Luís Marques Mendes foi alvo de uma denúncia, enviada para a Procuradoria-Geral da República e para a Autoridade Tributária, que alega que o ex-líder do PSD recebeu centenas de milhares de euros de uma construtora de Famalicão sem qualquer contrato e sem que os serviços tenham sido efetivamente prestados. O candidato presidencial da AD disse inicialmente ao Observador que o primeiro desses contratos, com a Alberto Couto Alves, foi celebrado “de forma verbal”, mas, numa segunda resposta, eliminou essa referência e limitou-se a dizer: “O primeiro contrato de prestação de serviços foi celebrado comigo em janeiro de 2010, tendo cessado em 2015”. Na denúncia apresentada consta a versão por escrito desse contrato.

Marques Mendes garante ao Observador que “a afirmação de ter recebido valores sem contrato é falsa e completamente desprovida de sentido.” Questionada pelo Observador sobre a abertura de uma averiguação preventiva ou inquérito ao candidato, a PGR diz que “não confirma, nem infirma” uma investigação em curso ao candidato. Já a construtora, que pagou a Mendes, não respondeu às questões enviadas pelo Observador.

Construtora pagou 360 mil euros em seis anos a Mendes e contratou secretária

Sobre a relação com a Alberto Couto Alves, Marques Mendes diz que esse primeiro contrato, celebrado em nome próprio, foi “cessado em 2015”, ano em que “foi celebrado um novo contrato com a LS2MM, Lda” — a empresa familiar da qual foi sócio até à dissolução há poucas semanas, em novembro de 2025. O candidato lembra que, “nesse período temporal”, não tinha “qualquer atividade política ou partidária, nem qualquer cargo público“, e que se limitava a “trabalhar, como qualquer outro cidadão, no espaço das minhas competências.” Diz ainda que “os serviços foram prestados no âmbito do sector empresarial privado — sem qualquer ligação ao Estado português ou a qualquer outro ou a empresas públicas –, visando a consultoria no âmbito da internacionalização do Grupo de Empresas da Alberto Couto Alves, SGPS”.

Esta segunda resposta do candidato ao Observador coincide com o contrato — ao qual o Observador teve acesso e que consta da denúncia enviada para a PGR e a AT — que diz que a Alberto Couto Alves e Luís Marques Mendes celebraram no dia 4 de janeiro de 2010 um contrato válido por cinco anos para “serviços de consultoria”, num valor que ascenderia, ao longo de cinco anos, a 300 mil euros mais IVA.

Quanto ao contrato celebrado a 2 de janeiro de 2015, nesse caso já com a empresa LS2MM, teve como objeto “serviços de consultoria à internacionalização” — previa um valor de 60 mil euros mais IVA, com a duração de um ano — e foi assinada pela outra gerente da empresa familiar, a mulher de Marques Mendes, Sofia.  Esse contrato, embora fosse renovável, terminou um ano depois, como o próprio Mendes esclarece ao Observador: “A colaboração com a Alberto Couto Alves, SGPS cessou há cerca de 10 anos, concretamente em janeiro de 2016.” Os dois contratos somaram, com IVA, custos de 442 800 euros para os cofres da empresa de construção civil.

O candidato reforça, após as questões enviadas pelo Observador, que “não existiu qualquer irregularidade ou ilegalidade, seja de que natureza for, salientando que, quer na esfera pessoal, quer na esfera societária, todos os impostos foram liquidados e pagos, em devido tempo.”

A denúncia enviada para a PGR diz ainda que a construtora de Braga também assinou um contrato com a secretária de Marques Mendes, Francisca Abreu Lima. O contrato, a que o Observador teve acesso, mostra que o valor em causa corresponde a 12 mil euros anuais (mais IVA) para “serviços de secretariado, particularmente no que se refere à realização de reuniões e tratamento de documentação na área de Lisboa”. Apesar de ter sido assinado exatamente no mesmo dia do de Luís Marques Mendes com a empresa (4 de janeiro de 2010), o candidato nega ao Observador qualquer relação com este contrato: “Quanto ao contrato celebrado com Maria Francisca Abreu Lima tratar-se-á de matéria do âmbito da relação entre a referida senhora e a empresa, à qual sou inteiramente alheio e na qual não me pretendo imiscuir.”

Francisca Abreu Lima foi secretária pessoal de Marques Mendes ao longo de vários anos, incluindo quando este era ministro adjunto de Cavaco Silva. Ao 24 Horas confirmou que ainda era secretária de Marques Mendes nos anos em que foi avençada da empresa Alberto Couto Alves.

