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▲Auditoria forense estima que ligação do FC Porto à claque Super Dragões tenha feito perder mais de cinco milhões aos azuis e brancos

DeFodi Images via Getty Images

▲Auditoria forense estima que ligação do FC Porto à claque Super Dragões tenha feito perder mais de cinco milhões aos azuis e brancos

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Dos 167 mil euros em viagens que só não foram à Oceânia ao material desportivo que era joalharia: as 7 histórias da auditoria do FC Porto

Viagens sem justificação, cinco refeições por 5.000 euros, os negócios de milhões com Portimonense vetados pelo scouting, 47% de comissões em excesso, resorts e joalharia: o que aconteceu no FC Porto.

Era uma promessa eleitoral, tornou-se uma garantia depois da tomada de posse. André Villas-Boas ainda teve de viver um período “anormal” enquanto presidente do FC Porto sufragado por 80% no ato eleitoral mais concorrido de sempre, onde liderava o clube mas nem ele nem ninguém da sua equipa podia sequer ir à SAD comandada por Pinto da Costa, mas, mal tomou posse numa cerimónia com pompa e circunstância na tribunal presidencial do Estádio do Dragão, começou a distribuir “jogo” pelos vários departamentos para fazer uma corrida contra o tempo, típica de quem quer começar do zero, num ano zero mas com zero espaço para se adequar ao novo papel. Numa das principais ações, encetou todos os trâmites para que a auditoria forense à realidade da FC Porto SAD na última década fosse feita. Sete meses depois, há resultados.

Perdas de milhões com Super Dragões, 47% de comissões em excesso e as contas dos gastos pessoais: a auditoria do FC Porto

O aparecimento dos resultados nesta fase, com a divulgação de um resumo de nove páginas sobre aquilo que estava em causa e um trabalho completo de 390 folhas (46 de análise, as restantes com anexos que explicam todas as conclusões alcançadas) disponível para todos os associados com registo através de outra das criações deste mandato, o Portal da Transparência, cumpre um propósito mas atinge vários objetivos: 1) permite um outro tipo de avaliação ao que estará em causa na Assembleia Geral deste sábado, a propósito da expulsão de sócio de Fernando Madureira, a mulher Sandra, Vítor Catão e Vítor Aleixo, mesmo tendo em conta que essa decisão parte dos acontecimento na reunião magna de novembro de 2023; 2) mostra o porquê de ser um ano zero também a nível de investimento, tendo em conta os constrangimentos financeiros pela atual realidade; 3) tenta esvaziar a contestação existente em torno da equipa, que em termos internos é ainda muito associada a resistentes que continuam a não “aceitar” aquilo que foram os resultados eleitorais.

Um ano depois, quatro exclusões e uma suspensão: Fernando Madureira expulso de sócio do FC Porto

Mas o que consta nessa auditoria? Em resumo, e organizando o trabalho em três grandes pilares (relação com a claque Super Dragões, despesas com transferências e respetivas comissões, e gastos da administração), é feito um retrato da pesada herança que ficou no plano económico e financeiro de uma gestão que pesou, e muito, nos problemas que assolam atualmente os azuis e brancos. São apontadas perdas acima dos cinco milhões de euros na ligação com os Super Dragões em cinco anos, 50 milhões de comissões a mais pagas entre entradas, saídas, empréstimos, rescisões ou renovações de jogadores e gastos sem explicação, justificação ou sequer fatura por parte do anterior Conselho de Administração da SAD. Em paralelo, e nas entrelinhas dessas 390 páginas, sobram várias histórias que mostram aquilo que era a realidade portista.

Jogos de aniversário era quando o Benfica ia ao Dragão (ou havia Champions)

Em relação à venda de bilhetes e à ligação à claque Super Dragões, a auditoria detalha um pormenor que não cumpria aquilo que estava no protocolo que existia com o maior grupo organizado de adeptos e que tinha consequência impacto direto nas contas dos azuis e brancos: os ingressos para os jogos onde fosse celebrado o aniversário dos Super Dragões. Porquê? Por um lado, os encontros de “aniversário” nunca respeitaram a data onde deviam ter sido realizados. Por outro, nesses referidos jogos foram cedidos de forma gratuita bilhetes a todos os filiados quando aquilo que estava registado no protocolo era vender a um preço que tivesse desconto. A isso acresce outro dado quantificado na auditoria: o FC Porto perdeu quase 850 mil euros em “borlas”.

