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Efeito Greta, força no Ocidente e “um lugar à mesa”. A mancha Verde espalhou-se pela Europa /premium

Resultados fortes em países-chave como Alemanha e surpresas como o PAN em Portugal reforçam os Verdes e fazem deles vencedores da noite europeia. Chegará para influenciar a política comunitária?

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“Este é um domingo pelo Futuro.” Foi assim que Sven Giegold, candidato alemão pelos Verdes ao Parlamento Europeu, reagiu aos resultados da noite eleitoral. A frase era uma referência às “Sextas-feiras pelo Futuro”, um dos nomes dados às manifestações contra a crise climática que têm trazido milhares às ruas, na sua maioria jovens.

Foi assim também na passada sexta-feira, quando mais de um milhão de estudantes ocuparam as ruas em protesto e pedindo atenção aos temas ambientais. São o exército de Greta Thunberg, a jovem sueca que deu o pontapé de partida neste movimento e que promete inspirar uma geração. E, ao que tudo indica, que pode ter contribuído para um resultado histórico para os partidos Verdes e ambientalistas nestas eleições Europeias.

O resultado dos Verdes a nível europeu deverá ter contado com forte apoio dos jovens. Os mais novos têm participado nas manifestações pelo clima de Greta Thunberg (Adam Berry/Getty Images)

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Ao todo, os Verdes conseguiram ter mais de 10% dos votos em 11 dos 28 Estados-membros da União Europeia, contribuindo para a eleição de 70 eurodeputados que compõem, agora, este grupo no Parlamento Europeu — uma subida de relevo face aos 51 que detinham até agora. E esta vitória vai bem para lá dos números: há países onde os Verdes tiveram mesmo resultados estrondosos. Foi o caso da Alemanha e da Finlândia, onde foram a segunda força política mais votada. Mas também da Irlanda, onde um partido que não elegia eurodeputados há 20 anos registou um comeback histórico.

E até os sinais mais pequenos contam. Portugal contribuiu para a onda verde com a eleição de um eurodeputado do PAN e até a leste, onde os ambientalistas não têm tradição, elegeram-se dois eurodeputados Verdes na Lituânia.

As vitórias de peso: Alemanha, França, Finlândia e Irlanda

Não há dúvidas de que a Alemanha é o caso mais relevante para esta onda Verde. Os Grüne ficaram em segundo atrás da CDU (28,7%), conseguiram quase 21% dos votos — elegendo assim 22 eurodeputados — e ultrapassaram, pela primeira vez numa eleição, os socialistas do SPD, que não foram além dos 15,6%. Os Verdes alemães registaram quase o dobro dos votos que tinham conseguido em 2014 e mais do dobro do que tinham alcançado nas legislativas de 2017. É a consolidação de uma tendência de crescimento, num partido que já governa em coligação nove dos 16 estados alemães.

Os Verdes alemães celebram o resultado histórico, com o partido a ficar pela primeira vez em segundo lugar (TOBIAS SCHWARZ/AFP/Getty Images)

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Também em França foi uma jornada eleitoral de alegria para os ambientalistas. “Os vencedores da noite somos nós”, reivindicou Yannick Jadot, cabeça de lista dos Verdes franceses, que aproveitou para falar numa “onda verde europeia”. A tendência de subida não é tão espetacular como na Alemanha, mas é consistente: o partido passou dos 9% (2014) para os 13% (2019) mas, devido à distribuição dos votos, duplicou o número de eurodeputados.

É um resultado que se alimenta da queda do resto da esquerda, seja a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, sejam os socialistas moribundos. Já para não falar de algum voto possivelmente comido ao République en Marche de Emmanuel Macron, como relembrou o belga ambientalista Philippe Lamberts: “Eles sempre acharam que nos tinham no bolso, mas a ecologia política não é um satélite, é uma força política autónoma”, avisou, de acordo com o Le Monde.

Uma das grandes surpresas da noite veio do norte. Na Finlândia, os Verdes galgaram a escada eleitoral e passaram dos 9% (2014) para os 16% (2019) dos votos. Se nas últimas europeias tinham sido o quinto partido mais votado, agora são o segundo, ultrapassando os socialistas do SDP (14%). Foi o melhor resultado de sempre em Europeias de um partido que ainda pode vir a ter influência na política nacional mais uma vez: fez parte da coligação anterior liderada pelo Centro — mas saiu em desacordo com a política nuclear — e pode agora regressar ao poder pela mão dos socialistas. Como se não bastasse, o partido foi o segundo mais votado nas eleições municipais na capital de Helsínquia no ano passado.

Na Finlândia, os Verdes tiveram um resultado surpreendente, agarrando o segundo lugar (RONI REKOMAA/AFP/Getty Images)

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A outra vitória estrondosa dos Verdes foi na Irlanda. Foi um regresso em pleno de um partido que, há oito anos, como relembra o Irish Times, perdeu os seis lugares que detinha no Parlamento, os três mandatos no Senado, e não foi além dos 2% a nível nacional, perdendo direito à subvenção estatal. Agora é a terceira força política irlandesa no Parlamento Europeu, com 15% dos votos e dois eurodeputados, ultrapassando a esquerda republicana do Sinn Féin. Foi o melhor resultado de sempre em Europeias de um partido que não elegia eurodeputados desde 1999.