PGR “não confirma nem infirma” investigação a Mendes

Questionada pelo Observador se decorria algum inquérito ou averiguação preventiva a Marques Mendes, fonte oficial da PGR diz que o Ministério Público “perante denúncias recebidas ou factos que, por diversos meios, chegam ao seu conhecimento, procede nos termos da lei à respetiva análise e desenvolve todas as diligências que considera pertinentes ou adequadas”. Ainda assim, especificamente sobre se foi aberta uma investigação a Mendes (sob a forma de averiguação preventiva ou inquérito), a PGR “considera não ser de confirmar ou infirmar a receção de denúncias ou a abertura de qualquer procedimento de natureza penal ou preventivo.”

Em junho, em entrevista ao Observador, Amadeu Guerra já tinha anunciado que ia deixar de informar os jornalistas sobre investigações motivadas por este tipo de denúncias: “Vamos deixar de comunicar [a análise das denúncias anónimas]. Não queremos especulação. Queremos defender os cidadãos que são atacados. É óbvio que respeito a posição dos jornalistas, têm o seu trabalho e querem fazer a sua investigação. Vamos ver que resultados é que isto tem em termos de proteção dos cidadãos. O que queremos é isto: que não haja especulações na comunicação social relativamente a situações que nem sequer estão clarificadas, em que ainda estamos no início da investigação.”

A denúncia, à qual o Observador teve acesso, é sobre, precisamente, a vida empresarial de Marques Mendes — um tema que alguns adversários têm trazido para a campanha eleitoral. João Cotrim Figueiredo, por exemplo, tem lançado suspeitas sobre o candidato e já chegou a fazer um paralelismo entre este caso e o que envolveu o primeiro-ministro: “Penso que por altura da discussão das questões de censura que foi apresentada no parlamento a propósito do caso de Spinumviva, Marques Mendes exigiu que fossem feitos esclarecimentos que ele considerou essenciais, portanto, este caso tem todas as analogias e todos os paralelos”

Marques Mendes, na entrevista ao Observador, foi questionado sobre se estaria disponível para revelar os clientes da empresa familiar, ao que garantiu: “Sim, se for preciso, com certeza. Também não são muitos.” Acrescentaria que se for solicitado, o faria “com todo o gosto“, e que “por um lado era a SIC, por outro lado, meia dúzia de clientes onde fiz conferências”. Neste caso da Alberto Couto Alves não estão, naturalmente, em causa conferências. O Observador pediu, já depois da entrevista, o acesso a esses clientes, o que, até ao momento de saída deste artigo, não foi facultado pela candidatura. O candidato continua a dizer que o fará em breve.

Marques Mendes dissolveu empresa familiar há três semanas

A 9 de maio de 2014, Marques Mendes criou a LS2MM, LDA, inicialmente detida 50-50 entre ele e a mulher, ambos gerentes. Em dezembro desse ano, a quota de ambos passa a 90% (45% cada) e os restantes 10% ficam a cargo da Mistura Singular — Gestão de Empresas, Lda. Ao Tribunal Constitucional, em 2016, Mendes declara manter 49,5% na LS2Mm e 15% na Mistura Singular SGPS, Lda.

A 26 de dezembro de 2024, Luís Marques Mendes renuncia à gerência da empresa, o que aliás consta das declarações enviadas à Entidade da Transparência já em 2025 (a última foi em março). No dia seguinte a a ter abandonado a gerência, foram feitas alterações à sociedade: Marques Mendes e a mulher mantiveram 70% do capital (35% cada um) e os restantes 30% passaram para os filhos (10% para cada um dos três).

A 20 de novembro de 2025 a empresa acabaria liquidada. A última declaração entregue no Tribunal Constitucional Mendes declarou que, em 2024, teve rendimentos de 30.800 euros daquela empresa. No mesmo ano, o último ano fiscal fechado, Mendes recebeu 441.798 euros de trabalho independente, cerca de 5 mil euros de rendimentos prediais e 15.094 euros de pensões.

Ao longe de doze anos de atividade, de acordo com informações consultadas pelo Observador, a empresa familiar de Marques Mendes teve uma receita total de 1.485.197 euros, ou seja, uma média de 123.766 euros por ano. Desde a constituição da empresa, as faturações anuais foram as seguintes: 91.000 euros (2014); 171.700 euros (2015), 104.500 euros (2016), 152.497 euros (2017), 115.000 euros (2018), 150.000 euros (2019), 91.500 euros (2020), 96.500 euros (2021), 121.000 euros (2022), 106.000 euros (2023), 157.500 euros (2024) e 28.000 euros (2025).