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Vingança era a ideia que pairava no ar há um mês ou dois: a China tinha de pagar pela forma como lidara com a pandemia na sua fase inicial, ao tentar ocultá-la e desvalorizá-la, não agindo com prontidão e permitindo que o vírus saltasse de Wuhan e se espalhasse pelo mundo. Houve quem sacasse da calculadora e, mesmo com a pandemia longe de estar terminada, começasse a calcular as indemnizações que poderiam ser pedidas à China (ver O que a China (não) fez para evitar a pandemia. O resto do mundo pode pedir contas ao regime?). A 5 de Abril, o think tank britânico Henry Jackson Society, de pendor neo-conservador, estimou que, considerando apenas os países do G7, a soma ascenderia a 3.7 biliões de euros, dos quais 1.3 biliões corresponderiam aos EUA e 500 mil milhões ao Reino Unido – e isto num altura em que, nos EUA, o número total de mortos estava abaixo dos 10 mil e a taxa de desemprego no final de Março era de 4.4% (a 17 de Junho, quando este artigo está a ser escrito, o número de mortos atingiu 119 mil e a taxa de desemprego no final de Maio era de 13.3%). Em meados de Abril, o estado do Missouri passou da indignação aos actos e processou a República Popular da China, um gesto que tem, todavia, escassa probabilidade de produzir efeitos e que tem sido desvalorizado nos círculos Democratas como um número circense de Eric Schmitt, o procurador-geral (Republicano) daquele estado americano.

Mas se tirarmos as devidas ilações do que se tem escrito e dito nos media de Abril para cá, o mundo deveria sentir-se grato à China, pois a pandemia de Covid-19 vai obrigar-nos a rever em profundidade todos os aspectos das nossas vidas e reconduzir a Humanidade ao bom caminho.

A peste de 1720 de Marselha, num quadro de Michel Serre datado de 1721

Pandemia ou panaceia?

Apesar de já ter sido muitas vezes desmentida, voltou a ser ventilada a falsa ideia (amiúde invocada pelos gurus da gestão e pelos motivational coaches) de que a palavra chinesa para “crise” resulta da junção dos caracteres que significam “perigo” e “oportunidade”. Mas mesmo quem não evocou esta suposta associação não hesitou em proclamar que a pandemia era uma oportunidade. Uma oportunidade decisiva, a última que se oferece à Humanidade, para corrigir todos os erros, equívocos, desvios, perversões e iniquidades que marcaram a história da civilização. Nada será igual depois da Covid-19, dizem-nos. O mundo será reinventado.

A crise “poderá, bebendo das fontes da ética, revelar-se salutar e contribuir para desenvolver ainda mais a solidariedade e a responsabilidade já existentes em toda a sociedade humana” e irão “prevalecer os valores da inclusão, tolerância, justiça, não discriminação e solidariedade” (Carlo Formosa, embaixador de Itália em Portugal, em artigo publicado no Expresso de 01.05.20). Irão reforçar-se a cooperação internacional e o multilateralismo e a UE tem o dever de propor às Nações Unidas e ao G20 um Novo Pacto Global Verde e de Saúde Global (Álvaro Vasconcelos, no Público de 18.05.20). “O desafio sem precedentes do coronavírus fez-nos acordar para uma evidência implacável: o planeta em que vivemos tende a tornar-se cada vez mais inabitável” e obriga-nos a “não perdermos esta oportunidade histórica irrepetível para a nossa geração” (Vicente Jorge Silva, em “Uma vaga para mudar o mundo”, no Público de 10.05.20). “O momento que o país vive pode ser uma oportunidade para que consigamos mais coesão, mais justiça e mais igualdade social em Portugal” (São José Almeida, no Público de 30.05.20).

Mas a convicção de que o mundo irá forçosamente mudar não se fica por desígnios genéricos e visões abstractas. Em todas as áreas há ideias concretas sobre como será esse Admirável Mundo Pós-Covid-19: o trabalho, o ensino, a mobilidade, o urbanismo, a arquitectura, os museus, a restauração, nada ficará como dantes. Num passe de mágica, até projectos arquitectónicos e empreendimentos turísticos que começaram a ser delineados há anos apresentam-se agora como concebidos para o mundo pós-Covid-19. O borbulhar de ideias é tão febril e as visões são tão inflamadas que pode despontar a suspeita de que, para lá dos comprovados efeitos danosos sobre os pulmões, o insidioso SARS-CoV-2 também poderá atacar os neurónios.

