As 32 acusações, incluindo quatro crimes de violação, representam o culminar do último ano de polémicas a envolver Marius Borg Høiby, o filho da princesa Mette-Marit, da Noruega, e enteado do príncipe herdeiro Haakon. O anúncio foi feito na passada segunda-feira pelo procurador-geral da Noruega, que insistiu que “o facto de pertencer à família real não deve, obviamente, significar que seja tratado com mais brandura ou mais severidade do que se atos semelhantes tivessem sido cometidos por outras pessoas”.
Os casos vieram à tona depois do filho da princesa ter sido detido pela primeira vez, em agosto de 2024 por atacar psicológica e fisicamente uma mulher de 20 anos, que seria a sua namorada. Marius Borg Høiby permaneceu 30 horas sob a custódia da polícia nesta ocasião, mas foi solto com uma ordem de restrição. Já em setembro do mesmo ano o enteado do príncipe Haakon também foi detido por violar a medida de coação. Cerca de dois meses depois, Marius voltou a ser preso pelas autoridades por suspeita de ter praticado “ato sexual com uma pessoa que estava inconsciente ou incapaz de resistir por outra razão”. Na sequência das três detenções, outras denúncias envolvendo Marius Borg Høiby vieram a público, que resultaram nas 32 acusações do Ministério Público norueguês. As quatro violações pelas quais o jovem é acusado ocorreram em 2018, 2023 e 2024, com a última a ser perpetrada após o início da investigação policial.
O julgamento deve decorrer em 2026 e, de acordo com as declarações do príncipe Haakon à margem de uma visita a Trondheim, no norte da Noruega, a família real vai continuar “a cumprir as nossas obrigações da melhor maneira possível, como sempre fizemos”, apesar de assumir ser um momento difícil. “Todos os envolvidos neste caso provavelmente acham isto desafiante e difícil. Agora ficou clara qual é a acusação, o processo deve seguir nos tribunais, que decidirão como terminará”, concluiu o filho de Harald V.
Britânicos envolvidos em casos de assédio sexual
Não são muitos os membros de casas reais que foram apanhados em escândalos sexuais, mas depois de Marius Borg Høiby, o nome do príncipe André é provavelmente o que vem à mente do grande público. O filho de Isabel II viu-se envolvido no caso Epstein quando foi acusado por Virginia Giuffre pelo crime de abuso sexual de menor. Em 2021 a mulher alegou num processo civil movido nos Estados Unidos da América, que o multimilionário norte-americano Jeffrey Epstein a forçou a ter relações sexuais com o príncipe André em pelo menos três ocasiões diferentes, quando era menor de idade — Virginia tinha 17, André 41.
▲ A fotografia em que André aparece a abraçar Virginia Giuffre é uma das evidências de que o príncipe ter-se-á envolvido com a então adolescente. O Duque de Iorque tinha uma relação próxima a Epstein
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Contudo, no início de 2022 as duas partes chegaram a um acordo e o caso foi arquivado. Apesar de nunca ser revelada, de acordo com o Telegraph, a quantia acordada entre ambos foi de 12 milhões de libras, o equivalente a 14,3 milhões de euros. Em troca, o duque não foi a tribunal indiciado pelos crimes de abuso sexual e não admitiu a culpa. O filho da Rainha Isabel II comunicou na altura que tinha a intenção de “fazer uma doação substancial” a uma instituição de caridade que apoia “os direitos das vítimas”, a Speak Out, Act, Reclaim, que apoia vítimas de tráfico sexual, fundada por Giuffre em 2021. Sobre a origem da quantia acordada, paga pelo príncipe, o Daily Mail escreveu que, citando gestores do Tesouro britânico, “nenhum cêntimo público foi usado para pagar as custas judiciais.” O Duque de Iorque sempre negou as acusações e disse que não conhecia Giuffre, apesar dos media terem divulgado uma fotografia antiga em que o príncipe André surge a agarrar a jovem pela cintura. Virginia Giuffre morreu em abril de 2025.
