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Na urgência do Hospital Garcia de Orta, em Almada, a área dedicada Covid-19 tem 16 divisões, oito das quais "são unidades individuais para macas"

MÁRIO CRUZ/LUSA

Na urgência do Hospital Garcia de Orta, em Almada, a área dedicada Covid-19 tem 16 divisões, oito das quais "são unidades individuais para macas"

MÁRIO CRUZ/LUSA

Doente teve de se deitar no chão por falta de espaço na área Covid do Hospital Garcia de Orta /premium

Área dedicada a doentes Covid no Garcia de Orta não tem espaço suficiente para todos se poderem deitar, caso precisem. Uma utente diz que teve de dormir no chão. Hospital nega ter dado essa indicação.

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A falta de espaço na área dedicada aos doentes suspeitos de Covid-19 do Hospital de Garcia de Orta, em Almada, não permite que todos os utentes que precisem de se deitar o possam fazer. De acordo com a unidade hospitalar, esta área tem 16 divisões, para manter os doentes e casos suspeitos isolados: há oito “unidades individuais para macas”, em que é dada prioridade aos doentes “de acordo com a gravidade clínica”, e as restantes têm cadeiras, “tal como aliás acontece nos restante serviços do hospital onde os utentes aguardam por consultas e/ou exames”. Na última semana, continua o hospital, houve “períodos” em que esteve lotada, em particular ao final do dia e durante a noite.

Uma doente relata ao Observador que teve de se deitar no chão por não ter onde se deitar. Apesar de assegurar de que nunca foi dada essa indicação à utente, o Garcia de Orta assume que, nessa noite, as unidades com macas estavam todas ocupadas e que o gabinete onde a doente estava não tinha espaço para uma maca.

O caso aconteceu no dia 16 de julho. Segundo a utente, que não quis ser identificada, nessa quinta-feira começou de repente a ter dificuldade em respirar e dores no peito. Ligou para a linha SNS24 e foi aconselhada a ir para o hospital de Almada. À chegada, por volta das 15h, foi para a triagem, onde foi descartada a hipótese de infeção pelo novo coronavírus.

Ao Observador, o HGO confirma a chegada da utente ao serviço de Urgência às 15h29 e que, após avaliação pelo chefe de equipa, foi encaminhada para o “circuito não Covid da Urgência Geral, por não ter critério clínico para encaminhamento para circuito Covid“.

“Mandaram-me lá para fora, para as tendas — estavam 40º graus nesse dia —, mas estava a piorar de minuto a minuto”, descreve a doente ao Observador. Voltou para o interior do hospital e pediu para ser novamente observada, porque “não estava a conseguir respirar e sentia imensas dores”, mas foi-lhe dito que teria de aguardar. Nessa altura, de acordo com a doente, foi chamada para fazer um eletrocardiograma e, uma vez feito o exame, voltou para o exterior.

"O meu pai teve de ir a 10km/h para a CUF, porque as dores que tinha no peito eram tão fortes que os solavancos do carro tiravam o pouco ar que tinha"
Utente

Como continuava desconfortável, a utente relata que foi mais duas vezes para o interior do edifício dizer que se sentia cada vez pior, mas de todas as vezes lhe disseram que teria de aguardar. Foi então que, perto das 18h, decidiu ir para a CUF Almada. “O meu pai teve de ir a 10km/h para a CUF, porque as dores que tinha no peito eram tão fortes que os solavancos do carro tiravam o pouco ar que tinha.” O HGO acrescenta que a doente já não estava no hospital quando foi chamada, “por ter voluntariamente abandonado” a unidade.

Uma vez no hospital privado, foi novamente vista na triagem e relatou o que se tinha passado no Garcia de Orta. “Passaram-me logo para uma médica, que tentou que eu me deitasse para me fazer o toque a nível abdominal, mas eu não conseguia estar deitada. Saltámos essa parte e passei para uma enfermaria.” Aí fez análises, um “novo eletrocardiograma” e foi medicada para as dores no peito.

