Vamos supor que houve ali um momento, no início do século XXI, em que até se interessou pelos filmes de super-heróis. Adaptações como “X-Men” (2000) e “Homem-Aranha” (2002) chegavam ao cinema pela mão de realizadores com provas dadas, como Bryan Singer e Sam Raimi. Até Ang Lee tentou a sua sorte com “Hulk” (2003) e filmes como “Homem-Aranha 2” (2004) mostravam um ótimo compromisso entre a escalada do elevador nerd até aos blockbusters, o apelo junto do grande público e a aceitação dos universos fantásticos no cinema por via da aclamação de “O Senhor dos Anéis” de Peter Jackson (2001-2003). E não esquecer a tomada de posição das adaptações de Harry Potter, que deram início a todo um universo de investimentos em títulos da literatura fantástica juvenil transpostos para o cinema. Ou seja, o arranque do século deu coisas boas aos super-heróis.
Tudo mudou com “Homem de Ferro” (2008), de Jon Favreau. Foi esse o título que marcou o arranque do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM), que tem dado frutos muito apreciados, mas que também complicou tudo para quem prefere narrativas mais lineares. Feitas as contas, já lá vão quinze anos disto. Muitas personagens, algumas com vidas paralelas ao UCM e que, entretanto, foram recuperadas para esse mesmo cenário, outras que continuam sem os seus filmes em nome próprio — como o Hulk de Mark Ruffalo —, algumas desconhecidas do grande público, um léxico que inclui palavras como “fases” e “multiverso” e um ping pong entre cinema e séries de televisão que podem ser desmotivantes para quem quer entrar nisto agora (ou que anda há muito tempo a tentar)
Apesar de não parecer, tudo isto é normal. Sobretudo porque está tudo interligado. Nos últimos anos, sempre que há um novo filme ou uma nova série, a sensação de que um manual de instruções ajudaria não é descabida. Porque é preciso saber qualquer coisa antes, ou porque ver X irá ser importante para perceber Y, sendo que Y é uma qualquer série ou um filme que só estreará daqui a três anos. É desmotivante para quem não quer estar superligado com todo o processo. Ainda mais para quem às vezes quer só ver um filme ou uma série de que alguém diz bem. Parece que é impossível desfrutar sem estar inteirado de tudo.
[o trailer do novo “Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania”:]
Temos boas notícias: não é bem assim, apesar de não ser esta a mensagem que passa. A Quarta Fase (explicaremos já a seguir) não foi gentil para o UCM, sobretudo em relação a filmes: e não, não estamos a falar de números. Falamos, sim, de exaustão. Vários fatores entram em jogo aqui. O universo atingiu o pico com “Os Vingadores: Endgame” (2019), foi um final de ciclo e de uma época do UCM, oportunidade para apagar, renovar e criar novas personagens e universos. Depois do pico, é necessário descer e talvez as mentes criativas da Marvel nunca tenham pensado que essa descida pudesse ser tão acentuada.
A pandemia e os atrasos das estreias não ajudaram. 2020 foi um ano sem UCM, 2021 arrancou com um plano renovado para a Quarta Fase: enquanto os filmes não se estreavam, estreariam séries no Disney+. Quando os filmes começaram a chegar, ficaram aquém das expectativas: a falta de luz para a “Viúva Negra” no seu próprio filme (2021); o aborrecimento de “Os Eternos” (2021), realizado por uma recém-oscarizada Chloé Zhao; o filme mais fraco de Thor, “Amor e Trovão” (2022); ou o falhanço em entregar a Doutor Estranho a responsabilidade de revitalizar o UCM, em “No Multiverso da Loucura” (2022) — com Sam Raimi a voltar aos super-heróis depois do falhanço que foi “Homem-Aranha 3” (2007).
É neste clima de exaustão que chega “Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania”, de Peyton Reed (estreia-se esta quinta-feira, 16 de fevereiro) ainda uma das personagens mais divertidas do UCM. O filme marca também o início da Quinta Fase, que acontecerá neste e no próximo ano (antes que a pergunta lhe surja, sim, já existe uma Sexta Fase, com vários filmes programados para chegar entre 2024-2026), e a apresentação de um novo vilão, Kang, O Conquistador (Jonathan Majors), que estará omnipresente no UCM nos próximos anos. Imagine que quer ir este fim de semana ao cinema e apetece-lhe entrar finalmente no UCM. Pode fazê-lo sem estar inteirado dos trinta filmes que aconteceram antes? Sim. Vai perceber tudo? Não, mas isso não é um problema. E é por aí que vamos começar.
Isto é assim tão confuso?
Não é. Há um valor acrescido em dominar toda a informação, como em tudo na vida. E, como é óbvio, que se quer ver os filmes de “Os Vingadores”, deve começar pelo primeiro. Essa lógica, contudo, não se aplica a todas as personagens do UCM. E há personagens e filmes que estão tão cheios de si que o acesso a eles é difícil sem estar por dentro de outras coisas que estão a acontecer no UCM (o que foi um problema nos filmes da Quarta Fase). A boa notícia é que pode saltar por cima disso.
