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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Depois do enfarte, Marina aprendeu a viver com o coração frágil e a máquina que o faz trabalhar. E viu um um novo enfarte levar-lhe o marido

Recomeçar. Foi o que fez Marina Boavida depois do enfarte. Voltou à vida graças a uma rede de apoio que entretanto sofreu um duro golpe: novo enfarte, mas agora no marido, que lhe morreu nos braços.

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Quando Marina Boavida voltou a casa, dois meses depois de ser internada, no inverno de 2018, percebeu que a vida, como a conhecia, não voltava ao lugar. Sofreu um enfarte enquanto caminhava na passadeira do ginásio. Depois de submetida a um cateterismo [procedimento para observação das artérias coronárias e, se existir um bloqueio, é efetuada uma intervenção cirúrgica], a equipa médica percebeu rapidamente que as sequelas eram imensas. A única solução para o seu caso foi a cirurgia, com a colocação de um cardiodesfibrilhador implantável (CDI). Tinha pouco mais de 40 anos, uma vida profissional intensa, e dois filhos gémeos com cinco anos. De repente, qualquer esforço lhe parecia equivalente a subir a uma montanha, até levantar-se do sofá.

O marido, Paulo, tornou-se a sombra dela, os braços que parecia não ter, as pernas para se movimentar. Mas dois anos depois, em plena pandemia, um outro enfarte — agora no coração dele — levou-lhe o maior suporte. Paulo morreu com um ataque cardíaco fulminante. Ficaram os filhos, que aprenderam a estar alerta, a chamar os vizinhos ou a emergência médica quando desconfiam que a mãe não está bem. Ficou a família. Ficaram os amigos, que apertaram a malha dessa rede de apoio. E uma equipa médica vigilante. Para sempre.

A colega Rafaela Tavares "O meu papel foi o de a fazer rir, de a fazer pensar em coisas boas”

Rafaela e Marina conheceram-se dois anos antes do enfarte, por causa dos filhos, que frequentavam o mesmo jardim de infância. Nesse tempo, Marina Boavida era proprietária de uma escola de condução. “A determinada altura surgiu a oportunidade de eu ir trabalhar para lá, com ela”, recorda Rafaela. Foi pouco depois do enfarte, e por isso terá sido das pessoas que melhor se apercebeu “do impacto que isso teve na sua vida”.

“Eu e a Marina temos uma ligação muito engraçada, porque conseguimos descomplicar tudo o que é negativo. Acho que foi essa leveza que nos ajudou a enfrentar aquilo. Porque eu nunca tinha lidado com ninguém que tivesse sofrido um ataque cardíaco e nem sequer sabia o que isso podia implicar na qualidade de vida da pessoa”. Quando pensa no papel que terá tido a ajudar a amiga, responde: “Acho que foi mesmo o de a fazer rir, de a fazer pensar em coisas boas, durante os nossos almoços”,

“Por muitos casos que possam existir, poucos serão como o dela. Poucas pessoas teriam a resiliência que a Marina teve. Porque tudo lhe custava muito, e ela insistia. Estava numa situação muito frágil, fisicamente, sobretudo, mas tentava sempre fazer as coisas. E mesmo no meio do caos, às vezes, em alturas de muito trabalho na escola de condução,  tinha sempre uma palavra que era válida até para si mesma: calma”, diz ao Observador.

Quando o marido de Marina morreu, Rafaela foi uma das pessoas que mais a apoiou. Percebeu-lhe o regresso “do medo em ficar sozinha, mas agora era pior: era o medo aumentado, por causa dos meninos”. Eles têm o seu contacto e sabem “que lhe podem ligar a qualquer hora”. “A Marina, ao mesmo tempo, ensina-nos. Estamos aqui, damos o nosso apoio da melhor maneira que conseguimos, mas ela, com a naturalidade que tem de encarar a vida, e os problemas que lhe vão aparecendo, quase que nos guia”, afirma esta antiga funcionária, que se tornou amiga.