Exemplos práticos registados ao longo das últimas cinco temporadas (excluindo 2020 e 2021, por todas as vicissitudes da pandemia da Covid-19): em 2017/18, o jogo de aniversário deveria ser a receção no Dragão ao Paços de Ferreira, o que com venda com desconto e/ou cedência gratuita de bilhetes poderia trazer um encargo inferior a três mil euros, mas passou para o encontro seguinte com o Benfica, com impacto superior a 51 mil euros; em 2018/19 passou do Tondela (1.074 euros) para o clássico com os encarnados (67.470 euros); em 2021/22, não haveria encargos com o FC Porto-Paços de Ferreira mas foi também no jogo com o Benfica (49.858 euros); em 2022/23, deveria ser um encontro com peso como o Sp. Braga mas passou de novo para as águias (diferença de 11.530 para 57.995 euros); em 2023/24, passou do Portimonense para… a Champions, neste caso com o Barcelona. Contas feitas, houve uma perda estimada de 336.164 euros (com IVA).

▲ Super Dragões, liderados por Fernando Madureira, terão feito o FC Porto "perder" 850 mil euros só em bilhética

Um total de 167.453 euros em viagens de avião que só não chegaram à Oceânia

A conclusão da auditoria às cinco temporadas em análise em relação à ligação entre FC Porto e claque Super Dragões aponta para uma perda total de 5,1 milhões somando uma série de vertentes distintas: bilhetes que eram oferecidos de forma indevida no âmbito do protocolo existente, bilhetes que eram vendidos com um preço abaixo do indicado, apoios logísticos para encontros em casa e fora, valores e pagamentos em falta por compra de ingressos para jogos como visitados ou visitantes, estornos de bilhetes vendidos ou acesso ao Estádio do Dragão (neste caso, com um valor quase residual perante as outras realidades de menos de dois mil euros) e bilhetes vendidos às Casas do FC Porto sem informação obrigatória ou em excesso.

Um dos pontos com maior peso nessa contabilidade passavam pelo apoio logístico que era dado pelo clube aos Super Dragões, bem mais diminuto nos jogos em casa (82.679 euros) do que fora (quase 1,5 milhões de euros). Nesse particular, entre todas as despesas não elegíveis no âmbito do protocolo, a auditoria encontrou um total de 167.453 euros gastos em viagens de avião para destinos que não se enquadravam com os locais em que o FC Porto fazia os seus encontros, casos de Benidorm, Cancún, Cuba, EUA, Ibiza, Ilha do Sal, Maldivas, México, Paris, Recife, Rio de Janeiro, Sardenha ou Tanzânia. “Algumas dessas despesas foram feitas em nome de indivíduos relacionados com os Super Dragões”, aponta a conclusão da auditoria.

Auditoria encontrou um total de 167.453 euros gastos em viagens de avião para destinos que não se enquadravam com os locais em que o FC Porto fazia os seus encontros, casos de Benidorm, Cancún, Cuba, EUA, Ibiza, Ilha do Sal, Maldivas, México, Paris, Recife, Rio de Janeiro, Sardenha ou Tanzânia. "Algumas dessas despesas foram feitas em nome de indivíduos relacionados com os Super Dragões", aponta a conclusão da auditoria.

Os 16 milhões de comissões por época que apontam sobretudo a dois agentes

Em termos genéricos, e neste caso à luz de uma análise à última década da FC Porto SAD, constata-se que houve 879 movimentos de transferências, que envolvem entradas, saídas, empréstimos, rescisões e também renovações, com custos que ascenderam quase aos 158 milhões de euros. Problema detetado? Logo à cabeça, o facto de quase metade ter comissões pagas em excesso perante os valores normais da FIFA e do próprio mercado, com 10% para transferências a título definitivo e 3% para renovações. “Excesso de comissões em entradas e saídas: 27% dos movimentos de saídas e 61% das entradas têm valores acima dos referenciais, com 38,4 milhões em excesso. Excesso de comissões em renovações: 95% dos casos ultrapassaram o limite de 3% do salário bruto, totalizando 11,5 milhões de comissões excessivas”, lê-se. Depois, a questão dos agentes.