Se quer entrar agora, este novo “Quantumania” pode ser um bom ponto de partida. Não por ser o início de um novo estágio, mas porque o “Homem-Formiga” de Paul Rudd é bem divertido e vem acompanhado com um leque de personagens, interpretados por Evangeline Lilly (Vespa), Michael Douglas e Michelle Pfeiffer, que tornam a coisa leve e descomprometida. E, sim, há outros filmes de “Homem-Formiga” para trás, o homónimo de 2015 e “Homem-Formiga e a Vespa” (2018), que poderá ver depois se estiver interessado em mais contexto.
Se, depois, quiser navegar pelo universo, há diversas formas de o fazer. Pode ver os filmes todos da sua personagem preferida ou escolhida, seguir a ordem cronológica de estreia dos filmes, seguir a ordem temporal dos filmes (que não é necessariamente a que respeita a cronologia das estreias comerciais) ou, então, procurar um roteiro mais detalhado que inclua a ordem mais obsessiva-compulsiva: aquela que também inclui as séries. Sugestão? Volte atrás vendo os filmes sem compromisso, tentando apenas não meter a carroça à frente dos bois: veja os filmes de Thor, Capitão América e Homem de Ferro com a vaga ideia de que existe um filme de “Os Vingadores” (existem quatro) ali pelo meio que os complementa. Não tanto para não perder o fio à meada, mais para seguir um movimento de boa escalada até ao pico (sem se aborrecer até lá). Vai descobrir que há ali uma fase (2008-2015) com filmes bons, fora do baralho e bastante divertidos.
O que é isso das fases?
Colocando a questão de forma muito simples, é o modo como a Marvel agrupa os filmes: mais marketing do que outra coisa qualquer. Importa apenas para ter noção de onde está, ou seja, olhar para a data de estreia dos filmes e ver até onde nos leva. Por exemplo, as primeiras três fases (2008-2019) culminam quase sempre com um filme de “Os Vingadores”.
Com o fim dessa série — pelo menos de acordo com a ideia inicial de 2012 — seria de esperar uma transição. Ela aconteceu, mas foi meio morna. Os filmes de 2021/2022 (Quarta Fase) introduziram muitas personagens desconhecidas do grande público e das pessoas que não segue banda-desenhada de super-heróis. Ao mesmo tempo, esses filmes tinham a intenção de desenvolver outras personagens, dar-lhes palco para ganharem espaço no futuro. Isso não correu particularmente bem, seja pela forma caricatural com que se apresentou “Viúva Negra” fora do contexto de um grupo de personagens (Vingadores), pela dificuldade em entender o mundo de Doutor Estranho ou pelo enfadonho que se tornou Thor.
Esta ideia de grupo, ou segmentação, até faz esquecer os filmes acima da média de Homem-Aranha, “Sem Volta a Casa” (2021) ou o segundo filme de Black Panther, “Wakanda Para Sempre” (2022). Por isso, salte por cima da ideia das “fases”. Assim até o Multiverso pesa menos.
“Multiverso”? Como assim?
A ideia de “metaverso” ou “multiverso” está presente na cultura pop atual. E há filmes que conseguiram chegar muito longe no meio disto, como o fenómeno dos Óscares deste ano, “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, de Dan Kwan e Daniel Scheinert, que tem um multiverso, mas que não tem nada a ver com as personagens do campeonato que jogamos aqui neste texto.
O que é então o Multiverso da Marvel, que entrou em força na Quarta Fase do UCM? Este novo período da Marvel é denominado “A Saga Multiverso”, um conceito que navegou da banda-desenhada (onde surgiu nos anos sessenta do século passado) para os filmes, que foi referido pela primeira vez em “Doutor Estranho” (2016) e ganhou uma velocidade estonteante com o último filme de Os Vingadores, “Endgame” (2019).
