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Antes das votações telefónicas, Israel estava relegado para a metade inferior da tabela das classificações da final do Festival Eurovisão da Canção, no 15º lugar. Tudo mudou com a votação do público que lhe acrescentou 297 pontos aos apenas 60 que tinha recebido do júri internacional, catapultando o país para o segundo lugar da edição de 2025. Espanha abriu o movimento de interrogações, que está a ser seguido por mais países. Israel é agora o motivo, como Ucrânia já o foi em 2022. A polémica ultrapassa a questão política. Para lá de quererem saber como é que Israel angaria tantos televotos, Espanha e Bélgica pedem mais transparência, mas também se o sistema de votação sofre interferências. De que forma é regulado este televoto?
A controvérsia da participação de Israel no festival não é nova — começou em 2024 — mas acaba de ser prolongada com a nova ofensiva na Faixa de Gaza. Muitos países e organizações classificam a ação militar israelita de absolutamente desproporcional em relação à ofensiva palestiniana de 7 de outubro de 2023, que fez espoletar a atual fase do conflito israelo-palestiniano. .
A RTVE, a televisão pública espanhola, pediu, no domingo, uma auditoria ao televoto espanhol, que atribuiu pontuação máxima a Israel, à semelhança do que aconteceu com os televotos de mais 13 países, entre eles Portugal, Alemanha, Bélgica, França, Luxemburgo, e Reino Unido. Estes 12 pontos deram preferência a Israel, contribuindo quase na totalidade para a classificação que levou Yuval Raphael, a concorrente israelita, ao segundo lugar do pódio.
Espanha garante que não vai desistir de saber mais sobre o método utilizado para a contagem dos votos dos telespectadores. Para além de querer abrir o debate em relação às condições de continuidade da participação de Israel no festival de música. O chefe do governo espanhol Pedro Sánchez, já veio entretanto defender abertamente a exclusão de Israel da Eurovisão e de outras competições internacionais, à semelhança do que aconteceu com a Rússia assim que invadiu a Ucrânia, em 2022. Mas questões políticas e humanitárias à parte, o sistema de votação há algum tempo que levanta dúvidas.
Voto de júri profissional e voto dos telespectadores
Ao jornal La Vanguardia, Martin Green, diretor do Festival Eurovisão da Canção, declarou que a Once, a empresa responsável pelo apuramento da votação do festival desde 2004, que é parceira da União Europeia da Radiodifusão (UER), a entidade organizadora do Eurofestival, “confirmou que foi registada uma votação válida em todos os países participantes da grande final deste ano e no resto do mundo”.
No site oficial da empresa tecnológica e de sistemas de informação, com sede nos Países Baixos, e subsidiárias na Alemanha (que gere o processo de votação) e na Suíça, assegura-se que garante, há vários anos, “um processo de votação democrático e sem falhas que liga milhões de pessoas” no festival da canção europeu.
O sistema de votação da Eurovisão divide-se em duas fases — a votação de um júri profissional em cada país e o televoto. O peso que cada um dos métodos de avaliação tem é muito idêntico, mas o voto popular tem uma ligeira vantagem: representa 50,6% do total, contra 49,4% do júri profissional.
Segundo destaca o El Mundo, esta diferença, ainda que ténue, é o primeiro problema de um sistema com o qual vários países parecem discordar. Além disso, ao contrário da votação do júri, que acontece no dia anterior à final, o voto dos telespectadores é realizado e divulgado em direto, durante a final do festival da canção.
▲ Yuval Raphael, a representar Israel, interpretou a canção “New Day Will Rise” na 69.ª edição do Festival Eurovisão da Canção em Basileia, Suíça
GEORGIOS KEFALAS/EPA
Os votos emitidos pelo público nacional de cada país concorrente são contados e convertidos para pontos, por ordem decrescente e seguindo a escala do júri: nos lugares mais baixos de 1 a 7 e, nos mais altos, de 8, 10 e 12. Exemplo: imagine-se que Portugal atribuiu 599 votos para a canção de Espanha, 300 para a de Itália e 225 para a de França: a primeira recebe 12 pontos, a segunda 10, a terceira 8 e assim sucessivamente.
Os resultados dos televotos foram anunciados, na edição de 2025, em direto, por ordem crescente. O último classificado, depois de receber a votação do júri profissional de cada país, no caso deste ano a Islândia, foi o primeiro a conhecer quantos pontos angariou através dos votos dos telespectadores já que não recebeu qualquer ponto dos jurados profissionais.
Quando os pontos dos telespectadores são revelados em direto, não se sabe, nesse momento, quantos foram os votantes, e que países votaram num determinado concorrente. No caso da Islândia, que não tinha obtido qualquer ponto por parte dos júris profissionais no domingo passado, recolheu nos votos dos telespectadores 33 pontos.