Os automóveis serão escorraçados das ruas das cidades, os estacionamentos serão convertidos em jardins, os espaços verdes e as ruas pedonais alastrarão, viveremos em cidades-jardim: “A retoma económica terá de ser mais solidária, inclusiva, sustentável e saudável. Não queremos voltar às cidades poluídas por partículas” (carta aberta a governantes nacionais e locais, da liga Estrada Viva, Maio de 2020). Vamos todos andar de bicicleta, já estamos a andar mais de bicicleta, pelo menos é nisso que parece crer o Público de 18.05.20, quando anuncia, entusiasmado que “No Google e nas lojas, há cada vez mais procura por bicicletas” (esquecendo porventura que o problema em Portugal nunca foi a falta de bicicletas, mas a falta de uso das muitas bicicletas que temos). Vamos fazer mais exercício físico, redescobrir a cidade, perceber quão simpáticos são, afinal, os vizinhos que entrevíamos pelas janelas do nosso carro. Este não irá desaparecer, mas a propulsão a gasolina ou diesel será substituída pela propulsão eléctrica e todos os portugueses ganharão o suficiente para poder adquirir, pelo menos, o Tesla mais barato no mercado, que custa apenas 48.900 euros.

Separaremos judiciosamente os resíduos domésticos, faremos compostagem, poremos em movimento a economia circular, diremos não ao plástico, melhor, perseguiremos implacavelmente essa invenção demoníaca que mata tartarugas e golfinhos, instalaremos painéis solares em todos os telhados.

Irá fenecer o turismo de massas, nas pistas vazias dos aeroportos terão lugar festivais de biodanza, as aerogares acolherão congressos de naturopatia e os aviões serão convertidos em sucata e o seu metal reciclado sob a forma de trotinetas.

Extinguir-se-á a febre consumista que nos toldou o discernimento durante décadas a fio, serão abolidas as Black Fridays, ficarão desertos os centros comerciais e os outlets, reviverão as lojas de bairro, impor-se-ão a frugalidade e a reutilização, florescerá o comércio justo. O crescimento do PIB deixará de ser o objectivo último dos programas dos partidos e o único assunto dos debates políticos e é até possível que o Produto Interno Bruto seja declarado como um indicador completamente inadequado e obsoleto e a condução das políticas socio-económicas passe a ser norteada pela Felicidade Interna Bruta, como nesse afortunado país que é o Butão. Após a Covid-19, terão os dias contados a circulação de capitais por empresas off-shore, a lavagem de dinheiro sujo, o “planeamento fiscal agressivo” que permite às grandes empresas domiciliar-se em paraísos fiscais e evitar o pagamento de impostos nos países onde actuam.

Redescobriremos a culinária tradicional, valorizaremos os produtos agrícolas locais, renegaremos a proteína de origem animal (eticamente reprovável e ambientalmente insustentável, dizem-nos), cultivaremos os nossos próprios legumes em estrita observância dos preceitos da agricultura biológica, reinventaremos uma mini-Arcádia nas nossas hortas urbanas, reconectar-nos-emos com a Terra, faremos crescer salsa e tomate-cereja na horta vertical da sala de estar e cozeremos o nosso próprio pão, que será, obviamente, de fermentação lenta e fabricado com cereais de variedades ancestrais resgatadas ao olvido e que serão, obrigatoriamente, moídos em mó de pedra. A desaceleração não se ficará pela fermentação do pão: toda a nossa vida adoptará um ritmo mais relaxado, consentâneo com a contemplação do deslizar das nuvens e do esvoaçar das borboletas, que regressarão às cidades limpas de gases e partículas. Multiplicar-se-ão as ervanárias, as academias de yoga e os cursos de mindfulness.

Andámos cegos, iludidos, por caminhos ínvios, até que a Mãe-Natureza decidiu aplicar-nos um correctivo, sob a forma de um vírus altamente contagioso. A formulação da acusação tem variado mas a essência é esta: o SARS-CoV-2 é a “vingança da vida selvagem” (afirma o biólogo Paul R. Ehrlich) e foi uma consequência da destruição dos habitats naturais, das alterações climáticas, da poluição e de nos alimentarmos de animais selvagens (uma inovação recente na história da humanidade!).

O quadro “Il miracolo dell’Arca nel tempio di Dagon” (mais conhecido como “A peste em Ashdod”), pintado em 1630 por Nicolas Poussin, inspira-se numa passagem do Livro de Samuel, no Velho Testamento: “Entretanto a mão do Senhor agravou-se sobre os de Asdode, e os assolou, e os feriu com tumores, a Asdode e aos seus termos”

O que os adeptos da “teoria da punição” ainda não explicaram é o que terá feito a humanidade do século XIV, que apenas se deslocava a pé, de solípede ou à vela, não queimava combustíveis fósseis e não despejava um camião de plástico no oceano a cada minuto, para que a Mãe-Natureza fizesse tombar sobre ela a bactéria Yersinia pestis, bem mais devastadora do que o relativamente benigno SARS-CoV-2.

