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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

De Alvalade ao Marquês e de rezas viradas para Meca a uma benfiquista em cadeira de rodas. Festejos do Sporting tiveram tudo

71 anos depois, o Sporting voltou a celebrar um bicampeonato. A festa começou em Alvalade e acabou no Marquês. Pelo meio aconteceu de tudo numa festa com espaço para todos.

A máxima “onde vai um vão todos”, lançada por Ruben Amorim antes da conquista do primeiro campeonato pelo Sporting, perdeu alguma força pela ausência do seu mensageiro. Mas, uma época depois, os adeptos voltaram a pintar o Marquês de Pombal, e grande parte de Lisboa, de verde e branco para celebrar o bicampeonato. A festa — com muitos petardos, fogo de artifício e cânticos — entre Alvalade e a rotunda teve direito a rezas viradas para Meca e adeptos do Benfica entre os rivais.

71 anos depois, o Sporting voltou a festejar o bicampeonato e a enchente de adeptos que teve que esperar até à última jornada para comemorar novo título (a 21.ª liga nas contas da competição; o 25.º para o Sporting). A festa que teve primeiro epicentro no estádio (dentro e fora), rapidamente passou para o palco habitual destas festas.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

No meio da festa em Alvalade, Bubacar reza virado pela Meca e pede pela vitória do Sporting

Foi na casa do Sporting que a festa se começou a fazer. Enquanto dentro do estádio os leões disputavam um difícil encontro com o Vitória SC (a tentar chegar aos lugares europeus), fora dele iam-se reunindo dezenas de milhares de adeptos que esperavam fazer a festa.

A história estava do lado deles — só por uma vez uma equipa conseguiu saltar para primeiro na última jornada —, mas isso é suficiente para descansar Bubacar Jalo, que no meio da euforia que se vive em Alvalade, arranjou um pequeno espaço escondido entre árvores e motas para rezar.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Rezo por mim e pelos meus desejos, que são também as vitórias do Sporting”, confessa de joelhos, descalço, virado para Meca e com uma camisola dos leões. Num pequeno templo (quase) alheado da realidade efervescente em seu redor, o muçulmano explica que veio da Guiné para uma conferência de trabalho, mas alargou a estadia para ver os primeiros festejos de um campeonato.

“Tinha que passar aqui. Sempre que venho a Lisboa venho aqui, mas nunca festejei campeonatos”, acrescenta, após concluir a reza das 19h20, onde, além do Sporting, também Gyokeres esteve presente. Pede aos deuses, admite, para que “o melhor jogador” que viu de verde e branco “chegue à bota de ouro”. “Vi Jardel jogar, mas não era a mesma coisa. Só marcava”.

A conversa com Bubacar é interrompida pelos festejos efusivos dos adeptos. O Sporting acaba de fazer 0 2-0 e a resposta às preces do guineense, que se esperneava de alegria na relva, chegaria em forma de bicampeonato.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“O Sporting ensina que a vida é mais difícil do que gostaríamos”, diz adepta, que relata época de altos e baixos

O jogo não começou bem para o Sporting e, no princípio, a maior tranquilidade que transparecia nos adeptos que viam o jogo nas roulotes do Campo Grande chegava do resultado em Braga, onde Benfica ia perdendo. O golo de Pedro Gonçalves, porém, soltou o primeiro rugido da festa leonina.

“Muito nervosismo durante o jogo. Estávamos aliviados enquanto o Benfica perdia. Achei que o Benfica ia ganhar depois de terem empatado. O golo [do Pote] foi um alívio. Começámos a gritar ‘campeões'”, relata Mariana, na companhia da mãe e de um primo.

A família — que aproveita o carro estacionado no caminho até ao Marquês para comer sandes — vem de diferentes localidades alentejanas ver todos os jogos do Sporting, aproveitando a união clubística como “forma de estar toda junta”, justifica Zélia, de 55 anos. Ao contrário do sobrinho, com menos 40 anos, a eborense era gozada na escola por ser do Sporting, que na altura ganhava menos troféus: “Ouço desde miúda que o Sporting vai perder.”

JOAO PORFIRIO/OBSERVADOR

Ao olhar para uma época com altos e baixos, Mariana interrompe a tia para dizer que “o Sporting ensina que a vida é mais difícil do que gostaríamos” e exemplifica com a presente temporada: “Dormíamos descansados porque tínhamos o Amorim. Quando ele saiu, voltou o nervosismo de antigamente.”

“No dia em que o Ruben Amorim foi embora eu deixei de acreditar no Bicampeonato e [já com Rui Borges] no dia do empate com o Arouca dissemos que estava perdido”, desabafa.

Apesar disso, como desejado por Amorim e concretizado por Rui Borges, com uma breve e infame passagem de João Pereira pelo meio, a família segue a caminho do Marquês, como não conseguiu fazer no ano passado porque estavam no Alentejo quando a equipa foi campeã no sofá.