Ainda antes, em 2002, a família real ficou sob suspeita depois da imprensa britânica divulgar que supostas fitas secretas continham evidências de um caso de violação que teria acontecido dentro do palácio, perpetrado por um oficial que trabalhava para o então príncipe Carlos. De acordo com o The Guardian, as fitas teriam sido gravadas por Diana e guardadas pelo seu antigo mordomo, Paul Burrell, junto com outros artigos da princesa de Gales. Contudo, em novembro de 2022, Burrell afirmou que “nunca teve nenhuma cassete sobre violação”, citado pela CNN. Paul Burrell começou a trabalhar para Carlos e Diana em 1987 e serviu a princesa até a sua morte, em 1997. Em 2001 o antigo mordomo foi acusado de ter roubado 310 itens pessoais de Diana, incluindo pinturas, porcelana, fotografias assinadas, notas pessoais e roupas, artigos que juntos valiam mais de 5 milhões de euros. Burrell alegava que a princesa lhe tinha doado as peças e que guardou os documentos por segurança, mas o caso só foi arquivado depois da intervenção da Rainha Isabel II, que confirmou que em dezembro de 1997 foi informada em privado pelo mordomo que os bens estavam na sua posse.
O mais perto que a família real britânica esteve de uma condenação por crime sexual foi com o conde de Strathmore, Simon Bowes-Lyon, primo em segundo grau da antiga monarca. Em fevereiro de 2021 o homem foi preso por assédio sexual e cumpriu cinco dos dez meses da sua condenação numa prisão escocesa. O crime foi cometido em fevereiro de 2020 no Castelo Glamis, na Escócia, durante um evento de três dias na propriedade. De acordo com o The Guardian, Bowes-Lyon entrou no quarto da mulher enquanto esta dormia e atacou-a. O oficial de polícia responsável pelo caso disse em tribunal que “durante o ataque a vítima deixou claro que queria que ele parasse. Disse repetidamente que tinha um namorado, pediu-o várias vezes para sair e tentou afastá-lo”, afirmou Alastair Carmichael, que disse que o conde “ignorou” os pedidos da mulher. Bowes-Lyon declarou-se culpado e leu um comunicado depois de ouvir a sua sentença: “Estou muito envergonhado das minhas ações, que causaram tanto stress a uma convidada da minha casa. Não achava que era capaz de me comportar desta forma, mas devo encarar e assumir a responsabilidade”. Além da condenação, o conde de Strathmore foi incluído no registo de criminosos sexuais do Reino Unido. Contudo, a experiência não o deixou longe dos tribunais no futuro. Em 2023, Bowes-Lyon admitiu conduzir sob efeito de álcool em Perthshire. De acordo com a BBC, o homem foi condenado a pagar uma multa de mil libras, além de perder o direito de conduzir por 16 meses.
▲ Simon Bowes-Lyon, primo em segundo grau da Rainha Isabel II, ficou registado na lista de criminosos sexuais
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A primeira princesa britânica condenada e os problemas na estrada
Em novembro de 2002 a princesa Ana tornou-se no primeiro membro sénior da realeza britânica a ser condenado por um crime. O caso envolveu o seu cão, um bull terrier inglês de três anos chamado Dotty, que mordeu duas crianças em abril do mesmo ano, durante um passeio no Windsor Great Park. Ana e o marido, Tim Laurence, declararam-se culpados diante da acusação sob a Lei de Cães Perigosos — em que assumem a responsabilidade por terem um cão perigosamente descontrolado em local público. A multa foi de 500 libras, além das 250 libras de indemnização e 148 libras de custos legais, cita o The Guardian.
Entretanto, um ano antes a princesa já se tinha envolvido num caso que foi parar a tribunal. De acordo com as informações publicadas na altura pela BBC, Ana estava a caminho de um compromisso na faculdade de agricultura em Gloucestershire quando viu que havia uma viatura da polícia a mover-se vagarosamente pela autoestrada. A defesa afirma que a princesa “viu o carro de polícia mas acreditava que este estava à espera para fazer a sua escolta. A princesa acelerou e ultrapassou o trânsito à sua frente para uma parte desimpedida da via, com o intuito dos polícias a conseguirem ver”, justificou o advogado. Entretanto, o carro de polícia seguiu-a, com as luzes ligadas — o que Ana interpretou como um sinal de que a polícia estava de facto a escoltá-la. Os oficiais registaram uma velocidade de quase 150 km/h numa zona em que o máximo permitido era perto de 110 km/h. Ana assumiu a culpa e foi multada em 400 libras, além de ter de pagar pelos custos processuais de 30 libras e perder cinco pontos na carta de condução.