Também ficam por explicar, à luz da “teoria da punição”, as epidemias da Antiguidade – a Peste de Atenas, a Peste Antonina, a Peste de Justiniano e tantas outras que não ganharam direito a nome, apesar de terem ceifado regularmente milhões de vidas –, ocorridas num tempo em que a população humana era relativamente rarefeita, a esmagadora maioria das pessoas levava vidas frugalíssimas (miseráveis?) pelos padrões actuais, a Europa e o mundo mediterrânico estavam cobertos de florestas regurgitando de ursos, lobos, veados e linces, toda a agricultura era estritamente biológica e isenta de “químicos”, os rios corriam cristalinos e sem o empecilho de barragens, e, consequentemente, a pegada ecológica do homem era uma ínfima fracção do que é hoje.

Mas não deixemos que estes detalhes toldem a grande ideia da punição-que-recoloca-a-humanidade-no-caminho-da-virtude. A ideia de que esta pandemia irá mudar a natureza da Humanidade tem aliás sólidos antecedentes históricos. Não se tornou a Europa mais justa, equitativa, pacífica e segura após a Peste Negra? As tensões internacionais não se desanuviaram após a gripe pneumónica de 1918-19, dando início a um longo período de paz e prosperidade? A gripe de Hong Kong de 1968-69, que terá matado cerca de um milhão de pessoas, não contribuiu para pôr em prática os ideais igualitários, inclusivos e libertadores do Maio de 1968 e do Flower Power? Pensando melhor, não terá o mau rumo que a civilização tomou nos últimas décadas resultado de não termos conhecido uma pandemia iluminadora e regeneradora desde a gripe de Hong Kong?

São Sebastião reza pela vida de uma vítima da “peste justiniana” na cidade italiana de Pavia: Quadro de Josse Lieferinxe, c.1497-99

A agitação sem tino das classes inferiores

Uma das profecias/desejos/ambições para o mundo pós-Covid-19 que reúne maior consenso entre os opinadores é o fim do turismo de massas. É natural, uma vez que os opinadores fazem parte da elite e as massas vieram roubar-lhes a exclusividade de desfrutar da facilidade e conforto da viagem aérea e de deambular tranquilamente por anfiteatros gregos, pirâmides maias, templos khmer e catedrais góticas. Esta reacção tem antecedentes antigos: em 1846, quando a rede ferroviária era ainda incipiente pelo mundo fora mas a Grã-Bretanha já possuía 3000 quilómetros de via férrea (Portugal tem hoje 2546 quilómetros) por onde circulavam anualmente 20 milhões de passageiros, um terço dos quais em 3.ª classe, Arthur Wellesley, o primeiro Duque de Wellington (que tinha sido o comandante das forças anglo-portuguesas na Guerra Peninsular), lamentou que o caminho-de-ferro só servia “para encorajar as classes inferiores a andar de um lado para o outro”.

A queixa pode parecer classista, snob e reaccionária, mas continua hoje subjacente na atitude dos bem-pensantes que se identificam como democratas e progressistas e se insurgem contra o turismo de massas e anseiam pelo seu fim e que receberam com indisfarçada exultação as imagens das longas filas de aviões a ganhar pó nos aeroportos e da Praça de São Marcos povoada apenas por pombos.

A viagem de avião e o turismo no estrangeiro democratizaram-se nas últimas décadas, menos devido a um aumento dos rendimentos da classe média (que, dizem os estudos económicos, andam estagnados desde a viragem das décadas de 1970/80) do que ao apreciável abaixamento do preço das viagens de avião, graças ao surgimento das companhias low cost e à guerra de preços gerada por estas e que também acabou por “contagiar” as companhias aéreas tradicionais. O resultado foi que as aerogares e os destinos turísticos mais correntes foram inundados por multidões de classe média, para grande desgosto daqueles que se tinham habituado a desfrutar dos prazeres da viagem e da descoberta de outras culturas sem ter de partilhar espaço com a populaça.

