Quando terminou o encontro em Barcelos frente ao Gil Vicente, e já depois de ter visto os jogadores ficarem parados em frente à bancada onde se concentrava a maioria dos adeptos do FC Porto a serem alvos dos mais diversos insultos por mais uma derrota (um cenário que tinha garantido antes, na viagem a Famalicão, que nunca mais aconteceria), Vítor Bruno lançou a “bomba” Pepê na zona de entrevistas rápidas e acabou com uma confiança à prova de bala em relação ao seu futuro: “Quando sentir que eu sou um problema, vou ser o primeiro a dizê-lo. Neste momento sinto claramente que sou parte da solução”. Quem ouvia aquela frase, no contexto em que foi referida e com a certeza que trazia consigo no tom, dificilmente poderia imaginar que a passagem pelo Dragão tinha chegado ao fim. André Villas-Boas, na tribuna, pensava de outra forma.
Num par de horas, aquilo que já tinha antes sido ponderado acabou por concretizar-se. O ruído que vinha de fora, com mais manifestações de desagrado numa noite longa que só depois das 2h da manhã terminou (com o anúncio da saída de Vítor Bruno), não pressionou o presidente portista para tomar a decisão mas foi um espelho do momento que o futebol do clube atravessava – e que podia ser sentido a vários níveis. A parte dos resultados era a mais óbvia, com a terceira derrota consecutiva em Barcelos e apenas um triunfo nos últimos oito encontros fora sem explicação para tamanha oscilação perante o rendimento no Dragão, mas tudo o que se foi passando em termos internos acabou por ser o fator determinante para a decisão final.
Tudo ponderado, Villas-Boas não quis esperar mais. Mesmo sabendo que a saída de Vítor Bruno acaba por ser um rombo naquilo que foi o projeto desportivo desenhado no início da temporada, quase que assumindo ter uma escolha errada de timoneiro depois da saída de Sérgio Conceição, o líder dos azuis e brancos, que foi assumindo para si a decisão sem deixar de estar em contacto com o diretor desportivo Andoni Zubizarreta e com o diretor do futebol Jorge Costa, colocou tudo nos pratos da balança e concluiu, também pelo que sentia do ambiente no balneário e pelos inputs dos outros responsáveis, que o técnico passava a ser mais problema do que solução. Ou seja, nem com maiores aproximações ao plantel a situação iria mudar.
Era algo ainda assim aguardado? Não. Apesar de ser claro para todas as partes que deveriam existir algumas no plantel para fazer face a carências óbvias como a lateral esquerda da defesa (até porque Wendell nunca contou), não chegou a haver conversas sobre reforços com o antigo treinador, algo que se deverá estender ao sucessor. O que ativou a possibilidade de haver um plano B? A forma como a equipa perdeu na Madeira.
▲ Vítor Bruno foi um dos mais aplaudidos no treino aberto no final de 2024. Três semanas depois, rescindiu com o FC Porto
ESTELA SILVA/LUSA
Uma entrada marcada por uma guerra, a Supertaça e um primeiro abalo em novembro
Na sequência das eleições do FC Porto, da vitória de André Villas-Boas e sobretudo do fim de uma era de 42 anos com Pinto da Costa na liderança do clube, um dos temas mais sensíveis para os novos responsáveis era a questão do comando técnico da equipa de futebol. Sérgio Conceição não iria ficar depois da renovação feita na véspera do sufrágio por quatro anos quase “carimbando” a ligação ao anterior líder, o próprio treinador tinha noção de que chegara ao fim de linha no clube, o nome escolhido para a sucessão gerou controvérsia e trouxe uma polémica extra. O atual timoneiro do AC Milan sentiu-se sempre traído pelo antigo número 2, tendo em conta que as conversas entre Vítor Bruno e a FC Porto SAD já teriam começado e que nas conversas o adjunto referia apenas a hipótese de passar a principal perante a hipótese Médio Oriente.
