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Colson Whitehead, vencedor do Pulitzer Prize: a coragem, a esperança e a "procura de um refúgio da dura realidade" /premium

Depois de "A Estrada Subterrânea", Colson Whitehead voltou a mergulhar na realidade para escrever a história de Elwood, um rapaz negro "à procura de um refúgio da dura realidade". Falámos com o autor.

Até 2013, a Arthur G. Dozier School for Boys, um antigo reformatório na localidade de Marianna, na Florida, não passava de uma má memória. A escola, que chegou a ser o maior reformatório juvenil dos Estados Unidos da América, estava fechada desde 2011. Durante os 111 anos de funcionamento, tinha sido investigada várias vezes por suspeitas de abusos, mas só em 2009, quando o estabelecimento foi incapaz de passar numa inspeção estatal e a sua violenta reputação confirmada, é que foi finalmente encerrada. O que então se descobriu foi apenas uma pequena parte da história negra da Dozier School, que uma equipa de antropólogos forenses da University of South Florida veio a revelar na totalidade alguns anos depois.

Em 2012, quando trabalhavam na exumação dos corpos sepultados no cemitério da Dozier, o Boot Hill Cemetery, os investigadores identificaram uma segunda área com 55 sepulturas não identificadas. Foram também encontrados os restos mortais de vários indivíduos na mata e zona circundante. Estes pertenciam a jovens que tinham morrido brutalmente às mãos dos responsáveis pelo reformatório. A descoberta macabra despoletou um interesse na Dozier School e relatos de ex-alunos começaram a surgir. As suas histórias davam conta da violência física e sexual e da tortura praticadas durante décadas dentro da escola, assim como do homicídio de vários jovens, cujos corpos foram depois sepultados no cemitério secreto do reformatório.

Colson Whitehead descobriu a Dozier em 2014, quando os resultados da investigação dos antropólogos da University of South Florida foram divulgados e uma exaustiva investigação jornalística feita por Ben Montgomery publicada no Tampa Bay Times. O escritor estava a trabalhar numa ideia que tinha tido para um novo romance, um policial passado nos anos 60, no bairro nova-iorquino de Harlem, mas a história da Dozier impressionou-o tanto que decidiu que, por enquanto, ia deixar a crime story de lado. “Fiquei chocado por nunca ter ouvido falar no local”, admitiu o autor norte-americano numa entrevista telefónica com o Observador. “E interroguei-me: se existiu um sítio assim, quantas Doziers existem por aí?”

O reformatório tornou-se a base para o seu novo livro, uma história de perseverança, dignidade e coragem, num tempo em que os sonhos eram facilmente esmagados pela realidade. Apesar da longa existência da Dozier, Whitehead decidiu que a narrativa se passaria nas últimas décadas da era Jim Crow (nome de uma personagem que ridicularizava os negros e que era usada para designar o conjunto de leis que, após o fim da escravatura, impuseram a segregação racial, sobretudo no sul dos Estados Unidos, até meados dos anos 60), oferecendo uma nova camada à história de violência da escola e possibilitando a exploração de temas como a intolerância, o racismo e a segregação social, tão caros ao autor.

Os Rapazes de Nickel foi publicado no verão de 2019. Em maio, foi galardoado com o Pulitzer Prize, o segundo na carreira de Whitehead, que já tinha vencido o mesmo prémio na categoria em 2017 pelo seu romance anterior, A Estrada Subterrânea. Também baseado em factos verídicos, neste caso na rota secreta utilizada pelos escravos para escaparem dos estados esclavagistas do sul (que Whitehead transformou numa verdadeira linha de comboio, construída debaixo da terra), A Estrada Subterrânea conta a história de Cora, uma jovem escrava que trabalha numa plantação de algodão da Geórgia, e da sua luta pela liberdade. Ambas as obras estão editadas em Portugal pela Alfaguara, que lançou este mês de setembro a edição portuguesa de Os Rapazes de Nickel.