▲ Zara Tindall e a princesa Ana foram multadas na mesma autoestrada, com uma diferença de 20 anos. Já o príncipe Philip deixou de conduzir depois de se envolver num acidente aos 97 anos.
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Curiosamente, quase 20 anos depois a filha foi apanhada a cometer a mesma contraordenação, na mesma autoestrada. Zara Tindall perdeu o direito de conduzir por seis meses depois de acelerar por quase 150 km/h na A417 em Gloucestershire e ultrapassar em 40 km/h o limite permitido, cita a BBC. A neta da rainha Isabel II já tinha nove pontos na carta de condução e foi punida com outros quatro, o que a fez perder a licença temporariamente. Além da penalização, Zara Tindall teve de pagar uma multa de 666 libras e uma sobretaxa de vítima de 151 libras — a ação da filha de Ana não feriu ninguém, mas o valor é usado para compensar vítimas de crimes no geral.
Os problemas na estrada também obrigaram o príncipe Philip a abandonar o hábito de conduzir aos 97 anos. Em janeiro de 2019, num cruzamento em Sandringham, o Land Rover do marido de Isabel II colidiu com um Kia em que seguiam uma mulher de 45 anos, uma mulher de 28 anos e o seu filho, um bebé de nove meses. O duque de Edimburgo não ficou ferido, porém uma das mulheres sofreu cortes e partiu o pulso. Cerca de um mês depois o Ministério Público decidiu que não iria acusar Philip pelo acidente. O príncipe tinha uma carta de condução válida, publicou a CNN na altura, mas mesmo assim anunciou publicamente que iria deixar de conduzir. Quem jamais poderá enfrentar um processo em tribunal é o Rei Carlos III, que está imune a processos criminais pela lei britânica. Além disso, o Rei é o único na família que não precisa de uma carta de condução e também não pode ser intimado a prestar depoimento como testemunha.
Os “duques da desgraça”
Uma das famílias com conexões com a realeza britânica que mais problemas teve com a justiça são os Montagu, que receberam o ducado de Manchester pelo Rei Carlos I em 1719 e tinham três castelos, entre os quais Kimbolton, em Cambridgeshire. Contudo, a queda da dinastia começou com o 9º duque de Cambridge, William Montagu, que teve o nome envolvido em 60 processos de falência em Londres. De acordo com a Tatler, que cita a biografia The Fall of the House of Montagu: Dukedom, Debauchery and the Demise of a Dynasty, as notícias dos gastos de William conquistavam as manchetes dos jornais: recusava-se a repetir um fato e comprava um novo sempre que houvesse um evento black tie, gastou 250 libras numa consulta no médico e mil libras em raquetes e bolas de ténis. As dificuldades financeiras da família refletiram-se na geração seguinte. O filho Mandy tinha como madrinha a Rainha Alexandra, estudou em Eton e chegou a matricular-se na universidade de Cambridge. Contudo, aos 18 anos optou pela carreira na marinha, tendo ido depois para o Canadá onde pretendia estabelecer uma mina de ouro. Quando regressou à marinha conheceu a mulher, a australiana Nell Stead. Os dois mudaram-se para Kimbolton, mas entretanto Nell foi presa por jogo ilegal e Mandy sofria de problemas de saúde depois de muitos acidentes de carro consecutivos. Com a Segunda Guerra Mundial vieram os impostos sobre a propriedade, que passaram a ser demasiado para o casal. Em 1949 os dois venderam as relíquias da família (incluindo, alegadamente, um quadro do século XVII de Rubens), e em 1951 o castelo foi doado a uma escola.