Ainda antes de entrar, a posição de Vítor Bruno estava fragilizada aos olhos de muitos adeptos que podiam considerar que o tempo de Pinto da Costa e Sérgio Conceição se tinha esgotado mas nem por isso deixavam de respeitar aquilo que fizeram nos dragões. Villas-Boas sempre teve consciência de que a aposta obrigaria a um suporte ainda maior por parte da estrutura mas enalteceu a coragem do antigo número 2 para aceitar e cumpriu aqueles que eram os objetivos na altura: fazer uma transição “suave”, ter alguém que conhecesse o clube e contar com um técnico que tentasse potenciar os mais novos. Antes, sobretudo através de Andoni Zubizarreta, foram sondados outros treinadores com mais experiência e maior notoriedade em termos internacionais mas com um obstáculo que esteve sempre presente: os encargos salariais envolvidos.
Nem sempre Villas-Boas e Vítor Bruno falaram a mesma linguagem. O ponto comum entre ambos era passar para fora que o FC Porto, por uma questão histórica e de tradição, teria de assumir-se como um candidato à conquista de todos os títulos mas, na véspera do início da Liga Europa com um jogo fora com o Bodo/Glimt, foi percetível o nível diferente de fasquias, com o presidente a querer mais e o treinador a pedir cautela. Ainda assim, nada que beliscasse a relação de uma dupla que festejou o primeiro triunfo logo no início da temporada, com uma épica reviravolta frente ao Sporting para a conquista da Supertaça. Menos de um mês depois, os azuis e brancos sofreram a primeira derrota em Alvalade no Campeonato mas nem por isso a confiança foi abalada. Tudo foi correndo bem até ao fatídico mês de novembro que quase fez ruir tudo.
▲ Vítor Bruno foi apresentado em junho como sucessor de Sérgio Conceição depois de uma guerra de palavras com o antigo treinador principal
O mercado de transferências, dentro das dificuldades financeiras assumidas por todos no início deste ano zero do futebol portista, foi positivo. A contratação relâmpago (e surpresa) de Samu Aghehowa trouxe o tipo de jogador que Vítor Bruno pretendia para ser a referência ofensiva de um 4x3x3 ou 4x2x3x1 que perdera não só Taremi mas também Evanilson, Francisco Moura reforçou a lateral esquerda, Nehuén Pérez, Fábio Vieira e Tiago Djaló chegaram em negócios por empréstimo com encargos mais baixos – só o argentino conta com uma cláusula de compra obrigatória –, a situação de Francisco Conceição foi “resolvida” com uma cedência com opção de compra à Juventus. Até a outra venda prevista além de Evanilson acabou por não acontecer, com Galeno a permanecer ao contrário do que era suposto ao ver gorada a ida para o Al-Ittihad.
Com uma equipa forte em termos coletivos, que entretanto tinha encontrado em Tiago Djaló o parceiro ideal para jogar ao lado de Nehuén Pérez na fase mais consolidada em termos defensivos e que contava com Samu Aghehowa como grande goleador, Vítor Bruno conseguiu a melhor série de triunfos seguidos entre outubro e início de novembro (seis) mas foi aí que o autêntico carrossel que foi a primeira metade da época conheceu o ponto mais baixo: três derrotas seguidas com Lazio, Benfica e Moreirense, empate na deslocação à Bélgica para defrontar o Anderlecht, muita contestação entre uma franja de adeptos que ganhou maior tom depois da eliminação da Taça de Portugal, quando Villas-Boas e Jorge Costa foram mesmo falar com um grupo que estava em protestos à porta da garagem do Dragão. Aí, o treinador “tremeu” pela primeira vez.