Entre os gritos de “bicampeão” numa tarde que se limpou de nuvens para deixar o sol brilhar quase mais que os leões, Ana Caneiras tem bem patente a emoção pela nova conquista, com lágrimas a escorrer-lhe do rosto durante um abraço sentido à filha, que só encontrou depois dos 90 minutos. “Uma emoção muito grande. Vi o jogo sozinha no meio de estranhos que me tranquilizaram quando o jogo terminou.”

Mesmo que não vá ver o Sporting, costuma ir sempre ao Estádio José Alvalade, onde vai buscar a filha que trabalha nos bares do recinto desportivo. Puxa a fita da memória atrás para recordar o último campeonato que festejou —  e levou cargas policiais — e o de 1999/00 — quando estava grávida.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Uma benfiquista de cadeira de rodas e um portista arrastado pela família no meio dos leões

Como Ana no campeonato vencido no velhinho Vidal Pinheiro (antiga casa do Salgueiros), também Margarida carrega em si um pequeno leão. A grávida de 35 anos veio de Aveiro de propósito para festejar o campeonato na companhia do filho, vestido a rigor, e do pai, um portista obrigado a ir a Alvalade pelo amor à família.

“Não me custa, não acompanho muito futebol, não ligo assim tanto. Ela importa-se mais”, revela João, desvalorizando uma época atípica para os dragões que terminou com um terceiro lugar no campeonato. Já com milhares de adeptos a seguirem em direção ao Marquês, a família estuda essa hipótese, apesar da oposição do marido, mas dependendo do sucesso em apanhar um táxi.

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Entre cânticos e assobios, vai seguindo a onda verde desgovernada em direção à rotunda. A dado momento, os assobios e palavras de ordem mudam de tom e têm um destinatário identificado: Nuno Machado, o benfiquista que surge destemido no meio da Avenida da República com um equipamento do Benfica.

“Estou a festejar a vitória dos meus amigos. Faz-me confusão que não haja desportivismo. Isto deveria ser normal, mas infelizmente não é. Falta educação, não é formação”, desabafa, numa conversa que vai sendo interrompida por gritos dirigidos ao adepto, todas retribuídas com fair-play, muitas vezes devolvido.

Admitindo que neste sábado só acreditou no título “muito remotamente”, Nuno aponta para outro colega do grupo em que se encontra para denunciar a presença de mais um adepto que não é do Sporting, outro portista.

Estes casos isolados não são únicos, e mesmo no centro do furacão que foi a festa do título, no Marquês, estava uma jovem vestida com um equipamento do Benfica. No longo trajeto até à rotunda estava outra benfiquista, esta sem vestimenta encarnada, e sentada numa cadeira de rodas.

Filomena Gonçalves, de 66 anos, é a única benfiquista de uma família cheia de sportinguistas e sai à rua, empurrada pelo filho Pedro, para “ver a família feliz”. Diz que vai voluntária, mas admite que quando é o contrário — “que acontece mais vezes” — não os obriga a ir.

Porém, nos últimos anos, a rotunda usada para festejos dos dois rivais tem-se pintado mais de verde do que de vermelho, para gáudio da neta que vai ao colo da avó com um leão de peluche na mão. “O ano passado vieste a pé e pode ser que para o ano venhas também”, diz à mãe Pedro Gonçalves, com uma camisola do jogador seu homónimo.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Apesar das críticas, Marquês continua a ser o lugar de eleição para as festas

Com o aproximar do Marquês tudo aumenta: a música, o número de adeptos, a quantidade de polícias e a emoção dos sportinguistas, que regressam a um palco que nos últimos dias tem sido alvo de discussão. O caminho faz-se também com cânticos e buzinas dos que se atreveram a ir de carro e levam os vidros abertos para soltarem gritos de “bicampeão”.

Na sexta-feira, uma petição pública pedia o fim dos festejos futebolísticos na rotunda, alegando sobrecarga do espaço. A alternativa, sugerem, é utilizar antes o Parque Tejo, opinião que reúne o apoio de Ana Caneiras.

“O Marquês é um local tradicional, mas podia-se ir para o Parque Tejo. É um local mais amplo e pode trazer pessoas do resto do país. O Marquês é emblemático, mas a equipa já é recebida na Câmara Municipal, que já tem simbolismo. Tem que haver razoabilidade e segurança.”

Enquanto alguns adeptos permaneceram junto às grades que limitam o perímetro de segurança imposto pela PSP à espera do autocarro junto a Alvalade — acompanhando as transmissões televisivas no telemóvel para saberem quanto tempo ainda têm que esperar —, outras foram rapidamente para a rotunda e, assim, evitar filas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Pela meia-noite, já os seis pontos de acesso definidos pela polícia estavam repletos de adeptos. Quem escolhesse bem, esperava pouco tempo na fila para ser revistado e poder entrar no perímetro de segurança onde se vislumbrava ao fundo a estátua de Sebastião José de Carvalho e Melo de verde e branco.