Contudo, os problemas com a justiça começariam de facto com as duas gerações seguintes. Em 1985 Angus Montagu herdou o título de duque de Manchester. Neste mesmo ano, foi acusado de conspiração para cometer fraude contra o banco Natwest, porém foi absolvido: o juiz considerou que Angus não tinha competência para desfalcar intencionalmente o banco e, em vez disso, foi vítima de manipulação alheia. “Numa escala de negócios de um a dez”, relatou o juiz, “o duque é um ou menos, e mesmo isso o lisonjeia.” Contudo, na década de 1990 o duque acabou condenado pelo envolvimento num esquema financeiro fraudulento nos Estados Unidos da América e passou três anos preso numa prisão federal em Petersburg, na Virginia. No final da vida, Angus passou a trabalhar como guia turístico, a oferecer “um dia com um duque de verdade” aos turistas. Morreu em 2002 e foi o último Montagu a ocupar um assento na Casa dos Lordes. Mas o título permaneceu na família, e é agora de Alexander Montagu, o 13º duque de Manchester.
▲ Alexander Montagu é o 13º Duque de Manchester e foi preso duas vezes na Austrália por fraude e uma vez nos EUA por invasão
Deserdado pelo pai em 1991, quando tentou entrar de forma ilegal no Canadá e foi deportado, o australiano ficou conhecido nos EUA como “lorde Alex”. De acordo com o Daily Mail, o homem já tinha sido preso duas vezes na Austrália antes de se mudar: em 1985, quando cumpriu nove meses de pena por obter dinheiro através de um golpe, e em 1991 por alugar um carro num estado e tentar vendê-lo noutro. Além das fraudes, Alexander Montagu também foi considerado bígamo por um tribunal em Londres. Casou-se duas vezes antes de concluir os processos de divórcio anteriores: com Marion Stoner na Australia em 1984, Wendy Buford na California em 1993 (com quem teve dois filhos) e com Laura Smith em 2007. A primeira mulher diz que o marido chegou a lançar um arpão contra ela mas, felizmente, errou. Em 2016 Montagu foi preso em Las Vegas por tentativa de invasão: uma mulher acordou durante a madrugada e encontrou-o, sem camisa nem sapatos, a tentar entrar no seu quarto, diz um artigo do The Guardian da altura. Depois de cumprir pena, em 2020, o duque de Manchester chegou a anunciar nas redes sociais que queria encontrar uma parceira: “É uma honra ter sido abençoado com este título da nobreza da família real britânica. Espero encontrar alguém que me possa ajudar a ter mais membros para o nosso título”, disse, citado pelo Daily Mail. Atualmente o homem vive nos EUA e, de acordo com a sua página nas redes sociais, trabalha com aviação civil. Uma história que, para Marcus Scriven, que escreveu Splendour And Squalor, The Disgrace And Disintegration Of Three Aristocratic Dynasties, faz dos Montagu os “duques da desgraça”.
As ligações da realeza espanhola a casos de corrupção e fraude financeira
O caso Nóos afetou a reputação da realeza espanhola e abalou a família por quase uma década. Em 2006 o jornal El Mundo denunciou um pagamento suspeito de uma instituição pública ao Instituto Nóos, empresa fachada liderada por Iñaki Urdangarin, o então marido da infanta Cristina. Contudo, a investigação começaria apenas cinco anos depois, em 2011, e a acusação formal viria só em 2014.
O então empresário e ex-jogador de andebol foi acusado de se aproveitar do status de realeza para fechar contratos públicos e, assim, desviar dinheiro através do Instituto Nóos, uma alegada fundação desportiva sem fins lucrativos. Urdangarin e o sócio terão cobrado mais de seis milhões de euros aos governos regionais de Valência e das Ilhas Baleares para a realização de eventos públicos cujo custo era cerca de dois milhões de euros mais baixo. O restante era desviado para as empresas privadas de ambos: uma delas era a Aizoon, propriedade dos duques de Palma de Maiorca, cada um com 50% do capital — o dinheiro entrava na companhia vindo do Instituto Nóos, sendo depois utilizado para fins particulares, em movimentos declarados como parte da atividade empresarial de Cristina e Urdangarin.
