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"E o Campeão é..." do primeiro debate a dois do Benfica. Noronha vai ter de pedalar mais que Rui Costa porque perdeu. Veja as notas

Falou-se da guerra nas redes sociais, de Luís Felipe Vieira, de Bernardo Silva, de Mourinho e de gastos que não valeram vitórias. Mas Noronha assumiu que vai ter de pedalar mais que Rui Costa. E vai.

A contratação de Mourinho por Rui Costa e aposta no treinador por parte de Noronha Lopes. A garantia do regresso de Bernardo Silva, sem data marcada, jogador com quem Noronha fala regularmente e o aviso do ainda presidente de que “quando um jogador é benfiquista e quer regressar, regressa pelo clube”. E a falta de vitórias benfiquistas, que Noronha ilustrou com um quadro cheio de Sporting e FC Porto, a que o ex-capitão encarnado garantiu que o clube está preparado para ganhar todas as provas em que está envolvido. Foram estes os temas que geraram mais picardias entre os dois candidatos à segunda volta das eleições do Benfica, João Noronha Lopes e Rui Costa.

O outro tema que gerou polémica foi o das mensagens de apoio ao voto enviadas pela lista de Noronha Lopes e  que este se apressou a dizer que era “completamente um não-assunto”. Depois a explicação: “Aquelas mensagens foram mandadas a voluntários e a pessoas que estavam inscritas como voluntárias. Garanto que são só pessoas ligadas à candidatura”. Mas Rui Costa contestou e falou em “falta de ética”, dizendo que “importa  saber quantas pessoas são” e ironizando: “Esses voluntários devem ser quase tantos como os sócios”.

Houve ainda discórdia sobre primeiro o afastamento e agora a aproximação de Noronha Lopes a Luís Filipe Vieira, após uma tirada de Rui Costa, e depois críticas pelos gastos superiores a 400 milhões que, só por si, obrigam a fazer uma avaliação negativa da atual gestão, segundo Noronha Lopes. E a acusação do atual presidente de haver ideias copiadas do seu programa.

Quanto a expectativas, Noronha diz que “parte com um atraso em relação ao Rui” e por isso vai “ter que pedalar um bocadinho mais”, mas tem “uma grande convicção” de que pode “ganhar”.

Rui Costa mostrou mais confiança tendo em conta os resultados da primeira volta: “A minha convicção é que foi um voto de confiança à minha pessoa e à minha liderança”.

O debate, em sinal aberto em três canais de notícias, contou com a moderação dos jornalistas Mariana Águas (CMTV), Catarina Cardoso (CNN Portugal), Alexandre Santos (RTP Notícias) e Paulo Garcia (SIC Notícias).

O Observador seguiu e avaliou este primeiro debate para a segunda volta das eleições do Benfica, que têm a segunda volta sábado, dia 8 de novembro. À semelhança dos debates políticos, um painel de três comentadores deu notas de 1 a 20 num “E o Campeão é…” — tal como o programa e podcast da Rádio Observador — a cada um dos candidatos à liderança do clube benfiquista. Além da avaliação, há um texto de apreciação ao próprio debate.

12,3 Noronha Lopes

14,7 Rui Costa

Luís Rosa — Rui Costa ganhou claramente o debate. Esteve muito seguro, dominou praticamente todos os temas, fez ataques certeiros ao adversário, tendo conseguido criar a ideia de que Noronha Lopes é alguém que entra em contradição com facilidade. Seja em relação à contratação de José Mourinho — que antes, na ótica de Noronha, era trunfo eleitoral de Rui Costa, e depois passou a ser o seu próprio treinador (até porque Ruben Amorim está de pedra e cal no Manchester United —, seja em relação a muitos outros aspetos de gestão desportiva. O ataque final de Rui Costa, que até nasceu de um erro de comunicação de Noronha Lopes (mais um…), foi muito eficaz. Confrontado com uma pergunta de algibeira sobre o que exigia a José Mourinho para lhe renovar o contrato, Noronha Lopes respondeu: “Estou convicto de que o Mourinho vai ser campeão este ano pelo Benfica.” Erro de principiante porque deveria ter referido “Comigo e com a minha estrutura, Mourinho será campeão no Benfica.” Não disse e Rui Costa não perdoou, a rir-se: “Afinal, o Benfica não está assim tão mal!…”.