Entre os adeptos, passeavam alguns trolleys de turistas que escolheram mal o dia para chegar a Lisboa. Outros aproveitavam as janelas dos hotéis perto da rotunda para assistir em lugares privilegiados ao desenrolar da festa; lá em baixo, quem quer mesmo olhar para o palco tem que ser criativo e colocar-se em cima de quiosques ou no topo de casas de banho amovíveis.

O espaço vai-se organizando como um onze desenhado para atacar o título. Se na Avenida António Augusto de Aguiar se concentram muitos adeptos para assistir à passagem do autocarro, na Avenida da Liberdade concentram-se os sportinguistas que, saciada a fome de vencer, tentam comer e beber alguma coisa nas roulotes aí perfiladas.

Afastada do palco, no único local onde é possível ter uma conversa sem ser aos berros, Ana Monteiro fuma um cigarro para descansar um pouco do movimento e animação. A única sportinguista da família veio sozinha ao Marquês em lembrança do avô falecido, o único da família que viu o bicampeonato. “É graças a ele que sou sócia. Fez-me o cartão quando ainda estava na maternidade”, confessa entre bafos de cigarro.

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Entretanto, o speaker volta a anunciar que o autocarro está quase a chegar, mas nem vê-lo por entre a multidão que se adensa para gritar pelos heróis leoninos. Antes de chegarem os jogadores, chegam os leões virtuais, através de muitas projeções em todas as fachadas de edifícios que circundam a rotunda e onde se lê “bicampeões” ou “Sporting” em vários tons de verde.

Foi pela 1h da manhã, quando ainda entravam pessoas e poucas iam desistindo de esperar, que o autocarro chegou ao Marquês, duas horas depois de ter deixado Alvalade.

Com mais petardos e algum fogo de artifício, os adeptos receberam a equipa em euforia e a sintonia traduziu-se no palco, onde os jogadores desfilaram com músicas escolhidas para cada um e uma festa que se prolongou até às 3h.

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Gyokeres e Varandas são, de maneiras diferentes, os homens responsáveis pelo título

Entre os adeptos uma pouco curiosa bandeira repetia-se interminavelmente. Não era a portuguesa e também não era nenhuma que pudesse evocar o Sporting pelas cores, como a da Nigéria. Azul e com uma cruz amarela, não há como enganar, a Suécia estava amplamente representada nos festejos.

O motivo explica-se facilmente com um número: 39. A quantidade de golos que Viktor Gyokeres marcou no campeonato e que o colocam em grande posição para conquistar a Bota de Ouro.

Questionados pela figura do campeonato para o Sporting, a maioria dos adeptos ouvidos pelo Observador escolhem o sueco e quase todos acreditam que este ano foi o último de verde e branco.

“Com jeitinho, faz mais um ano”, atira Miguel Lopes, que aproveita o fim do desfile de jogadores no palco para descansar um pouco. “Acredito que o Gyokeres ainda fica”, diz Lino Sumares, que veio da Madeira para festejar no Marquês o campeonato.

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Certo é que o sueco já garantiu um lugar na história dos leões e no coração de todos os adeptos, como o demonstra os aplausos efusivos que se ouviram quando Gyokeres entrou no palco. A máscara que tantas vezes usou é sinónimo de festa para os sportinguistas que acreditam num regresso ao Marquês, mesmo sem o goleador letal — e sem Hugo Viana ou Ruben Amorim.

“Acho que o homem do campeonato é Frederico Varandas. Não é consensual pela forma como entrou e não comunica bem, mas discretamente faz o seu trabalho. Amorim e Viana saíram, mas ele ficou e conseguiu conquistar o que mais ninguém conseguiu”, descreve Bubacar.

Se Diogo e Marta concordam que a saída de Amorim foi “o pior momento” da temporada, a maioria dos adeptos parece ter perdoado o ex-treinador pela saída a meio da época, com a conquista do campeonato a contribuir para atenuar a mágoa.

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“Fiquei triste [com a saída de Amorim], mas se fosse eu fazia o mesmo”, confessa Margarida enquanto segura o filho mais velho pela mão. Para Rui Borges há elogios tímidos, mas com confiança de que poderá ser campeão novamente.

Sem duas figuras do último troféu (Amorim e Viana), os elogios voltam a recair em Varandas: “Quero acreditar que o Sporting está consistente pelo Varandas. É uma instituição com alguma saúde, pela força das modalidades. O Sporting sempre foi e sempre será um clube de várias modalidades, não só o futebol”, remata Ana.

Ainda assim, é mesmo o futebol que move milhares e, num dia que seria de reflexão, os sportinguistas pensaram pouco e sentiram mais, com a ilusão de voltar a marcar presença no Marquês no próximo ano, e com a consciência de que o futebol, como o amor, “é o momento”.

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