O julgamento, que arrancou no início de 2016 e durou perto de um ano, contou com cerca de 400 testemunhas e teve 16 pessoas sentadas no banco dos réus para além do casal. Em junho de 2018, o Supremo Tribunal espanhol absolveu Cristina, mas condenou Urdangarin a cinco anos e dez meses de prisão pelos crimes de prevaricação, peculato, tráfico de influência, fraude à administração e crimes fiscais — em fevereiro de 2017, o tribunal de Palma de Maiorca já o tinha condenado a seis anos e três meses, bem como a uma multa de 512 mil euros, no entanto, no ano seguinte foi absolvido do crime de falsificação em documento público. Dias depois da sentença ser revelada, o cunhado do atual rei de Espanha apresentou-se na prisão Brieva, em Àvila para cumprir a pena decretada. Em janeiro de 2021 a justiça concedeu o regime de liberdade parcial ao cunhado do Rei de Espanha, que cumpriu a totalidade da pena em abril de 2024.
Em entrevista ao La Vanguardia em junho deste ano, Urdangarin fala da sua nova vida na cidade de Vitória com a nova companheira — recorde-se que o ex-jogador de andebol divorciou-se da infanta Cristina em 2022. Fez um mestrado em psicologia dentro da prisão e agora prepara-se para lançar uma marca de coaching desportivo chamada Bevolutive. “A minha vida é muito rotineira. Acordo cedo, faço exercícios, depois vou trabalhar e então dedico-me a vários hobbies e faço tarefas domésticas com a minha parceira. Quando tenho os meus filhos, aproveito o dia com eles. É uma vida organizada. Reencontrei coisas simples, que depois de todas as fases da minha vida, é o que mais anseio: rever os amigos da escola. Tive anos muito complicados, nos quais me concentrei na defesa. A minha vida agora não atrai ninguém. Sinto que o tempo passou e quero aproveitá-lo ao máximo.” Apesar de absolvida, Cristina teve o título de duquesa retirado pelo irmão, o Rei Felipe VI, e permaneceu afastada das presenças públicas da realeza.
▲ O caso Nóos culminou na prisão de Iñaki Urdangarin e no divórcio da infanta Cristina. Já Juan Carlos autoexilou-se depois de escândalos, incluindo a relação suspeita com líderes da Arábia Saudita
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Na mesma altura em que a família real espanhola via o desenrolar do caso Nóos, também Juan Carlos teve o nome envolvido numa série de escândalos pessoais e fiscais. Em junho de 2014 o rei abdicou a favor do filho Felipe, ao fim de 39 anos de reinado. Entretanto, foi só em agosto de 2020 que tomou a decisão de deixar o país, na sequência de anos a lidar com vários casos polémicos. Em 2012 Juan Carlos fraturou a anca durante uma caçada de elefantes no Botswana — contudo os espanhóis não sabiam da viagem, que terá custado cerca de 50 mil euros, e ficaram indignados. Os partidos da oposição exigiram explicações e houve manifestações nas ruas enquanto o país vivia os efeitos da crise económica e financeira mundial e o desemprego atingia um nível histórico de 23%.
O caso permitiu a descoberta da ligação à empresária Corinna Larsen e a história de que funcionava como intermediária em negócios de empresas espanholas no estrangeiro, enquanto cobrava comissões de 3% pelo prestígio da ligação ao soberano espanhol. Um desses negócios terá sido o da construção de caminhos-de-ferro de alta velocidade na Arábia Saudita, entregues a consórcios espanhóis a partir de 2006 e em cujas negociações Corinna terá participado ao lado de Juan Carlos. Em junho de 2020, o Supremo Tribunal espanhol decidiu investigar as suspeitas de delito de corrupção do rei emérito na construção do comboio e também as suas contas na Suíça — as autoridades investigavam uma transferência suspeita de quase 100 milhões de euros realizada pelo regime saudita em favor do monarca ainda em 2008. Em 2021 o Ministério Público espanhol decidiu abrir outra investigação sobre a alegada corrupção que envolvia o antigo rei relacionada com uma fortuna escondida de 10 milhões de euros na ilha de Jersey, um paraíso fiscal e a maior das ilhas do Canal da Mancha. Contudo todos os processos abertos sobre o património no estrangeiro foram arquivados em 2022 devido à condições de inviolabilidade do monarca enquanto chefe de Estado, à prescrição dos alegados crimes e à falta de indícios em outros casos. Juan Carlos vive atualmente num autoexílio no Dubai, apesar da imprensa espanhola avançar há meses que o rei emérito estará à procura de casa em Portugal.