A prima Ana João Santos “Foi um grande desafio viajar com ela depois do enfarte”

Ana João e Marina cresceram juntas. São primas em terceiro grau, mas sempre se consideraram mais do que amigas, talvez irmãs. Têm a mesma idade. Mas na idade adulta, cada uma seguia a sua vida, criando o seu núcleo familiar. Até que o enfarte haveria de as reaproximar.

Ana João foi sabendo que a prima ficara com demasiadas sequelas depois daquele episódio cardíaco, acompanhou à distância o processo para a operação, mas “estava sempre descansada porque ela tinha o Paulo ao lado dela”. Quando Paulo morreu, Ana fez-se mais presente. Sabia que Marina ficara com “muitos medos” depois do enfarte, nomeadamente de “andar de carro sozinha, de estar sozinha, muito mais de viajar”. Mas também sabia que seria importante devolver a prima à vida. E então, em 2022, escolheu um destino próximo para voltarem juntas às viagens de juventude: Barcelona.

“Foi um grande desafio viajar com ela pela primeira vez, depois do enfarte”, conta. “Nós temos personalidades completamente diferentes. Só que há respeito. Sempre houve. E, por isso, encaixamo-nos muito bem”, explica Ana João, que não esquece esses dias em que Marina se desafiou, saindo de casa, e viajando pela primeira vez. Passearam juntas pela cidade espanhola, numa viagem que foi mais terapêutica do que se imagina. “Ela ia cheia de medo. E conseguiu vencê-lo”, recorda a prima. Continua a desafiá-la para novas viagens, sempre com o duplo sentido de a levar a superar os seus receios.

No ano seguinte, em 2023, fizeram juntas uma viagem marcante para ambas: o caminho para Santiago de Compostela. “Eu não sou religiosa, mas ela é. E por isso decidi acompanhá-la. E foi muito bom.”

A ama dos filhos Ana Cristina "A Marina sabe que estou sempre à distância de um telefonema”

Uma das primeiras pessoas a saber que Marina sofrera um enfarte foi Ana Cristina, a ama dos filhos gémeos. Foram apresentadas por uma tia de Marina, a mesma que, naquela manhã de 2018, ligou à ama para a informar do sucedido. De tal forma que Ana terá sido das primeiras pessoas a visitar Marina, quando regressou a casa, depois do internamento. “Uma pessoa fica sempre fragilizada, quando se depara com aquilo. Ela era uma pessoa cheia de vida, de força, e de repente estava ali, que mal se conseguia levantar do sofá sem se cansar”, recorda.

A debilidade de Marina acabou por se tornar num ponto chave para o que já era uma amizade. “Os meninos estavam muito habituados a mim e disponibilizei-me sempre para ficar com eles quando fosse preciso.” Não foi muito necessário ir ajudar lá a casa, “porque naquela altura ela tinha o marido, e ele era incansável”, acrescenta Ana Cristina. Ainda assim, chegou a acontecer “dar algum apoio”. Com o tempo, tinham construído um grupo de amigos comum. Conviviam muito. Quando Paulo morreu, todos eles foram muito importantes.

Ana continuou, pela vida fora, a ser a “super-ama” dos meninos”, como já a apelidaram. Mesmo agora, que já têm 12 anos, mantém com eles uma ligação bastante próxima.

Ana Cristina mora no Montijo, a poucos quilómetros da casa de Marina Boavida. “A Marina sabe que estou sempre à distância de um telefonema, para o que ela precisar. E os meninos também. Já aconteceu ela sentir-se mal e eles ligarem”, sublinha.

Os filhos Tiago e Rafael Lopes “Se a mãe se sentir mal, há pessoas a quem ligamos”

Tiago e Rafael Lopes têm agora 12 anos. Já passaram por toda a angústia na vida de uma criança: o medo de perder a mãe, o choque de perder o pai. Depois da morte de Paulo, são eles o suporte de Marina. Tinham cinco anos quando aconteceu o enfarte, lembram-se vagamente do dia em que o pai lhes contou que a mãe estava no hospital e tinha de lá ficar um tempo. Quando Marina voltou para casa, a alegria foi tanta que apagaram da memória os momentos em que não conseguia fazer nada. “Eu sei que depois ela melhorou”, recorda Tiago. Rafael anui, numa altura em que os dois se preparam para banhos e mergulhos, com a mãe, no Algarve, e depois para os mimos dos avós paternos, na Serra da Estrela.

