“Só nos resta Lisboa e a Inês Sousa Real”. Tinha acabado de fechar a contagem dos votos no distrito do Porto, por volta das 23h00, quando Mariana Crespo, cabeça de lista do PAN por Setúbal, dizia ao Observador que mantinha a esperança na manutenção da representação parlamentar. Sentava-se ao lado de cerca de 30 militantes de semblante carregado, numa sala em que o silêncio imperava desde o final da tarde e a esperança parecia começar a desaparecer. Meia hora depois, o grito “Somos PAN” ecoava na sala e fazia-se acompanhar de suspiros de alívio e até de lágrimas de alegria de uma militante.
“O PAN não se vai demitir. Vamos continuar nas ruas e no Parlamento”, garantiu Inês Sousa Real, após ser eleita novamente, e pela terceira vez desde 2022, deputada única do partido pelo círculo eleitoral de Lisboa. “É muito importante para as causas que defendemos a nossa manutenção no Parlamento e deve orgulhar-nos”, disse a porta-voz do PAN, que falou, nesse momento, pela primeira vez desde que tinha começado a noite eleitoral que decorreu no Lux Lisboa Park Hotel, no centro de Lisboa.
No discurso de vitória, a porta-voz do partido animalista não deixou de destacar o sentimento agridoce de uma noite eleitoral com resultados inesperados. “É um dia triste do ponto de vista democrático para vários partidos e não só para o PAN”, afirmou, apontando o dedo ao Chega, que “apoia uma agenda xenófoba e de exclusão”.
“O PAN estará a lutar nas ruas e no Parlamento, se conseguimos até aqui com a força de uma deputada única, vamos continuar a conseguir”, reiterou. Apesar de se mostrar capaz de abraçar novamente o desafio de fazer valer a voz do PAN a solo na Assembleia da República, Sousa Real admite que o resultado da noite não é aquele que o partido “gostaria de ter tido”.
“Seria importante que não estivesse sozinha no Parlamento, que tivéssemos conseguido um grupo parlamentar e que tivéssemos eleito em outra áreas geográficas em que não elegemos”, admitiu, justificando a razia da sua eleição com o “voto útil”, que, acusa, ” voltou a prejudicar a pluralidade democrática”.
“Temos agora uma missão muito importante, perante esta ameaça concreta, perante a extrema-direita a querer recuar na defesa dos direitos dos animais e a querer apoiar uma agenda de não inclusão e de discriminação”, garantiu.
▲ O PAN teve de esperar pelos últimos resultados de Lisboa para eleger a deputada única
LUSA
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“Estaremos disponíveis para dialogar”. PAN fechou noite eleitoral sem trancar a porta a uma coligação com a AD
Três horas antes da eleição de Inês Sousa Real, António Morgado Valente membro da comissão política do PAN e número dois do partido no círculo eleitoral de Lisboa, pedia para se “aguardar”. A espera acabou por compensar. Algumas das projeções apontavam para que o PAN recolhesse entre 1% e 2% dos votos. Acabou a conquistar 1,36 % da percentagem total, o correspondente a 80.850 votos.
Questionado sobre se o partido continuava a deixar a porta aberta a uma coligação que incluísse a Aliança Democrática (AD) e a Iniciativa Liberal (IL), o candidato continuou a não negar a hipótese, tal como Inês Sousa Real fez nos últimos dias de campanha eleitoral.
A porta-voz do PAN voltou a repetir a cassete já depois de conhecidos os resultados desta noite eleitoral. “É imperioso para a nossa democracia que todos os partidos do nosso espetro democrático façam um esforço para haver um consenso nacional que trave a extrema-direita“, afirmou, perante um cenário eleitoral que deixou o PS e Chega colados, com o mesmo número de deputados antes de apurados os mandatos dos círculos eleitorais do estrangeiro — são os votos da emigração que vão decidir quem fica com o segundo lugar nestas eleições.
“Da parte do PAN vamos continuar a fazer oposição, mas estaremos disponíveis para dialogar e perceber que consensos são possíveis do ponto de vista parlamentar, para podermos garantir que o país tem estabilidade e que temos um Orçamento do Estado”, assegurou ainda Sousa Real, não deixando de apontar as suas “linhas vermelhas” para as futuras combinações.
“A AD tem que perceber que não pode estar de costas voltadas para um dos maior flagelos do nosso país”, afirmou, referindo-se à violência doméstica, que diz ser um tema fulcral que não tem sido trabalhado com a atenção devida pelo partido que formou Governo em 2024.
Sousa Real pediu ainda que não se deixe para trás as famílias que têm animais de estimação, através da criação de um SNS animal, medida emblemática do partido. E apela a que não se ignore a causa da “ação climática”, aproveitando para criticar a violência com que ativistas para o clima têm sido travados em atos políticos da AD.
Não tem dúvidas de uma coisa: “Há um chão comum do ponto de vista democrático que podemos todos trabalhar, mas o PAN será este contraponto para os grandes partidos“, disse a porta-voz, garantindo que será o seu partido a “exigir que estes temas [violência doméstica, direitos dos animais e ação climática] entrem na agenda parlamentar e governamental”.
MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
O pior resultado em três anos não verga a esperança do PAN em crescer nos próximos atos eleitorais
A noite no quartel-general do PAN só pode ser classificada com a palavra alívio. Dez anos depois de sentar o primeiro deputado no Parlamento — em 2015, André Silva foi o estreante nas andanças de assento único — o partido continua a eleger nos “penáltis” do apuramento dos resultados eleitorais pela terceira eleição legislativa consecutiva.
Desde 2022, quando o PAN perdeu o grupo parlamentar de quatro deputados que tinha conquistado dois anos antes — que incluía Cristina Rodrigues que agora está no Chega — Inês Sousa Real passou a sentar-se sozinha no Parlamento.
Em 2022, o PAN conquistou 88.127 votos, o equivalente a 1,58% da votação. Nas legislativas de 2024, manteve a deputada única, com um ligeiro acréscimo na votação global, o partido conseguiu reunir 1,95% do eleitorado — num total de 126.085 votos.
O resultado deste domingo é, para já e até serem divulgados os votos dos círculos eleitorais da Europa e Fora da Europa, o pior dos últimos três anos. O partido conseguiu 80.850 votos, que corresponde a uma percentagem de 1,36 % do total da votação. Perdeu, assim, cerca de 45 mil votos no espaço de pouco mais de um ano. “Faremos a nossa reflexão para percebermos o que está a falhar para que as pessoas não estejam a ter reconhecimento do trabalho do PAN”, garantiu.
Inês Sousa Real apressou-se a justificar a queda e a consequente não eleição de um grupo parlamentar, com “os ciclos eleitorais curtos dos últimos anos”. Garante que “não permitem uma aproximação efetiva ao eleitorado” e destaca a composição da militância do partido, feita maioritariamente de “voluntários e ativistas” fora das grandes máquinas partidárias, que, salienta, vai continuar a ser alimentada financeiramente pelos resultados este domingo conhecidos.
Mas a (novamente) deputada única não cede à resignação. “É tempo de arregaçarmos as mangas”, garantiu, apontado já o alvo aos próximos atos eleitorais. “Quer nas autárquicas, quer no próximo ato eleitoral, à semelhança do que aconteceu no ano passado, quando tivemos mais tempo para dar a conhecer às pessoas o nosso trabalho, vamos recuperar e trabalhar para que um dia voltemos a ter um grupo parlamentar”, prometeu.