Este agastamento das elites com a massificação do turismo já ocorrera em meados do século XIX, quando a expansão da ferrovia iniciada nas Ilhas Britânicas e lamentada pelo Duque de Wellington alastrou pela Europa. No final do século XVII, ganhara voga entre os jovens aristocratas do Norte da Europa, e, em particular, da Grã-Bretanha, o hábito de visitar a Europa Meridional e, em particular as cidades e regiões da Península Itálica onde eram mais patentes os vestígios das grandes realizações civilizacionais da Antiguidade Clássica e do Renascimento, uma viagem de “enriquecimento curricular” que ficou conhecida como Grand Tour. No tempo da navegação à vela e da carruagem puxada por cavalos, o Grand Tour estendia-se por meses e podia durar mesmo um ano ou dois, implicava que o jovem senhor fosse acompanhado a tempo inteiro por um guia mais velho e experiente e, nalguns casos, por criados e cozinheiro, funcionava como rito de passagem à maioridade (que então rondava os 21 anos) e estava reservado às famílias mais abastadas. Porém, quando o barco a vapor e o caminho-de-ferro alargaram aos filhos da aristocracia “remediada” e da burguesia o privilégio de caminhar sobre as venerandas pedras de Veneza, Florença e Roma, o Grand Tour perdeu atractivo para a alta aristocracia e a sua relevância foi decaindo.

Francis Basset, futuro Barão de Dunstanville and Basset, retratado, aos 21 anos, na etapa romana do seu Grand Tour, com o Castel Sant’Angelo e a Basílica de São Pedro em fundo, por Pompeo Batoni, 1778

Num tempo mais próximo do nosso e num patamar social menos elevado, há sociólogos que sugerem que algo de similar ocorreu no Brasil quando, graças a medidas progressistas e de redistribuição de rendimentos implementadas pelo governo de Lula da Silva, a classe média-baixa brasileira passou a auferir rendimentos que lhe permitiram fazer férias fora de casa e viajar de avião, o que terá causado uma reacção de despeito na classe média alta. Esta sentiu o facto de se cruzar com as suas empregadas domésticas no aeroporto – ou, “pior ainda!”, no mesmo resort turístico – como um ataque aos seus privilégios e fez do PT, o partido que que perturbara a “ordem natural das coisas”, um inimigo figadal. Nunca poderá avaliar-se o peso que este despeito terá tido no processo que conduziu à contestação (e destituição) de Dilma Rousseff e à eleição de Jair Bolsonaro, mas a reacção não é tão retorcida e invulgar quanto possa pensar-se – afinal, os estudos de economia comportamental já mostraram que a maioria das pessoas prefere ganhar 1000 euros por mês num contexto em que o ordenado médio é de 800 euros do que ganhar 1200 euros quando os seus pares auferem 1400 euros. Não é racional nem é edificante, mas é a natureza humana.

Turistas britânicos na Campagna, por Carl Spitzweg, c.1835

O paradoxo turístico

O conceito de turismo está assente num paradoxo: os lugares que nós, viajantes esclarecidos, queremos visitar sem ser importunados, tendem a encher-se com uma massa de ignaros que nos arruínam o prazer, perspectiva que é partilhada, com justa indignação, por cada um dos elementos da massa de “ignaros”.

O paradoxo está também entranhado nas publicações (ou suplementos de publicações) sobre turismo, cujos títulos aludem a “evasões” ou “fugas” e se propõem fornecer em exclusivo ao seu leitor uma lista de praias de sonho, cidades históricas, bairros pitorescos e restaurantes típicos que são “o segredo mais bem guardado” de Trás-os-Montes, da Toscânia, ou do Sudeste Asiático. Claro que o próprio acto de divulgar a lista de “destinos” e as formas mais expeditas, cómodas e seguras de a eles aceder, destrói instantaneamente a sua “exclusividade” e o seu encanto e não tarda que os mais privilegiados, os mais bem informados ou os mais curiosos, que primeiro tinham “descoberto” o “segredo”, comecem a lamentar a massificação do lugar e a evocar saudosamente o tempo em que o areal estava por nossa conta e não havia o risco de nos cruzarmos na recepção do hotel com o Antunes da contabilidade. É inevitável que quem siga os conselhos para “fugir das multidões” veiculados por revistas com tiragem de muitos milhares de exemplares acabe por ver-se rodeado de multidões.

