Uma grande árvore de Natal toda branca ilumina a montra. Mas numa manhã chuvosa de dezembro, há um camião parado à porta, no número 185 da Rua Castilho, a descarregar caixas. No meio do vaivém pelo longo corredor que dá acesso à loja há ramos pelo chão, vasos diversos expostos nas estantes pelas paredes e muitas flores. Nem de propósito, já que estamos a entrar numa das floristas mais antigas e tradicionais de Lisboa, que em 2026 completa 50 anos. E é no escritório totalmente forrado de folhas e ramos que o Observador conversa com Pedro Serra Silva, responsável pela Decoflorália há mais de 30 anos — período no qual preparou as flores para a decoração dos casamentos de Duarte Pio e Isabel de Herédia em 1995 e da filha dos duques de Bragança, Maria Francisca, em 2024; ou a luxuosa boda de Isabel dos Santos e Sindika Dokolo em Angola em 2002, assim como para o palco que recebeu o Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, em 2023.
▲ Pedro Serra Silva tinha 20 anos quando começou a administrar a florista, adquirida pelo pai na década de 1990
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
“O Natal é um stress”, conta-nos Pedro, que assumiu a administração da florista aos 20 anos, quando nos anos 1990 o pai, produtor de flores, comprou a empresa fundada décadas antes, em 1976. “Quando acaba a wedding season a maioria das empresas que trabalham com eventos descansam um bocadinho. Mas agora é um novo começo para nós. Tem a fase das decorações comerciais, dos hotéis e das montras das lojas, que começa em novembro. Depois tem o final de novembro, em que há as decorações lá para a casa, como as árvores de Natal e as coroas. E depois, a partir do dia 10 a 15, começam os centros de mesa, as jarras, ou seja as decorações particulares. E também os eventos das festas de Natal das empresas. Esta semana temos uma festa de 1600 pessoas, outra de 600 e outra de 700.”
No meio da conversa o telefone toca algumas vezes. Pedro tem duas equipas na rua a montar decorações para eventos de Natal, e há velas que não estão a funcionar. Enquanto isso, outros quatro, de um total de 25 trabalhadores, preparam arranjos na loja. “Supervisiono quase todos os projetos”, assume o gestor, que ao longo dos anos passou a ser cada vez mais “designer de flores”.
Não era assim quando aqui entrou em 1990, aos 20 anos. “Foi uma experiência difícil, eu era demasiado novo para gerir. Encontrei um mundo das floristas que era muito difícil, um mundo de egos, em que mesmo as próprias mulheres e homens que trabalhavam em flores, todos tinham muito ego, todos já achavam que eram muito bons. E encontrei alguns atritos internos na equipa que estava cá, de choques de personalidades”, diz Pedro Serra Silva, que apesar de ter nascido no meio das flores por causa do trabalho do pai, não tinha a experiência do lado da decoração. “Acho que tem que se perceber uma coisa: quando nós sabemos que não temos experiência, temos que saber absorver de quem sabe. E temos que seguir as pessoas e ter algum discernimento para perceber: ‘Este pode ser o meu opinion maker’”, assume.
“Quando vim trabalhar para cá tive uma senhora que trabalhava connosco, foi quem me ajudou imenso em termos pessoais e em termos de perceber de flores. Esta senhora chamava-se Maria Clara Lello. Era uma decoradora que tinha uma ligação muito próxima, trabalhava em colaboração connosco, e aprendi muito com ela. Foi com ela que aprendi mais”, diz, recordando também o contexto da década de 1990. “Foi uma fase também de crescimento gigante em Portugal. Houve muitas coisas novas a acontecerem. Portugal estava um bocadinho estagnado e acho que os anos 1990 foi um grande boom. Em 1998 foi a Expo, ou seja, havia imensos eventos a acontecer. Foram uns anos difíceis, mas reconfortantes, porque acima de tudo havia movimento. Ou seja, o cliente precisava de nós.”
