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Esta segunda-feira ficou marcada pela abertura ao pública de algumas lojas de rua.

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Esta segunda-feira ficou marcada pela abertura ao pública de algumas lojas de rua.

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Dos cabeleireiros às livrarias, dos transportes ao surf: o primeiro dia de desconfinamento em Lisboa e no Porto /premium

No Porto e em Lisboa, vimos surfistas na água e novas práticas em barbeiros e cabeleireiros. Andámos nos transportes e no trânsito e fomos a lojas e livrarias que voltaram a funcionar.

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Com reportagem, texto e fotografias de Ana Cristina Marques, André Dias Nobre, Cátia Bruno, Catarina Germano Marques, Diogo Teixeira Pereira, Filipe Amorim, João Pedro Morais, João Porfírio, Luís Vaz Fernandes, Maria Barbosa, Maria Martinho, Mauro Gonçalves, Octávio Passos, Rui Oliveira e Sónia Simões

A fila à porta da Feira dos Tecidos, na baixa lisboeta, contrasta com os espaços quase vazios de tantos outros estabelecimentos comerciais que reabriram esta segunda-feira. A surpresa, porém, acaba com uma explicação: os clientes que ali esperam para poder entrar, enquanto outros lá dentro fazem as suas compras respeitando a lotação máxima, procuram tecidos de algodão para fazer máscaras caseiras. Um novo negócio de que, há dois meses, ninguém se lembraria.

Depois de semanas de confinamento, este primeiro dia nas ruas teve muito de recomeço, mas nada — ou quase nada — de normal. No ramo da barbearia e cabeleireiros, reabriu no Porto o histórico Salão Azul, que tem a lista de marcações toda preenchida “até quarta-feira” — mas também a barbearia Carlos, na Avenida de Roma, onde os pagamentos podem agora ser por MB WAY e já não se corta a barba dos clientes com lâmina.

As livrarias e alfarrabistas não tiveram grande clientela, mas a que tiveram foi famosa: na livraria Sá da Costa, em Lisboa, o Presidente da República foi presença notada e num alfarrabista lisboeta chocámos com o socialista João Soares.

Na viagem pelos serviços e espaços que voltaram a abrir portas, também vimos como se deposita roupa usada “em quarentena”, passeámos por centros comerciais que parecem ainda “fantasma”, encontrámos surfistas a sair da água e um casal separado na fila do Hospital Santa Maria.

[A Rádio Observador também acompanhou numa emissão especial estas primeiras horas do ‘desconfinamento’ nos transportes e nas lojas, em Lisboa e Porto. Pode ouvir aqui os sons mais marcantes:]

Os sons mais marcantes das primeiras horas de máscara obrigatória

No dia em que Portugal começou a primeira semana em estado de calamidade, depois de ultrapassado o estado de emergência resultante de um pico da pandemia do novo coronavírus no país, andámos por Lisboa e Porto para perceber a resposta a várias perguntas: como estiveram os transportes públicos nas duas maiores cidades do país? E os cabeleireiros e barbeiros que reabriram? E as livrarias e alfarrabistas, que também puderam voltar a abrir portas? Os surfistas voltaram às praias? O trânsito, como esteve? E nos centros comerciais, houve mudanças?

Para muitos, o dia começou nos transportes públicos, onde houve passageiros intercetados e até uma mulher multada por falta de máscara (mas também gente a circular sem máscara e falta de máscaras nas máquinas do metro), enquanto táxis desesperavam por clientes. Quem escolheu o carro, teve uma manhã mais fácil que o habitual antes da pandemia — apesar de um problema mecânico em plena Ponte 25 de Abril ter complicado o trânsito, ainda assim mais intenso que na última semana: “Acho que foi o disco da embraiagem, já o devia ter mudado… agora vou ver se mando arranjar o carro, ou apanho transportes… Lá vou ter de usar a máscara”, queixava-se o condutor azarado.

Da espera ao corte: cabeleireiros e barbeiros de volta, em Lisboa e Porto

O Salão Azul que reabriu portas: “até quarta-feira”, não há uma nesga na agenda

Na Rua de Santa Catarina, uma das artérias comerciais mais importantes da baixa do Porto, nem todos seguiram ao mesmo ritmo. Na manhã desta segunda-feira, muitos estabelecimentos ainda preparavam a reabertura, com proprietários e funcionários de balde e esfregona na mão, a limpar e desinfetar a área interior mas também as montras e os parapeitos das lojas. Outros estavam já de portas abertas e a trabalhar. Entre eles, o histórico Salão Azul.

O Salão Azul que reabriu portas: “até quarta-feira”, não há uma nesga na agenda

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Aberto desde 1934, preparou a reabertura de antemão e já voltou a receber clientes. “Até quarta-feira temos a agenda completa”, conta Lúcia Neto, filha dos proprietários do espaço. Nesta fase estão a trabalhar no salão duas cabeleireiras, uma auxiliar de limpeza e duas profissionais de estética, todas com máscara, viseiras e luvas. Avistava-se desinfetante em cada mesa. O que já não se via eram as clássicas revistas para o tempo de espera antes do atendimento — foram abolidas, pelo potencial de transmissão do novo coronavírus resultante do seu manuseamento. Até o multibanco tem agora agora uma película aderente, por receio de contágios.

Foi uma das grandes novidades que o dia 4 de maio, esta segunda-feira, trouxe: paralelamente a stands de automóveis, livrarias e outras lojas com menos de 200 metros quadrados, voltaram a poder abrir portas “estabelecimentos de prestação de serviços de higiene pessoal”. Que estabelecimentos são estes? De acordo com o Governo, “cabeleireiros, barbeiros, manicures, pedicures e similares”, desde que funcionem por marcação prévia e a partir das 10h e que se aguarde para ser atendido no exterior e não no interior dos estabelecimentos.

Lá dentro, deixou de se ouvir o barulho típico do exterior: se pelas janelas do Salão Azul costumava chegar o som dos músicos de rua, das conversas do café Majestic e das vendedoras ambulantes de meias e guarda chuvas, no interior ouve-se agora apenas um secador de cabelo e a televisão. Varre-se permanentemente o chão e as escadas que dão acesso ao cabeleireiro e o silêncio impera.

O fecho foi a 16 de março e agora que o Salão Azul regressa fazem-se contas ao futuro, teme-se a rentabilidade neste contexto apesar da afluência de quem tinha o cabelo a precisar de corte. “É difícil trabalhar com este material, torna o nosso trabalho lento. As viseira embaciam facilmente, não é prático… mas tem que ser”, queixava-se Lúcia Neto, que ali trabalha como esteticista há 20 anos, lamentando a dificuldade para obter soluções alcóolicas suficientes para reabrir, “o que temos aqui para os clientes veio dos Açores!”

“Até quarta-feira temos a agenda completa”, contou Lúcia Neto, filha dos proprietários do espaço.

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Daqui em diante, o Salão Azul vai receber apenas quatro clientes de cada vez, com máscara e sem bijuteria. Não podem ligar o ar condicionado e todo o material, das escovas aos secadores de cabelo, são desinfetados e esterilizados após cada utilização, como recomendado. O teclado e a máquina registadora estão agora cobertos por película aderente e todas as funcionárias utilizam uma roupa exclusiva para trabalhar.

