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Alexandre, hoje com 19 anos, nasceu menina. Passou pela infância e chegou à adolescência a ser visto pelos outros — amigos, professores e pais — como uma maria-rapaz. Em pequeno não gostava de vestir saias, não gostava de cor-de-rosa e tinha uma preferência óbvia por brincadeiras socialmente conotadas com o sexo masculino, como jogar à bola. Isabel Rodrigues, a mãe, não estranhou. Afinal, também ela fora maria-rapaz em tempos. Mas a chegada à adolescência deu a Alexandre outra perceção do próprio corpo e a conclusão definitiva de que algo estava errado.

Estar perante uma criança transgénero é uma realidade mais socialmente aceite nos tempos que correm, mas nunca deixa de ser um processo de aceitação mútua, entre pais e filho/a. O filme “Uma criança como Jake”, que chegou na quinta-feira, dia 21, aos cinemas portugueses, dá tempo de antena a essa dificuldade — a fluidez de género de um filho pequeno pode ser assustadora para quem a vive de perto. Ana Prata, pedopsiquiatra no Hospital da Estefânia desde 2013, vê o sofrimento dos pais das poucas crianças com fluidez de género que recebe em consultório (são sobretudo adolescentes). A pedopsiquiatra fala no “luto do filho idealizado” — afinal, ao mundo chegou uma menina e não um menino (ou vice-versa) — e no desejo que os filhos têm de que a aceitação em contexto familiar seja rápida. “Mas os pais também precisam de tempo”, atesta.

“Na infância não suspeitei. Hoje, avaliando bem, olhando para trás, penso que o meu filho não era uma maria-rapaz, era um rapaz. Na altura ele não sabia dizê-lo, mas sentia-se um rapaz”, conta Isabel Rodrigues ao Observador. Aos 18 anos, o filho mudou legalmente de nome, começou a tomar testosterona e ambiciona agora fazer as operações para concluir a mudança de sexo. Alexandre está a ter o devido acompanhamento, que inclui psiquiatria e endocrinologia. Apesar de toda esta transformação, a mãe de 44 anos admite que ainda se está a despedir da menina de outros tempos. Mas, agora, já não se engana nos pronomes: “Tenho outra filha, mais velha, e muitas vezes dizia ‘Vocês as duas'”. Para Isabel Rodrigues a adaptação não foi dramática — sempre encarou a fluidez de género como uma questão de direitos humanos –, mas da parte do pai de Alexandre houve maior resistência. “Ele deve ter pensado que era uma fase”.

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