“Assim que a medicação começou a fazer efeito, comecei a respirar melhor e mandaram-me aguardar”, conta a doente ao Observador. “Quando chegaram as análises, a médica disse que estava com os valores muito alterados e que era melhor fazer um raio-x.” Além deste exame, fez também uma TAC de tórax e mais análises, porque “começaram a pensar que podia ser uma pneumonia”, ainda que sem relação com a Covid-19.

Com os resultados destes dois últimos exames, a utente foi isolada e ter-lhe-ão dito que estava infetada com o novo coronavírus. “Explicaram-me que era Covid e que eu não podia ficar naquela unidade, nem em nenhuma privada mesmo tendo seguro, porque os privados não têm acordos para doentes Covid.” A CUF contactou o Hospital Garcia de Orta e deram à doente uma carta para entregar quando chegasse ao hospital, onde constava o diagnóstico: pneumonia derivada de coronavírus.

Na CUF Almada, a doente foi diagnosticada com uma pneumonia derivada do novo coronavírus

CUF Almada

“Um buraco escuro” com uma cadeira de plástico

O Garcia de Orta confirma a chamada da CUF Almada para transferência da utente “com suspeita de pneumonia a Covid”, mas diz que ela se recusou a fazer o teste de despiste. Ao Observador, a doente nega que se tenha recusado a fazer o teste. “Eles iam fazer, mas como tinham falado com o hospital não valia a pena. Se eu fizesse na CUF, tinha de pagar 100 euros e chegando ao Garcia ia fazer na mesma.”

No hospital, fez uma nova triagem pelas 21h45, onde lhe mediram a temperatura e os níveis de oxigénio. Apesar de os valores estarem normais, a utente foi encaminhada para a área dedicada Covid-19, esclarece ainda o hospital. A doente conta que entrou neste local, passou por um corredor com várias cortinas, até que lhe abriram uma e lhe disseram: “este é o seu espaço e não pode sair daqui.”. A utente descreve-o como “um buraco escuro, que tinha cadeira de plástico” e diz que não lhe foi dada qualquer explicação. “Aquilo era a antiga sala de espera da urgência geral, onde puseram umas paredes falsas a dividir o espaço, mas o teto era comum.”

O hospital, por sua vez, refere que a doente foi colocada “numa divisão individual, com uma cadeira, tal como exigem as regras de prevenção e distanciamento na área dedicada à Covid”.

Passado algum tempo, pediu ajuda por estar com dores — “a medicação que deram na CUF deixou de fazer efeito” — e com frio. Uma enfermeira foi ter com a utente, disse-lhe que estavam na passagem de turno e deixou-lhe “uma caixa com um sumo, uma sandes e umas bolachas” e ainda um cobertor, mas não lhe deu nada para as dores. “A enfermeira dizia-me para eu me sentar e cheguei a explicar-lhe que ficava com mais dores”, conta a doente, acrescentando que esteve naquele espaço “de pé”, sem ninguém lá ir, até à chegada do médico por volta da meia-noite.

2 fotos

“O médico pediu para me sentar e eu disse-lhe que já tinha explicado que não me conseguia sentar, porque ficava com mais dores”, relata a utente ao Observador. “Aí já estava nervosa e só chorava. Só queria sair dali. Deram-me um diazepam e um paracetamol qualquer para as dores e o médico disse que ia ter de fazer mais exames e análises.” Foi pelo seu próprio pé, enrolada à sua manta, fazer uma angio-TAC. Fez ainda um novo raio-x, análises e um teste de rastreio à Covid-19.

O Garcia de Orta explica que foram feitas análises ao sangue, além de uma angio-tac “para exclusão de tromboembolismo pulmonar, embora muito pouco provável”. “Foi revista a TAC que trazia da CUF e considerado que não era sugestiva de pneumonia a Covid e também não evidenciava tromboembolismo pulmonar, de acordo com o angio TC efetuado no nosso hospital.”