Na barbearia Carlos, já não se faz a barba com lâmina. E há uma nova modalidade: MB Way

À entrada da barbearia Carlos, na Avenida de Roma, em Lisboa, a primeira coisa que se vê é um dispensador de gel desinfetante. E um barbeiro, Francisco Fraústo, em novas roupagens, de máscara na cara, viseira colocada e luvas calçadas. A adaptação à nova indumentária não é instantânea: “Está a ser tudo estranho. Falar com a máscara cansa. Mas é uma questão de hábito. Vamos ter de trabalhar mais e falar menos”, explicava.

Agora, no atendimento ao público na barbearia Carlos, a higiene é um fator especialmente importante: as mãos têm obrigatoriamente de ser desinfetadas à chegada, quer o cliente queira quer não queira. Também o serviço de barbearia deixou de ser feito com lâmina para evitar o contacto. “Com a máquina estamos mais afastados”, confirma o barbeiro.

Na barbearia Carlos, já não se faz a barba com lâmina. E há uma nova modalidade: MB Way

João Pedro Morais/Observador

Até o calçado utilizado no interior da barbearia, por funcionários, tem de ser diferente daquele que os trabalhadores usam na rua — e há outras obrigações, como desinfetar o espaço depois de atendidos todos os clientes. A palavra de ordem é “desinfetar, desinfetar e desinfetar”, explica Francisco Fraúto.

Até ao estado de emergência, trabalhavam na barbearia outras duas pessoas, além de Francisco. Agora tem apenas mais um colega, separado por uma cadeira de intervalo. No sofá, ninguém pode esperar — como decretado pelo Governo, é preciso aguardar pelo atendimento no exterior. Não há revistas e não há jornais. É possível pagar em dinheiro mas também por MBWay — e se o pagamento for em dinheiro, o cliente tem de desinfetar as mãos antes de tocar no dinheiro e depositá-lo em cima de uma mesa, para não haver contacto manual. Antes e depois de tocar no dinheiro depositado em cima da mesa, também o barbeiro é obrigado a desinfetar as mãos.

Fotogaleria. As imagens das primeiras horas do desconfinamento

Maria Lourenço continua à espera de um crédito, mas com a casa cheia (na medida do possível)

Dentro do salão de Maria Lourenço, no centro comercial Acqua Roma, em Lisboa, há um pequeno batalhão de máscara e viseira. O imponente sofá da receção continua lá, mas virado para a parede, o que lhe impede o uso. Na maratona das últimas semanas — que incluiu encerrar voluntariamente de dois espaços a 16 de março, colocar mais de 30 funcionários em lay-off no mês seguinte e recorrer a economias próprias para manter a empresa de pé — conseguir o material necessário para reabrir foi o sprint final.

“Se foi difícil tomar a decisão de fechar, esta foi ainda pior. Há muita falta de material, é tudo muito caro. Houve coisas que nem conseguimos encontrar”, explica a proprietária ao Observador, ao final da manhã. Os nervos dos últimos dias são agora substituídos por alguma tranquilidade, à medida que os preceitos de uma nova realidade deixam de ser um bicho de sete cabeças e surgem com cada vez mais naturalidade. A cada cliente é pedido, logo no momento da marcação, que venha de máscara, sem acessórios, livros, computadores ou sacos de compras. O que tiver de vir, é de imediato posto numa bolsas de plástico.

Ana Lourenço reabriu os dois salões esta segunda-feira. No da Avenida de Roma, espera conseguir atender entre 15 e 20 clientes

João Pedro Morais/Observador

“Não quero ganhar o dinheiro todo agora, não quero ter de voltar tudo atrás”, exclama. Por agora, cuidar do cabelo é a prioridade. As clientes estão a evitar os serviços dedicados ao buço ou às sobrancelhas, embora o salão garanta todos os procedimentos de segurança.

Em abril, Maria tentou aceder a uma das linhas de crédito anunciadas pelo Governo para apoiar as empresas atingidas pela pandemia. Até hoje, garante que não lhe foi dado acesso a qualquer verba. Ainda assim, não deixa de pensar em quem tem menos estrutura do que ela — estabelecida há três décadas e com dois salões em Lisboa. “Penso nos colegas que têm espaços mais pequenos ou que estão há pouco tempo no mercado. Não sei o que lhes irá acontecer”.

Sem turistas e com um posto a menos. As dúvidas de Miguel Leão

Para Miguel Leão, barbeiro e proprietário da Belarmino, esta segunda-feira foi o primeiro dia de uma nova fase da vida do setor. “Este ano vai ser de luta e sobrevivência, não vai ser fácil para os pequenos negócios. Só quem se adaptar bem ao momento é que vai conseguir chegar ao final do ano com a casa aberta”, afirma. Neste caso, uma das preocupações é a quebra abrupta do turismo, de onde advinha 30% da faturação.

Miguel Leão tem a agenda cheia no dia em que reabre a Belarmino

João Pedro Morais/Observador

Do pequeno estabelecimento, repleto de memorabilia, retirou uma das cadeiras. Ficou com três, que mal agora mal arrefecem. “Alguns já falavam em rapar o cabelo”, exclama, enquanto desbasta a pente e tesoura. Diz que ainda é difícil calcular o rombo financeiro causado pelo estado de emergência, período no qual lhe valeram “as reservas”.

Oficialmente, as medidas de higiene e segurança foram emitidas no último sábado. A assimilação pode demorar, defende o barbeiro, que vai elencando dúvidas — o comprimento das mangas, o calçado, a forra e designação das cadeiras e o aparar das barbas, impossível de fazer com uma máscara na cara do cliente. Nesses casos, reforça-se a proteção do profissional com viseira e luvas.

Nas livrarias e alfarrabistas, houve visitas de históricos do PS e PSD

“Sá da Costa” e o plano de desconfinamento de Marcelo…

Se a idade é mesmo um posto, então o Chiado é, por excelência, o bairro das mais altas individualidades. A Sá da Costa, livraria centenária, agora dedicada ao alfarrabismo, que aqui se instalou ainda nos anos 40, é presença garantida no inventário de estabelecimentos notáveis e quis o XXI Governo Constitucional que, à semelhança de outras livrarias e alfarrabistas, reabrisse portas nesta primeira fase de desconfinamento.

A Rua Garrett pode já ter visto dias mais felizes, mas entre livros, máscaras, luvas, marcas no chão e uma boa dose gel de desinfetante são meio caminho andado para avistar a tal luz ao fundo do túnel. “Já começámos a ter visitas e pessoas a comprar livros, felizmente”, assinalada Pedro Castro e Silva, gerente da livraria.

A Sá da Costa, livraria centenária, é agora dedicada ao alfarrabismo.

João Pedro Morais/Observador

O ponto de situação feito ao final da manhã não deixa margem para esmorecimento. Pedro admite alguma expectativa quanto a ouvir falar outras línguas dentro da loja que gere — normalmente, cerca de metade dos clientes são estrangeiros, o turismo está em baixo, mas é preciso não esquecer a quantidade de gente que trocou o seu país de origem por um lugar ao sol em Lisboa.

Horas depois, foi Marcelo Rebelo de Sousa o ilustre cliente. Saiu de lá com um saco de livros em segunda mão — livros de história e política — como acabou por confirmar o Observador. Sintoma de um amor aos livros, a visita do Presidente da República deixa antever dias melhores. Quando até Marcelo por aqui aparece logo no primeiro dia de desconfinamento, é preciso acreditar que este bairro vai voltar ao que era. Como diz a gerência: “Se não retomar no Chiado, não retoma em mais lado nenhum do país”.

“Já começámos a ter visitas e pessoas a comprar livros, felizmente”, assinalada Pedro Castro e Silva, gerente da livraria.

