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A sala do Conselho de Estado, um espaço cuja função era desconhecia até muito recentemente
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▲A sala do Conselho de Estado, um espaço cuja função era desconhecia até muito recentemente

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

▲A sala do Conselho de Estado, um espaço cuja função era desconhecia até muito recentemente

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Desvendado o enigma com 200 anos da Sala dos Árabes do Palácio de Sintra. Mas ainda há outros mistérios na capela e ala das rainhas

Uma investigação realizada pela equipa do Palácio Nacional de Sintra permitiu desvendar a utilização original de três espaços. Mas há ainda mistérios por revelar no mais antigo palácio em Portugal.

No Palácio Nacional de Sintra, junto ao pátio central, existem duas salas interligadas cuja função original se desconhecia. A primeira, de formato quadrangular e ricamente decorada com azulejos, recebeu, no século XIX, o nome de “Sala dos Árabes”. Apesar de ser fruto de uma campanha de obras realizada por D. Manuel I (1495-1521), um dos ilustres habitantes do Palácio de Sintra, o espaço foi assim batizado por causa das supostas referências árabes que contém, os azulejos e a fonte ao centro. A segunda, contígua à “Sala dos Árabes”, teve várias funcionalidades ao longo dos séculos. No início do século XX, foi transformada em sala de jantar por D. Maria Pia (1847-1911), a última habitante do palácio. Em 2016, foi batizada como “Sala do Leito de Aparato”, após ter sido escolhida para a instalação de um leito de aparato do século XVII, que pertenceu aos Duques de Cadaval e que foi adquirido nesse ano pela Parques de Sintra. Só recentemente, após um longo trabalho de investigação realizado pela equipa do palácio, é que foi possível perceber qual o papel que os dois espaços desempenhavam no período tardo-medieval e moderno: o primeiro funcionava como antecâmara da Sala do Conselho de Estado, o espaço seguinte, onde os conselheiros reais se reuniam quando o monarca estava em Sintra. No âmbito da mesma pesquisa, foi também descoberto que a sala estreita, com vista para a serra, que se segue ao Camarim, era uma galeria, um espaço de passeio que podia ser utilizado para instruir os jovens príncipes.

As descobertas vieram mudar radicalmente a visão que se tinha destes três espaços que, à semelhança do restante palácio, funcionavam sobretudo como local de exposição de objetos de mobiliário e decoração, em resultado da reforma museológica que ocorreu entre os anos 30 e 40 do século passado. Permitiram também à equipa do Palácio Nacional de Sintra começar a trabalhar numa nova museografia, que pretende aproximar os visitantes das funções originais do paço, um espaço habitado e vivo no seu tempo, que nada tem a ver com o museu em que foi transformado na primeira metade do século XX. É uma tarefa que só agora começou. Existem outras divisões que permanecem um mistério. “Vamos ter trabalho até ao final da vida”, comentou, entre risos, Bruno A. Martinho, investigador, conservador e responsável pela coordenação do projeto de investigação que permitiu a identificação da Casa do Conselho de Estado e da galeria. A história do palácio está bem documentada a partir do século XIX, mas há muito que não se sabe sobre o que ali aconteceu nos séculos anteriores, o período-chave de desenvolvimento da estrutura palaciana.

“É sobretudo importante perceber o que aconteceu para trás, não só porque se tratam de mil anos de história, mas porque aquilo que está construído corresponde à estrutura típica dos palácios europeus do período medieval e moderno até ao século XVIII. Temos um palácio que foi sobretudo construído nos séculos XV a XVIII, mas tínhamos muito pouca informação sobre o que aconteceu durante esse período e sobre estas salas”, disse Bruno A. Martinho, que acompanhou o Observador numa visita aos locais estudados. “O que fizemos nos últimos dois anos foi tentar aproximar a exposição desse período-chave da história do palácio, que vai desde o final do período medieval até ao fim do antigo regime”, quando foi instituída a monarquia constitucional em Portugal e o rei deixou de reunir em si todos os poderes políticos.