Os filmes da Marvel segundo a cronologia dos super-heróis
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Os filmes do Universo Cinematográfico da Marvel desenrolam-se, por vezes, em momentos diferentes do presente. Se quiser seguir a narrativa por ordem cronológica, aqui fica a lista (sem as séries, que tornariam a missão bastante mais complexo), com o respetivo ano em que tudo acontece:
1. Capitão América: O Primeiro Vingador (1942-45)
2. Capitão Marvel (1995)
3. Homem de Ferro (2010)
4. Homem de Ferro 2 (2011)
5. O Incrível Hulk (2011)
6. Thor (2011)
7. Vingadores (2012)
8. Homem de Ferro 3 (2012)
9. Thor: O Mundo das Trevas (2013)
10. Capitão América: O Soldado de Inverno (2014)
11. Guardiões da Galáxia (2014)
12. Guardiões da Galáxia Vol. II (2014)
13. Vingadores: A Era de Ultron (2015)
14. Homem-Formiga (2015)
15. Capitão América: Guerra Civil (2016)
16. Viúva Negra (2016)
17. Black Panther (2016)
18. Homem-Aranha: Regresso a Casa (2016)
19. Doutor Estranho (2016)
20. Thor: Ragnarok (2017)
21. Homem-Formiga e a Vespa (2018)
22. Vingadores: Guerra do Infinito (2018)
23. Vingadores: Endgame (2018)
24. Homem-Aranha: Longe de Casa (2023)
25. Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2023)
26. Os Eternos (2023)
27. Homem-Aranha: Sem Volta a Casa (2024)
28. Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2024)
29. Thor: Amor e Trovão (2025)
30. Black Panther: Wakanda Para Sempre (2025)
É um conceito pesadão e que naturalmente afasta os mais céticos. Muito resumidamente, é a ideia de que existem várias versões da realidade e, por consequência, existem diferentes versões dos super-heróis misturadas com linhas temporais diferentes. Uma ideia que baralha o esquema todo e que quer passar a ideia de que isto é tudo mais complicado – ou inteligente – do que realmente é. Tem as suas coisas engraçadas, como no recente “Sem Volta a Casa”, em que se liga a versão Homem-Aranha do UCM, interpretado por Tom Holland, com as anteriores versões, interpretadas por Tobey Maguire e Andrew Garfield.
Sugestão: não pense muito no Multiverso antes de ver os filmes. Aceite-o quando chegar até si ou quando se sentir inteirado o suficiente das personagens para o tentar perceber. Há quem vá dizer que isto é uma infâmia, mas pense no principal — isto é tudo entretenimento, abrace-o como tal.
Vamos ao que importa: que filmes devo ver?
Como referimos há pouco, já existem 30 filmes nesta coleção (este novo Homem-Formiga é o 31.º) e, para descomplicar, vamos fazer uma lista de alguns que pode ver, divertir-se, sem sentir qualquer necessidade de compromisso com coisas maiores (fases, multiversos ou embirrações entre super-heróis).
O primeiro “Homem de Ferro” ainda hoje é um refresco na forma de olhar para os super-heróis, não fosse ele realizado por Jon Favreau e o protagonista interpretado por um Robert Downey Jr. pronto para dominar o mundo. “Capitão América: O Primeiro Vingador” (2011), de Joe Johnston, e, sobretudo, “Capitão América: O Soldado do Inverno”, de Anthony & Joe Russo, são boas homenagens aos filmes de paranoia política norte-americana dos 1970s.
“Thor: Ragnarok” (2017), de Taika Waititi, ainda é a história mais escorreita que envolve um Deus e um martelo. Os dois filmes anteriores não lhe ficam atrás, mas, para começar, o salto até 2017 justifica-se. O primeiro “Guardiões da Galáxia” (2014), de James Gunn (que fecha o seu ciclo na Marvel em breve, com o terceiro filme de “Guardiões”, dedicando-se exclusivamente à reinvenção do universo da rival DC), continua divertido à brava, fazendo boa parelha com “Homem-Formiga” (2015), de Peyton Reed. “Black Panther” (2018), de Ryan Coogler, chegou no momento certo e, com o atual rumo das coisas, é bem possível que fique no top três de melhores filmes do UCM durante algum tempo.
E “Os Vingadores”? Bom, é toda uma saga. Mas consegue ver os dois primeiros (2012 e 2015), ambos de Joss Whedon, com o mínimo de contexto (e ambos os filmes até facilitam esse processo). Ou seja, pode saltar imediatamente para eles e aceitar a boa-disposição e leveza de uma saga que ainda não se levava totalmente a sério e sem obsessões sobre super-heróis dentro de histórias de super-heróis (isso virou moda ali a meio da década passada, mas o segundo “Os Vingadores” conseguiu ser imune a essa tendência). Homem-Aranha? São engraçados, mas não estamos aqui para mentir…
E séries, vale a pena investir tempo?
A difícil realidade é que as melhores séries do UCM fazem parte de outra vida do UCM: as da Netflix. Recomenda-se muito – e até podem ser vistas sem ter o UCM em mente – “Daredevil” (2015-2018), “Jessica Jones” (2015-2019) e “The Punisher (2017-2019)”, todas ótimas e que podem ser vistas sem a presença assustadora de todas interligações possíveis em mente.
Já as séries da Disney+ têm muito que se lhe diga. Estão muito dentro do sistema. Isto é: ou são um complemento a qualquer coisa ou servem de preparação para algo maior (como um filme). Por isso, é difícil julgá-las como objetos singulares, porque estão dependentes de algo mais. Ainda assim, “WandaVision” (2021) é uma boa tentativa de homenagem das sitcoms familiares ao longo do tempo; “Loki” (2021) tem alguma piada e “She-Hulk: Attorney at Law” vive bem como série de comédia ou de advogados (escolha o seu género favorito) no contexto absurdo de super-heróis. Contudo, nenhum delas é tão boa como qualquer uma daquelas da Netflix. Aí, entre à confiança.