▲ Dezembro é um mês intenso na florista, que se ocupa de decorações de Natal privadas, arranjos de mesa e árvores de Natal
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Casamentos da “realeza” e da elite angolana
Pedro tinha apenas 26 anos quando a 13 de maio de 1995 coordenou os arranjos de flores que compunham a decoração do casamento de Duarte Pio e Isabel de Herédia. “Lembro-me de alguns pormenores. Trabalhámos a noite toda, porque com as flores não podemos trabalhar com muita antecedência”, conta o responsável pela florista. “A Decoflorália, mesmo antes de eu chegar, sempre foi muito solicitada para eventos de embaixadas, com a Presidência da República, casa de ministros. Foi uma empresa muito ligada, sim, a uma elite portuguesa“, explica. “Portanto não foi com surpresa que recebemos o pedido para trabalhar no casamento dos duques de Bragança. Embora houvesse na altura dois players no do mercado.” Mesmo assim, assume que na altura sentiu-se desafiado ao encarar o casamento realizado no Mosteiro dos Jerónimos. “O casamento dos duques de Bragança era como se fosse a nossa rainha a casar. Foi um acontecimento nacional, as televisões estavam todas lá”, diz o florista. Mais recentemente, a duquesa de Bragança voltou a confiar em Pedro para o casamento da filha, Maria Francisca. “Foi um casamento mais discreto, mas que foi francamente muito fácil de gerir, sem grandes complicações”, recorda, destacando que Isabel de Herédia esteve envolvida nos preparativos mas “deixou-nos muito à vontade. Havia uma confiança muito grande. Ou seja, não houve aqui grandes exigências e tivemos as opiniões que foram necessárias”.
Apesar destes serem dois dos casamentos mais importantes que já fez, a Decoflorália tem outras bodas grandiosas no portefólio, como o enlace entre Isabel dos Santos e Sindika Dokolo em 2002, em Angola. Foram duas cerimónias, uma civil nos jardins do Palácio Presidencial, e uma religiosa, na Sé Catedral de Luanda e diz-se que só em talheres e materiais básicos foram gastos 900 mil euros. “Fizemos em colaboração com o decorador Martins Alves. Fizemos o casamento da Isabel dos Santos e de outras famílias privadas”, conta, sobre os eventos em África. Um pormenor é que as flores precisam ser levadas até o país estrangeiro, já que não são produzidas no local. “A África do Sul tem produção de flores e agora os holandeses produzem no Quénia e na Etiópia, mas a produção vai para a Holanda e depois é que vai para o resto dos países”, explica Pedro, que trabalha com fornecedores em Portugal mas também na América Central e na Espanha. “No primeiro casamento que fizemos em Angola, as flores vinham de África do Sul. No segundo já levámos. São eventos muito desafiadores, principalmente a logística de levar as flores para África, de avião. Elas vão acondicionadas, mas é sempre uma surpresa como vão chegar. E depois não há plano B. Ou tem aquelas flores ou então não há.”
Mas o maior casamento que fez foi em Portugal — uma festa para 1700 pessoas. “Era um grupo de tendas, para caberem 170 mesas. Foi a maior coisa que já fizemos”, conta Pedro, destacando que apesar de grande não foi um casamento tão exigente. “Nós tínhamos que fazer as flores para as mesas. São 170 ramos de flores, não é? Eu acho que é bem mais difícil gerir cadeiras ou comida para toda aquela gente”. Entretanto, este ano deparou-se com um grande desafio. “Nunca recusei fazer nenhum projeto, mas já tivemos projetos de um grau de dificuldade muito grande. Este ano fizemos um muito difícil. Tinha uma estrutura de oito metros de altura, tínhamos duas estruturas de gruas, e um teto de 600 metros quadrados para preencher com limões e folhagens. Tivemos que arranjar uma equipa de 50 pessoas durante quase uma semana para fazer isto. Comprei 1200 quilos de limões. Isso foi um destination wedding. As referências mais difíceis vêm de fora“, destaca.
▲ Pedro coordenou a decoração de casamentos importantes, como dos duques de Bragança em 1995 e da filha, Maria Francisca, em 2024
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Sobre os clientes estrangeiros, Pedro considera que a tendência de destination weddings tem alavancado o mercado de eventos em Portugal. Os estilos, entretanto, são variados. “Depende muito da proveniência do cliente: indiano, brasileiro, africano, americano, inglês… Nos casamentos de fora, em geral, mesmo que não sejam casamentos com muitas pessoas, há muitos aspetos a considerar, incluindo o volume de flores. Os brasileiros têm algumas características específicas, como a utilização do buffet de doces, e a mesa dos ‘bem-casados’, que não existiam cá. Tanto os brasileiros quanto os americanos e ingleses demonstram uma grande preocupação com a decoração das mesas, não só com as flores, mas também com o resto do local, procurando criar um ambiente confortável. Para isso temos uma linha de decoração com pratos decorados, montamos a mesa completa. Os caterings costumam incluir os pratos brancos, mas o cliente prefere pagar mais para trocar todos os pratos e ter uma mesa personalizada“. Quanto ao tipo das flores, “os americanos adoram peónias, hortênsias e rosas de jardim. Já os brasileiros tendem a utilizar flores que não existem no Brasil, optando por tulipas, rosas e peónias, e evitando muito o estilo tropical. Os africanos, como os angolanos, gostam muito de orquídeas porque elevam o evento para um patamar mais alto.”