O romance foi editado em Portugal em setembro, pela Alfaguara

A violência existe, mas não é “o coração da história”

Os Rapazes de Nickel gira em torno de Elwood Curtis e Jack Turner, dois rapazes negros, vítimas do mundo segregacionista e intolerante em que vivem. Os dois conhecem na Dolzier School for Boys, nos anos 60, e, apesar da forma muito diferente como encaram o mundo — o primeiro é um otimista por natureza e o segundo um realista —, tornam-se amigos. Juntos procuram sobreviver à violência da escola. Apesar de o romance ser baseado em factos verídicos e de uma das principais fontes de Colman Whitehead ser o relato de antigos alunos, Elwood e Turner são personagens ficcionais. Foi, aliás, por o seu livro se um trabalho de ficção e não de não-ficção que o escritor decidiu chamar à Dozier Nickel: “Não é não-ficção, é ficção. Queria manter alguns aspetos, mas também queria poder mudar coisas. Não queria estar preso ao que realmente aconteceu, queria poder mudar coisas ali e aqui, porque gosto de inventar”, explicou ao Observador.

Houve, no entanto, coisas que se mantiveram — no livro, o cemitério também se chama Boot Hill, e a Casa Branca, a casa de horrores da Dozier, também manteve o seu nome. “A Casa Branca era um lugar real. Era um barracão usado para armazenamento, era assim que o que as crianças lhe chamavam.” Construído em 1929, o edifício era inicialmente uma prisão, com duas celas (uma para os alunos brancos e outra para os alunos negros) para deter jovens considerados incorrigíveis ou violentos. Nas décadas de 1950 e 1960, tornou-se palco de alguns dos atos mais bárbaros que aconteceram no interior do reformatório — era na “Casa Branca” que os alunos mal comportados eram chicoteados com uma tira de couro de 90 centímetros chamada “Beleza Negra”. “Há coisas [reais] com as quais não consigo competir”, admitiu Whitehead. “Não consigo competir com o calão usado. Isso tem uma ressonância metafórica.” Por isso, “certos detalhes tinham de ir para o livro”.

“A Casa Branca aparece no início do livro, mas a violência não acontece na página. Há o som e a antecipação, mas não o vemos a ser espancado, porque não é esse o objetivo. (…) A violência tinha de lá estar, mas esse não é obviamente o coração da história.”
Colson Whitehead, escritor

Elwood é vítima da “Beleza Negra” logo no início do livro, mas a violência de que é alvo não é relatada de forma explícita. São, aliás, poucos os momentos em que isso acontece. Questionado sobre a dificuldade em manter um equilíbrio entre aquilo que queria mostrar e o que queria que fosse subentendido, Whitehead disse que a violência existe no romance “porque era a verdade do lugar”, mas que nunca quis fazer uma “exploração” disso. “O coração da história é Elwood e Turner, não a brutalidade do sítio”, disse. “A Casa Branca aparece no início do livro, mas a violência não acontece na página. Há o som e a antecipação, mas não o vemos a ser espancado, porque não é esse o objetivo. (…) A violência tinha de lá estar, mas esse não é obviamente o coração da história”, concluiu.

A reconstrução que fez do espaço foi feita exclusivamente com base em imagens. Apesar de ter pensado várias vezes em deslocar-se até Marianna, o escritor acabou por não ir. “Queria ir, mas estava muito irritado. Fui adiando, adiando, até que finalmente decidi que não ia, que a odiava e que o lugar devia ser erradicado da face da Terra. Se fosse lá, levava dinamite e um bulldozer. Acho que devia ser destruído”, defendeu.

Elwood e Turner: duas formas de ver o mundo

Colson Whitehead começou a escrever Os Rapazes de Nickel após a eleição do atual Presidente norte-americano. “Era a primavera de 2017 e Donald Trump tinha sido eleito e já era claro que ia ser um desastre”, recordou. “Tive de tentar perceber se estava otimista em relação ao futuro da América ou se estava pessimista. Estávamos a ir na direção certa ou estávamos a voltar para trás?”. Esses sentimentos contraditórios tornaram-se nas as linhas centrais do romance, que as personagens Elwood e Turner personificam.

“O ponto de vista do Elwood e o ponto de vista do Turner são duas filosofias e duas maneiras diferentes de ver o mundo. Como é que devemos viver? Será que podemos acreditar que estamos a fazer progressos sociais, que estamos a andar para a frente em direção a um futuro melhor? Será que deixámos este tipo de ignorância para trás ou será que somos a mesma sociedade miserável que sempre fomos?”, interrogou o autor nascido em Nova Iorque, admitindo que, no que a Trump diz respeito, “as coisas são bastante horríveis” nos dias de hoje e que, ao contrário de Elwood, tem dificuldade em ser otimista. “Com as políticas da administração Trump em termos do aquecimento global é difícil ser muito otimista. Nestes dias estou mais Turner. Mas acho que temos de nos agarrar à esperança.”