João Pedro Morais/Observador

… e “A Coleccionadora” com João Soares

Chama-se oficialmente “A Coleccionadora”, é informalmente conhecida pelo nome de Cão Grande, mas cá fora, aquilo que distingue esta livraria especializada é apenas um simples letreiro preto, ao alto, onde se pode ler “Livros” escrito a letra branca, em várias línguas. Nos últimos dois meses, a porta de ferro esteve fechada. Esta segunda-feira reabriu, timidamente, ao meio-dia, medindo a temperatura da clientela na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, com cuidado. “A rua fala um pouco por si. Costuma ser muito movimentada, mas de facto de manhã, para o que é normal, tem ainda muito poucas pessoas”, admitia Kiluange Liberdade, funcionário da casa há já dois anos, por volta da hora do almoço.

A reabertura neste alfarrabista, que vende exemplares raros e é, por excelência, um negócio “de nicho”, está agora em período de “readaptação”, contava Kiluange atrás da pequena secretária de madeira que fica ao fundo da livraria. O espaço é pequeno e estreito, uma espécie de corredor ladeado por altas estantes e pilhas de livros, o que levou a gerência a tomar cuidados: “Para o espaço que temos, admitimos no máximo três pessoas de cada vez, não mais do que isso”, contou, esclarecendo que, ao longo da manhã, todos os clientes que ali passaram acataram a ordem sem questionar.

“A Coleccionadora” fica na Rua da Escola Politécnica, no Principe Real em Lisboa.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Essas não são as únicas medidas. Kiluange, ele próprio de máscara, explicava quais eram os novos cuidados: “Tenho aqui álcool-gel para mim e depois também temos à medida que as pessoas vão pedindo, mas não o colocamos lá à frente para já, porque também não queremos que os livros fiquem danificados.” Num alfarrabista recheado de livros raros e exemplares únicos, é necessário garantir que todos os livros estão no melhor estado possível: há produtos específicos de limpeza, mas só podem ser usados nos livros que têm capas plastificadas, portanto todo o cuidado é pouco.

Quanto ao negócio, no primeiro dia a rua está pouco movimentada. O fecho ao longo dos últimos dois meses teve um efeito duro, reconhece o funcionário, já que a época de mais vendas é habitualmente esta, entre o final de inverno e o início de primavera, precisamente a altura em que a loja esteve fechada. “É o pico em termos de vendas e de afluência na loja, mas… Enfim, este ano não correu da melhor maneira”, lamentava-se Kiluange. E agora, como se recupera o tempo e o dinheiro perdidos? “De facto não sabemos o que vai acontecer, como acho que a maioria das pessoas [não sabe]. Tem de haver uma readaptação”, dizia. Isso passa por alterações de horários — este alfarrabista é conhecido por fechar tarde, por vezes já à meia-noite, sobretudo ao fim-de-semana —, que agora serão reduzidos. E também passa pela aposta na venda online, com a livraria a catalogar todo o material e a disponibilizá-lo na internet em poucos dias após o fecho.

“Apesar de tudo, é importante voltarmos a abrir as portas e mostrar que continuamos a trabalhar. Daqui para a frente vamos ver como é que as coisas se compõem”, contava Kiluange, no preciso momento em que uma voz o interrompia, vinda da rua “O que é que há de coisas novas?”. À pergunta do cliente, Kiluange riu-se e respondeu “Olá, João! Tem o que está aí na mesa”, afirmava, apontando para a mesa perto da entrada.

A voz era de um antigo cliente e amigo da casa — e também conhecido do grande público. Se a Sá da Costa contou com a visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, A Coleccionadora teve uma visita do histórico socialista e ex-ministro da Cultura, João Soares. “Gosto muito do trabalho que eles fazem, é um trabalho de grande qualidade. E da relação humana”, afirmava ao Observador, explicando que quer Kiluange, quer Sílvio, o proprietário, são para si “amigos”. Hoje estava apenas “de passagem”, mas normalmente é presença assídua como cliente.

Fã dos horários alargados da casa — “só vi uma coisa assim em Washington, numa livraria que está aberta todos os dias até à meia-noite e aos fim de semana está aberta non stop, durante 24 horas” —, João Soares aprecia também o catálogo especializado e as raridades que ali se encontram. “Uma vez comprei um livro que eles me arranjaram, que era a única versão do Portugal Amordaçado do meu pai em francês, da Calmann-Lévy — que era uma editora do Alain Oulman, o homem que fez as músicas para a Amália. Era a edição francesa, que esgotou. Eu tenho um, com uma dedicatória do meu pai.”

O fecho ao longo dos últimos dois meses teve um efeito duro no negócio, reconhece o funcionário daquele espaço.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Esta edição, contudo, era especial: “Era dedicado ao senhor Cardeal-Patriarca D. António Ribeiro. Que lhe foi entregue em Espanha, em mãos! Tinha sido oferecida pelo meu pai, em 1972 ou 1973”. Com dedicatória de um ativista anti-regime no exílio para o Cardeal-Patriarca de Lisboa? Nem mais. “Mas era uma dedicatória gentil”, sublinhava o político socialista, deixando adivinhar um sorriso matreiro por debaixo da máscara. “Acabei por comprá-lo aqui, o Sílvio até me queria oferecer. Mas o Kiluange não, diria ‘Pagas o preço que o Sílvio marcou”, disse, seguido de uma gargalhada. Kiluange, sentado ao fundo do corredor no seu posto, ria-se e acenava afirmativamente com a cabeça. Em tempos pós-Covid-19, algumas coisas permanecem iguais nesta livraria.

[Lisboa vista de cima: a hora de ponta ainda não desconfinou:]

Dos sapatos aos óculos, da roupa ao vinho: o primeiro dia do comércio local

A loja lisboeta de tecidos que encheu porque toda a gente quer fazer máscaras

Quem passeasse pelo Chiado, em Lisboa, pela manhã de esta segunda-feira, notaria que o movimento era pouco, contrastando em absoluto com a azáfama que ali se via antes da pandemia do novo coronavírus. As ruas estavam mais vazias, a atividade comercial era intermitente — algumas lojas estavam fechadas com pessoas a limpar no interior e muitas não pareciam estar sequer perto de regressar. A livraria Bertrand estava em obras, por exemplo, e em alguns casos só partes de lojas (de dimensão superior aos 200 m2 máximos permitidos) recebiam clientes. Mas também havia estabelecimentos com pequenas filas, nomeadamente uma barbearia no Largo do Chiado e uma instituição bancária na Rua Garrett.

Na Rua Nova da Trindade fica a Maison Nuno Gama, um dos espaços comerciais que reabriu portas esta segunda-feira. É em simultâneo loja de roupa e barbearia e, ao Observador, o seu proprietário, o estilista Nuno Gama, vincava algumas medidas de higiene adotadas para garantir a segurança sanitária.

Na Rua Nova da Trindade fica a Maison Nuno Gama, um dos espaços comerciais que reabriu portas esta segunda-feira.

João Pedro Morais/Observador

Agora, na Maison Nuno Gama toda a roupa que é provada por clientes, mas não é comprada é logo desinfetada e fica, como qualquer suspeito de infeção, em isolamento. “Há limpeza máxima. Todo o espaço foi desinfetado exaustivamente. Os provadores serão desinfetados após utilização. A roupa será desinfetada e entra em quarentena após prova”. Na zona dedicada à venda de roupa o uso de máscara é obrigatório, na zona de barbearia o uso de viseira por funcionários é regra interna.