À posteriori é que são revelados os detalhes da votação dos telespectadores, que podem agora ser consultados no site da Eurovisão, e que incluem cada país concorrente e quais as pontuações que receberam e atribuíram, na tal escala de conversão de votos, de 1 a 7 e de 8, 1o e 12.
Na gala final, acaba por fazer tudo parte do espetáculo: o suspense e a reviravolta no final. Muitos países que com a votação do júri estão no meio da tabela ou mesmo no final, acabam por saltar para os lugares de topo. Mas há países concorrentes que querem dar preferência à transparência daqui para a frente e apelam a uma nova forma de votar e de revelar os votos, principalmente os votos dos telespectadores.
Cada pessoa pode votar 20 vezes no mesmo país
Foi Espanha que começou as interrogações sobre a votação, mas depressa foi seguida por vários países, como a Bélgica, que está a pedir o mesmo tipo de esclarecimento à organização do concurso.
“A VRT pede à União Europeia de Radiodifusão (UER) total transparência sobre as regras e o sistema de votação e faz, novamente, um apelo explícito para encetar um debate com todos os países, por compromisso e preocupação genuína com a sobrevivência do concurso“, declarou em comunicado, citada pela Efe, a porta-voz da cadeia pública flamenga, Yasmine Van der Borght. “Constatamos que a Eurovisão, tal como está organizada atualmente, é cada vez menos um evento unificador e apolítico. Entra, cada vez mais, em contradição com os valores originais do concurso e com os valores do serviço público de radiodifusão”, acrescentou a VRT.
Segundo o El Mundo, Espanha sabe, para já e apenas, quantos votos de telespectadores foram emitidos no seu território nacional e porque meios foram emitidos: por telefone, SMS ou através da app da Eurovisão — as três maneiras de votar, mediante o pagamento de uma taxa que varia de país para país.
A RTVE quer, no entanto, perceber se houve acumulação de votos com o objetivo de favorecer determinado concorrente, neste caso Israel, já que “os telespectadores podem votar até 20 vezes“, lê-se no regulamento do festival. Nada impede que a mesma pessoa gaste estas duas dezenas de oportunidades para votar no mesmo candidato e país, desde que não seja aquele em que vive.
Espanha também exige explicações em relação ao modo como o voto espanhol foi distribuído, ou seja, quantos votos cada candidato recebeu através da conversão do voto popular no país. Na final, registaram-se em Espanha cerca de 142 mil votos, no total de meios de votação possível: 7.283 chamadas telefónicas, 23.840 SMS e 111.565 votos online.
Tal votação traduziu-se em 12 pontos para Israel, 10 para a Ucrânia, 8 para a Polónia, 7 para a Estónia, 6 para a Finlândia, 5 para a Suécia, 4 para a Áustria, 3 para a Albânia, 2 para a Noruega e 1 para a França. A revelação de como se chegou até aqui, e de quantos votos destes são acumulados pelo mesmo votante, é a informação requisitada pela televisão estatal espanhola.
Ignasi Guardans , ex-diretor da UER, disse ao Cadena Ser que a resposta do televoto a Israel foi motivada por fatores políticos. “Na Eurovisão, não creio que os bots [abreviatura de robot, programa informático que executa tarefas automatizadas] tenham intervindo, mas houve uma mobilização política para ir votar, liderada pelas embaixadas, pelas comunidades pró-israelitas e pela extrema-direita“, apontou.
“Esse é um ângulo específico sobre o qual não hesito em criticar o sistema e seu funcionamento, porque pode ser explorado”, acrescentou.
“En Eurovisión no creo que hayan intervenido robots, sino que ha habido una activación política para salir a votar dirigida desde las embajadas, desde comunidades proisraelíes y desde la extrema derecha”
???? @iguardans (exdirectivo de la UER), sobre la polémica del televoto pic.twitter.com/rdihcyLU17
— Hoy por Hoy (@HoyPorHoy) May 19, 2025
Destacou ainda que, no caso espanhol, a disputa entre a UER e a RTVE, horas antes da final da Eurovisão, que culminou na televisão pública espanhola a transmitir uma mensagem de apelo à “paz e justiça” para a Palestina, pouco antes do início da emissão do evento que decorria na Suíça, pode ter justificado uma mobilização mais acentuada de espanhóis pró-Israel.
O site Eurovision News, que é gerido pela UER, informou esta segunda-feira que uma agência do governo israelita pagou anúncios e utilizou contas de redes sociais do Estado para encorajar as pessoas a votar no candidato israelita. A promoção da candidatura de um país é permitida, e no caso de Israel, como se revela num vídeo partilhado no site, a concorrente Yuval Raphael gravou vídeos em várias línguas a apelar ao voto na sua performance. Campanha idêntica já se tinha verificado na edição do festival de 2024.