Noronha Lopes precisava de desfazer, de uma vez por todas, o medo de uma parte importante da massa associativa do Benfica em relação a uma mudança protagonizada por si. Esteve muito longe de tal objetivo, mostrando-se hesitante, nervoso e (muito) pouco convincente. Até no trunfo Bernardo Silva falhou clamorosamente. Repetindo o que já tinha dito inúmeras vezes, sem acrescentar qualquer novidade, Noronha viu Rui Costa a arrumar tal trunfo com uma tremenda eficácia: “Quando um jogador é benfiquista, regressa pelo Benfica, e não por um presidente. O jogador do presidente não é bom para o jogador e nem é bom para o clube”. Como quem diz, “Bernardo regressará comigo ou com qualquer presidente”. Trunfo de Noronha Lopes anulado com eficácia a 100%.

Noronha só foi minimamente eficaz aos 45 minutos de debate quando constatou o falhanço em toda a linha da gestão desportiva de Rui Costa. “Cinco treinadores em quatro anos, dois treinadores que começam a época sem que os plantéis tenham sido escolhidos por cada um deles. Como é que podemos ganhar assim? [Rui Costa] contratou 17 titulares em 4 anos e 19 jogadores que nunca se impuseram. Gastamos mais de 400 milhões de euros e ganhamos um campeonato”. Esta era a ideia central de que deveria dar uma vitória a Noronha Lopes num debate com Rui Costa mas tal não aconteceu por demérito do primeiro candidato. E nem o salto à retaguarda, ao elogiar Luís Filipe Vieira para tentar convencer (sem sucesso) o eleitorado do ex-presidente do Benfica em votar si, resultou. Pelo contrário. Afinal, a candidatura de Noronha Lopes não se move por um corte com passado?

Miguel Cordeiro — O debate desta noite tinha dois objetivos muito claros para ambos os candidatos: segurar o eleitorado que conquistaram na primeira volta e tentar conquistar votos de eleitores que optaram por outras listas a 25 de outubro.

João Noronha Lopes foi quem mais tentou captar eleitores de outras listas. Primeiro, ao assumir que há ideias de outras candidaturas que quer aproveitar — e deu exemplos: a estratégia de João Diogo Manteigas para o associativismo e as ideias de Luís Filipe Vieira sobre o património. Depois, por duas vezes, Noronha Lopes piscou o olho a quem votou em Vieira na primeira volta. Fê-lo quando criticou a falta de convite para Luís Filipe Vieira estar presente na celebração dos 20 anos do Estádio da Luz e, novamente, ao elogiar a decisão de Vieira de segurar Jorge Jesus, mesmo em anos em que não foi campeão. Com estas incursões, Noronha Lopes tentou abraçar quem ficou órfão de candidato nesta segunda volta, mas não é líquido que o tenha conseguido fazer. Atacou bem os resultados desportivos de Rui Costa e a falta de planeamento nas duas últimas épocas, mas o candidato da Lista F continua a ser menos mediático do que Rui Costa — e dificilmente terá captado votos quando garantiu que vai mexer de imediato na estrutura do futebol, caso vença as eleições.