Os primórdios do turismo: Um turista (ao centro), acompanhado por um guia (à esquerda) e um carregador (à direita), confronta o que vê com a informação contida num guia turístico. A gravura faz parte – num curioso efeito de mise en abîme – do Guia ilustrado para os lugares famosos da capital (Miyako meisho zue), redigido por Akizato Ritō e ilustrado por Takehara Shunchosai e publicado em 1787. A “capital” em questão era Edo, a antiga denominação de Tóquio

Outro paradoxo do fenómeno turístico ficou bem patente quando Lisboa se tornou, recentemente, num destino turístico popular para o turismo internacional: os seus habitantes que não dependem directamente do turismo, alojamento e restauração manifestaram sonoro desagrado pela invasão das suas ruas por hordas de gente de fora, a dificuldade acrescida em encontrar lugares para estacionar ou para almoçar, a subida do custo do alojamento e da alimentação, a perda de tranquilidade, o aumento da poluição, a dissolução da vida de bairro numa vaga de população flutuante e anónima e a descaracterização do comércio tradicional, reorientado para servir as necessidades e interesses dos turistas, não dos residentes. Quem assim reclama não parece ter consciência de que os “malefícios” que o turismo estrangeiro trouxe a Lisboa são os mesmos que esses lisboetas infligiram durante décadas – e continuam a infligir – a outras regiões do país e, em particular, ao Algarve. Mas ninguém se vê no papel de turista – o turista é sempre o outro.

O “culpado” do turismo de massas: Thomas Cook (1808-1892) exerceu a profissão de marceneiro até que um dia, em 1841, se lembrou de organizar excursões em comboio. O passo decisivo na afirmação da agência de viagens Thomas Cook & Son teve lugar em 1851, quando providenciou a visita de 150.000 pessoas à Great Exhibition of the Works of Industry of All Nations, no Crystal Palace, em Londres

Claro que o turismo, além do incómodo e da perda de exclusividade na fruição dos encantos locais, traz contrapartidas financeiras consideráveis. As Estatísticas sobre turismo do Eurostat, publicadas em Janeiro de 2020 e referentes 2018, apontam para um peso das receitas do turismo no PIB português de 8.3%. O mesmo documento mostra que há países da UE ainda mais dependentes do turismo, como a Grécia (8.7% das receitas), Malta (12.7%), Chipre (13.9%) e Croácia (18.4%). Fora da UE há a registar os 12.1% da Islândia, os 17.3% da Albânia e os 50.1% da Turquia. Outra fonte, o European Data Journalism Network, indica pesos bem mais elevados sector turístico na economia da Europa meridional: 14.6% do PIB para Espanha, 19.1% para Portugal, 20.6% para a Grécia, 21.9% para Chipre, 24.9% para a Croácia. Já Malta surge apenas com 10.9%, próximo da média da UE, que é de 10.1%.

O Instituto Nacional de Estatística apontava, no final de 2018, para um peso do sector turístico no PIB português de 13.7%, enquanto o Turismo de Portugal indicava, em Abril de 2020, que esse peso seria de 8.7% (representando 19.7% das exportações, o que faz do turismo o principal sector exportador) ou de 6.9% se se contabilizassem apenas os sectores alojamento + restauração + agências de viagem (o que deixa de fora tuk tuks, lojas de souvenirs, museus e um longo etc.). Apesar das divergências nas estimativas, que resultam dos diferentes critérios na definição das fronteiras do sector turístico e da contabilização ou não de actividade subsidiárias da actividade turística propriamente dita, é indiscutível que Portugal é dos países europeus em que ele tem peso maior, podendo mesmo ser a actividade económica fulcral em regiões como o Algarve ou a Madeira.

Um país – ou uma região – pode entender que o turismo de massas não é a sua vocação ou que é ambientalmente insustentável, mas se não for capaz de, muito rapidamente, reinventar a sua economia e reorientar a sua força de trabalho para outras actividades, irá necessariamente empobrecer.

O problema adicional é que o turismo de massas está vinculado a muitas outras actividades: a mais óbvia e directa são as companhias de aviação e as empresas que em terra dão assistência a estas e processam os fluxos de passageiros e bagagens. Outra é a indústria aeronáutica, que em Portugal estava em franco crescimento e a afirmar-se como sector prioritário e “de futuro”, por requerer trabalho altamente qualificado (e bem remunerado) e envolver tecnologia de ponta, que “arrasta” o desenvolvimento de outros sectores da “indústria 4.0”. Porém, em apenas alguns meses, a indústria aeronáutica parece ter-se tornado numa indústria do passado: os cancelamentos de encomendas de aviões da Airbus e da Boeing têm-se sucedido a ritmo vertiginoso por todo o mundo, três dos maiores grupos de aviação comercial anunciaram que deixariam de operar os Airbus A380 e a Rolls-Royce, cuja principal actividade é o fabrico de motores de avião, já anunciou o despedimento de 9000 dos seus 52.000 trabalhadores. E a crise do turismo ainda só tem pouco mais de três meses de existência…

Edição de 1888 das tabelas de horários ferroviários da Europa editada pela agência de viagens Thomas Cook & Son

Quem são os profetas do pós-Covid-19?