Contam ao Observador que ajudam a mãe, “a fazer a cama, a por a mesa ou a arrumar a cozinha”, com a mesma leveza com que recordam o dia em que a mãe se sentiu mal, já depois do pai falecer, e tiveram que assumir o socorro. “Fomos ali ao lado chamar a vizinha, que é enfermeira. E ligámos à tia*”. A mãe instruiu-os: “Eles sabem que há uma lista de pessoas a quem devem ligar, se alguma coisa me acontecer”. São elas: Rafaela, Ana João, ou Ana Cristina. “Se a mãe se sentir mal, ligamos. Já foi assim que fizemos da outra vez”, recordam.

Por ora, “são os putos a aprenderem a ser homens”, como no poema de Ary dos Santos e Paulo de Carvalho. A mãe já os ensinou a usar a Air Fryer. “Se for preciso já somos capazes de fazer comida”, afirmam.

Um quer ser polícia, outro engenheiro informático. Gostam de jogar à bola, são adeptos fervorosos do Sporting. Ali, em Sarilhos Grandes, na terra da lenda Manuel Fernandes,  onde vivem, nem podia ser de outra maneira.

* Fernanda, tia de Marina. É como se fosse mãe dela e avó dos meninos. Preferiu não participar nesta reportagem.

O primeiro cardiologista Rui Caria "Uma doente como a Marina ganha anos de vida se tiver os cuidados todos”

A primeira memória que o cardiologista Rui Caria guarda de Marina Boavida data do dia em que aconteceu o enfarte, já que foi ele que acabou por realizar o cateterismo. Aconteceu no Hospital de Setúbal, através da Via Verde Coronária, um mecanismo “que salva vidas, muitas vidas, neste país”, conta ao Observador. Mas é este médico que resume de forma peremtória o que aconteceu a Marina, e por que razão acabou por ficar com insuficiência cardíaca: “Ela demorou tempo demais a chegar. E foi isso que lhe provou sequelas. A partir do momento que chegou conseguimos de imediato desobstruir,  mas tinha muito estrago. Era inevitável a dilatação do coração”, explica, ele que nunca se cansa de dizer que “tempo é miocárdio”.

Ao longo destes sete anos, Rui Caria acabou por criar com a doente uma relação de quase amizade, que vai para além das consultas semestrais. Inicialmente aconteciam no Hospital de Setúbal, agora acontecem numa clínica privada, uma atividade  que mantém a par da direção da unidade de Cardiologia do Hospital da Cruz Vermelha. Rui Caria continua a dedicar-se aos doentes da Margem Sul, entre a Baixa da Banheira, o Montijo, Setúbal e outros concelhos. Sublinha a importância de “nunca mais largar um doente”, até porque “nem todos são como a Marina, uma doente aplicada, que percebeu de imediato o que lhe acontecera, como esteve perto de ‘passar para o outro lado’ e a importância de manter hábitos de vida saudáveis”.

Surgiram, entretanto, “medicações novas, que têm tido resultado fantásticos”. “Para doentes como a Marina, foi um ponto de viragem no tratamento. É o caso do valsartan+sacubitril, que ajuda a tratar a insuficiência cardíaca. E ela foi das minhas primeiras doentes a fazer essa medicação. É o que tem travado a dilatação do coração.”

Rui Caria é médico há quase quatro décadas. Há muito que se dedica sobretudo ao cateterismo, uma especialidade que a cardiologia tem vindo a aprimorar ao longo dos anos.  Curiosamente, escolheu esta área da medicina “porque estavam a aparecer os medicamentos para tratar o enfarte agudo de miocárdio. E aquilo salvava vidas. Depois percebi que afinal não era por aí, que a mecânica tinha outro poder”, sustenta, ele que hoje tem apenas uma certeza: “A evolução na cardiologia foi enorme. E uma doente como a Marina ganha anos de vida se tiver os cuidados todos: modificação de hábitos alimentares, exercício físico, controlo da tensão arterial e do colesterol”.