Já a zona do Rossio foi palco de um fenómeno inusitado, porém fácil de desmontar. Passavam alguns minutos das dez da manhã e já uma fila de gente se desenhava à porta da Feira dos Tecidos. Em bancos, estações dos CTT ou supermercados a visão já se banalizou, mas nunca para entrar numa loja de tecidos a metro. Em menos de dois minutos, faz-se luz — quem ali estava procurava o leve algodão para fazer máscaras de proteção em casa.

Os clientes entravam a conta gotas, ao mesmo ritmo a que saíam, pela porta da Rua do Ouro. “É isto que toda a gente quer”, exclamava Graça, uma das funcionárias, apontando para a primeira bancada coberta de rolos de tecido. Efetivamente, é esta a matéria-prima de eleição, com ou sem flores às mistura. Com um limite máximo de dez clientes dentro da loja, e outros tantos a aguardar vez, o dia da reabertura da Feira dos Tecidos ia de vento em popa.

Nenhum dos funcionários tinha mãos a medir, da mesa de corte à caixa registadora. Nisto, dois homens abeiraram-se de uma das portas. Dois homens e um distintivo. “Para mim, assim a olho nu, esta loja tem mais de 200 metros quadrados”, comentou um dos inspetores da PSP com o responsável da loja. Este prontamente se justificou com a interdição do piso de cima, cujas escadas estavam vedadas por um cordão de tecido acabado de pôr. Ainda assim, os dois continuaram a tirar as medidas ao espaço através das viseiras.

Filas à porta da Loja dos Tecidos, em Lisboa.

João Pedro Morais/Observador

Levou alguns minutos até que os três chegassem a um consenso — a Feira dos Tecidos comprometeu-se a reduzir a área acessível aos clientes, os dois polícias à paisana seguiram caminho, depois de um ato de sensibilização próprio do primeiro dia de uma fase que se quer de retoma.

Quem também reabriu portas esta segunda-feira em Lisboa, mas sem quaisquer problemas com as forças de segurança, foi a Garrafeira Campo de Ourique. A loja, a funcionar neste bairro lisboeta há mais de 30 anos (desde 1988), voltou a receber clientes esta segunda-feira e garantiu estar a cumprir as regras de segurança, de acordo com Patrícia Santos, filha do proprietário. A área é pequena, tanto que só entra um cliente à vez, mas no interior estão cerca de 900 referências de vinho.

Quem também reabriu portas esta segunda-feira em Lisboa, mas sem quaisquer problemas com as forças de segurança, foi a Garrafeira Campo de Ourique.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Como outros negócios do seu setor, o dos vinhos — que registou aumentos de procura em supermercados e hipermercados —, a Garrafeira Campo de Ourique reformulou-se durante o estado de emergência. A aposta foi integralmente na venda online. Só uma vez por semana o espaço era aberto, para assegurar a fase de entrega a clientes. Apesar das portas reabertas, a procura esta segunda-feira ainda foi escassa. Os clientes parecem temerosos e alguns ainda têm dívidas sobre a utilização de proteção fácil. Porém, “sem máscara não vamos deixar ninguém entrar”, assegurou a lojista.

Naquele que é um dos bairros com um comércio local mais dinâmico — Campo de Ourique, em Lisboa — a equipa de reportagem do Observador esteve ainda no espaço Baú, uma loja de roupa em segunda mão, já com dez anos e muitos clientes fiéis. De tal forma que, esta manhã, alguns já regressaram ao espaço, que teve as primeiras vendas depois de um período de confinamento que começou no dia 13 de Março.

Agora, numa “nova normalidade”, as regras são outras: além da entrada com luvas e máscaras (que a loja também disponibiliza), assim como gel desinfetante, também a política de compra e venda de roupa sofreu alterações. “Por agora, não estamos a aceitar mais roupa em segunda mão. O stock que temos é suficiente. As peças são todas desinfetadas e ficam em quarentena, durante 15 dias, no nosso armazém até serem colocadas à venda na loja”, assegura a lojista Vanessa Ruivo. Também as trocas estão a estar limitadas. “Não devolvemos o valor da peça, apenas aceitamos a troca de uma peça por outra”, reforça Vanessa ao Observador.

Baú, uma loja de roupa em segunda mão, já com dez anos e muitos clientes fiéis.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Em breve, a loja prepara-se para disponibilizar o serviço de atendimento por marcação. Mais personalizado, evitando assim os clientes terem de aguardar no exterior.

Óculos, sapatos e roupa. O regresso a meio gás das lojas no Porto

No Porto também o comércio local, paralelo aos cabeleireiros e barbeiros, teve uma retoma tímida esta segunda-feira. Um dos espaços comerciais que reabriu portas foi a loja de óculos de sol Hawkers, onde encontrámos Sérgio Oliveira, funcionário.

De máscara facial com padrões na cara e pano na mão a desinfetar os modelos de óculos expostos, garantia-nos: “Na entrada da loja há desinfetante e todos os clientes são obrigados a desinfetar as mãos e a entrar de máscara. Junto ao balcão criámos um espaço para colocar todos os óculos usados por clientes para serem desinfetados depois. O nosso horário também reduziu: passámos de 8h a 6h de trabalho”. O movimento foi pouco e na Hawkers reinou a acalmia e o som da chuva no exterior. A esperança é que ao fim-de-semana o negócio acelere. “Espero que o São Pedro também ajude”, ouvíamos à saída.

Um dos espaços comerciais que reabriu portas foi a loja de óculos de sol Hawkers.

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Outro estabelecimento portuense que reabriu foi a Sapataria Max, situada mesmo em frente ao metro do Bolhão e numa esquina bastante movimentada com a Rua Fernandes Tomás. Nem a procura de sapatos, que se adivinhava tímida — o que se confirmou —, demoveu Sofia Fernandes, a funcionária que encontrámos dentro da montra (isso mesmo) a limpar os vidros.

Sofia estava em casa com a filha de nove anos, que continua sem aulas na escola, mas ficou agora com os padrinhos. “Estive de férias uma semana e depois uma semana com ela. Já estava morta por vir trabalhar”, confessa. Ali, na sapataria de Santa Catarina, o recipiente de álcool em gel e um aviso referente a uso obrigatório de máscara dão as boas-vindas. Quem quiser experimentar um modelo de sapatos terá de calçar primeiro um saco plástico, fornecido pela loja, para evitar o risco de contaminação. A aposta é já na coleção primavera verão, foram-se os saldos, os clientes não abundam… e agora? “Vai ser difícil, mas temos de começar por algum lado”, diz-nos.

Sapataria Max, situada mesmo em frente ao metro do Bolhão.

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Mesmo na porta ao lado da Sapataria Max, fica a loja de roupa portuense Analogia, onde o movimento neste primeiro dia de reabertura não foi muito e os temores para o futuro são semelhantes. Porém, Fátima Mendes, que trabalha ali há mais de duas décadas, já se viu obrigada a negar a entrada de clientes logo no primeiro dia de regresso, por ausência de máscara. “Só vamos poder deixar cinco clientes [à vez] na loja. Reduzimos o número de provadores disponíveis. Há desinfetantes para todas as superfícies e para as peças de roupa usadas e toda a gente que entrar terá de usar máscara. Já mandei gente embora porque não vinha prevenida”.

É, curiosamente, a população de risco que a funcionária da loja de roupa Analogia conta ter mais como clientes, nos próximos dias e nas próximas semanas. “São eles que saem mais à rua, muitos só para passear.”