▲ A entrada para a Sala do Conselho de Estado, onde os conselheiros se reuniam quando o rei se encontrava em Sintra

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Um espaço vivo com gente dentro

O novo projeto museográfico do Palácio Nacional de Sintra começou a ser desenvolvido em 2020. A pandemia veio alterar os planos da equipa. “Estávamos a pensar em algo mais a longo prazo. [A Covid-19] acabou por se revelar uma oportunidade para nos sentarmos e pensarmos sobre o que é a experiência de visita ao palácio. Tivemos tempo para olhar para tudo com mais calma.” Um exercício que não era realizado desde a primeira metade do século XX, quando a antiga exposição foi desenhada. “Nos últimos 80 anos, tinham aberto algumas salas, mudado algumas peças, mas não tinha havido uma reflexão sobre a história que queríamos contar”, disse Bruno A. Martinho, destacando que o anterior percurso expositivo “era algo que tinha sido pensado para a narrativa do Estado Novo, com móveis muito pesados e muito focado nas artes decorativas”, que procurava ligar o palácio ao período da exploração marítima e que ignorava o facto de ter sido, em tempos, “um espaço que era vivido pelas pessoas”. “O que quisemos fazer com esta transformação foi mostrar que o palácio tem mil anos de história. O documento mais antigo é do século XIII, mas conseguimos recuperar algumas informações do período islâmico.”

Segundo o curador, a alteração mais óbvia foi a mudança da sinalética do palácio, marcando dez núcleos que correspondem a dez temas: Tempo, Espaço, Poder, Memória, Identidade, Autoridade, Religião, Reconstrução, Alimentação e Política. “O palácio é muito complicado, o percurso é muito intrincado. São salas atrás de salas e não se percebia bem como é que se organizava, então criámos esta estrutura por núcleos.” Construído ao longo de vários anos e reinados, o Palácio Nacional de Sintra é como um bairro antigo, com ruelas estreitas, pátios e escadarias íngremes. Sem um mapa, é difícil encontrar a saída. “Cada núcleo trabalha um tema diferente, abarcando todo o período da história do palácio, que são estes mil anos. Dentro de cada um, focamos mais um período ou outro”, continuou Bruno A. Martinho. Por exemplo, o terceiro núcleo, dedicado ao Poder, abarca os espaços que foram construídos no tempo de D. João I (1357-1433) e algumas das áreas mais antigas do palácio; o décimo e último, Política, que inclui a “Sala Manuelina”, do tempo de D. Manuel mas profundamente alterada durante o Estado Novo, e os aposentos de D. Maria Pia, dá destaque ao período que vai do século XIX até ao fim da monarquia.

A nova organização foi inaugurada no verão de 2020. Desde então, a equipa tem trabalhado na adaptação dos espaços aos diferentes temas. “Começámos por alterar o Camarim, que é um espaço de Poder, depois alterámos o núcleo da Memória, e agora estamos a trabalhar o núcleo verde, que é o da Justiça”, disse o curador. Relativamente ao primeiro, as alterações passaram sobretudo pelo esvaziamento das várias salas, aproximando-as o mais possível da disposição original. “No final do período medieval e no período moderno, as divisões da casa não estavam pensadas como estão desde o século XIX. Hoje organizamos a nossa casa de acordo com as necessidades físicas. Temos um quarto de dormir, uma sala de jantar e uma sala de estar para vermos televisão. Isso não acontecia até ao século XVIII. As salas serviam para filtrar a sociedade”, explicou Bruno A. Martinho. “[A ‘Sala dos Cisnes’] tinha uma estrutura muito fechada e o que quisemos fazer foi libertar o espaço. Tirámos todos os móveis, que tinham vindo para aqui na campanha de 1938-1940 e que não tinham qualquer relação com o palácio, e procurámos mostrar que é a Sala Grande, que servia para tudo”, desde receções a funerais. O mesmo aconteceu com a Antecâmara, que fica entre a Sala Grande, a primeira do paço de D. João I, e a Câmara, onde ficava a cama do monarca. No período tardo-medieval e moderno, o espaço servia principalmente para audiências régias e tinha, por essa razão, um mobiliário “muito elementar, com um estrado com um tapete e uma cadeira, porque mais ninguém se sentava [a não ser o rei], e um dossel que cobria o monarca” e que “delimitava o espaço de majestade”.

