1245,1kWh poupados 1245,1 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

Getty Images

Getty Images

“É fundamental que as cidades do futuro sejam produtoras de água”

Produzir água e preservar os solos e a biodiversidade, garantindo uma maior sintonia com a natureza: eis o que a investigadora Maria José Roxo considera essencial para as cidades do futuro.

Até ao dia 27 de maio, data em que o Observador organiza a Cimeira das Cidades, ouvimos alguns especialistas nas áreas de habitação, tecnologia, ambiente e mobilidade, a quem pedimos ideias para as urbes do futuro. A entrada no evento é gratuita, mediante inscrição, que pode ser feita AQUI.

Num tempo em que os extremos climáticos se tornam cada vez mais comuns e a pressão urbana cresce, pensar a cidade do século XXI é mais do que um exercício de planeamento — é uma urgência civilizacional.

É essa a convicção da geógrafa Maria José Roxo, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, para quem, em termos ambientais, a grande urgência no planeamento das cidades é torná-las produtoras de água. Mas a visão da investigadora vai além da simples gestão hídrica — trata-se de redefinir a própria lógica urbana numa perspetiva sistémica e ecológica.

A cidade do futuro, segundo a professora catedrática do Departamento de Geografia e Planeamento Regional da FCSH-Nova e investigadora no Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais CICS.NOVA, tem três pilares fundamentais: água, solo e vegetação. E o que está em causa é reaproximar (e ressintonizar) as cidades e os cidadãos dos ciclos da natureza.

Reduzir o consumo, aumentar a produção

Tudo começa com um diagnóstico óbvio, mas muitas vezes ignorado: “É nas grandes cidades que se concentra a maioria da população e por isso elas são as maiores consumidoras de recursos, mas não são as maiores produtoras ou não os produzem de todo”. Esta é uma lógica insustentável, que além de tornar evidente a necessidade de reduzir o consumo e o desperdício, torna clara a importância da ideia das “cidades produtoras de água” – uma resposta direta aos dois extremos que a crise climática amplifica: as inundações e as secas.

Hoje, quando chove demasiado, as cidades entram em colapso; quando chove de menos, entram em racionamento. A solução passa por transformá-las de forma a contribuírem para reduzir a imprevisibilidade do clima, mas sobretudo para responderem mais eficazmente (e sustentavelmente) a esta imprevisibilidade.

“A vegetação faz a conexão entre a água e o solo e é preciso que as cidades sejam verdadeiramente verdes. Não é com telhados verdes ou corredores ecológicos que vamos lá". O que falta às cidades portuguesas, acredita a geógrafa, é consistência, só possível com um pensamento urbanístico sistémico. “Fazem-se remendos, mas não se pensa a cidade como um todo”. Esta ausência de visão estratégica leva a decisões que são um contrassenso, como “cortar árvores para construir ciclovias”.
Maria José Roxo

“As grandes cidades nunca sentem o impacto severo do que é uma seca, por exemplo, porque a água continua a chegar a casa. Só terão noção quando abrirem a torneira e não sair nem uma gota. E esta desconexão da maioria dos seres humanos (que vivem nas grandes cidades) com a natureza que tem levado aos grandes problemas ambientais que vivemos”, diz a investigadora, que aponta a preservação da natureza no espaço urbano – ou a sua renaturalização – como essencial para a sustentabilidade e adaptação deste e, mais do que isso, para que as cidades sejam um “motor e um elemento ativo da mitigação das mudanças climáticas”.

É de mudanças climáticas que falamos, e não de alterações, de acordo com Maria José Roxo, que integra a Comissão Nacional de Combate à Desertificação e a Academia de Ciências de Lisboa. “As cidades serão cada vez mais impactadas por extremos (inundações ou secas), que sabemos que acontecem devido à mudança climática e é importante pensar nesses termos: mudança climática e não alteração climática. Porque mudança é mudança e as cidades têm de enfrentá-la, adaptar-se a ela e mitigá-la”.

Os três elementos vitais: água, solo e biodiversidade

A primeira dimensão da transformação que é necessária, para Maria José Roxo, passa então pelas cidades produtoras de água, com um investimento estratégico no armazenamento e tratamento das águas pluviais e residuais em excesso, através, por exemplo, “de bacias de retenção a montante, como já se está a fazer um pouco com o plano geral de drenagem de Lisboa”.