Desertos e escuros: os centros comerciais “fantasma”

As dúvidas sobre os centros comerciais eram muitas. Afinal iriam “reabrir” ou não? E “reabrir” assim mesmo, entre aspas, porque na verdade estiveram sempre abertos, com espaços de restauração a preparar comida para entregas e com uma ou outra loja específica (por exemplo, supermercado, quando existe) com permissão de abertura.

O que se discutia exatamente era: o que é que vai reabrir? António Sampaio de Mattos, o presidente da Associação Portuguesa de Centros Comerciais (APCC), tinha dito ao Observador que seriam “muito poucas” as “atividades” que obrigatoriamente teriam de continuar fechadas — livrarias e cabeleireiros também poderiam reabrir, depois de uma nova ponderação do Governo, que inicialmente tinha apontado como prazo mínimo 1 de junho para a reabertura de “lojas inseridas em centros comerciais”.

Os centros comerciais mais pareciam uma “cidade fantasma”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O cenário nos centros comerciais visitados pelo Observador esta segunda-feira era, contudo, muito diferente. Por obrigatoriedade ou não, muitas lojas e espaços comerciais continuaram mesmo fechados. Foi assim no caso do centro comercial Colombo, em Benfica, cujos corredores se assemelhavam mais ao de uma cidade-fantasma do que aos de espaço comercial movimentado. À entrada, um letreiro dava conta de quais as lojas abertas, que à primeira vista pareciam bastantes. Mas, à medida que se passeava pelos corredores, era fácil perceber que, para além dos gigantes Continente e AKI, que atraíam a maioria dos clientes, pouco mais se destacava.

Os únicos locais com fila — sinal de porta aberta e entrada controlada de acordo com as novas normas de higiene e segurança — eram os CTT, no espaço exterior do Colombo, uma loja de câmbios e a operadora de comunicações NOS. Os cabeleireiros estavam de porta aberta, mas o número de clientes contava-se pelos dedos de uma mão. Sinal disso era a postura de uma rececionista ao balcão de um destes salões, de viseira a proteger a cara, que olhava entediada para as próprias unhas. Ao fundo, dois colegas estavam encostados às cadeiras vazias, à espera de trabalho.

No centro comercial Colombo os cabeleireiros e barbeiros abriram portas esta segunda-feira.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Não noto absolutamente diferença nenhuma no número de clientes”, confirmou ao Observador uma funcionária da tabacaria Casa Havaneza, uma das poucas lojas que esteve aberta durante o estado de emergência e que voltou a abrir portas esta segunda-feira — mantendo, no entanto, a venda apenas através de postigo. “Só se vê uma ou outra pessoa, a andar por aí, sozinhas. É igualzinho ao que vimos nos últimos dias, sobretudo na última semana, em que apareceu um pouco mais de pessoas do que no início do estado de emergência”.

Apesar disso, ainda antes da conversa com o Observador, a loja teve um cliente que comprou cigarrilhas e charutos. Algumas pessoas continuavam a deambular pelos corredores, quase todas de máscara, olhando com curiosidade para trás das grades que tapam o interior das lojas. Mas a maioria rapidamente se encaminhava para o supermercado, que continua a ser, ao que parece, o grande íman deste centro comercial. A contribuir para isso poderá estar o facto de a larga maioria das lojas ter mantido a porta fechada esta segunda-feira, acentuando o espírito assombrado de um centro comercial onde é possível ouvir o barulho dos próprios passos.

Ainda em Lisboa, às 10h, quando o Observador o visitou, o Saldanha Residence estava quase inteiramente vazio. Estava aberta a papelaria, que nunca fechou nem mesmo em estado de emergência e onde podem entrar agora duas pessoas de cada vez, e o cabeleireiro, que reabriu esta segunda-feira e que é a esperança da papelaria para atrair clientes ao Saldanha Residence. No interior da papelaria estavam dois funcionários protegidos com enormes viseiras de plástico, colocadas no balcão para separar clientes de funcionários. No centro comercial é proibido entrar sem máscara e não é permitido aceder às casas de banho. Foi até possível ver um casal tentar entrar sem proteção facial e ser intercetado pelo segurança, que só lhes permitiu a entrada após compra e colocação do material de proteção.

Também ali muito próximo, a pouco mais de 100 metros percorridos a pé, fica o Atrium Saldanha. Esta segunda-feira, parecia também ele um centro comercial fantasma, com corredores escuros e montras desprovidas de vida. Eram poucos os consumidores que se avistavam e eram ainda menos  as lojas abertas. Além do cabeleireiro que reabriu portas esta segunda-feira, restava apenas uma loja ortopédica que nunca fechou durante o estado de emergência.

Todas as pessoas que entravam nos centros comerciais traziam consigo máscaras postas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Porém, na loja ortopédica, devido ao facto de a grande maioria dos clientes ser considerada população de risco, foi decidido que parte da operação passaria a ser feita ao domicílio. Ana Maia, funcionária da loja, contou ao Observador que a opção deveu-se à tentativa de “evitar que as pessoas circulassem na rua” e pelo menos durante o mês de maio o serviço ao domicílio vai-se manter. Mas também a área muito reduzida do interior da loja contribuiu para este funcionamento fora de portas.

As expectativas do presidente da Associação Portuguesa de Centros Comerciais também parecem espantosamente otimistas para quem entra nos Armazéns do Chiado. As portas estavam abertas, mas no interior só uma loja reabriu esta segunda-feira: o cabeleireiro. A informação foi dada ao Observador pelo segurança que controlava as entradas. No interior, as luzes do espaço mantinham-se apagadas.

O surf voltou e os surfistas voltaram a Matosinhos e Carcavelos

Esta segunda-feira foi também o dia em que voltou a ser permitida a prática de desportos individuais — e o surf foi um deles. Os banhistas estão impedidos de ir à praia e de permanecer no areal, para apanhar banhos e sol tomar banhos de mar, mas na praia de Carcavelos o movimento foi superior ao dos dias anteriores, que era quase nulo.

João Madeira foi um dos que chegaram à praia ainda “de manhãzinha”, para poder voltar a surfar. Já tinha saudades de o fazer: não surfava desde janeiro, embora só tivesse ficado impossibilitado de o fazer devido às medidas de contenção para travar a pandemia em março. “Agora que temos permissão para vir às praias, quis aproveitar o primeiro dia. Ainda bem que não está muita gente, deu para cumprir as regras e aproveitar este tempo”, contou ao Observador.

Praia de Carcavelos.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

As preocupações são maiores agora na hora de escolher a praia. Já não basta ter em conta as ondas, mas quantidade de gente que as tenta surfar. É preciso ser “observador”, ir “vendo se estão grandes ajuntamentos de surfistas” e “escolher uma praia mais livre e com menos pessoas”, para se poder aproveitar “o mais possível” a atividade desportiva de que João Madeira tinha saudades.

Se de manhã o tempo não estava especialmente convidativo, “de tarde o céu abriu, o tempo ficou melhor e mais agradável e por isso é natural que venham mais surfistas aproveitar o dia”, explicava João. Porém, “por agora está tranquilo, mesmo dentro de água não há grandes ajuntamentos”.

Também a praia de Matosinhos teve alguns surfistas durante a manhã, como registou o Observador no local. Porém, a afluência não foi grande e a praia esteve genericamente deserta.

Praia de Matosinhos.