“No século XIX, quando a estrutura já não existia e o poder deixou de estar no palácio e passou para o Parlamento [em Lisboa], as audiências régias deixaram de se fazer e decidiu-se transformar o espaço em sala de jantar. Colocou-se a lareira, mas ainda é possível ver os azulejos que desenham na parede o local onde estaria a cadeira com o dossel.” Alguns visitantes que conheciam a sala antes da alteração lamentaram que estivesse agora tão vazia. “Temos de imaginar esta sala cheia de pessoas”, disse o curador. “Era para isso que estes espaços serviam — para acolher pessoas. Alguns cortesãos vinham para a audiência, mas havia outros que tinham direito de acesso à sala”, conhecida como “Sala das Pegas”, por causa da decoração do teto, o mais antigo do Palácio de Sintra. “Há muitas teorias sobre o porquê das pegas. A fita que os pássaros têm no bico diz ‘Por Bem’, a divisa de D. João I, o primeiro rei da dinastia de Avis, que construiu tudo isto. Pensamos que o ‘Por Bem’ esteja na sala porque era um espaço para audiências e o rei tinha de tomar decisões. Todas as decisões que tomava, eram ‘por bem’ do seu reino.”

▲ A "Sala das Pegas" (em cima, à esquerda), com a lareira que lhe foi acrescentada no século XIX, o Camarim e a Câmara (em baixo, à direita), com a cama do rei

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Depois da Câmara, que tem uma cama datada da primeira metade do século XVII, existe a Guarda-Roupa, um espaço conhecido como “Sala das Sereias”, porque o teto se encontra decorado com vários desses seres mitológicos. “A Guarda-Roupa era uma instituição. Não servia apenas para guardar roupa, mas para guardar todos os tesouros da casa nobre, desde a prata da mesa aos enxovais, passando pelas porcelanas chinesas”, afirmou Bruno A. Martinho, esclarecendo que, para o novo projeto, foi feita uma seleção das melhores peças do palácio, que foram colocadas sobre arcas, porque os objetos eram geralmente guardados nessas grandes caixas. Mas o maior investimento foi talvez feito no Camarim, uma sala que antes não tinha leitura e que se chamava “Sala de Júlio César”, por causa de uma tapeçaria que representava o líder romano. O Camarim era uma extensão da Guarda-Roupa, mas onde os objetos apareciam expostos para serem desfrutados. Era o lugar para onde o rei se podia retirar para ler, estudar ou rezar.

Recuperar as memórias perdidas

A seguir ao Camarim, que atualmente se encontra ricamente decorado, existe um espaço mais estreito e alongado, com uma varanda virada para a serra, que inaugura o núcleo da Memória. O nome não guarda nenhum segredo — quando a equipa começou a trabalhar na nova museografia, não tinha qualquer referência sobre a utilização original do espaço. “Então chamamos-lhe memória, porque não tínhamos memória nenhuma”, afirmou Bruno A. Martinho, entre risos. Após alguma investigação, foi possível perceber, pela arquitetura da sala, que se tratava de uma galeria, um espaço que existe na maioria dos palácios da Europa. “As galerias são espaços para passear, sobretudo se estiver mau tempo, mas que permitiam a aprendizagem do príncipe. Os mestres circulavam com o príncipe, não era uma aprendizagem sentada, mas através do diálogo”, explicou o curador e investigador. “Havia uma conversação constante, e temos conhecimento disso para o período de D. Sebastião, o século XVI. Existem livros escritos em forma de diálogo porque se considerava que era uma forma de aprendizagem.”