Captura de ecrã da Eurovision News
Como funciona o televoto em Portugal e como é escolhido o júri profissional
Questionada pelo Observador em relação à forma como é apurado o voto dos telespetadores em Portugal, fonte oficial da RTP remeteu esclarecimentos para a organização da Eurovisão e garantiu, através de uma nota emitida na terça-feira, que “o processo de votação do público” no festival “é da exclusiva responsabilidade da UER, entidade que contrata diretamente as operadoras de comunicações em cada país participante, como se tem verificado nos últimos anos”.
A escolha desta operadora é também feita pela UER, segundo fonte oficial da RTP, que refere que à semelhança de anos anteriores terá sido a AR Telecom a escolhida para a operação conjunta com a Eurovisão.
Sobre toda a polémica que envolve o televoto no festival e a concorrente israelita, a Blitz chegou a avançar que a RTP estaria a ponderar uma eventual tomada de posição, à semelhança de Espanha, mas é o próprio canal a esclarecer que existiu uma “interpretação errada” das declarações anteriores do diretor de programas da RTP e coordenador geral do Festival da Canção, Gonçalo Madail, que teria admitido anteriormente a hipótese.
“A comitiva portuguesa acabou de regressar da Suíça e, como tal, não tínhamos ainda conversado sobre o assunto. Tal não significa que venha a existir uma possível posição oficial da RTP sobre o televoto da canção israelita em Portugal”, esclareceu Madail à Blitz.
A RTP é ainda mais perentória e garante que o diretor “não disse que ia preparar uma posição oficial sobre o televoto em Portugal na canção israelita.”
O Observador questionou ainda a RTP em relação à formação do júri português que atribui a classificação a cada país, antes de serem revelados os televotos. A estação de televisão pública revela que o convite é feito por si, “com aprovação prévia da UER”. Os membros “são sempre pessoas ligadas à música, espetáculo e comunicação, é obrigatória a diversidade de género e etária”.
São cinco membros mais dois suplentes “e a votação do júri é supervisionada por uma entidade competente, no caso de Portugal por um elemento nomeado pelo Ministério da Administração Interna”, informa ainda a RTP.
Eurovisão admitiu “padrões irregulares de votação” em 2022, quando a Ucrânia venceu
Ignasi Guardans, o ex-diretor da UER, disse à Cadena Ser que há uma “questão política mais profunda” em relação a esta edição do Festival Eurovisão da Canção. “Assim como a RTVE depende do Parlamento [espanhol], os diferentes canais de televisão públicos dependem do Parlamento dos seus países”, nota.
E acrescenta: “Quando falamos do duplo padrão entre Rússia e Israel, não se trata de um duplo padrão para o festival. É um duplo padrão para os acionistas por trás do concurso. É claro que França, Itália e Reino Unido não estão a tratar a Ucrânia da mesma forma que Gaza.”
“Enquanto o Bundestag alemão não sancionar Israel, não podemos pedir à Eurovisão que o faça. É por isso que considero um erro da RTVE pedir a uma organização que faça o que as autoridades políticas por trás dela não fazem”, acrescentou Ignasi Guardans ao Cadena Sera.
A acrescentar a tudo isto, o pedido de Espanha para uma auditoria aos votos dos telespectadores na Eurovisão não é uma surpresa total, já que não é também a primeira vez que o país levanta suspeitas em relação a interferências no sistema de votação — e nem sequer a primeira vez que estas dúvidas se colocam em relação a um conflito armado.
Como recorda o El Mundo, em 2022 Espanha foi empurrada do segundo para o terceiro lugar na final do festival, quando o televoto atribuiu a vitória à Ucrânia, invadida poucos meses antes pela Rússia, que entretanto já tinha sido banida da Eurovisão.
▲ Melodía Ruiz Gutiérrez, conhecida como Melody, representou Espanha com a canção “Esa diva”, na final do Festival Eurovisão da Canção 2025
AFP via Getty Images
Nessa altura, a televisão pública espanhola, que tal como a RTP em Portugal emite o festival em canal aberto, remeteu a suspeita de manipulação dos televotos para a UER, que chegou a emitir um comunicado oficial a dar nota de que estava a investigar “certos padrões irregulares de votação nos resultados de seis países“.
A entidade organizadora dizia, no entanto, “levar muito a sério qualquer tentativa suspeita de manipular a votação do Eurovisão” e colocava-se no “direito de excluir tais votos de acordo com as regras oficiais de votação”.