O segundo cardiologista Mário Martins Oliveira “A Marina é um caso de sucesso a todos os níveis”

Quando o cardiologista Mário Martins Oliveira conheceu Marina Boavida, no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, teve a certeza de que a única forma de a ajudar seria implantar-lhe um CDI.

“Lembro-me muito bem do caso dela. Tinha ficado com a função cardíaca muito comprometida, com várias sequelas do enfarte. Era uma mulher muito jovem ainda, e com os dois filhos muito pequenos. Passado algum tempo da cirurgia, o marido deve morte súbita. Ela ficou completamente destroçada. Mas como é uma mulher resiliente, acho que deu a volta por cima”, explica.

O médico — que agora a acompanha com menos frequência — considera que o caso de Marina “teve uma evolução muito favorável: ela tem um sistema de monitorização à distância, portanto, tem um equipamento em casa, como se fosse um pequeno telefone, que nos transmite os dados do aparelho. Isso significa que a pessoa tem de vir ao hospital menos vezes, se estiver tudo bem”.

Mário Martins Oliveira especializou-se em eletrofisiologia cardíaca — a ciência que estuda a atividade elétrica do coração e os distúrbios relacionados com ela, como arritmias. Recorda-se bem do dia em que teve de dar a notícia a Marina que o seu coração tinha ficado doente ao ponto de não ser capaz de viver sozinho. “Não é uma notícia agradável. Mas ela compreendeu muito bem que assim não ia ter limitação nenhuma, mas antes um ‘anjo da guarda com ela’. Que a partir dali, com aquele aparelho, se o coração dela parasse, o aparelho não deixava.”

Esta doente é para o cardiologista “mulher de sucesso a todos os níveis”, conclui.

O marido Em memória de Paulo Lopes "É a nossa estrela"

“O  meu marido foi a minha rede, desde que tive o enfarte e até ao dia em que faleceu, nos meus braços, aqui no chão da sala”. Paulo Lopes fez tudo o que estava ao seu alcance para melhorar a vida da mulher, Marina, desde que deixou o hospital e voltou para casa. Acompanhava-a nas consultas, tratava de tudo em casa, nomeadamente as tarefas com os filhos. Era motorista da Carris, “entrava muito cedo, fazia o turno da madrugada, e voltava depois de almoço”. Marina olha para trás e não tem dúvidas de que “ele não descansava, dormia muito pouco”.

Paulo Lopes era um apaixonado pelo exercício físico em bicicleta. No dia 3 de outubro de 2020, em plena pandemia, saiu para pedalar. Marina já recuperara condição cardíaca, a vida parecia rolar de novo. Quando voltou, queixou-se de algum mal-estar, de falta de forças, dificuldade a respirar. Tomou um duche, e teve a ilusão de se sentir melhor, menos nauseado. Por isso mesmo, às investidas de Marina “para chamar o INEM ou levá-lo ao hospital”, respondeu sempre que que não era preciso. “Vou ver o jogo com os meninos”, disse-lhe, naquele fim de tarde, enquanto se sentavam os três no sofá da sala, a ver televisão. “Era um jogo do Porto”, recorda Tiago.

Na cozinha ao lado, Marina foi adiantando o jantar. Não demorou muito para que os dois gémeos lhe aparecessem “a chorar, que o pai não estava bem”. Marina correu à sala, e viu o marido caído no chão. “Foi um ataque cardíaco, só que no caso dele foi fulminante. Morreu nos meus braços”, diz Marina, certa de que quando chegou o socorro e ele entrou na ambulância, “já não havia nada a fazer”.

Desde então, a família acredita: “O pai é a nossa estrela, que está lá em cima a olhar por nós”. Marina recortou uma estrela numa cartolina brilhante, e colocou-a no quarto dos filhos, “para que sentissem sempre que o pai está com eles”. Paulo nunca fora diagnosticado com qualquer problema cardíaco.