As gaffes, as flores vulgares e as rosas do Papa
Habitualmente as floristas trabalham em cooperação com empresas de decoração, coordenando os produtos de acordo com o conceito do evento. E é neste sentido que os arranjos florais precisam estar em sintonia. “Se fizer um casamento com flores campestres, passa um conceito mais campestre, e se os arranjos forem muito trabalhados, transmitem um conceito mais de galeria de arte, mostrando o género da noiva. Isso é como a roupa que se veste, que passa a imagem. Nos funerais, a flor passa uma mensagem óbvia de pesar. Nos ramos de oferta, há as rosas encarnadas, que têm um significado”, recorda Pedro Serra Silva. “Mandar rosas encarnadas à mulher de um amigo seria uma gaffe gigante“, assinala, destacando ainda algumas das flores que passam mensagens. “No caso de funerais, se for uma pessoa jovem que tenha falecido, são oferecidas flores dentro dos brancos. Se for alguém com mais idade, é indiferente, só é preciso mandar flores. Para casamentos, as pessoas não gostam de usar flores vulgares, como cravos, gerberas e margaridas. Os ingleses não gostam de usar jarros porque é uma flor associada a funerais na Inglaterra.”
Já entre as flores mais populares estão as peónias e as rosas — que tiveram um papel importante na decoração do palco que recebeu o Papa Francisco em Lisboa em 2023. “Foi uma grande honra termos sido escolhidos para fazer isso”, recorda o gestor da Decoflorália. “Tivemos que pôr rosas brancas à volta de Nossa Senhora e tive três fornecedores diferentes. Pedi que deixassem crescer as rosas nas estufas e expliquei-lhes que precisavam de estar muito bonitas porque era para pôr à volta da Nossa Senhora durante a visita do Papa. Quando eu disse que era para o Papa, eles pura e simplesmente fizeram o que pedi, separaram as flores e disseram: ‘Eu não quero dinheiro por essas flores’. Todos quiseram oferecer as rosas brancas de forma anónima, só porque sim. Foi bastante gratificante.”
O Natal tradicional e as referências do Pinterest
Chegámos à Decoflorália para a conversa com Pedro Serra Silva no meio do turbilhão dos preparativos para o Natal. A casa já trabalha incansavelmente desde o começo de novembro, mas agora foca-se na decoração de eventos de Natal corporativos e jantares particulares. O florista diz que os pedidos tendem a seguir os clássicos de Natal: folhagens verdes escuras e toques de vermelho, mas descarta o uso da tradicional flor de Natal, a poinsétia. “Não, está muito vulgarizada. Desde que seja vulgarizado, nós próprios também não oferecemos. É importante para nós que haja alguma diferença”, afirma. “No Natal sou muito clássico, não gosto de grandes inovações. A bolinha é associada ao azevinho, que é uma flor típica do Natal, que tem as bolas encarnadas. Então fazemos a partir daí, as bolinhas e as folhagens. E as pinhas, o abeto, tudo o que tem a ver com árvore, o pinheiro em si. Tudo isso faz a ligação da decoração de Natal”.
▲ Pedro diz que é "muito clássico" quando o assunto é decoração de Natal, privilegiando a combinação de folhagens e bolinhas encarnadas
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Apesar de clássico, Pedro reconhece que as exigências dos clientes mudaram muito ao longo de mais de três décadas. “Uma coisa que mudou imenso foi o aparecimento das redes sociais, nomeadamente o Instagram e o Pinterest. Ou seja, nos anos 90 nós fazíamos um arranjo e era ‘wow!’ Hoje eu faço o arranjo e é ‘wow!’ mas a cliente já não acha assim tão impressionante porque já viu igual, melhor ou parecido. Já viu isso tudo nas redes sociais. Ou seja, este efeito ‘wow’ é muito mais difícil hoje”, assume Pedro, que diz que recebe muitos clientes com mood boards de imagens com tendências e inspirações saídas da internet, o mesmo espaço onde o próprio florista procura novas referências. “O que mais me alimenta, depois de tantos anos aqui a trabalhar, é encontrar qualquer coisa que é novo. O que mais me dá ânimo para continuar e o que mais me gratifica em termos profissionais é andar constantemente à procura de peças, decorações e coisas novas”, diz Pedro, que no Instagram segue o trabalho de profissionais e empresas de decoração inglesas e francesas. E em casa, tem flores? “Tenho, mas não todos os dias. Se tenho um jantar em casa… Mas no dia-a-dia não tenho, quer dizer, tenho flores todos os dias aqui. Para mim já não tem o encanto que teria para o comum dos mortais”.