Os “choques” internos com jogadores e a falta de “lideranças” no balneário
André Villas-Boas, antigo campeão como treinador numa temporada em que o FC Porto ganhou quase tudo o que havia para ganhar, sabe bem o peso que é uma ida ao balneário para falar com o grupo. Fez isso depois da goleada sofrida na Luz, utilizando termos mais duros como “vergonha de exibição” ainda no balneário dos lisboetas. Fez isso após a eliminação na Taça de Portugal em Moreira de Cónegos, tomando a palavra já no balneário do Dragão. Apesar de haver a ideia convicta de que a ideia passaria por manter Vítor Bruno até ao limite possível, o empate na Bélgica deixou tudo “preso” mas seguiu-se mais uma fase de bons resultados, sendo que até a igualdade em Famalicão e consequente reação despropositada de alguns adeptos depois de tudo o que tinha acontecido foi algo que “reforçou” a confiança de uma equipa que voltava a crescer.
Foi nessa altura também que a estrutura viu algo de bom e, de seguida, de mau. Por um lado, e já depois da aposta em Vasco Sousa e da consolidação de Martim Fernandes como opção de equipa A, Rodrigo Mora foi ganhando espaço na equipa inicial confirmando tudo aquilo que sempre lhe foi apontado, sinal de que era possível criar mais valias a partir da formação como o atual projeto desportivo pretende. Por outro, após o período em que Otávio foi “encostado”, Fábio Vieira também ficou de fora por opção técnica e as coisas com outros jogadores como Pepê não estavam propriamente boas. O que segurava tudo? Os resultados. O que fez com tudo ficasse à mostra? Os resultados. O que colocou o técnico em xeque? As questões internas.
▲ Vítor Bruno teve uma série de quatro jogos sem vitórias em novembro que provocou um primeiro abalo na sua liderança
LUSA
A estrutura dirigente do FC Porto sempre soube que o sucesso desportivo estaria muito assente na presente época naquilo que poderia ser construído em termos de balneário. Logo à cabeça porque havia uma viragem de sete anos de liderança de Sérgio Conceição para um novo timoneiro que foi durante esse mesmo período o número 2. Depois porque seria de dentro para fora e não de fora para dentro que poderia ser evidenciado que o ADN de um clube não está refém de uma pessoa ou ideia. Por fim porque seria isso que permitiria reagir aos insucessos que de forma natural poderiam acontecer. Foi isso que esteve à prova na Madeira frente ao Nacional depois da derrota na meia-final da Taça da Liga em Leiria, foi isso que falhou em toda a linha.
Depois da saída de Pepe, o FC Porto ficou refém de líderes no balneário. Mais: nas alturas em que as coisas não saíam tão bem, o próprio Vítor Bruno ia abordando a situação para fora. “Têm de aparecer novas lideranças no balneário, independentemente da idade ou da capacidade. Têm de aparecer lideranças novas que agarrem a equipa em certos momentos. Isso vai-se conquistando, mas como temos pouco tempo, só queremos muito ganhar”, disse antes do jogo com o Anderlecht, entre várias abordagens ao tema. Em paralelo, e sobretudo nos últimos encontros, o técnico falou também de “mentalidade”: “Podemos especular da forma que quisermos mas a verdade é que não conseguimos dar a resposta que queríamos dar. Temos de dar um passo em frente na mentalidade mas não adianta chorar”. As fissuras ficavam expostas, este domingo tudo desmoronou quase como um espelho de seis meses que pareciam condenados à nascença.
O jogo em Barcelos, a guerra de palavras com Pepê e quem será o sucessor
A deslocação a Barcelos mostrou em 90 minutos mais descontos todo o estado de ebulição dentro e fora de campo. Da primeira parte “desperdiçada” como acontecera na Madeira aos erros defensivos que valeram os golos ao Gil Vicente, passando pelas exibições falhadas em termos individuais à falta de inspiração coletiva, até à forma como o jogo esteve interrompido pelos próprios adeptos azuis e brancos e como Samu Aghehowa foi expulso no final, o autêntico barril de pólvora em termos emocionais que é hoje o grupo portista ficou patente. Na tribuna, Villas-Boas foi assistindo a tudo. E teve depois conhecimento do que se passara entre Vítor Bruno e Pepê, primeiro na zona de entrevistas rápidas da SportTV, depois nas redes sociais. A gota de água que fez transbordar o copo tinha caído e todos os elementos foram chamados ao Dragão.