“Imagine Veneza, Florença, Paris, São Petersburgo, Istambul desertas de multidões de chineses, coreanos, russos; museus onde se pode entrar e percorrer as salas; cafés onde se pode estar sentado; praças para onde se pode olhar”. As palavras são de Miguel Sousa Tavares no Expresso de 07.03.20 e são um paradigma da perspectiva irremediavelmente narcísica das elites sobre o mundo. Aqueles que pelos seus rendimentos ou pela sua profissão já eram frequent flyers antes de haver voos low cost sonham com um tempo em que poderão novamente ter Veneza, Florença, Paris, São Petersburgo e Istambul só para si. Na escolha da nacionalidade das massas de turistas que afligem Miguel Sousa Tavares faz é também possível detectar um enviesamento racial: são “chineses, coreanos, russos”, ou seja, asiáticos ou perto disso. Turistas chineses acotovelando-se e falando em voz alta nas venerandas galerias do Louvre são, para as elites ocidentais, o equivalente moderno das hordas mongóis que em tempos assolaram a Europa. Já as viagens que as elites ocidentais fazem ao Oriente são perfeitamente legítimas e norteadas pela busca do conhecimento permanente (para citar um famoso pensador português), não pelo consumismo infrene e frívolo. A aversão de Miguel Sousa Tavares a estas turbas de bárbaros vai o ponto de acalentar a ideia de uma São Petersburgo sem russos…

FRANCE-TOURISM-PARIS-LOUVRE

Turistas chineses no Louvre, por Joel Saget, 2015

Quando se percorrem os artigos de opinião e as proclamações públicas contra o turismo de massas, percebe-se que os seus autores são precisamente as pessoas que mais viajam e mais contribuem para as emissões de dióxido de carbono: políticos, professores universitários, jornalistas séniores, escritores de sucesso, estrelas do cinema e do pop-rock. Seria iluminador que cada pequeno sermão que pretende dar lições de frugalidade e respeito pela Mãe-Natureza aos cidadãos do mundo viesse acompanhado em rodapé pela indicação do número de milhas voadas pelo autor durante a vida.

Nenhum documento é mais representativo da arrogância e inconsciência das elites do que o manifesto “Não a um regresso ao normal” (Non à un retour à la normale), publicado a 6 de Maio de 2020 no Le Monde: afirmam os signatários que, “a tragédia da Covid-19 teve a virtude de nos convidar a enfrentar as questões essenciais” e que a conclusão a tirar é que “já não basta fazer ajustamentos, o problema é sistémico. A catástrofe ecológica em curso tem origem numa meta-crise”. Mas quando se espera que este prólogo seja seguido por um diagnóstico mais detalhado e pela proposta de soluções, percebe-se que o “manifesto” se resume a meia dúzia de linhas com clichés contra o consumismo e as desigualdades sociais e por um apelo a uma “transformação radical que exige audácia e coragem” e pela pergunta, que se pretende desafiadora, “para quando os actos? É uma questão de sobrevivência, e também de dignidade e coerência”.

E, após esta inanidade, que se diria saída de um trabalho sobre “sustentabilidade ambiental” de um aluno do 7.º ano de escolaridade, segue-se uma impressionante lista de 200 signatários, todos eles de elevado coturno e boa parte com fama (merecida) a nível planetário. A variedade das suas nacionalidades não tem contrapartida na variedade das suas ocupações: repartem-se quase exclusivamente entre as artes & letras e as ciências, com excepção de um futebolista e um monge budista (há sempre um presente quando se trata de apelar à desaceleração do ritmo de vida e à rejeição dos valores materiais). Uma vez que os nomes da ciência pouco ou nada dirão à maioria das pessoas – embora muitos tenham sido distinguidos com o Prémio Nobel – listam-se em seguida os nomes do mundo das artes & letras que serão mais facilmente reconhecíveis pelo leitor português:

Isabelle Adjani, Roberto Alagna, Pedro Almodóvar, Olivier Assayas, Javier Bardem, Mikhail Baryshnikov, Emmanuele Béart, Monica Belluci, Juliette Binoche, Cate Blanchett, Miguel Bosé, Valeria Bruni Tedeschi, Khatia Buniatishvilli, Guillaume Canet, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Alfonso Cuarón, Willem Dafoe, Robert De Niro, Claire Denis, Alexandre Desplat, Arnaud Desplechin, Natalie Dessay, Adam Driver, Marianne Faithfull, Abel Ferrara, Ralph Fiennes, Jane Fonda, Alejandro González Iñárritu, Jeremy Irons, Agnès Jaoui, Jim Jarmusch, Spike Jonze, Anish Kapoor, Angélique Kidjo, Naomi Klein, Christian Louboutin, Madonna, Rooney Mara, Ricky Martin, Carmen Maura, Melody Gardot, Julianne Moore, Nana Mouskouri, Michael Ondaatje, Vanessa Paradis, Joaquin Phoenix, Iggy Pop, Charlotte Rampling, Isabella Rossellini, Ludivine Sagnier, Paolo Sorrentino, Sting, Barbra Streisand, Béla Tarr, Bertrand Tavernier, Alexandre Tharaud, Tran Anh Hung, Jean-Louis Trintignant, Rufus Wainwright, Wim Wenders, Sonia Wieder-Atherton, Bob Wilson. É o crème de la crème, só cá faltam Leonardo DiCaprio e Angelina Jolie, que costumam marcar presença em todas as iniciativas para salvar o planeta.

Dando conta deste manifesto na sua coluna de opinião no Público de 10.05.20, com o título “Uma vaga para mudar o mundo”, Vicente Jorge Silva, considerava que este apelo à “transformação radical” só poderia ser interpretado como “palavras vãs” pelos “cínicos, os instalados no poder dos privilégios, os que vivem acomodados perante as desigualdades, a pobreza e a exclusão e as forças que vão tecendo a teia da destruição do planeta”. Acontece que quem vive “instalado no poder dos privilégios” e mais activamente contribui para a “teia da destruição do planeta” são precisamente os signatários do manifesto.

A pergunta “para quando os actos?” deve ser-lhes reendereçada: quando irão prescindir dos jactos privados, dos carros de luxo, das mansões, das festas feéricas, dos guarda-roupas cujo valor acumulado daria para vestir condignamente toda a população da Somália? Quando terão a “dignidade e coerência” de viver segundo as regras que querem impor aos outros? Quantos meses levaria o ecossistema global a colapsar e os recursos naturais a esgotarem-se se todos os 7600 milhões de humanos tivessem uma pegada ecológica igual à pegada ecológica média destes 200 signatários? O que faz nesta lista o designer de sapatos de luxo Christian Louboutin, uma criatura que é o símbolo acabado do consumismo mais delirante, das desigualdades sociais mais gritantes e do lifestyle mais hedonista e ambientalmente irresponsável que possa imaginar-se? Irá ele reconverter as suas fábricas e oficinas, deixando de fabricar sapatos que custam, no mínimo, 400 euros o par e abraçar o projecto de calçar todos os eritreus? Irá ele, em nome dos ideais do manifesto, prescindir da sua casa em Paris, das três casas em Portugal (Alfama, Melides e Comporta), do palácio em Alepo, da casa em Luxor, no Egipto, da casa-barco no Nilo e um castelo do século XIII na Vendée (este partilhado como um sócio), para viver num modesto T2? A pergunta responde-se a si mesma: Louboutin está na lista porque nela figuram também as suas clientes, as glamourosas estrelas do grande écran, que vivem vidas de consumo conspícuo e exuberante e depois recomendam que se urine no duche para poupar água (ver Urinar no duche não adia o fim do mundo).

Roxxxy Strass Crystal Platform, o mais caro modelo Louboutin, tinha um preço de retalho de 5280 euros o par, o que não impediu que se esgotasse rapidamente; os exemplares de segunda mão vendem-se na Internet por preços que rondam os 2200 euros

O actor espanhol Javier Bardem, que se arvorou recentemente em paladino do ambiente, foi, no final de 2019, alvo de ásperas críticas por pregar, por vezes com vocabulário contundente, em prol das causas ambientais quando conduz um SUV de duas toneladas e meia que consome 17 litros/100 Km e quando ele e a sua esposa, Penélope Cruz, fazem publicidade a navios de cruzeiro (ver Crise climática: Javier Bardem tem telhados de vidro e as redes sociais não perdoaram), mas não parece ter apreendido nada com a experiência e continua a não dar-se conta do conflito entre as suas prédicas e os seus actos. Todavia, a não ser pelo tom mais desabrido, não há nada de invulgar nas atitudes de Bardem, pois a maioria das celebridades do entertainment vivem num estado de dissonância cognitiva semelhante ao seu.