Apesar de o “mistério” da utilização da sala ter sido desvendado, a equipa do Palácio de Sintra decidiu manter o tema da Memória, “para mostrar o que acontece quando se perde a memória sobre o edifício — criam-se histórias”. “Este palácio ficou muito associado a uma memória islâmica. Sempre se olhou para ele como o palácio dos mouros, apesar de não termos qualquer documento que o ateste, apenas interpretação. Mas havia essa memória muçulmana e, como o teto tem galés otomanas, acabou por se trazer para a sala, nos anos 40 e 50, tudo o que parecia muçulmano ou que era uma mistura de culturas.” Os curadores optaram por fazer essa referência através de uma coleção de pratos hispano-mouriscos, produzidos em Valença, que estavam no Palácio Nacional da Pena, e de um conjunto de azulejos descobertos em escavações arqueológicas na área do palácio. “Além de ser o único palácio em Portugal anterior ao século XVIII, é também um dos primeiros a utilizar o azulejo em massa. Temos azulejos em todas as salas e temos em reserva uma série de azulejos que não estão hoje aplicados que mostram a diversidade de padrões que tornam este espaço tão único.”

A única dúvida que os investigadores não conseguiram esclarecer foi o porquê de o teto da sala, inaugurada com a nova disposição em dezembro de 2021, ter sido decorado com galés portuguesas e otomanas. “Ainda não percebemos o que aqui está representado”, admitiu Bruno A. Martinho. “O palácio tornou-se um lugar de memória de duas coisas: por um lado, do passado islâmico de Portugal e, por outro, da nobreza portuguesa, isto muito por causa da Sala dos Brasões, que é a sala mais emblemática do palácio”, que corresponde a um só núcleo: Identidade. “Depois da Memória, vem a Identidade”, comentou o investigador, acrescentando que a Sala dos Brasões foi “um projeto muito pessoal de D. Manuel”. O rei, cujo brasão ocupa todo o espaço central do teto, fez-se representar como “lugar-tenente de Cristo na Terra, responsável pela justiça e ordem social”. Por baixo do brasão, encontram-se identificados os seus filhos e um conjunto de veados, “o símbolo de Cristo”. Nas faixas brancas que os rodeiam, podia ler-se em tempos a divisa de D. Duarte, avó de D. Manuel. A finalizar, estão os brasões das 72 famílias nobres mais importantes do século XVI, que aparecem representadas pelos seus “leais serviços”.

▲ A Sala dos Brasões, mandada construir por D. Manuel I, é o espaço mais emblemático do Palácio Nacional de Sintra

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“Foram os serviços que estas casas nobres prestavam à monarquia que as tornaram dignas de serem aqui representadas e da sua memória ser perpetuada”, disse ainda Bruno A. Martinho. “D. Manuel, não sendo filho de rei [era o filho mais novo do Duque de Viseu, irmão de D. Afonso V e filho de D. Duarte], sentia quase uma necessidade de mostrar que havia um projeto para a sociedade e para a monarquia portuguesas, que tinha sempre o rei no topo. Convidamos os visitantes a pensar o que define a nossa identidade, porque a identidade destes nobres não é pessoal, mas da dinastia nobiliárquica. Vasco da Gama, que está representado pelos Gama, é o único que não era nobre. Ele foi nobilitado por ter chegado à Índia e isso tornou-o merecedor de estar aqui representado. Mas é uma representação dos Gama, de toda a família.”

A efémera Casa do Conselho de Estado

A 10 de outubro deste ano, abriu no Palácio Nacional de Sintra a Casa do Conselho de Estado, cuja localização foi descoberta após uma investigação de dois anos junto de fontes guardadas no arquivo do edifício e de comparação com outros exemplos europeus, nomeadamente em Espanha. A sala onde se reunia o Conselho de Estado e, antes dele, os tribunais superiores do reino, é antecedida por uma antecâmara conhecida como “Sala dos Árabes” por causa das supostas referências árabes. Também a sua função permanecia, até agora, por conhecer.