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O trabalho aponta para o facto de 50% das comissões estarem circunscritas a apenas oito agentes e 35% a três intermediários mas quase deixa de parte a Gestifute de Jorge Mendes e a Bertolucci Assessoria olhando para outras realidades como as empresas dos empresários Pedro Pinho e Bruno Macedo, figuras próximas de Pinto da Costa. Há uma razão para isso nos números: 93% dos mais de 31 milhões acordados com a Gestifute estão relacionados com vendas de jogadores, o mesmo se passando com Bertolucci (70%). Nos outros casos existe essa diferença, tendo em conta que 27% dos 14,7 milhões pagos a Pinho via PP Sports e N1 Carreiras Desportivas foram por renovações e 35% dos sete milhões pagos a Macedo via Yes Sports e BM Consulting por entradas. Em média, o FC Porto pagou uma média de 16 milhões de comissões por época.

O “custo zero” que envolveu nove milhões em comissões e 26 mandatos de exclusividade

Outro dos pontos que mais controvérsia gerou teve a ver com a realidade encontrada em maio de 2024 em relação aos mandatos de exclusividade a intermediários, “alguns dos quais sobre jogadores chave, restringindo a liberdade de negociação”. O tema já era falado antes mas a auditoria concluiu que existia um total de 26 jogadores com essa cláusula (17 da equipa principal, oito da formação B e um da formação), com a particularidade de três atletas terem um mandato de exclusividade alargado a… dois agentes. Também aqui, a Gestifute tinha quatro casos, metade em relação à PP Sports e à N1 Carreiras Desportivas de Pedro Pinho (oito). Caso esses jogadores fossem mesmo vendidos pelos empresários designados, as percentagens de comissão iam dos 4% aos 22,5%, quase um quarto daquilo que a FC Porto SAD iria faturar pela cedência.

Já em relação a aquisições ou saídas a “custo zero” (ou seja, com o passe na mão), o FC Porto pagou quase nove milhões de euros em comissões. Maxi Pereira, que passou pelo Benfica, foi o mais caro com um custo de dois milhões, seguindo-se Éric Pimentel, central que chegou do Vasco da Gama, fez apenas três jogos na B mas valeu um total de um milhão de encargos. Seguiram-se nesse particular Alberto Bueno (800 mil), Opare (500 mil) e Daniel Osvaldo (500 mil). Nota ainda para duas saídas com passe na mão que ainda envolveram o pagamento de 340 mil euros: Aboubakar (225 mil) e Victor Garcia (115 mil). “Houve impossibilidade de verificação do destinatário do pagamento de comissões em 11 transações por falta de documentos de suporte”, refere ainda a auditoria, que avalia esses 11 movimentos num montante de quase dois milhões.

▲ Maxi Pereira, que chegou ao FC Porto com o passe na mão, teve um custo de dois milhões para assinar pelos dragões

MANUEL ARAÚJO/LUSA

Um parâmetro 100% cumprido (em 13) e as contratações feitas ao Portimonense

A análise na parte das transferências de jogadores é depois filtradas pelos auditores a 55 casos, por forma a exemplificar através deles a realidade encontrada ao longo dos últimos dez anos em análise. Aí, para explicar as falhas encontradas, são traçados 13 parâmetros, sendo que apenas um não tem qualquer irregularidade ou falha: “Contratos celebrados no âmbito da transação que não se encontrem assinados por nenhum membro do Conselho de Administração”. A principal lacuna encontrada está ligada aos relatórios de scouting que justificassem a contratação, algo que foi encontrado apenas em quatro situações. A isso acresce o pagamento de comissões superiores ao normal (45 em 55), pagamentos em incumprimento (23 em 55), impossibilidade de identificação da estrutura envolvida (22 em 55) e contratualização de comissões a entidades que à data não estavam registadas como tal na Federação Portuguesa de Futebol (20 em 55).