Ou recorrendo a outros métodos, explica, como o que existe em “várias cidades europeias, com sistemas de recolha e armazenamento de águas pluviais, em grandes depósitos de água por baixo dos recintos desportivos. Estas águas podem servir depois para rega, limpeza e manutenção de espaços verdes. Não faz sentido e é inacreditável que se use água potável para regar ou lavar passeios e carros”.

▲ “É nas grandes cidades que se concentra a maioria da população, por isso elas são as maiores consumidoras de recursos mas não são as maiores produtoras ou não os produzem de todo”, diz Maria José Roxo

Mas para a retenção e produção de água, o solo é fundamental. É este, então, segundo pilar desta transformação: a preservação do solo nas cidades como elemento vital no ciclo da água e na biodiversidade.

“O solo é uma esponja. Impermeabilizá-lo é cortar o ciclo natural da água e da vida”. Uma cidade coberta de betão perde a capacidade de lidar com a chuva e o calor. E perde também a oportunidade de regenerar o lençol freático, alimentar nascentes e sustentar vegetação. Daí que seja prioritário para a investigadora um planeamento rigoroso que garanta o equilíbrio entre o construído e o natural, entre o betão e a terra.

O terceiro vértice do triângulo ecológico é a vegetação. “A vegetação é o elemento que faz a conexão entre os outros dois, a água e o solo, e é preciso que as cidades sejam verdadeiramente verdes. Não é só com telhados verdes ou corredores ecológicos que vamos lá. Trata-se de pensar bem a cidade, projetá-la tendo como prioridade o equilíbrio entre construção e natureza e criando espaços verdes que garantam a conexão entre si”, diz a geógrafa.

“Não é só uma questão de lazer, é uma questão de biodiversidade, de ar, de sombra, de manter o ciclo hidrológico e de contribuir para a mitigação e a adaptação climática”.

Pensar bem a cidade é pensar a vegetação não como um ornamento, mas como uma infraestrutura viva. As árvores têm de ter raízes em profundidade, para resistirem às tempestades, têm de ter caleiras e espaço para crescer, explica Maria José Roxo, que realça a importância de respeitar a natureza e dá como exemplo a renaturalização da Praça de Espanha.

“As grandes cidades nunca sentem o impacto severo do que é uma seca porque a água continua a chegar a casa. Só terão noção quando abrirem a torneira e não sair nem uma gota. E esta desconexão da maioria dos seres humanos (que vivem nas grandes cidades) com a natureza que tem levado aos grandes problemas ambientais que vivemos.”
Maria José Roxo

“Tem espécies silvestres, atrai aves e polinizadores e o que eu preciso é que espaços como este sejam replicados pela cidade. Outro elemento de conetividade importante são as hortas urbanas, que tiveram um pico na pandemia e depois infelizmente perderam gás, mas é disso que precisamos, de uma rede verde, com conectividade ecológica real.”

O que falta às cidades portuguesas, de acordo com a geógrafa, é consistência, só possível com um pensamento urbanístico sistémico. “Fazem-se remendos, mas não se pensa a cidade como um todo”. Esta ausência de visão estratégica leva a decisões que são um contrassenso, como “cortar árvores para construir ciclovias”, alerta a investigadora.

As cidades do futuro têm de estar em sintonia com a natureza

Apesar dos retrocessos políticos na luta contra as alterações climáticas, Maria José Roxo não perde a esperança. “As transições são sempre difíceis, mas acredito que, com pressão social e bons exemplos, as cidades podem mudar”. As referências estão sobretudo nas cidades nórdicas e asiáticas. “Têm milhões de pessoas, mas têm uma conexão com a natureza totalmente diferente da nossa. Para eles a natureza é fundamental.”

É por esta ideia de reconexão e respeito pela natureza que temos de nortear a reflexão sobre as nossas cidades, considera Maria José Roxo. “A consciência ambiental não se aprende só nos manuais escolares. Aprende-se sobretudo a ver as árvores perderem as folhas no outono e a florirem na primavera. Se eu plantar palmeiras numa cidade europeia é como se construísse um muro, mas se respeitar as espécies autóctones, sintonizo os habitantes da cidade com o ritmo das estações do ano, o que é importantíssimo”.

É isso que as cidades do futuro têm de ser, de acordo com Maria José Roxo. “Cidades em sintonia com a natureza”.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.