Rui Oliveira/Observador

Praias da Ericeira abrem a desportistas mas com limites de tempo

Circulação controlada no metro, pouca gente nos comboios e a inspeção às máscaras

O dia ficou marcado também por uma declaração do ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, que afirmou esta segunda-feira que é “muito difícil” ao Governo “meter mais comboios” — isto é, reforçar a oferta para garantir o distanciamento social entre passageiros — desde logo “porque não os temos”. Porém, se o movimento nos próximos dias for semelhante ao que se viu esta segunda-feira de manhã, a oferta atual de transportes públicos não deverá motivar grandes preocupações a curto prazo. Pelo menos até junho, altura em que deverá deixar de ser imposto o teletrabalho a quem puder exercer funções remotamente e a partir de casa.

Em Lisboa e no Porto, as orientações para transportes públicos eram relativamente semelhantes: toda a gente de máscara.

Rui Oliveira/Observador

Em Lisboa e no Porto, as orientações para transportes públicos eram relativamente semelhantes, embora o controlo nem sempre tivesse existido em alguns períodos do dia e em algumas estações — por exemplo, na estação fluvial do Cais do Sodré a utilização ou não de máscara não era monitorizada.

A CP – Comboios de Portugal, que tinha prometido ser “tolerante” numa fase inicial embora a validação de bilhete tenha voltado a ser necessária a partir desta segunda-feira, deixou as cancelas abertas, permitindo ainda a circulação de passageiros sem bilhete. O mesmo não aconteceu no metropolitano de Lisboa e Porto, onde era impossível passar as cancelas sem validação de passe. E nesta primeira fase, decidiu-se que as multas só seriam aplicadas em último caso, quando os passageiros insistissem em usar os transportes públicos recusando utilizar máscara. Pelo menos esta segunda-feira, a aposta foi na sensibilização, advertência e impedimento de circulação — e e não nas coimas.

[Um “novo normal”. Como as máscaras invadiram os comboios em Lisboa:]

A afluência aos transportes públicos não foi minimamente semelhante à que era habitual antes da Covid-19. Em Carcavelos, bem cedo, por volta das 6h44 da manhã, a estação de comboios estava quase vazia. Também a estação de comboios do Cais do Sodré estava irreconhecível por volta de hora e meia depois, para quem se habituou a passar por ela ao longo das manhãs: estava quase deserta.

A situação foi um pouco diferente no metropolitano, em Lisboa, onde o movimento na estação do Cais do Sodré era já superior na até aqui hora de ponta matinal — ainda assim, a circulação era muitíssimo inferior à que se verificava antes da pandemia do novo coronavírus e não permitia aglomerações que as autoridades de saúde queriam evitar.

Na estação de metro do Cais do Sodré a afluência era já superior na até aqui hora de ponta matinal — ainda assim, a circulação era muitíssimo inferior à que se verificava antes da pandemia.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

A mesma redução de circulação em transportes públicos foi notória em outras estações do metropolitano de Lisboa, como Marquês de Pombal, Oriente ou Rossio. Maria José Mota, 57 anos, foi uma das passageiras que o Observador encontrou esta segunda-feira na Gare do Oriente, que esteve longe de ter o movimento de outros tempos. A esteticista tinha apanhado um autocarro em Santa Iria de Azóia para o Oriente, para depois apanhar o metro até São Sebastião — onde ia reabrir o seu espaço comercial. “O meu medo é os transportes. Há gente que facilita muito”, apontava.

Se Porto e Lisboa nem sempre estão alinhavados, no caso da mobilidade em transportes públicos isso aconteceu esta segunda-feira. Às 7h, a afluência à estação de metro na Senhora da Hora, em Matosinhos, era muito mais calma do que o habitual. Não se viam agentes de fiscalização, mas perto de uma dezena de passageiros, que esperavam a sua carruagem, usavam máscaras. E quase tão concorridos quanto as carruagens eram, no local, os postos de álcool em gel, disponibilizados na estação para os passageiros desinfetarem as mãos.

A utilização de máscaras nos transportes públicos passou a ser obrigatória desde esta segunda-feira.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

No café da estação da Senhora da Hora, várias pessoas formavam filha mantendo uma distancia considerável e ao lado, a loja andante, onde é possível carregar o passe mensal, só tinha abertura marcada às 8h, o que obrigou a que várias pessoas esperassem pela abertura. Quem esperava não queria apenas renovar o passe — alguns também queriam comprar máscaras, luvas e álcool em gel, sendo este um dos 30 pontos de venda em toda a linha do metropolitano.

Metro do Porto: “Esta manhã a ocupação das carruagens foi de 20%”

Tal como em Lisboa, também no Porto a redução de circulação em transportes públicos manteve-se especialmente nos comboios. Pelas 8h, a estação de Comboios de Campanhã estava a meio gás. Na sala de esperam apenas 5 pessoas esperavam sentadas mas junto à linha um, comboio com destino para Braga, estava Francisco Mesquita, vendedor de cerejas de Resende.

Pelas 8h, a estação de Comboios de Campanhã estava a meio gás.

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Francisco fazia cartuchos de papel e vendia-os a 1,50€. “Hoje está parado, mas é normal”. O segurança da estação dava indicações para colocação da máscara a Francisco, que vem de Resende todos os dias para vender 100 quilos de cerejas, entre as 7h e as 17h. A sua mulher está noutra zona da estação de Campanhã, também a vender fruta. Munido de álcool e luvas, a sua banca tinha também uma balança e alguns trocados. A banca está alugada para os próximos dois meses e Francisco espera “que o tempo ajude” o negócio e que as poucos os passageiros voltem à sua rotina normal, mas por ora o cenário não é ainda esperançoso.

Em várias cidades do país, nomeadamente Lisboa e Porto, as recomendações para os transportes públicos passaram sobretudo por sensibilizar a população que não trazia máscara de que agora só é possível circular usando este equipamento de proteção individual. Houve casos de passageiros que foram reencaminhados para pontos de venda, mas também se registaram casos de pontos de venda de máscaras que pura e simplesmente não funcionavam, como aconteceu na estação Oriente e em Sete Rios (Lisboa).

O que também aconteceu, embora mais esporadicamente, foi a recusa de passageiros em usar máscara para circular nos transportes públicos.

Pedro Jerónimo, responsável pelo serviço de fiscalização na estação de metro Trindade, no Porto, contou ao Observador: “Já tivemos situações complicadas esta manhã, pessoas que chegam à estação ou saem do metro sem máscara e temos que as conduzir à maquina para comprar. Algumas recusam-se a fazê-lo e têm mesmo que abandonar a estação”.

Pedro Jerónimo, responsável pelo serviço de fiscalização na estação de metro Trindade, no Porto, contou ao Observador: “Já tivemos situações complicadas esta manhã".

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Entre as “situações complicadas” esteve um caso em particular. Pelas 9h30 uma senhora, acompanhada por um carrinho de bebé, foi notificada pelas autoridades. “Foi apanhada sem bilhete e sem máscara, recusou-se a comprar ambos e foi notificada. Tem agora 15 dias para pagar 60€ de multa ou então o valor passará para 120€”. Ao fundo, um jovem apercebeu-se do episódio e tentou imediatamente cobrir a boca e nariz puxando a camisola. “Tem máscara consigo? A partir de hoje é obrigatório. Pode levantar dinheiro e ir ali comprar junto ao meu colega”, recomendou-lhe Pedro Jerónimo.

Se alguns decidiam comprar máscara, outros abandonavam a estação indignados e levantavam a voz. “Não me toque. Não preciso de nada disso, deixe-me em paz”, atirou uma senhora visivelmente irritada. Também aconteceram episódios semelhantes em Lisboa, com passageiros a abandonarem a estação de metro em que estavam recusando comprar e usar máscara de proteção.