A “Sala dos Árabes” foi sempre “uma sala-chave no palácio”. Um espaço quadrado e amplo, encontra-se forrada quase até ao teto com azulejos azuis, verdes e brancos, que formam um padrão tridimensional; no centro, existe uma fonte que se encontra inserida num quadrado de peças de cerâmica de várias cores. A bacia em mármore branco é rematada por um conjunto escultórico em dourado, de uma época posterior, com figuras marinhas. Tanto os azulejos como a fonte datam do início do século XVI, de uma campanha de obras levada a cabo por D. Manuel I, que fez várias alterações ao edifício. O que os investigadores do Palácio Nacional de Sintra não sabiam era a funcionalidade da sala quadrada e da câmara contígua, que se perdeu no tempo, tal como a função de muitos outros espaços.

A fonte interior é uma peça única em Portugal. Existe uma semelhante nos Alcáceres Reais de Sevilha, um palácio parecido com o de Sintra, mas de data anterior, porque se encontra também revestido a azulejo e tem um passado islâmico. A sala em Sevilha onde se encontra a fonte chama-se Sala de Justiça, um dado que foi cruzado com informações recolhidas de um documento que se encontra guardado no arquivo do Palácio de Sintra, o Livro das Cousas Ocultas. O livro começou a ser produzido no final do XVII e é, portanto, anterior ao Terramoto de 1755, que provocou danos substanciais no edifício. Foi encomendado pelo almoxarife, responsável pelo palácio. Tem informações sobre “tudo o que está oculto”, ou seja, sobre a estrutura interna do palácio, desde o travejamento em madeira ao telhado, passando pelos canos, com as respetivas medidas. A obra faz referência à Casa do Conselho e Casa da Mó, duas salas cuja localização se desconhecia. “A mó é uma pedra redonda, então percebemos que a pedra redonda [era a da “Sala dos Árabes]. Chamaram-lhe Casa da Mó como depois lhe chamaram Sala dos Árabes”, disse o investigador, acrescentando que a equipa conseguiu perceber, através do cruzamento de várias informações, que a Casa da Mó “estava conectada com a Casa do Concelho” e que eram espaços “dedicados ao exercício da Justiça”.

▲ A chamada "Sala dos Árabes", recentemente identificada como a sala de espera do Conselho de Estado, forrada a azulejos e com uma fonte no meio

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“Isso existe em quase todos os palácios europeus tardo-medievais e modernos, porque o rei se deslocava e os tribunais do reino deslocavam-se com ele. Em Portugal, o tribunal superior do reino era a Casa da Suplicação, que existia desde o século XV. D. Manuel disse que, no paço, tinha sempre de existir uma sala para que os juízes da Casa da Suplicação se pudessem reunir. Temos os regimentos, os regulamentos de como funcionavam as reuniões do tribunal, e sabemos que, normalmente, havia uma antecâmara associada. O acesso era controlado pelo porteiro enquanto os juízes decidiam. O espaço de fora era um espaço a que podiam aceder os advogados.”

A “Sala dos Árabes” tem, ainda hoje, uma porta de acesso ao pátio central, pela qual os advogados podiam entrar sem terem de passar pelo resto do palácio. Do lado esquerdo, existe um corredor de acesso ao aposento do rei e, do lado direito, ao da rainha, que podiam assim aceder facilmente à Sala do Conselho caso quisessem assistir às reuniões, “porque havia sempre um espaço reservado para o rei ou para o rei e a rainha”. Uma quarta porta dá acesso ao pátio da capela. “Sabemos que os juízes, antes de se reunirem, tinham de ouvir uma missa dedicada ao Espírito Santo. A nossa capela é dedicada ao Espírito Santo.” Não se sabe ao certo porque é que a antecâmara tinha uma fonte, mas acredita-se que a sala funcionava “um pouco como Passos Perdidos [sala de espera]. Enquanto a decisão estava a ser tomada, as pessoas tinham de esperar aqui. A água tem uma dupla função: por um lado, cria ruído que impede que se oiça o que está a ser decidido lá dentro e, por outro, tem um efeito bastante tranquilizador. Este palácio é um lugar onde a água está constantemente presente precisamente por causa dessa função relaxante. Há outros palácios, sobretudo dentro do mundo muçulmano, que têm fontes no interior associadas a espaços de conversação.”

