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"Em nome do Bloco, peço desculpa"
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▲"Em nome do Bloco, peço desculpa"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲"Em nome do Bloco, peço desculpa"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Dos encontros com o Papa à campanha de Pintasilgo. Pureza traz percurso "raro" no Bloco para mostrar "abertura"

Bloco em mínimos escolheu Pureza para reconquistar "afeto" dos eleitores. Desafio é "juntar lutas" e tentar esquerda mais unida. Líder tem experiência em "diálogos" na eutanásia ou na troika.

“Muitas vezes, a brusquidão, a severidade e a falta de diálogo magoam-me.” A frase é de José Manuel Pureza, novo coordenador do Bloco de Esquerda, e foi dita à jornalista Maria João Avillez, em 2019, num ciclo de conversas sobre religião. O rosto dos poucos católicos que existirão no partido revelava então que era criticado por ser simultaneamente da esquerda radical e católico praticante pelos dois lados do espetro, “mais na Igreja do que na política”. Agora, a transversalidade e a capacidade de chegar a campos diferentes é-lhe apontada como a qualidade mais necessária numa altura em que vai liderar um partido em sérias dificuldades — e numa altura em que o Bloco acredita que, para dar a volta à situação, tem de apostar no diálogo e rejeitar o “sectarismo”.

De resto, no seu primeiro discurso como coordenador do partido, José Manuel Pureza fez um primeiro e simbólico ato de contrição: “Em nome do Bloco, peço desculpa ao nosso povo porque a esquerda não conseguiu ainda vencer a direita extrema que estrangula o país”. Na mesma linha, definiu o caminho de aproximação que o partido está obrigado a fazer. “Temos de ouvir muito, aprender muito, discutir muito para assim escrevermos um novo programa político para o Bloco de Esquerda.”

Durante a XIV Convenção do Bloco de Esquerda, que decorreu este fim de semana em Lisboa, as justificações para a escolha de Pureza foram quase sempre no mesmo sentido: será um líder capaz de fazer pontes, aproximar pessoas, e fazê-lo tanto fora do partido — junto de outros partidos e movimentos sociais — como dentro, voltando a conversar, como dizia Marisa Matias, com quem está “triste” e “desencantado” com o Bloco, recuperando o “elo emocional” com as pessoas de esquerda.

A visão menos benévola é transmitida por alguns dos críticos da atual corrente maioritária, de que Pureza é próximo, embora não tenha integrado os órgãos mais restritos da direção, é diferente. Para estes, o antigo vice da Assembleia da República terá sido escolhido pelo perfil mais transversal mas também por ser “o anti-Mariana”, “um homem de meia-idade, católico, que corresponde ao país mais recuado” que existirá hoje. “Sorte a nossa, ter quem tanto sabe falar de marxismo com o Papa Francisco“, respondia Catarina Martins a partir do púlpito.

Ainda que a separação entre as correntes fundadoras do Bloco esteja hoje muito diluída, do ponto de vista do seu percurso político, José Manuel Pureza será o primeiro líder originário do movimento liderado por Miguel Portas, o Política XXI. Aliás, o novo coordenador do partido terminou o seu discurso lembrando, precisamente, Miguel Portas. “Nos momentos mais improváveis, quando muitos de nós nos focávamos nas sombras do horizonte, o Miguel Portas dizia-nos ‘isto vai’. O ‘isto vai’ do Miguel não era uma convocação a um otimismo sem razão. O ‘isto vai’ do Miguel Portas vinha do fundo da sua leitura atenta da realidade e das brechas de luz que ele via despontar por entre as sombras.”

Não foi fundador do partido — é o militante n.º 406 — e começou, ainda estudante (tinha 15 anos no 25 de Abril), por integrar a Juventude Universitária Católica. Chegou a fazer parte do MES, partido fundado por Jorge Sampaio, em 1975, e a União da Esquerda para a Democracia Socialista. Também participou na campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo, tendo escrito vários textos em defesa do seu pensamento — descreve a única mulher que foi primeira-ministra como “um vulto maior da geração de católicos que teve a coragem de ir rompendo um dos pilares mais fundos do regime de Salazar, a Igreja, cuja missão estava ligada à defesa do regime, e abrindo janelas de diálogo ferreamente fechadas”.