Mas mesmo que as estrelas do entertainment não vivessem de uma forma que lhes retira qualquer autoridade moral para fazer exortações sobre frugalidade, sustentabilidade e combate às desigualdades sociais, que autoridade intelectual possuem actores de cinema e cantores pop para que o mundo lhes dê ouvidos sobre estes assuntos? Na lista de signatários figuram, por exemplo, um climatologista (Jean Jouzel) e um economista (Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz), cujas opiniões sobre ambiente e desigualdade merecem ser tidas em consideração, mas o que sabem actores e cantores (por talentosos que sejam) sobre economia, ecologia, climatologia ou geoquímica que faça com que a sua opinião seja mais válida do que as dos seus jardineiros, motoristas, copeiros e personal trainers ou que a do anónimo leitor do Le Monde?

A peste de Marselha de 1720 (Scène de la peste de 1720 à la Tourette), por Michel Serre: O Chevalier Roze, ao centro, supervisiona os forçados que foram encarregues de recolher os cadáveres das vítimas da pandemia. De notar que os forçados usam um pano embebido em vinagre sobre o rosto, como protecção contra o contágio. O quadro de Serre, pintado em 1725, serviu de inspiração à gravura de 1727 por Thomassin que abre este artigo

“Chegou o tempo de cuidarmos do planeta”

O que é mais assustador é que mesmo alguns dos “especialistas” que pretendem guiar-nos para a Terra Prometida parecem saber pouco mais sobre o assunto do que os entertainers. Entre os signatários do manifesto “Não a um regresso ao normal” está Nicolas Hulot, que se apresenta como “presidente honorário da Fundação Nicolas Hulot para a Natureza e para o Homem” (o que deixa logo no ar a interrogação: de que tamanho será o ego de quem atribui o seu nome a uma fundação por si criada?). Fora de França, Hulot é mais conhecido na qualidade de antigo Ministro da Transição Ecológica e Solidária e Ministro de Estado do Governo de Emmanuel Macron, do qual se demitiu em Agosto de 2019, após divergências com o presidente francês e por sentir que “a ecologia não era uma prioridade do Governo”. A demissão foi vista como um rude golpe na credibilidade do Governo de Macron, pois Hulot era uma das figuras mais mediáticas e dinâmicas da sua equipa, tinha a seu crédito uma experiência de três décadas na área da consciencialização ambiental e ganhara prestígio suficiente para ser sucessivamente convidado para Ministro da Ecologia por Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande – recusando de todas as vezes, até aceitar a proposta de Macron.

No dia seguinte à publicação de “Não a um regresso ao normal”, o Le Monde publicou outro manifesto, este assinado apenas por Hulot e intitulado “100 princípios para um novo mundo” (100 principes pour un nouveau monde). Poderia pensar-se que alguém que há décadas reflecte sobre problemas ambientais e ocupou cargos de tão elevada responsabilidade não se sentisse confortável com as generalidades ocas do manifesto de 6 de Maio e pretendesse explanar com detalhe, rigor e fundamentação a sua visão para uma nova atitude do homem perante a natureza. Porém, o manifesto de Hulot é tão banal, vago e vazio como “Não a um regresso ao normal” (e um pouco mais pretensioso). Começa assim:

“Chegou o tempo de, juntos, assentarmos as primeiras pedras de um novo mundo. Chegou o tempo de transformar o medo em esperança. Chegou o tempo de uma nova forma de pensar. Chegou o tempo da lucidez. Chegou o tempo de construir um horizonte comum. Chegou o tempo de não mais sacrificar o futuro ao presente”. Rapidamente se percebe que não há aqui a sombra de uma ideia para salvar o planeta ou sequer um charco com rãs, apenas os lugares-comuns típicos dos livros de “desenvolvimento pessoal”. Os olhos começam a saltar linhas e vão encontrando sempre a mesma mescla de trivialidade e grandiloquência: “Chegou o tempo de deixarmos de mentir a nós mesmos”, “Chegou o tempo de reanimarmos a nossa humanidade”, “Chegou o tempo da resiliência”, “Chegou o tempo de cuidarmos do planeta”, “Chegou o tempo de ouvir os jovens e os velhos e aprender com eles” (uma piscadela de olho a Greta Thunberg).

São manifestos como estes que dão razões redobradas para ter medo do futuro: se os paladinos do ambiente e os profetas do Admirável Mundo Novo são designers de sapatos com cristais Swarovski e pedantes sentenciosos capazes de enfileirar meticulosamente 100 linhas de inanidades, compreende-se melhor que, após anos de consciencialização ambiental, de “greves climáticas”, de marchas pelo planeta e da inclusão da palavra “sustentabilidade” em todas as proclamações políticas e em todos os prospectos que publicitam produtos e serviços, a Terra esteja cada vez de pior saúde e a pegada ecológica da civilização continue a crescer imparavelmente.