Em comparação com a chamada “Sala dos Árabes”, a Sala do Conselho de Estado é relativamente simples. O teto é abobadado e as paredes são atualmente brancas e sem qualquer elemento decorativo. Bruno A. Martinho disse ao Observador que isso tem também uma explicação — a efemeridade da presença dos juízes e conselheiros no Palácio de Sintra. O Paço de Sintra era, sobretudo, uma residência de verão. Quando o calor na capital se tornava insuportável, o rei e a sua corte mudavam-se para a vila, onde o clima é mais fresco e a caça abundante. A Casa da Suplicação mudava-se de Lisboa com eles. Com o seu estabelecimento definitivo na capital durante o século XVI, o monarca começou a fazer-se acompanhar apenas dos seus conselheiros, que constituíam o Conselho de Estado, uma instituição que funcionava de forma autónoma.

Antes de cada reunião, cabia ao porteiro preparar a sala. “Temos o regulamento para o porteiro, que diz que a primeira coisa que tinha de fazer de manhã era garantir que a mesa estava no sítio, tinha de levar as cadeiras, o material de escrita, a campainha para o presidente poder chamá-lo quando um advogado precisava de entrar e colocar os têxteis.” Os tecidos eram um apontamento fundamental na construção e decoração de um espaço. Existem registos do século XVI a XVIII que mostram que “a criação de ambientes interiores era conseguida, não por pintura mural ou de azulejo, mas com um jogo de tecidos, que criava uma arquitetura efémera”. “Perdemos muito [a noção da importância dos têxteis], porque são um material muito efémero e deterioram-se muito facilmente”, apontou Bruno A. Martinho, destacando que o palácio tem muito pouco material têxtil original, “sobretudo de uso civil”, do século XVII. Mas tem na sua coleção um conjunto de panos, de dois tipos diferentes de tecido, comprados nos anos 40, que foram expostos na sala no interior de uma vitrina para ilustrar como diferentes texturas e padrões eram conjugados para criar um espaço luxuoso, mas que facilmente podia ser desmontado e transferido para outro lugar, acompanhando a corte no sua itinerância. “Muitas vezes vemos os palácios vazios, mas não era assim que eles seriam utilizados. Tinham esta riqueza conseguida pelos têxteis”, destacou.

▲ Através da construção de uma espécie de redoma em tecido, procurou aproximar-se a Sala do Conselho de Estado da sua aparência original

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

As mudanças obrigaram à transferência do leito de aparato, que se encontrava exposto na Sala do Conselho de Estado, para outra divisão do palácio. A sala que o recebeu “não tinha leitura e estava a servir de depósito”. O leito, em pau preto de Moçambique revestido a prata, é um dos “objeto-estrela” da coleção, juntamente com a tapeçaria de D. Manuel I, que será exposta em breve, e o globo celeste de 1575, que se encontra no Camarim. É o único do género em Portugal e, apesar de ter pertencido aos Duques de Cadaval, permite ao palácio contar a história da morte de D. Afonso VI, cujo corpo foi exposto na “Sala dos Cisnes” numa cama de prata.

Recentemente, foi desvendado outro “mistério” do Palácio Nacional de Sintra. Ao fundo da cozinha, do lado direito de quem entra, existe uma pequena divisão, com o tamanho de uma despensa, com uma janela virada para o corredor exterior que liga o terreiro à zona por detrás do palácio. Até muito recentemente, a equipa desconhecia qual a função da divisão. Foi um investigador alemão especialistas em cozinhas tardo-medievais, que esteve em Sintra no âmbito de um projeto europeu em que o palácio está envolvido, que, cruzando referências de outros palácios na Europa com a arquitetura do edifício português, conseguiu mostrar que a divisão era o local destinado ao escrivão da cozinha.