“Jamais foi dada a indicação à utente para se deitar no chão”

Uma vez feitos os exames, a utente regressou ao gabinete onde tinha sido colocada. “Aí eu estava muito confusa, porque já me tinham dado um diazepam na CUF [além do que tomou no Garcia de Orta] e comecei a não conseguir ficar em pé.” Nessa altura, pediu uma cama para se poder deitar, ao que, segundo a sua versão, contrariada pelo hospital, a enfermeira terá respondido que não havia camas disponíveis. “Disse-me: ‘estão aqui 15 pessoas, só há três camas, portanto, se quiser, deite-se no chão‘”, conta a utente, referindo que a enfermeira ainda lhe disse que, se quisesse, que fosse reclamar à receção. “E eu acabei por dormir no chão. A medicação já era mais forte que o meu corpo.”

Situação que o Garcia de Orta nega. Numa primeira fase, em resposta ao Observador, o hospital garantiu que em nenhum momento a doente esteve deitada no chão. Confrontado com as fotografias tiradas pela própria, no chão e com uma manta, o hospital respondeu que a ordem ou sugestão para o fazer nunca foi dada. “Jamais foi dada a indicação à utente para se deitar no chão, nem qualquer membro da equipa hospitalar tomou conhecimento de que isso tivesse ocorrido”. Ao Observador, o hospital explica que foi dito à doente que no gabinete onde se encontrava “não cabia uma maca” — na área dedicada Covid a doente só teria possibilidade de se deitar numa maca — e que “se vagasse uma box com capacidade para alocar uma maca, tal seria feito”.

Fotografias tiradas pela utente mostram-na no chão, com uma manta, no gabinete de isolamento onde foi colocada. Foi lá que terá ficado a dormitar até lhe dizerem que iria alta, porque “estava em condições de recuperar em casa sozinha” — segundo a doente isso ocorreu perto das 5h.

A doente, com uma manta, deitada no chão do gabinete onde foi colocada

De acordo com o Garcia de Orta, a “alta para domicílio” foi decidida pelas 4h e a doente saiu meia hora depois, sendo que iria “aguardar o resultado do teste Covid (com muito baixa probabilidade de ser positivo)“. A utente foi ainda encaminhada para uma consulta de Pneumologia, por se tratar de uma doente fumadora, medicada com antibióticos “pela suspeita de infeção respiratória, embora com parâmetros de infeção baixos” e ainda teve indicação de que, se surgissem “sinais de alarme”, deveria regressar à urgência.

O HGO refere ainda que foi dito à doente que “teria de contactar a sua equipa de família” para saber resultado do teste à Covid-19. De acordo com o hospital, é um “procedimento transversal” a todo o Serviço Nacional de Saúde, em casos suspeitos de Covid sem critérios para internamento, uma vez que a urgência “não tem capacidade para informar os utentes do resultado dos testes, [que] são dezenas ou centenas diariamente“. “O programa Trace Covid com os Cuidados de Saúde Primários serve exatamente este propósito.”

Já a doente conta que lhe foi dito que seria contactada no dia seguinte com o resultado, mas, como isso não aconteceu, decidiu ligar no sábado, altura em que lhe disseram não poderiam dizer-lhe o resultado do teste e que teria de ser a médica de família a fazê-lo na segunda-feira seguinte.

O resultado do teste à Covid-19 acabaria por ser negativo. “A explicação que me deram foi que, pelas análises, efetivamente foi [um quadro] derivado da Covid, mas que eu tive o vírus ativo num espaço temporal que não conseguem explicar, porque o teste deu negativo e mandaram-me ficar em isolamento até sexta-feira.”

“A experiência de vários meses desta patologia já nos vai permitindo ter a experiência suficiente para abordarmos o encaminhamento correto dos utentes e de facto esta doente foi orientada para a área não Covid da primeira vez e de forma totalmente correta“, considera o HGO, acrescentando que a suspeita levantada pela CUF obrigou o hospital “à abordagem da doente na área dedicada Covid (mesmo sem suspeita forte de infeção)”.

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