeções banais. Estes hospitais não foram construídos para isto”.

São coisas que só são possíveis graças ao espírito cooperante dos profissionais de saúde, acredita ela. A manhã já está a terminar e Cristina Teotónio, que devia ter saído do turno às oito da manhã, ainda vagueia com a reportagem do Observador pelos corredores do hospital. Não revela a que horas entrou ao trabalho no dia anterior, mas explica o que a mantém aqui, muitas vezes durante mais de 12 horas: “Não tenho médicos, enfermeiros, nem assistentes. O descanso ia saber-me bem, mas não tenho coragem de estar lá sabendo que a minha equipa está desfalcada“.

O problema não é apenas o número de camas para receber doentes. Há cerca de duas semanas, o hospital organizou o espaço para as últimas 24 camas de internamento Covid mas, a partir de agora, não há margem para aumentar: a sala de observação, agora totalmente ocupada, passou para a zona da cirurgia de ambulatório e simplesmente não há mais áreas que possam servir de enfermaria. Foi submetida uma proposta para a construção de uma zona modular, mas o processo é burocrático e demorado. Por enquanto, é apenas com isto, com o que têm e foram fazendo, que as Caldas da Rainha podem contar.

O problema está também na falta de recursos humanos. Quase todos os profissionais de saúde deste hospital foram desviados para os cuidados aos doentes com Covid-19. E mais houvesse, confessa Cristina Teotónio: com a epidemia, o pequenos quadro habitual de profissionais apenas foi reforçado com prestadores externos. São pediatras, psiquiatras, oftamologistas e cirurgiões, por exemplo — não precisam de ser internistas, como a médica. “É o que se apanhar”, confessa ela. E mesmo assim não chega: há noites em que todos os internamentos, com dezenas de doentes, ficam nas mãos de dois médicos.

Foi o que aconteceu na madrugada de domingo para segunda-feira. Cristina Teotónio esteve a trabalhar com mais dois colegas, mas um deles, acompanhado por um enfermeiro, teve de sair do hospital com um doente, cujo quadro clínico se agravou ao longo da noite, até à unidade dos cuidados intensivos do Hospital dos Lusíadas — um serviço que não existe em nenhum polo do Centro Hospitalar do Oeste. Foram três horas de “desfalque”, explica a médica internista. Sozinhos, dois médicos, tiveram de olhar por quase 30 pacientes.

Mesmo assim, a diretora do serviço de urgência geral não acredita que a exigência que a Covid-19 trouxe ao hospital esteja a prejudicar os cuidados prestados aos doentes de outras patologias. A falta de recursos é transversal a toda a unidade, mas já o era antes da pandemia. Admite, isso sim, que os doentes internados com Covid-19 estão melhor acomodados neste momento que os outros pacientes: era preciso isolá-los de modo a evitar que eles e os profissionais de saúde fossem infetados. E isso tem feito com que os espaços de internamentos não-Covid-19 tivessem sido encurtados (resultando numa maior concentração de pessoas).

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Situação mais controlada nas Caldas, mas tudo pode mudar em pouco tempo

Este não era o plano inicial. Quando a epidemia de Covid-19 chegou a Portugal, a ideia era que o Hospital das Caldas da Rainha tivesse apenas um determinado número de camas alocadas à doença — ultrapassado esse número, os pacientes seriam transferidos para outras unidades do Centro Hospitalar do Oeste ou mesmo para Lisboa, Santarém e Leiria. Mas a procura obrigou a repensar o esquema e o Hospital das Caldas está praticamente transformado num hospital Covid-19. Aliás, 65% a 70% de todo o Centro Hospitalar está dedicado à epidemia.

Em Torres Vedras, a cerca de 50 quilómetros das Caldas, onde fica outra unidade do centro hospitalar, a situação chegou a ser muito crítica. O presidente da Câmara pediu mesmo ao ministério dos Negócios Estrangeiros um reforço dos profissionais de saúde naquele hospital, onde foi detetado um surto que atingiu dezenas de trabalhadores — e dos primeiros a falar de ajuda internacional, nomeadamente de médicos e enfermeiros estrangeiros, oriundos de países com uma baixa incidência de casos de infeção pelo SARS-CoV-2. Nas Caldas da Rainha nunca se colocou uma situação tão grave.

Nas Caldas da Rainha, houve contudo momentos alarmantes, com doentes a aguardar espaço em internamento nos corredores e muitos casos instáveis admitidos em enfermaria, mas que necessitavam de tratamento em unidades de cuidados intensivos. "Umas vezes sobra para uns, outra vez sobra para outros", admite Cristina Teotónio: "O meu recorde foi 18 chamadas para encontrar quem acolhesse um doente nosso que precisava de cuidados intensivos".

Em Torres, era “insustentável”: chegou a haver 10 ambulâncias em fila à porta do hospital e a transferência de doentes de Torres Vedras para outros pontos do país tornou-se cada vez mais difícil por causa da saturação em todo o Serviço Nacional de Saúde. Mas está tudo sob maior controlo nos últimos dias, diz também a médica.

Nas Caldas da Rainha, houve contudo momentos alarmantes, com doentes a aguardar espaço em internamento nos corredores e muitos casos instáveis admitidos em enfermaria, mas que necessitavam de tratamento em unidades de cuidados intensivos. “Umas vezes sobra para uns, outra vez sobra para outros”, admite Cristina Teotónio: “O meu recorde foi 18 chamadas para encontrar quem acolhesse um doente nosso que precisava de cuidados intensivos”.

É por dificuldades como esta que a médica internista deposita tantas esperanças no confinamento geral e obrigatório em vigor neste momento em Portugal. Não acredita que baste para travar a Covid-19 no país e admite mesmo que será uma doença com que o mundo terá de aprender a conviver nos próximos anos. Mas funciona como um “corta-fogo que abre uma brecha para aliviar a pressão sobre os hospitais”: “Tratamos quem cá está, reorganizamo-nos e podemos receber mais doentes a seguir”, descreve.

Já na rua, sem os fatos usados na zona Covid-19 do hospital e depois de um duche tomado, Cristina Teotónio olha à volta. Sabe que o sossego daquele momento, em que o som das ambulâncias e o rebuliço de médicos e enfermeiros se calou e até permite ouvir os pássaros do jardim ali perto, pode terminar a qualquer momento. E prova disso é o momento em que outra médica sai apressada da Área de Doentes Respiratórios porque um doente, que tinha saído do hospital sem alta médica, nem autorização, colapsou à porta da urgência geral. Se fosse um caso positivo de Covid-19, a polícia também seria chamada.

“A situação cá fora não está controlada”, sublinha Cristina Teotónio. “Temos muitos lares aqui à volta, onde há surtos e cujos residentes podem vir cá parar”, antecipa. Ela e a sua equipa, diz, estão prontos a recebê-los.

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