Do príncipe fugitivo ao príncipe dos escândalos
Ficou conhecido por “príncipe fugitivo” depois de escapar duas vezes ao mandado de prisão emitido em 2020. De acordo com o Le Parisien, o príncipe Paul, descendente do rei Carol II da Roménia (que abdicou do trono em 1940 e viveu no exílio em Cascais até a morte), é acusado de, entre 2006 e 2013, participar num esquema com empresários israelitas e políticos romenos para recuperar as propriedades confiscadas em 1947 durante o regime comunista, que reivindicava como herdeiro da família real. Fariam parte destes bens a floresta de Snagov, a antiga propriedade real de Băneasa e joias estimadas em 145 milhões de euros. O primeiro mandado de prisão emitido por Bucareste é de dezembro de 2020, um dia depois de Paul ter sido condenado a três anos e quatro meses de prisão por tráfico de influência e corrupção. No mesmo caso outras 18 pessoas também foram condenadas.
▲ O príncipe Paul da Roménia é conhecido por "príncipe fugitivo" por já ter escapado duas vezes ao mandado de prisão emitido pelo país em 2020
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O príncipe nasceu em França e atualmente vive em Paris com a mulher e o filho. Em novembro de 2023 a Câmara de Extradição do Tribunal de Recurso de Paris rejeitou o pedido da Roménia, ao justificar que o direito a um julgamento justo não havia sido respeitado, dadas as irregularidades no juramento de dois dos três juízes que o condenaram, escreve o Le Figaro. Bucareste emitiu um novo mandado de prisão em janeiro de 2025, pelos mesmos motivos. O Advogado-Geral solicitou a entrega de Paul à Roménia, baseando-se na decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) proferida em julho de 2024, que considerou que a decisão do Tribunal de Recurso de Paris era “contrária ao princípio da confiança mútua” entre os países europeus e que havia exercido “controlo excessivo” de seu sistema judicial. O príncipe Paul foi detido novamente em abril na capital francesa, entretanto em julho o Tribunal de Recurso de Paris recusou-se a extraditá-lo para Bucareste.
Paul já tinha sido detido antes, em abril de 2024 em Malta. O príncipe disse ao Times of Malta que viajou para a ilha para participar num evento organizado pela Ordem de Malta (apesar da organização afirmar ao jornal que Paul não é cavaleiro nem foi convidado para o evento), e foi abordado pelas autoridades ao regressar ao hotel. “Não estou acostumado a ser preso. Vim para Malta para participar num evento importante, em que me tornaria Grão Mestre e convidado de honra, e então fui abordado por quatro pessoas a dizer que eu estava a ser detido. Não foi muito agradável”, disse Paul. O tribunal de Malta recusou a extradição por considerar que o príncipe seria “submetido a tratamento desumano e degradante devido às condições da prisão”. Depois de ser libertado, Paul regressou a Paris. Além da condenação, o príncipe está no meio de uma contestação do seu direito como herdeiro. É que Paul alega ser descendente direto do rei Carol II, por meio do seu pai, que é filho ilegítimo do antigo soberano. Contudo, o príncipe nunca foi aceite pelo tio, Miguel, que reinou entre 1940 e 1947. “O Estado romeno, no entanto, reconheceu Paul da Roménia como membro da família real “, insiste a advogada, Miriame Laïchi, citada pelo Ouest France. O príncipe considera este caso um julgamento político, motivado pelo seu status e as suas ambições monárquicas.
Nos Países Baixos, o príncipe Bernhard pode receber o título de “ovelha negra” da família real neerlandesa. O marido da rainha Juliana e príncipe consorte de 1948 até 1980 teve o seu nome envolvido no caso Lockheed, em que um executivo da empresa de aviação disse ter pagado cerca de um milhão de euros a Bernhard para que o membro da realeza ajudasse na comercialização de 104 aviões no país. Na altura o primeiro-ministro Joop den Uyl ordenou a abertura de uma investigação que concluiu que o príncipe “mostrou-se aberto a propostas e ofertas desonrosas e permitiu-se ser tentado por iniciativas completamente inaceitáveis”, cita o The Times. Na altura a família real emitiu um comunicado a negar que o príncipe tenha recebido qualquer quantia da Lockheed. O caso dominou a imprensa neerlandesa na década de 1970, porém o envolvimento de Bernhard nunca ficou provado. Joop den Uyl decidiu, então, não avançar com um caso em tribunal — entretanto o príncipe renunciou às responsabilidades financeiras e foi retirado do cargo de Inspetor Geral das Forças Armadas.