No Bloco de Esquerda, vai-se apontando o percurso “raro” dentro do partido, passando por vários setores da esquerda, para apontar os sinais de que a liderança de Pureza — que mudará os nomes de metade do secretariado, núcleo mais restrito da direção do partido — pode trazer mudança.

“Tem uma experiência como poucas pessoas dentro do Bloco, de trabalho unitário, de aproximação entre correntes. Há pouco tempo ele estava a discutir com o Papa Francisco o diálogo entre marxistas e cristãos", afirmou Francisco Louçã

A luta pela eutanásia e as conversas com o Papa

Num Bloco de Esquerda reduzido a mínimos, e embora a iniciativa de não se recandidatar tenha partido de Mortágua, os dirigentes concordam: havia demasiado ruído à volta da líder anterior, os anticorpos e “ataques” não ajudavam a passar a mensagem, a figura da coordenadora era mais importante (e mais controversa) do que as políticas do Bloco.

Pureza tentará ser a “cura” para esse problema, vindo de um ciclo mais afastado da política e das polémicas — perdeu o assento de deputado em 2022, tendo-se dedicado à carreira académica — e garantindo que o seu perfil é dialogante, como dizia à entrada da convenção: “Os diálogos são sempre difíceis, porque nos obrigam a pormo-nos em causa. Mas essa é a minha vida. Vou dar tudo o que sei para isso”.

O maior exemplo dessa capacidade de transpor as fronteiras do partido será a maior bandeira que carregou, a da legalização da eutanásia, ao lado do grande amigo João Semedo mas também de muitas figuras extra-Bloco — de Rui Rio a Francisco Pinto Balsemão. Em entrevista ao Público, em 2018, contava que tinha percorrido o país durante dois anos, tentando sensibilizar as pessoas com quem conversava para o tema.

“O que motivava um grande número de pessoas a terem uma posição sobre o assunto era a sua experiência de contacto com alguém próximo, familiar ou amigo, cujo fim de vida tinha sido muito doloroso, degradante do ponto de vista físico e até relacional. Diante das histórias concretas, todo o tipo de rigidez de princípios se desvanecia com muita facilidade. Houve um debate muito intenso, diverso, que creio que propiciaria uma decisão que fosse madura”.

Na altura, Pureza insistia que não havia nada de estranho ou de excêntrico em ser militante de um partido de esquerda radical, católico e defensor da eutanásia ao lado de políticos de direita: “Jesus Cristo não morreu acamado, nem velhinho. Morreu como morreu, porque o poder político e religioso do seu tempo foram incapazes de aceitar a sua mensagem, que era verdadeiramente revolucionária. Também me pergunto por que é que esta questão da compatibilidade entre ser militante de um partido de esquerda e a condição de católico causa tanta perplexidade e não causa nenhuma perplexidade que um militante de direita seja católico e que defenda a flexibilidade das leis laborais, o liberalismo económico, ou a prevalência do capitalismo”.

Noutro momento, sublinhava: “Jesus é um tipo que se dá com prostitutas, com cobradores de impostos que representam o colonialismo romano, que tem um gesto de amor para com um centurião, que faz isto e que nisto cria alicerces para uma mensagem não de lei, mas de amor”.

O diálogo entre os subscritores iniciais do manifesto pela legalização da morte assistida continuou, como agora os bloquistas se esforçam por recordar, para dar exemplos da facilidade de Pureza em chegar a pessoas fora do Bloco. Em 2024, nomes como Pureza, Rio e Balsemão, mas também vários dirigentes da Iniciativa Liberal e deputados do PS, voltavam a juntar-se para criticar o Governo por ainda não ter regulamentado a lei, inicialmente aprovada no Parlamento em 2020 (e depois travada pelo Tribunal Constitucional e por novos pedidos de fiscalização após as correções).