“O Pepê não está aqui por vontade dele. Quando se auto exclui de participar em jogos… Há uns que querem, outros que não querem tanto… Isto é para quem quer”, referiu o treinador. “Diz o cara que me exclui do treino por fazer golo na mini baliza com força, que me mandou treinar a semana toda sozinho à volta do campo. Sempre fui honesto e sabia que não vinha passando por um momento bom e que precisava melhorar mas nunca deixei de ser profissional e desrespeitar alguém ou o clube, como alguns dizem… E é sujo da parte de alguns falar que eu não estava a ver o jogo, sendo que assisti do começo ao fim com a minha família e, meus amigos. Dizem que eu estava a jogar? Da mesma forma que eu estou no Dragão e essa mesma conta está a jogar ou também trouxe o portátil para cá? É mais fácil julgar do que ir atrás da verdade…”, respondeu o brasileiro, recordando as críticas por alegadamente estar a jogar durante a noite.
▲ Treinador do FC Porto ganhou apenas um dos últimos oito jogos fora do FC Porto, consentiu a terceira derrota seguida em Barcelos e foi demitido após o encontro com o Gil Vicente
Jose Manuel Alvarez Rey
A chegada ao Dragão, mais de duas horas do final do jogo em Barcelos, voltou a ter algumas dezenas de adeptos em protestos com uma tarja a chamar “traidor” a Villas-Boas e a pedir a demissão de Vítor Bruno. Pouco antes de o autocarro entrar na garagem, houve tochas e petardos rebentados entre o forte dispositivo policial montado perto da entrada. Pouco mais de uma hora depois, fazia-se a festa cá fora: o FC Porto deu início ao processo de rescisão com Vítor Bruno (e respetiva equipa técnica). Mesmo sabendo que a defesa do técnico era a defesa do projeto desportivo que apresentara, o presidente dos dragões considerou que era mais problema do que solução e “esvaziou” um balão que começava a abalar em demasia a equipa. Não ficou por aí: no discurso que fez, chamou à pedra tudo e todos perante os resultados recentes dos dragões.
Na manhã desta segunda-feira, apenas com Jorge Costa presente entre os elementos da cúpula diretiva, Vítor Bruno foi ao Olival e saiu pouco depois das 12h15, minutos antes de José Tavares, diretor de formação que agarrou de forma interina na equipa depois da saída de um treinador que ganhou uma Supertaça mas sofreu oito derrotas e três empates em 29 encontros oficiais. Ao final da tarde, por forma a garantir o descanso dos jogadores numa semana que não deve ter folgas, realizou-se o primeiro treino com o novo timoneiro e com a presença de Pepê, sendo que antes André Villas-Boas voltou a falar ao plantel estando na companhia também de Andoni Zubizarreta além de Jorge Costa. Menos de 24 horas depois, tudo tinha mudado.
Em princípio, perante o calendário apertado do FC Porto, José Tavares deve mesmo comandar a equipa no próximo encontro em casa com o Olympiacos para a Liga Europa. Ainda assim, e tendo em conta todos os contactos que foram sendo feitos durante o dia, o sucessor deverá ser apresentado até lá, com duas grandes hipóteses em cima da mesa: assegurar um treinador estrangeiro, algo que foi tentado no verão mas que foi batendo nas possibilidades financeiras a nível salarial e de investimento na equipa, ou garantir um técnico português que conhecesse a realidade nacional para uma rápida adaptação. É aqui que um nome tem sobressaído face a outros, Luís Castro, não só por estar sem clube mas também por conhecer o clube e ter deixado um projeto na formação ainda hoje recordado pelos resultados que teve: o Visão 6-11.