O primeiro-ministro irlandês Leo Varadkar não ignorou os resultados e disse ter entendido “a mensagem clara” dos eleitores. “Estamos a agir no clima, mas eles querem que atuemos mais depressa”, reconheceu. O impacto do resultado dos Verdes em França também levou o homólogo Edouard Philippe a reconhecer a necessidade de atuar nesta área: “Em todo o lado na Europa, os nossos cidadãos, e em particular os mais jovens, estão a pedir-nos que atuemos com determinação. É o que faremos em França e na Europa”, prometeu.

Os resultados promissores: Bélgica, Holanda, Reino Unido e Luxemburgo

A nível europeu, a liderança da família Verde foi reagindo com entusiasmo aos resultados que em alguns países, como na Alemanha, ficaram acima do que previam as sondagens. “Muito obrigada pela vossa confiança”, dizia a meio da noite a spitzenkandidat (candidata à presidência da Comissão) do grupo, Ska Keller, também ela alemã. “Este é um mandato para uma mudança real: pela proteção do clima, por uma Europa social, por mais democracia e por um Estado de Direito mais forte”, prometeu.

Essa tendência macro consolida-se quando se olha para outros países da Europa Ocidental onde os Verdes não tiveram resultados tão positivos, mas que, mesmo assim, cresceram e conquistaram votos. Foi assim na Bélgica, onde os Verdes francófonos obtiveram quase 8% dos votos e os flamengos cerca de 7%. Juntos, ultrapassam os 15% em votos ambientalistas, que enviarão 3 eurodeputados belgas para o Parlamento Europeu, acima dos 2 que lá estavam antes.

Na Holanda, o partido pode ter ficado em quarto lugar, mas registou um crescimento de 7% para 10% e conseguiu assim eleger mais um eurodeputado do que tinha, chegando aos 4. Não é de somenos para um partido que já está à frente da assembleia municipal de Amesterdão desde março.

Também no Reino Unido os Verdes ficaram em quarto lugar, mas o seu resultado representa muito mais do que isso, já que significa não só a eleição de mais um eurodeputado (de 3 para 4), mas também um crescimento para os 11%, acima do registado pelo histórico Partido Conservador.

O Partido Verde britânico ultrapassou os conservadores, acabando como quarta maior força britânica no Parlamento Europeu (BEN STANSALL/AFP/Getty Images)

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No Luxemburgo, o resultado não teve grande efeito prático para as contas dos eurodeputados, com os Verdes a manterem o único que têm, mas, uma vez mais, a tendência de crescimento confirma-se, dos 15% de 2014 para 19% em 2019. Particularmente relevante num país onde os Verdes fazem parte da coligação que está no poder.

As fragilidades, mas com perspetivas: Áustria, Suécia e Portugal

É claro que, no entanto, nem tudo são rosas. Há países onde os Verdes perderam votos (Áustria e Suécia) e países onde nem têm forças políticas relevantes que os representem (Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, Grécia, Hungria, Itália, Letónia, Malta, Polónia, República Checa e Roménia), sobretudo a leste.

Olhando para os dados, porém, há sinais encorajadores para esta “onda Verde”, que podem fazer com que, a longo prazo, essas fraquezas possam ser tornadas forças. Na Áustria, os Verdes perderam um eurodeputado, mas mantiveram 14% dos votos. Na Suécia, os Verdes perderam votos, passando de 15,4% para 11,4% e perdendo dois dos quatro eurodeputados que tinham. Em parte, pode ter sido o efeito “partido menor da coligação”, já que os Verdes estão no poder pela mão dos socialistas — e estes venceram as Europeias neste país, sem margem para dúvidas.

Os Verdes austríacos perderam um eurodeputado, mas mantiveram 14% dos votos, à semelhança de 2014 (HANS PUNZ/AFP/Getty Images)

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Se é certo que nos países de leste não há tradição de forças ambientalistas, a Lituânia apresenta-se como honrosa exceção, com a União de Agricultores e Verdes a dobrar o resultado de 2014, passando dos 6% para os 13% e somando um eurodeputado àquele que já tinham.

E se, no sul da Europa, esse também é o caso, com Espanha e Grécia sem forças de relevo nesta área, Portugal apresenta-se, a partir de agora, como exceção à regra: o PAN elegeu um eurodeputado, acumulando 5% dos votos. Um resultado promissor para um partido que, nas Europeias de 2014, não foi além dos 1,7%.

Confirmado o alastramento da mancha verde, a partir da Europa central, pelo resto da União, falta ainda perceber qual o impacto da eleição de tantos eurodeputados ambientalistas — a sua maioria mais alinhados à esquerda no espectro político europeu. “Estaremos à mesa”, garantiu o holandês Bas Eickhout. “Temos uma boa hipótese de determinar as novas maiorias. E teremos as nossas exigências, em temas verdes, sociais e de Estado de Direito.” Logo se verá se conseguirão que vinguem.

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