Até ao dia 27 de maio, data em que o Observador organiza a Cimeira das Cidades, ouvimos alguns especialistas nas áreas de habitação, tecnologia, ambiente e mobilidade, a quem pedimos ideias para as urbes do futuro. A entrada no evento é gratuita, mediante inscrição, que pode ser feita AQUI.
Num tempo em que os extremos climáticos se tornam cada vez mais comuns e a pressão urbana cresce, pensar a cidade do século XXI é mais do que um exercício de planeamento — é uma urgência civilizacional.
É essa a convicção da geógrafa Maria José Roxo, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, para quem, em termos ambientais, a grande urgência no planeamento das cidades é torná-las produtoras de água. Mas a visão da investigadora vai além da simples gestão hídrica — trata-se de redefinir a própria lógica urbana numa perspetiva sistémica e ecológica.
A cidade do futuro, segundo a professora catedrática do Departamento de Geografia e Planeamento Regional da FCSH-Nova e investigadora no Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais CICS.NOVA, tem três pilares fundamentais: água, solo e vegetação. E o que está em causa é reaproximar (e ressintonizar) as cidades e os cidadãos dos ciclos da natureza.
Reduzir o consumo, aumentar a produção
Tudo começa com um diagnóstico óbvio, mas muitas vezes ignorado: “É nas grandes cidades que se concentra a maioria da população e por isso elas são as maiores consumidoras de recursos, mas não são as maiores produtoras ou não os produzem de todo”. Esta é uma lógica insustentável, que além de tornar evidente a necessidade de reduzir o consumo e o desperdício, torna clara a importância da ideia das “cidades produtoras de água” – uma resposta direta aos dois extremos que a crise climática amplifica: as inundações e as secas.
Hoje, quando chove demasiado, as cidades entram em colapso; quando chove de menos, entram em racionamento. A solução passa por transformá-las de forma a contribuírem para reduzir a imprevisibilidade do clima, mas sobretudo para responderem mais eficazmente (e sustentavelmente) a esta imprevisibilidade.
“As grandes cidades nunca sentem o impacto severo do que é uma seca, por exemplo, porque a água continua a chegar a casa. Só terão noção quando abrirem a torneira e não sair nem uma gota. E esta desconexão da maioria dos seres humanos (que vivem nas grandes cidades) com a natureza que tem levado aos grandes problemas ambientais que vivemos”, diz a investigadora, que aponta a preservação da natureza no espaço urbano – ou a sua renaturalização – como essencial para a sustentabilidade e adaptação deste e, mais do que isso, para que as cidades sejam um “motor e um elemento ativo da mitigação das mudanças climáticas”.
É de mudanças climáticas que falamos, e não de alterações, de acordo com Maria José Roxo, que integra a Comissão Nacional de Combate à Desertificação e a Academia de Ciências de Lisboa. “As cidades serão cada vez mais impactadas por extremos (inundações ou secas), que sabemos que acontecem devido à mudança climática e é importante pensar nesses termos: mudança climática e não alteração climática. Porque mudança é mudança e as cidades têm de enfrentá-la, adaptar-se a ela e mitigá-la”.
Os três elementos vitais: água, solo e biodiversidade
A primeira dimensão da transformação que é necessária, para Maria José Roxo, passa então pelas cidades produtoras de água, com um investimento estratégico no armazenamento e tratamento das águas pluviais e residuais em excesso, através, por exemplo, “de bacias de retenção a montante, como já se está a fazer um pouco com o plano geral de drenagem de Lisboa”.
Ou recorrendo a outros métodos, explica, como o que existe em “várias cidades europeias, com sistemas de recolha e armazenamento de águas pluviais, em grandes depósitos de água por baixo dos recintos desportivos. Estas águas podem servir depois para rega, limpeza e manutenção de espaços verdes. Não faz sentido e é inacreditável que se use água potável para regar ou lavar passeios e carros”.
▲ “É nas grandes cidades que se concentra a maioria da população, por isso elas são as maiores consumidoras de recursos mas não são as maiores produtoras ou não os produzem de todo”, diz Maria José Roxo
Mas para a retenção e produção de água, o solo é fundamental. É este, então, segundo pilar desta transformação: a preservação do solo nas cidades como elemento vital no ciclo da água e na biodiversidade.
“O solo é uma esponja. Impermeabilizá-lo é cortar o ciclo natural da água e da vida”. Uma cidade coberta de betão perde a capacidade de lidar com a chuva e o calor. E perde também a oportunidade de regenerar o lençol freático, alimentar nascentes e sustentar vegetação. Daí que seja prioritário para a investigadora um planeamento rigoroso que garanta o equilíbrio entre o construído e o natural, entre o betão e a terra.
O terceiro vértice do triângulo ecológico é a vegetação. “A vegetação é o elemento que faz a conexão entre os outros dois, a água e o solo, e é preciso que as cidades sejam verdadeiramente verdes. Não é só com telhados verdes ou corredores ecológicos que vamos lá. Trata-se de pensar bem a cidade, projetá-la tendo como prioridade o equilíbrio entre construção e natureza e criando espaços verdes que garantam a conexão entre si”, diz a geógrafa.
“Não é só uma questão de lazer, é uma questão de biodiversidade, de ar, de sombra, de manter o ciclo hidrológico e de contribuir para a mitigação e a adaptação climática”.
Pensar bem a cidade é pensar a vegetação não como um ornamento, mas como uma infraestrutura viva. As árvores têm de ter raízes em profundidade, para resistirem às tempestades, têm de ter caleiras e espaço para crescer, explica Maria José Roxo, que realça a importância de respeitar a natureza e dá como exemplo a renaturalização da Praça de Espanha.
“Tem espécies silvestres, atrai aves e polinizadores e o que eu preciso é que espaços como este sejam replicados pela cidade. Outro elemento de conetividade importante são as hortas urbanas, que tiveram um pico na pandemia e depois infelizmente perderam gás, mas é disso que precisamos, de uma rede verde, com conectividade ecológica real.”
O que falta às cidades portuguesas, de acordo com a geógrafa, é consistência, só possível com um pensamento urbanístico sistémico. “Fazem-se remendos, mas não se pensa a cidade como um todo”. Esta ausência de visão estratégica leva a decisões que são um contrassenso, como “cortar árvores para construir ciclovias”, alerta a investigadora.
As cidades do futuro têm de estar em sintonia com a natureza
Apesar dos retrocessos políticos na luta contra as alterações climáticas, Maria José Roxo não perde a esperança. “As transições são sempre difíceis, mas acredito que, com pressão social e bons exemplos, as cidades podem mudar”. As referências estão sobretudo nas cidades nórdicas e asiáticas. “Têm milhões de pessoas, mas têm uma conexão com a natureza totalmente diferente da nossa. Para eles a natureza é fundamental.”
É por esta ideia de reconexão e respeito pela natureza que temos de nortear a reflexão sobre as nossas cidades, considera Maria José Roxo. “A consciência ambiental não se aprende só nos manuais escolares. Aprende-se sobretudo a ver as árvores perderem as folhas no outono e a florirem na primavera. Se eu plantar palmeiras numa cidade europeia é como se construísse um muro, mas se respeitar as espécies autóctones, sintonizo os habitantes da cidade com o ritmo das estações do ano, o que é importantíssimo”.
É isso que as cidades do futuro têm de ser, de acordo com Maria José Roxo. “Cidades em sintonia com a natureza”.