O caso teve uma reviravolta em 2004, quando o príncipe morreu, aos 93 anos. Numa série de entrevistas ao jornal neerlandês Groene Amsterdammer, realizadas entre 1995 e 2002 mas divulgadas apenas depois da sua morte, Bernhard confessa ter recebido o valor. “Sempre ganhei muito dinheiro, não precisava do milhão da Lockheed. Como pude ser tão idiota?”, assume o antigo príncipe consorte.
▲ No evento de abertura do parlamento, em setembro de 1976, Bernhard apareceu pela primeira vez sem farda e medalhas militares, depois do escândalo Lockheed
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Em 2023 veio à tona mais um elemento polémico da vida do príncipe — a sua associação ao partido nazi alemão. As suspeitas entre jornalistas e historiadores sempre existiram, apesar de Bernhard ter negado durante toda a vida que esteve envolvido em iniciativas ou organizações nazis. Contudo, a confirmação veio através de um cartão de membro do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, encontrado pelo antigo diretor dos arquivos reais, depois do rei Willem-Alexander permitir o seu acesso à totalidade dos documentos relacionados com a Segunda Guerra Mundial. O cartão mostra que Bernhard esteve associado ao partido nazi entre 1933 e 1936. Em 1949 um oficial norte-americano encontrou o documento na Alemanha e enviou ao príncipe com uma nota: “Caro príncipe Bernhard, guardei este documento em segurança por alguns anos. Antes de o destruir, pensei que teria o direito de o fazer por si próprio”, cita o Le Monde. No seguimento da revelação, o rei Willem-Alexander reagiu aos jornalistas: “Imagino que as notícias tenham um impacto enorme e tragam muitas emoções, especialmente entre a comunidade judaica. Temos que olhar para o passado como foi, incluindo as partes menos boas”, disse.
Itália também tem um príncipe menos exemplar — e que seria o herdeiro ao trono se a monarquia não tivesse sido abolida do país em 1946. O caso mais emblemático envolvendo Vittorio Emanuele di Savoia é de 1978, quando o príncipe disparou um tiro que matou o adolescente de 19 anos Dirk Hamer, na ilha francesa de Cavallo, na costa da Córsega. Vittorio Emanuele e a irmã, Birgit, estavam no seu iate, atracado, quando perceberam que um bote havia sido roubado. Quando o príncipe o viu amarrado a outro barco nas redondezas ficou enfurecido, pegou numa arma e disparou contra o iate dos supostos ladrões. O tiro errou o alvo, mas atingiu o jovem, que dormia no convés de um barco ao lado. O ferimento veio a ser fatal, alguns meses e 19 cirurgias depois. O príncipe foi detido e, passados alguns dias, assinou uma carta na qual admitiu a responsabilidade civil pelo sucedido, mas um dia antes da morte do jovem, foi libertado e deixou a Córsega rumo à Suíça. Entretanto, uma investigação criminal francesa decorreu por uma década e o príncipe foi acusado em 1991 por homicídio involuntário, do qual foi absolvido. Cerca de 15 anos depois, autoridades italianas gravaram-no secretamente a gabar-se de ter enganado os juízes franceses no caso, escreve o Telegraph.
O crime é abordado no documentário O Príncipe sem Trono realizado pela nora de Carolina do Mónaco, Beatrice Borromeo, que também explora outras polémicas da vida de Vittorio Emanuele. Em 2006, por exemplo, foi detido por corrupção e exploração de prostituição num caso relacionado com um casino em Campione d’Itália, um enclave italiano na Suíça. Embora tenha sido absolvido quatro anos depois, não se livrou do escândalo nem dos danos reputacionais. Para trás estava já uma investigação levada a cabo em Itália por suspeita de tráfico de armas, da qual também saiu absolvido.