Houve passageiros a abandonarem a estação de metro em que estavam recusando comprar e usar máscara de proteção.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Os táxis sem clientes e uma queixa: “Tenho colegas a ir a restaurantes solidários”

A pouca movimentação nos transportes públicos pode ser benéfica em termos de saúde, mas para o negócio de Luís Ferreira é uma dor de cabeça que este não sabe ainda como irá resolver. Às 10h10, contava, no quiosque que tem na estação de metro do Cais do Sodré, que desde as 6h tinha servido “sensivelmente 15 cafés”. O habitual no mesmo período, antes da pandemia, era servir cerca de 300. “É o que se vende normalmente de manhã a esta hora”, garantia. Depois de passar um mês e meio em layoff, voltou ao trabalho mas não tem grandes expectativas. “Se fizer 50 euros hoje é muito”, apontava.

Quem também sofre com a redução da circulação de passageiros é o setor dos táxis. A meio da manhã, encontrámos na praça de táxis do Cais do Sodré o taxista Mário Ribeiro, de 53 anos. É taxista há cinco, esteve em layoff durante um mês e meio e estava na praça de táxis há uma hora e meia. Clientes até aí, nada. “Desde que cheguei não tive”, contava, acrescentando que tinha tido apenas um serviço, ainda de madrugada.

Em condições normais, àquela hora, Mário Ribeiro já teria feito “pelo menos uns três ou quatro serviços” e a situação preocupa-o: “Os valores que estou a achar que vou fazer no final do dia de hoje, já os teria feito em condições normais a esta hora da manhã”, queixa-se. “Se fizer 30 euros hoje, é uma sorte”. Problema adicional: Mário não trabalha por conta própria nem é dono do táxi em que transporta passageiros, ganhando à percentagem por viagem feita. E “30 euros, se se ganhar a percentagem são dez euros. Não dá para nada”, lamentava.

Táxis estacionados à espera de clientes em frente à estação fluvial do Cais do Sodré.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Também no Porto os taxistas sofrem. No largo exterior da estação de Campanhã, na manhã de esta segunda-feira e a uma hora de habitual movimento, era possível ver ao início da manhã dez táxis estacionados e uma zona de estacionamento quase deserta. À espera dos clientes que não chegavam estava António Cunha, taxista há 11 anos. “Estou aqui desde as 5h e ainda não consegui faturar nada. Isto está muito complicado, não há gente, não há turistas. Num dia bom fazia 70 a 80€, agora faço nada ou faço 5€. Se consegui 20€ já é um dia bom”.

No interior do carro, António tinha desinfetante, papel absorvente e luvas. A máscara coloca sempre que tem de entrar no carro para conduzir, garantiu. “Só nos deixam levar dois passageiros de cada vez, a multa é de 350€, vai ser muito complicado. Tenho colegas que já estão a ir a restaurantes solidários comer aqui na zona porque não têm faturado nada”.

Pessimista relativamente ao futuro, António queixava-se da falta de apoio do Governo no setor. “Com a concorrência da Uber já estávamos mal, agora nem se fala”. A falta de turistas também preocupa o taxista de 55 anos, que admitia ter que ir para junto de supermercados ou hospitais durante a tarde, à procura de gente e de possíveis clientes. “Aqui na estação nem temos casa de banho, temos que pagar 0,50€, é ridículo”.

Ao lado do taxista António Cunha estava o seu colega de profissão Henrique Araújo, que recomeçou a trabalhar esta segunda-feira. “Estive em casa desde o dia 16 de março, saí hoje para trabalhar mas já estive a falar com os meus colegas e sei que vai ser difícil. Estou aqui parado há duas horas e ainda não entrou ninguém. Não tenho expetativa nenhuma”, dizia, visivelmente desiludido.

Uma “nova normalidade” no Santa Maria: as filas e as histórias de quem espera

Se poucos parecem ter saído à rua para ir trabalhar, cortar o cabelo ou fazer compras para lá dos bens essenciais neste primeiro dia de “desconfinamento”, a saúde parece ter mobilizado alguns portugueses. Com o fim do estado de emergência, o Serviço Nacional de Saúde começou também a tentar regressar a alguma normalidade — como comprovava a longa fila que se registava no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na entrada para a zona das análises.

Uma das pessoas na fila era Sónia Dias, que recebeu um telefonema na semana passada com a notícia: a sua cirurgia ao túnel cárpico, marcada há mais de um ano, iria ter lugar esta terça-feira. Por isso, neste dia 4, teve de vir ao Santa Maria para fazer análises ao sangue, um raio-x e um “rastreio à Covid-19”, para garantir que a cirurgia para o dia seguinte tem luz verde. “Vir fazer análises é sempre complicado, demora, mas parece-me que está igual ao normal. Só que agora a forma como está a ser feito é que é diferente, por causa das novas medidas”, explicava ao Observador, enquanto olhava em volta para a fila que dava a volta ao jardim da entrada do Hospital.

A lotação dentro do espaço das análises é limitada e os que aguardam pela sua vez têm de ficar em fila, cá fora, com distância de segurança dos outros utentes.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A lotação dentro do espaço das análises é limitada e os que aguardam pela sua vez têm de ficar em fila, cá fora, com distância de segurança dos outros utentes. “Mas está a andar rápido, cheguei há uns 15, 20 minutos”, contava esta administrativa, que tem estado em teletrabalho e que saiu hoje pela primeira vez à rua, de forma mais demorada. À sua frente ainda tinha cerca de 20 pessoas na fila.

Mais demorada foi a vez de Maria Fernanda Carvalho, que chegou mais tarde e teve de esperar quase 45 minutos para poder entrar no edifício e juntar-se ao seu marido, doente oncológico que veio fazer análises para avaliar o seu tratamento de quimioterapia. “Hoje cheguei aqui com ele e deixaram-no entrar, mas mandaram-me a mim para a fila, apesar de eu ter 72 anos. Disseram-me que só tem prioridade quem está doente ou tem mais de 80 anos”, revelou, encolhendo os ombros.

Apesar do incómodo, sublinhava que não tem “uma migalhinha” que seja de críticas a fazer ao Hospital de Santa Maria, onde o marido tem vindo a ser acompanhado ao longo dos últimos anos. Depois de um primeiro cancro nasofaríngeo, que acabou por ser derrotado graças a várias rondas de quimioterapia, 2020 trouxe apenas notícias amargas aos Carvalho: em janeiro, um diagnóstico de novo cancro a António, desta vez um linfoma. “E depois caiu-nos isto em cima”, diz Maria Fernanda, referindo-se ao novo coronavírus, que veio perturbar uma vez mais a rotina: “Agora ele vem fazer as análises, a médica de hematologia vê os resultados e depois telefona-lhe e decide se ele deve vir fazer o tratamento ou não. Até agora tem dito sempre para ele vir e tem corrido bem”, conta. De três em três semanas, ali está o casal, prontos para seis horas de quimioterapia.

Houve uma enorme fila no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na entrada para a zona das análises.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mais difícil tem sido contornar os outros problemas trazidos pelo isolamento forçado, em casa. Uma coisa tão simples como a necessidade de comprar uma nova pilha para o aparelho auditivo do marido tornou-se um desafio: “Foram dois dias para arranjar uma pilha! Andávamos a escrever papelinhos para comunicar”, suspirava Maria Fernanda. Para além dos efeitos da doença no marido — a perda de audição foi provocada pelo primeiro tumor —, há todos os outros efeitos da pandemia de Covid-19. Uma das filhas do casal, assistente dentária, foi colocada em layoff. O seu marido, sócio-gerente de um snack-bar, não tem direito a apoios.