“A posição, que alguns titulares de cargos políticos vêm defendendo, de que a regulamentação desta lei não deve ser feita constitui um inequívoco apelo ao seu incumprimento, algo inaceitável num Estado de Direito Democrático, assente no primado da lei e no respeito pela vontade popular”, acusavam os subscritores. “Mal andaria a democracia portuguesa se a expressão da vontade da larga maioria do Parlamento, reiterada cinco vezes, ficasse refém do desagrado de quem, nessas cinco vezes, não teve vencimento de causa”, lia-se no texto, que criticava tanto os governos anteriores do PS como os de Montenegro.

Também no contexto da sua posição como católico praticante surge outro exemplo dos tais diálogos que quer promover, este descrito por Francisco Louçã como “uma pérola no mundo” e prova da “capacidade de derrubar muros”. “Tem uma experiência como poucas pessoas dentro do Bloco, de trabalho unitário, de aproximação entre correntes. Há pouco tempo ele estava a discutir com o Papa Francisco o diálogo entre marxistas e cristãos.” Referia-se ao grupo de diálogo entre o Vaticano e a esquerda europeia, lançado pelo grego Alexis Tsipras em conjunto com a plataforma Transform Europe em 2014, para conversar com o Papa.

“A certa altura [numa reunião], Francisco terá dito que diante da grandeza dos problemas que nenhuma das partes tem capacidade para resolver, valia a pena continuarem a conversar”, contou Pureza a Maria João Avillez sobre essa experiência. “Abordam-se questões concretas para explorar as possíveis convergências entre o ensino social da Igreja e aquilo que, do lado da esquerda radical europeia, é a compreensão desses fenómenos.” E acrescentava: “Tem sido muito interessante verificar que ambos os lados valorizam mais a complementaridade do que a fronteira”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A “oportunidade” da greve geral e o diálogo na troika

É disso que um Bloco reduzido acredita que precisará: olhar mais à complementariedade do que à fronteira e tentar lutar contra o sectarismo — dentro e fora do próprio partido. Não por acaso, por toda a convenção foi-se repetindo que a greve geral de 11 de dezembro será uma “oportunidade” para o Bloco voltar ao objetivo de dialogar e se enraizar junto de movimentos sociais, sindicatos e outros partidos, tentando provar que a esquerda consegue voltar a criar plataformas grandes e dinâmicas — e que o Bloco não se quer acantonar. Além disso, a fragmentação dos defensores de causas que serão comuns à esquerda, da habitação à Palestina, preocupa.

No palco da convenção, foi-se falando sobre Pureza sempre nesse sentido. José Gusmão classificava o novo líder como “a pessoa certa para interpretar o espírito do tempo — sabe ouvir, dialogar e sabe promover diálogos. Precisaremos de todos estes processos para conseguir fazer estas convergências na pluralidade dentro e fora do Bloco”. E avisava os camaradas de partido: “Não precisamos de pureza, precisamos do Pureza”. José Soeiro elogiava-lhe a “inteligência sensível e ecuménica”, a “capacidade de escuta e agregação“, e considerava-o a pessoa certa para “refazer o elo emocional com as pessoas, também do ponto de vista interno”.

Já o bloquista João Teixeira Lopes, antigo candidato à Câmara do Porto, falava quase em uníssono com Soeiro, dizendo confiar em Pureza para “reatar o fio do afeto com o povo de esquerda” e “verdadeiramente escutar o país real”, de forma a que o Bloco consiga voltar a representar maiorias sociais e a atrair eleitorado — novo e descontente ou antigo e desencantado.

Quanto a esses debates e diálogos feitos com o resto da esquerda, o exemplo que mais surge entre bloquistas é o do Congresso das Alternativas, no tempo da troika, cuja comissão organizadora integrou mas que também incluía nomes como Carvalho da Silva, Vasco Lourenço, Alfredo Barroso, Domingos Lopes ou Pilar del Rio. O grupo, que tinha por objetivo negar que o memorando da troika fosse “um caminho único”, apresentando estudos e argumentos para “mudar o discurso da inevitabilidade” desta política, era também visto por bons olhos por Mário Soares.