▲ Vittorio Emanuele di Savoia chego a ser acusado de homicídio involuntário em 1991, mas foi absolvido
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Conhecido pela imprensa internacional como o “príncipe dos escândalos”, Ernst de Hanover envolveu-se em muitas polémicas desde o casamento com Carolina do Mónaco, em 1999. De acordo com a revista Hello, no mesmo ano o chefe da casa de Hanover foi multado depois de atacar um fotógrafo; em 2000 foi fotografado a urinar dentro do Pavilhão da Turquia na Expo, sendo acusado pela embaixada de insultar o povo turco; e em 2004 foi condenado por agressão a um dono de hotel no Quénia.
▲ Ernst de Hanover tem fama pelos escândalos nos quais se envolveu, principalmente depois do casamento com Carolina do Mónaco, entre eles episódios de agressão contra a polícia
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Pena de morte e prisão perpétua
Há poucos casos na história moderna de príncipes que foram condenados a prisão perpétua ou à morte, e nenhum é na Europa. Em 2010 Saud bin Abdulaziz bin Nasir al Saud, neto do então rei da Arábia Saudita, Abdullah, foi condenado a prisão perpétua em Inglaterra, com uma pena mínima de 20 anos em regime fechado, pela morte de um empregado, Bandar Abdulaziz. De acordo com o The Guardian, o príncipe agrediu o empregado depois de uma noite de dia dos namorados em que ambos estiveram a beber champagne e cocktails. Bandar Abdulaziz foi encontrado morto na cama de um quarto do Landmark Hotel, no centro de Londres, com marcas de mordidas no rosto. A BBC escreve que a polícia encontrou fotografias do homem nu no telemóvel do príncipe saudita, sugerindo que o homicídio teve uma componente sexual.
▲ Saud bin Abdulaziz bin Nasir al Saud foi condenado a prisão perpétua pelo assassinato de um empregado, que foi encontrado morto num quarto de hotel em Londres
Metropolitan Police
A imprensa britânica escreveu na altura que o assassinato foi “o último ato de uma relação entre mestre e empregado profundamente abusiva”. Muito se falou na altura que Saud bin Abdulaziz bin Nasir al Saud era homossexual, mas precisava esconder a sexualidade por questões religiosas — e porque na Arábia Saudita poderia ser punido com a morte. Em 2013 o Telegraph noticiou que o príncipe saudita seria transferido para o país árabe, onde cumpriria o resto da pena em casa. Desde então não se tem notícias sobre o homem, mas em 2016 a Arábia Saudita condenou à morte o príncipe Turki bin Saud al-Kabir pelo assassinato de outro homem saudita, o que de acordo com o Daily Mail, foi a primeira execução de um membro da família real desde os anos 1970 — reflexo de uma política mais dura do atual rei, Salman. Um dos casos mais conhecidos da realeza saudita a ser executado por um crime é o do príncipe Faisal bin Musaid al Saud, que matou o tio, o rei Faisal, em 1975.
Já em Lagos, na Nigéria, o príncipe Adewale Oyekan foi condenado em 2019 à morte depois de ser considerado culpado pelo assassinato de Sikirat Ekun, uma empresária de 62 anos que era membro do partido democrático popular. O crime foi cometido em outubro de 2012, e o príncipe permaneceu detido até o julgamento, relata o jornal local Punch.
De acordo com informações publicadas pelo britânico Independent, Oyekan administrava um restaurante da vítima e terá contratado a sua empregada de limpeza, Lateef Balogun, para matar a patroa. Ambos estrangularam a mulher e atiraram o seu corpo num poço de 300 metros de profundidade dentro da sua casa. O cadáver foi escondido por dois meses com a ajuda de um gerador e uma botija de gás. Na sequência, Oyekan e Balogun assumiram os negócios de Sikirat Ekun. Dois meses depois o corpo da mulher foi encontrado e a dupla presa. Contudo, mesmo condenados à pena capital, a imprensa nigeriana não publicou novidades sobre o caso. Há relatos de prisioneiros no país que ficam no corredor da morte por mais de 10 anos — o que poderá ser o caso do príncipe. Adewale Oyekan é filho do antigo rei de Lagos, Oba Adeyinka Oyekan, que morreu em 2003 e foi sucedido por Oba Rilwan Akiolu.