“Tem sido muito angustiante. Estou a segurar tudo, preocupo-me com as minhas filhas, com o meu marido e não vejo os meus netos ao vivo há dois meses…”, contava, à medida que a fila para entrar na zona de análises do Santa Maria ia avançando. No horizonte está a possibilidade de abraçar de novo os netos — a mais nova vai-se queixando “do bicho” e passa agora as noites mais chorosa, com medo “do monstro debaixo da cama”, o que deixa Maria Fernanda de coração apertado — e, quem sabe, sonhar com a celebração de umas Bodas de Ouro, com o marido totalmente recuperado, daqui a três anos. “Eu espero muito que sim, tenho fé”, dizia Fernanda, sorrindo por trás da máscara. Os olhos, contudo, não acompanhavam esse entusiasmo. “O meu marido ainda tem tanto para viver… É mais novo do que eu, veja lá!”, diz, suspirando, antes de se despedir e entrar na porta do Hospital, onde ele a espera do outro lado.

Um ministro numa Central de Comando onde se vê quem não usa máscara

Na Central de Comando do Metro de Lisboa esteve, neste primeiro dia de estado de calamidade e de uso obrigatório de máscara em transportes públicos, o Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes. A central está numa localização que não pode ser identificada: é por motivos de segurança que aos jornalistas é pedido que não revelem a morada do posto.

Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, esta manhã no metro de Lisboa.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Aos jornalistas que acompanharam o ministro apenas foi permitido estar na sala durante uns breve instantes, mas deu para perceber o modo de funcionamento deste posto de comando central. Trata-se de uma sala ampla, esta segunda-feira com sete funcionários distribuídos por cerca de dez mesas – isto porque houve uma redução de 40 por cento dos colaboradores. Se na linha da frente, os técnicos inspecionavam as diferentes linhas de metro, na parte de trás estavam dois seguranças de olhos postos nos ecrãs para identificar quem estava ou não a usar máscaras.

Só até as 8h00, e segundo avançou Matos Fernandes, 30 pessoas já tinham sido interpeladas pela PSP por não estarem a usar máscaras. Aos jornalistas, Matos Fernandes referiu ainda que a procura estava a ser muito superior à da semana passada, com o país em estado de emergência, ainda que os comboios estivessem com (apenas) 10 a 15% de ocupação.

Mais movimento nos “take-away” do Porto, “mas nada de muito significativo”

Os restaurantes, como os cafés e as pastelarias, não podem reabrir antes de 18 de maio — ainda assim, à partida poderão reabrir mais cedo em Portugal do que noutros países europeus igualmente em “desconfinamento” — mas com alguma retoma da circulação nas cidades e com a reabertura de algum comércio poderia esperar-se uma maior requisição de entregas de serviço ao domicílio e de pedidos take-away.

No Porto, a procura terá sido maior, mas não muito mais significativa.  Junto ao Mc Donald’s da Avenida dos Aliados, em plena Baixa portuense, estavam já depois do meio-dia quatro motas estacionadas, duas ao serviço da plataforma Glovo e outras duas ao serviço da Uber Eats. “Este é o meu segundo pedido hoje, sinto mais trânsito que nos outros dias, mas acho que é normal. À segunda-feira tenho mais colegas de folga, por isso o trabalho costuma ser maior”, contou ao Observador Rui Nakajima, um brasileiro que vive há dois anos no Porto.

Mais movimento nos “take-away” do Porto, “mas nada de muito significativo”.

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

No interior do restaurante, saltavam à vista as fitas a vedar bancos, cadeiras e escadas e apenas um corredor estava disponível em duas filas, uma para os estafetas e outra para o publico geral que queira requisitar comida em take-away. “Notámos um pouco mais procura do que o habitual, mas nada de muito significativo”, garantia um funcionário da caixa, que preferiu não ser identificado.

Os pedidos eram feitos em quadros interativos (seis ao todo) e o uso de máscara era obrigatório. “Desculpe, mas aqui dentro tem mesmo de usar máscara”, dizia uma funcionária a um agente da PSP que se preparava para fazer um pedido, obrigando-o a sair para ir ao carro buscar uma. Perto das 13h, porém, já se começava a notar uma fila à porta do restaurante, maioritariamente com trabalhadores de construção civil. Uns queriam abrigar-se da chuva, que entretanto começara a cair, outros queriam só aconchegar o estômago.

Um problema na Ponte 25 de Abril: “Acho que foi o disco da embraiagem…”

Eram quase sete da manhã quando Eduardo Fonseca parou na portagem para a Ponte 25 de Abril, onde passa todos os dias para ir trabalhar. Motorista de pesados, não pôde fazer teletrabalho e tem passado os últimos dias a circular por toda a Lisboa e margem sul do Tejo. Esta segunda-feira seria, para si, mais um dia normal, não fossem dois acontecimentos: o maior número de carros na fila para a Ponte e o facto de, quando voltou a ligar o motor, o carro se ter ido abaixo.

Eduardo Fonseca parou na portagem para a Ponte 25 de Abril, onde passa todos os dias para ir trabalhar. Teve uma avaria no carro.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Acho que foi o disco da embraiagem, que já o devia ter mudado… Foi ao arrancar”, contava ao Observador mais à frente, onde tinha encostado no seu pequeno carro privado azul-escuro, à espera do reboque. “Agora vou ver se mando arranjar o carro, ou apanho transportes… Lá vou ter de usar máscara”, dizia o motorista, enquanto fumava uma cigarrilha à janela para matar o tempo.

Frequentador diário da Ponte, mostrou-se rápido a avaliar a diferença face à semana passada: “Há um bocadinho de diferença, já é significativa. Vê-se que há muito movimento”, apontava, sem grandes dúvidas. No entanto, não havia ainda fila no famoso “garrafão” de acesso ao tabuleiro da ponte, com o trânsito a fluir sem problemas ao início da manhã, altura de habitual movimento. “Quando abrirem as escolas é que vai ser pior”, vaticinava este habitante do Seixal.

O mesmo se registava no IC19, onde também era clara uma maior afluência de carros face ao início da semana anterior. Mas o habitual (pré-Covid 19) “pára-arranca” de Sintra a Lisboa, em hora de ponta, não aconteceu. O trânsito abrandava um pouco na chegada a Lisboa, depois de se passar as saídas da Amadora e do Hospital Amadora-Sintra, mas rapidamente tornava a fluir. Na A5, o cenário repetia-se. Nas estradas de acesso a Lisboa, por isso, o dia não foi “normal” — nem de trânsito parado, como em era pré-Covid, nem de estradas desertas como em tempos de estado de emergência.

Algum trânsito à entrada de Lisboa nas portagens da Ponte 25 de Abril.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Aos 56 anos — e ainda enquanto aguarda o reboque — Eduardo sente-se conformado com toda esta situação provocada pela pandemia. Trazia consigo álcool-gel no carro, esta segunda-feira, dizia  que tem tido cuidados para se manter afastado dos outros e elogiava a atuação do Governo nesta crise. Mas acabava por admitir que lhe faltam os pequenos prazeres: “Tenho saudades, saudades entre aspas, de ver o Benfica”, admite. “Não estou habituado a uma situação em que quero beber um café, quero-me sentar e não posso… Mas tem de ser, até haver vacina não há hipótese. É o vírus, que ainda aí”, avisava, antes de dar mais uma baforada na cigarrilha castanha.

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