No seu discurso de encerramento, na convenção, Pureza defendeu em vários momentos a “junção de forças” à esquerda ou a recusa dos “sectarismos”, assegurando que não será pelo Bloco que não se construirão alternativas mais alargadas à esquerda. “São as garantias da política que dialoga com quem não pensa como nós sobre todos os assuntos, da política que não nos fecha sobre nós próprios. Essa abertura e essa firmeza deram frutos no passado, sabemos bem, e abriram caminho a algumas das maiores vitórias que este país viveu no pós-25 de Abril”, atirou, resumindo assim o espírito que quer que seja o da sua liderança: “Abertura e firmeza”.

De resto, no seu primeiro discurso como coordenador do partido, José Manuel Pureza fez um primeiro e simbólico ato de contrição: "Em nome do Bloco, peço desculpa ao nosso povo porque a esquerda não conseguiu ainda vencer a direita extrema que estrangula o país". Na mesma linha, definiu o caminho de aproximação que o partido está obrigado a fazer. "Temos de ouvir muito, aprender muito, discutir muito para assim escrevermos um novo programa político para o Bloco de Esquerda."

A importância do sentido de humor. E as críticas ao “anti-Mariana”

Em entrevista ao Observador, o dirigente Alexandre Abreu, que fará parte da comissão política de Pureza, defendia que Pureza tem “uma grande capacidade de comunicar, de fazer pontes, tem um sentido de humor muito fino – até os adversários reconhecem isso –, será uma boa pessoa para ajudar a passar a mensagem numa altura em que sentimos esta necessidade de, com grande humildade, para com o exterior do próprio partido, para dentro também, falarmos com os vários setores da sociedade que já estiveram mais próximos do Bloco e que se afastaram.”.

Os elogios nesse sentido aparecem noutros partidos: num perfil recente do Expresso, o social-democrata Duarte Pacheco, que em comum com Pureza tinha “o futebol e a religião” — e foi secretário da mesa da AR enquanto o bloquista era vice — falava numa relação “excelente” com alguém que “sabia ouvir”. “O facto de ser católico faz com que tenha uma visão da sociedade que permite perceber que, muitas vezes, é no meio da ponte que está a virtude e não ficar de um lado da barricada aos gritos. É a grande diferença dele para Mariana Mortágua”.

Mas também é esse tipo de elogios, vindos inclusivamente da direita, que incomodam parte do partido. Ao Diário de Notícias, a bloquista Ana Sofia Ligeiro, que representava uma moção adversária na convenção, dizia que Pureza não vem cortar com a direção anterior: “É uma tentativa de criar um coordenador mais agradável para a atual conjuntura, é mais moderado, centrista. Escolher um homem de meia-idade, católico, é corresponder ao país mais recuado, que está a abdicar de certos valores que dávamos como conquistados. Não é um nome que nos dá descanso”.

Noutra moção, Nuno Pinheiro lamentava: “Pureza tem trajeto dentro e fora do partido, mas, infelizmente, não o estão a nomear pelas qualidades, mas por ser o anti-Mariana, que era uma mulher, mais jovem, com imagem mais agressiva. Pureza é mais moderado, homem e católico progressista.”

O sociólogo, doutorado em Sociologia, professor catedrático de Relações Internacionais (pesquisa sobretudo sobre “estudos para a paz” e “o humanitarismo como ideologia e prática”), foi três vezes deputado pelo Bloco, líder parlamentar e vice da AR, enfrentará agora provavelmente o seu desafio mais difícil: reanimar um partido que passou o fim de semana no divã, reconhecendo que vive no seu momento mais baixo; convencer a oposição interna de que não vem mudar algo para que fique tudo na mesma; e, mais importante, convencer os eleitores — incluindo os desiludidos com o Bloco — da utilidade do partido.

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