“O escrivão da cozinha tinha um papel absolutamente fundamental, porque era quem registava tudo o que entrava ou saía da cozinha”, explicou Bruno A. Martinho, apontando que o responsável podia controlar a partir da janela a entrada de mantimentos pelo corredor exterior. Estes entravam na cozinha através de uma porta de acesso ao exterior que se encontra imediatamente ao lado da zona do escrivão. “Tudo o que entrava e saía tinha de ser registado”, afirmou o especialista. “A cozinha não eram apenas os cozinheiros. Tinha uma estrutura, também. Havia o escrivão, o cozinheiro-mor e os outros cozinheiros, as mulheres que tratavam de todos os trabalhos sujos, como depenar as aves…”

O espaço não era apenas um local de trabalho, era também a zona de descanso dos trabalhadores. “À noite, puxavam os colchões e dormiam aqui, naquela que era provavelmente a zona mais quente da casa”, esclareceu Bruno A. Martinho. “Perdemos um pouco esta dimensão humana, e isso é uma preocupação. Falta-nos uma dimensão mais humana, aproximar o espaço do que seria a experiência sensorial até ao século XIX. Não era nada do que vemos hoje.”

Esse é um dos aspetos que a nova museografia do palácio pretende abordar. “O que aqui existia era uma espécie de sala de exposições de mobiliário, pintura e tudo mais. Não queremos nada disso. Queremos explicar o que era o palácio, sobretudo até ao século XVIII”, explicou Bruno A. Martinho, acrescentando que a parte dedicada ao século XIX, no local dos antigos aposentos da rainha D. Maria Pia, mulher de D. Luís, que habitou o palácio até ao fim da monarquia, será mantida. “Queremos chegar a todas as camadas e explicar como é que o palácio funcionava, porque é que estes espaços foram pensados desta maneira. Para isso, utilizamos os objetos que temos na coleção, que nos ajudam a contar a história, a dar sentido ao espaço e a recuperar esta dimensão de uma sociedade que já não existe e que é completamente diferente da nossa. Também temos vindo a explorar a questão sensorial porque, quando entramos como visitantes num espaço, podemos contar a sua história, mas o impacto não tem nada a ver com a dimensão original.” Foi por isso que, na sala do Conselho de Estado, se optou por construir uma “espécie de redoma” em tecido, que cria “alguma intimidade” e uma sensação de “sumptuosidade”, que pretende aproximar o visitante daquela que seria a experiência sensorial original.

▲ A nova sala do leito do aparato, com a cama do século XVII que pertenceu aos Duques de Cadaval, adquirida pelos Parques de Sintra em 2016

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Às vezes pensa-se que um palácio era uma casa completamente vazia, que estava fechada. Talvez alguns espaços tivessem fechados, mas o palácio tinha outras funções, como hoje. O palácio já não é habitado como era no século XIX ou no início do século XX, mas continua a funcionar. Há espaços dedicados a gabinetes, reserva de coleção… Há uma série de funções associadas ao palácio, que está em constante transformação.” No futuro, será mais uma “camada” a acrescentar à sua história, de mais de mil anos.

Mistérios ainda por desvendar

A investigação realizada pela equipa do Palácio Nacional de Sintra nos últimos dois anos permitiu desvendar alguns dos mistérios do edifício milenar, mas existem muitos outros ainda para revelar. Uma das alas que ainda carece de estudo é o piso das rainhas e mulheres, cuja localização exata, no segundo andar do palácio, só foi recentemente identificada. A ironia é que Sintra, à semelhança de Óbidos, Torres Novas, Torres Vedras, Alvaiázere e Alenquer, sempre foi propriedade das rainhas. Desde o reinado de D. Dinis que as mulheres dos reis portugueses recebiam, por altura do seu casamento, o controlo destas vilas, que serviam para sustentar a Casa das Rainhas, o conjunto de palácio, propriedades, rendas e pessoas à guarda da rainha. Para Bruno A. Martinho, o facto de se saber tão pouco sobre a vivência das rainhas e mulheres no Palácio de Sintra é “sintoma da importância que sempre deram às rainhas em Portugal. O foco sempre foi o rei. A Casa das Rainhas está muito ignorada e queremos dar-lhe um grande fôlego, mas precisamos de mais investigação”, admitiu. Esta foi interrompida pela pandemia, mas a equipa espera dar-lhe continuidade já no próximo ano.