Rui Costa quis mostrar que era ele quem estava a jogar em casa. É o incumbente, e o debate realizou-se no edifício em que trabalha como presidente há quatro anos e como dirigente há mais de uma década e meia. Rui Costa mostrou-se agregador: foi o primeiro a colocar em cima da mesa a necessidade de garantir a união do clube depois destas eleições — e com isso levou Noronha Lopes a concordar. Foi também o primeiro a agradecer o trabalho dos funcionários do clube no ato eleitoral, e Noronha Lopes voltou a concordar. Foi ainda o primeiro a lamentar os ataques nas redes sociais — e levou Noronha Lopes a concordar mais uma vez. Aliás, neste aspeto, ao perceber que estava constantemente a seguir em concordância com Rui Costa, o oponente iniciou um ataque com casos concretos de insultos nas redes sociais, mas Rui Costa respondeu na mesma moeda.

No que toca ao futebol, o atual presidente afastou a discussão sobre títulos e tentou mostrar que o Benfica esteve sempre competitivo nas diferentes competições. Rui Costa também resolveubem o tema Bernardo Silva, ao dar o exemplo pessoal da forma como regressou ao Benfica.

No fim, Rui Costa não perdeu votos e certamente conseguiu amealhar mais alguns ao mostrar algumas incoerências nas ideias de Noronha Lopes ao longo dos últimos anos. O debate acabou com pouco rasgo, falta de “nota artística” e executantes a arriscarem pouco. Da primeira para a segunda volta há 25 mil votantes que escolheram listas que já não estão na corrida e, por isso, há muito voto por conquistar. Noronha Lopes pode ter conquistado mais votos neste debate, mas o caminho para chegar aos valores de Rui Costa é ainda longo, e o atual presidente sabe disso.

Rita Tavares — Salto para a piscina: na gíria futebolística é quando um jogador se atira para o chão a fingir ter sofrido uma falta que ou não existiu ou é bem menos grave do que o aparato. Longos minutos de debate (oportunidade única de um simultâneo em quatro canais) nisto, com candidatos a disputarem o prémio Kalimero de quem tem sido o mais agredido nas redes sociais — vejam só! — durante uma disputa eleitoral de um clube desportivo. Atira logo o ponto de partida desta avaliação para a mediania. Era amarelo para os dois.

Um desperdício. Mas sobretudo para Noronha Lopes que caiu na esparrela de Rui Costa quando estava obrigado a marcar o ritmo do debate deste início e colocar no terreno as suas forças em vez de deixar desfilar a vitimização do adversário — aquela lamúria de Costa “na AG chamaram a minha mãe à conversa”. Só aos 50 minutos de debate entrou com ataques menos incompreensíveis: à gestão desportiva (manter um treinador por 4/5 jornadas e depois substituí-lo) e pobreza de resultados (quatro anos, 400 milhões gastos, um título). Foi curtíssimo para quem tem uma desvantagem de 12 pontos e 210 mil votos para recuperar — e sobretudo os votos dos mais antigos do clube que já mostraram não quererem esquecer o seu bom filho dos relvados.

E ele, o bom filho Rui Costa, embora no papel presidencial continue sem dar um cheiro desses tempos de glória — em que só chorava quando marcava ao Benfica e não por tudo e por nada — jogou o suficiente para ficar à frente no debate. O resultadão de domingo permitiu-lhe sacudir o papel do incumbente justificativo e ficou mais solto para controlar a frente do debate e tentar segurar não só a mobilização dos sócios como o seu eleitorado de continuidade. Não enche o olho quando diz que “o Benfica quando não ganhou esteve lá para ganhar tudo” — parece mesmo o “candidato do quase” —, mas fala com desassombro e segurança da possibilidade de ir ao mercado em janeiro, esteja o que estiver (ainda) em disputa. E não saiu do debate (o cenário não tinha o brilhantismo do último) sem ainda ouvir o adversário Noronha a mostrar-se convicto de que o treinador que ele mesmo trouxe ainda vai ser campeão este ano. Tem golos mais bonitos? Sem sombra de dúvida. Mas contam todos os que entram.

[Chegou o histórico debate entre Soares e Freitas. E o socialista já conseguiu o voto dos comunistas sem “olhar para o retrato” dele. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]

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