São depois relevados vários casos de comissões acima do esperado a agentes, entre as renovações de Diogo Costa ou a contratação de Eder Militão, mas é nas compras de jogadores ao Portimonense que a auditoria aponta um foco especial. Alguns exemplos: 50% dos direitos económicos de Gleison foram comprados por um milhão quando o jogador tinha um valor de mercado de 75 mil em 2016 e três anos depois vendidos aos algarvios por 100 mil quando tinha um valor de mercado de 600 mil; Musa Yahaya foi comprado por 750 mil euros (45% do passe) com um valor de mercado de 25 mil; os direitos económicos de Samuel Portugal foram adquiridos em três ocasiões (20%, 35% e 35%) por um montante total de quatro milhões de euros, sendo que nesse período desde que chegou ao Estádio do Dragão nunca fez um jogo oficial. O caso de Rui Costa, contratado por 1,5 milhões, teve outro contorno: o scouting “desaprovava” o negócio.

Como os 3,6 milhões de despesas tiveram um subida a pique depois da pandemia

No terceiro grande ponto da auditoria, foi avaliada a questão das despesas de representação de todos os administradores da FC Porto SAD também no período das últimas dez temporadas, não apenas à luz das suas remunerações fixas e variáveis mas também, ou sobretudo, pelo plafond de despesas definido pela Comissão de Vencimentos e que “deveria ser utilizado única e exclusivamente em despesas de âmbito profissional ao serviço do FC Porto”. É por este ponto que o diapasão das conclusões alinha, sendo que entre 2014/15 e a última época houve um total de 3,6 milhões de euros de despesas que não entroncam naquilo que estava estipulado em termos de regulamento interno, a que acresce ainda mais 400 mil euros de custos fiscais.

Entre 2014/15 e a última época houve um total de 3,6 milhões de euros de despesas que não entroncam naquilo que estava estipulado em termos de regulamento interno, a que acresce ainda mais 400 mil euros de custos fiscais.

Nesse particular, e numa análise inicialmente genérica, há um dado que salta à vista na auditoria: a evolução crescente que o parâmetro das despesas de plafond tiveram com o passar das temporadas, algo que não se constata por sua vez na rubrica das despesas profissionais (ou seja, gastos com justificação perante funções desempenhadas). Para se ter noção desse aumento, a época de 2014/15 teve 218.917 euros de despesas do plafond e 95.362 de despesas profissionais, o que dá um total de 314.279 euros; na última temporada, houve despesas de plafond de 506.393 euros, mais 105.716 de despesas profissionais num total de 612.109 euros, quase o dobro em relação ao que se passara dez anos antes. A época com mais gastos foi a de 2022/23, com 726.064 euros, sendo que o momento de disparo das despesas aconteceu depois da pandemia.

O material desportivo que era joalharia e as cinco refeições que ficaram por 5.000 euros

O resumo da análise mais pormenorizada a todas essas despesas para “fins estritamente pessoais” faz uma separação de todo esse dinheiro por rubricas: 1,1 milhões pelo uso de vários veículos com usufruto de familiares, 700 mil euros em refeições sem justificação, 700 mil euros em viagens privadas para destinos não relacionados com a atividade do clube, 70 mil euros em joalharias e relojoarias. “Foram identificadas diversas irregularidades, como ausência de procedimentos de aprovação e verificação de despesas ou falta de documentação de suporte. Foram ainda identificadas 5.120 despesas sem qualquer evidência, totalizando 512 mil euros, além da inexistência de um valor máximo para despesas de combustível, estacionamento e portagens”. Só nestas três variáveis foram gastos 255 mil euros entre várias outras histórias contadas.

Alguns exemplos: um administrador gastou cinco mil euros em quatro almoços e um jantar, que incluíram uma enoteca e um restaurante na Mealhada; foram registados pelo menos mais quatro almoços a mais de 600 euros e um num hotel de cinco estrelas do Porto acima dos 900 euros; entre as dez despesas mais caras, sete são do mesmo administrador e cinco ligadas a trabalhos de construção civil; entre 26 despesas com almoços ou jantares escolhidas na amostra, metade não tinham fatura (e uma era elegível); há três despesas de alojamento de dois administradores em Almancil e no Brasil sem fatura ou justificação; existe também uma despesa de 2.640 euros colocada como material desportivo que na verdade era joalharia; o cartão de crédito serviu para pagar o alojamento de um administrador num resort em Mortágua. Último ponto: em 46 deslocações do FC Porto ao estrangeiro, foram registados 432 indivíduos integrantes da comitiva.

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