A doente Marina Boavida “Depois de tudo o que passei, hoje sei que o stress mata”

No dia 22 de fevereiro de 2018, começou o dia no ginásio, como sempre fizera, com regularidade. Caminhava na passadeira quando começou a sentir-se indisposta, como se fosse vomitar. Num primeiro pensamento, ocorreu-lhe que poderia “ter apanhado alguma virose dos meninos”, então com cinco anos. À medida que caminhava mais rápido, mais nauseada ficava. Decidiu abandonar o treino, foi ao balneário mudar de roupa e, no trajeto até ao carro, começou a sentir também uma dor no peito. “Era uma dor agonizante, que ia do peito às costas.”

Ao entrar em casa, começa a sentir também falta de ar. E a assimilar que lhe estava a acontecer alguma coisa. Ligou ao marido. Perante a descrição, ele sugere-lhe que ligue ao 112. Os sintomas agravavam-se, Marina foi falando com uma enfermeira ao telefone, já em grandes dificuldades. Conseguiu abrir a porta de casa, como ela lhe indicara. Sentiu-se a desfalecer. Esses instantes são, ainda hoje, de uma névoa mental. “Só me lembro de vomitar.”

A equipa de socorro chegou e levou-a para o Hospital do Montijo. Os palpites dos bombeiros dividiam-se entre “um ataque cardíaco ou uma crise de ansiedade”. “Hoje percebo que os sintomas são exatamente os mesmos, porque depois disso já tive várias”, conta Marina Boavida. O pânico foi uma das sequelas que lhe ficou do enfarte agudo de miocárdio — que era afinal o responsável por tamanho mal-estar. Tem memória dos corredores da urgência, e da aflição de uma enfermeira: “Ajudem-me a levá-la para a sala de reanimação!”. “Nessa altura percebi que o meu coração estava a falhar”. Teve paragem cardíaca. “Fui reanimada, e foi, para mim, uma coisa traumatizante.”

Dali seria encaminhada para o Hospital de Setúbal. Guarda para sempre o semblante carregado dos médicos, anteviu que a sua situação “era mesmo grave”. O cardiologista Rui Caria foi o responsável pelo cateterismo [procedimento que permite observar as artérias coronárias, confirmar o diagnóstico e, se necessário, realizar a desobstrução das mesmas] , e depois explicou-lhe tudo ao detalhe. Ainda hoje a acompanha, agora no privado. Mais tarde, passou a ser acompanhada também no Hospital do Barreiro, percorrendo toda a Margem Sul para salvar o coração. Um dos médicos já acompanhara a mãe de Marina, que faleceu há muitos anos, vítima de enfarte, enquanto dormia. “O meu pai, também tinha problemas de coração. Isto é uma herança genética, afinal”, conclui, embora até então desconhecida.

Marina diz que não tinha fatores de risco. Sempre foi regrada com a alimentação e com o exercício físico, as análises nunca detetaram colesterol, a tensão arterial era tendencialmente baixa. “A única coisa era o stress. Mais nada”. “Depois de tudo o que passei, e de todas as perdas que já tive, digo a toda a gente que tenham cuidado com o stress. Porque o stress mata.”

Marina esteve internada quase dois meses, primeiro na Unidade de Cuidados Intensivos, depois nos intermédios, do Hospital do Barreiro. “O meu coração estava tão debilitado que o simples transporte de sair de uma cama com uma cadeira de rodas e de uma cadeira de rodas para uma maca… deixava-me exausta.”

Quando voltou para casa, não conseguia percorrer três metros sem parar. Era difícil levantar-se, tomar banho, fazer qualquer esforço. Depois do enfarte, ganhou medos que nunca tivera: andar de carro ou ficar sozinha eram motivos para desencadear um ataque de pânico, uma crise de ansiedade. Quando fechava os olhos via-se ligada a várias máquinas, como naqueles dois meses de internamento hospitalar.

Foi o marido o seu braço direito, esquerdo, a sua retaguarda, até ao dia em que o coração dele (também) o traiu.

Quando sofreu o enfarte, Marina já era proprietária de uma escola de condução, e preparava-se para abrir a segunda. Sempre fora instrutora de condução. No início deste ano, vendeu o negócio. Dedica-se agora à legalização de viaturas, uma forma que arranjou para ter “uma vida mais calma”.

Antes de sair, temos três perguntas relacionadas com o artigo que acabou de ler. É um mini-questionário muito rápido e totalmente anónimo.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.

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