Apesar de faltar ainda um estudo mais aprofundado, algo que parece óbvio aos investigadores é o porquê da localização da Casa das Rainhas dentro do palácio. “As mulheres estavam sempre na zona mais interior, mais alta e de mais difícil acesso e também de maior controlo. As rainhas eram senhoras disto tudo; o rei não entrava em Sintra sem autorização das rainhas. O território pertencia-lhes, tinham os direitos fiscais, eram elas que faziam a justiça mas, dentro do palácio, eram completamente controladas. É essa circunstância que levou, no século XVII, a transformar o piso no espaço da prisão do rei D. Afonso VI”, explicou o curador. “Quando foi afastado do poder e encarcerado pelo futuro D. Pedro II, foi colocado nos espaços da rainha. Pensa-se que, durante esse período, a corte terá deixado de vir para Sintra. Depois da morte de D. Afonso VI, houve um investimento de recuperação e ainda não percebemos exatamente o que é que foi feito no final do século XVII. No século XIX, esta zona deixou de ser usada.”

Outro projeto que deverá avançar em breve é o do restauro da Capela do Espírito Santo. A capela “tem um dos tetos mais espetaculares em Portugal, um teto mudéjar, um estilo das elites ibéricas do final do século XV que alia a tradição muçulmana a espaços cristãos”. “Sabemos que é do período de D. Afonso V pela forma como o brasão está representado e temos referências às obras também. A capela foi muito alterada ao longo dos séculos XVIII e XIX e, nos anos 30 e 40, uma vez mais na grande campanha que atravessou todo o palácio, foi removida toda a decoração do século XVIII. Encontraram-se fragmentos, do lado esquerdo do altar lateral e também atrás do altar mor, com a decoração do século XV e pintaram toda a capela a partir desses fragmentos. Não sabemos exatamente se seria toda assim, mas é possível que sim. Enfim, hoje já é mais uma camada histórica do palácio para integrar”, disse o curador.

▲ A Capela do Espírito Santo esconde um dos maiores mistérios do Palácio Nacional de Sintra: a pintura do altar que representa um edifício semelhante a um palácio

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

A intrincada decoração do teto e das paredes contrasta com a simplicidade do altar, com uma pintura mural de um edifício semelhante a um palácio e uma enorme cruz em madeira. O desenho é um dos enigmas do Palácio de Sintra — não se sabe quando, porquê ou por quem foi executado. Bruno A. Martinho explicou que existem informações relativas ao retábulo original, que foi encomendado no século XV por D. Afonso V a Nuno Gonçalves, autor dos Painéis de S. Vicente de Fora, “uma das grandes obras-primas da pintura portuguesa”. “Não sabemos o que aconteceu a esse retábulo. Sabemos que no final do século XVI, mais ou menos 100 anos depois, decidiram atualizar a pintura. Foi encomendado outro retábulo com uma dedicatória ao Espírito Santo. Esse também desapareceu. Não sabemos o que é que aconteceu. E chegou-nos aquela pintura mural, um bocado estranha, que não sei o que é…”, disse, entre risos. “Ainda há muita coisa que não sabemos.”

Para já, foram desvendados aqueles que eram talvez “os mistérios mais graves”: o local dos aposentos da rainha, a sala do Conselho e a finalidade da “Galeria das Galés”. “Diria que são os núcleos mais importantes que conseguimos identificar. Conseguimos identificar para que é que estes espaços serviam no momento em que foram construídos, porque nem isso sabíamos. Agora faltam alguns detalhes.” Esses passam por perceber melhor como é que o palácio funcionava, nomeadamente quando o rei não se encontrava em Sintra. “O rei vinha uma vez por ano, mas o palácio estava constantemente habitado, por funcionários, pelo almoxarife, que era quem tratava do palácio”, disse Bruno A. Martinho. “Quem eram essas pessoas? O que é que faziam aqui no dia a dia? É isso também que estamos a tentar perceber.”

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