Este ano, Colson Whitehead, de 50 anos, tornou-se um dos poucos escritores a vencer um segundo Pulitzer Prize na categoria de "Ficção"

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A esperança era também uma das ideias principais de A Estrada Subterrânea, um romance que tem as suas semelhanças com Os Rapazes de Nickel, como admitiu Whitehead: “Se és um escravo numa plantação e não acreditas que há um sítio melhor, um lugar de liberdade, então não há história. Neste livro, o Elwood tem de acreditar que existe um mundo social melhor para lá da segregação e da injustiça dos anos 60 no sul da América. Caso contrário, não há história. Em ambos os casos, temos protagonistas que estavam à procura de um refúgio da dura realidade.”

Um dos refúgios que Elwood encontra são os discursos de Luther King reunidos no LP Martin Luther King at Zion Hall, que recebe no Natal de 1962. Estes servem para sustentar as suas ideias de justiça, amor e igualdade, e são citados em vários momentos ao longo do livro. “1963 [ano em que decorre uma boa parte do romance] é o ponto alto do movimento dos direitos civis e também do Jim Crow, as leis restritivas no sul. Para um otimista em 1963, o dr. King é um modelo óbvio de engajamento com o mundo”, explicou Whitehead. “Dá-lhe uma imagem de quem poderá ser quando crescer.”

Símbolo da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e pelo fim da segregação, Martin Luther King não foi o mais popular dos homens e hoje tendemos a “esquecermo-nos do quão pouco popular ele era e quanto a sua mensagem de paz e amor era odiada”, apontou o autor. “Quando ele morreu, era muito pouco popular”, recordo o escritor. “Uma coisa é acreditar na igualdade de forma abstrata. Alguém como o dr. King recorda-te das tuas responsabilidades morais e força-te a viver essa obrigação. Pode ser difícil gostar de uma pessoa assim. Quando ela desaparece, podes voltar a admirar a sua mensagem no abstrato.”

"Donald Trump tinha sido eleito e já era claro que ia ser um desastre. Tive de tentar perceber se estava otimista em relação ao futuro da América ou se estava pessimista. Estávamos a ir na direção certa ou estávamos a voltar para trás?"
Colson Whitehead, escritor

Novo livro fala de um crime, mas “não tem tanta tortura”

O próximo livro de Colson Whitehead, o policial que andava na sua cabeça quando se deparou com a história da Dozier, Harlem Shuffle, já tem data de lançamento — será publicado em setembro de 2021 nos Estados Unidos e provavelmente no ano seguinte em Portugal. Um quarto do policial foi escrito durante o confinamento, quando conseguia encontrar umas horas livres fora responsabilidades familiares para se concentrar nele. “Felizmente já tinha acabado a parte mais difícil e consegui acabá-lo”, admitiu. “Acabei-o em junho, dois meses depois.”

Apesar de ser “uma história sobre um crime” e ter “algumas mortes”, o escritor de Nova Iorque garante que “não tem tanta tortura” e que está “muito contente” por isso. Por cada livro mais pesado, Whitehead procura publicar sempre um livro que tenha “mais piadas”. Devia ter sido assim após A Estrada Subterrânea, mas a descoberta da Dozier School for Boys afastou-o dessa determinação. Ao Observador, admitiu que escrever dois romances como A Estrada Subterrânea e Os Rapazes de Nickel de seguida foi um desafio: “Quando acabei Os Rapazes de Nickel, estava cansado, deprimido por ter levado o Elwood e o Turner à conclusão que tinha determinado para eles há alguns anos. E definitivamente deprimido com as histórias reais de alunos reais que lia todos os dias. Foi definitivamente difícil, mas, no final, valeu a pena”.

Os dois trabalhos valeram-lhe dois Pulitzer Prize na categoria de “Ficção”, um feito raro no que diz respeito ao galardão norte-americano — Whitehead foi apenas o quarto escritor a receber dois Pulitzer e o primeiro afroamericano a consegui-lo. Mas a verdade é que, entre a eleição de Donald Trump, a pandemia de Covid-19 e a necessidade de garantir que os filhos têm uma bom sinal de wi-fi, o autor tem tido muita coisa a distrai-lo da “alegria” que o segundo Pulitzer lhe trouxe, como admitiu entre risos. Não é fácil ser escritor e pai em tempos de confinamento.

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