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O ministro da Administração Interna, Luís Neves, discursa durante as comemorações dos 148 anos do Comando Regional da PSP Madeira, em Câmara de Lobos, ilha da Madeira, 01 de setembro de 2026. HOMEM DE GOUVEIA/LUSA
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▲Luís Neves aproveitou cerimónia de aniversário da PSP, na Madeira, para fazer defesa da honra

HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

▲Luís Neves aproveitou cerimónia de aniversário da PSP, na Madeira, para fazer defesa da honra

HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

Em tensão crescente com MAI, polícias criticam Neves e ameaçam voltar à rua. "Envergonha-nos"

Sindicatos dizem-se "envergonhados" por declarações do ministro em cerimónia da PSP. Rondas negociais sobre condições laborais estão suspensas e levam polícias a novos protestos. MAI fala em diálogo.

O ambiente entre o Governo e os sindicatos da polícia já era delicado quando Luís Neves entrou esta terça-feira nas instalações do comando regional da PSP Madeira, em Câmara de Lobos, e se colocou diante do microfone, de discurso na mão. Não era um discurso que versasse sobre a ocasião — o 148.º aniversário da instituição —, mas antes uma declaração em que se defendia das acusações de que tem sido alvo (e lançava outras de volta). Quando acabou, o clima tinha definitivamente azedado: os polícias, que têm acusado o Governo de incumprir o acordo a que chegou para rever remunerações e carreiras e ameaçam voltar à rua, viram na declaração de Neves mais um motivo de crítica — e até de “vergonha”.

O presidente do Sindicato de Oficiais da Polícia, Bruno Pereira, é particularmente vocal na reação às palavras de Neves — e ao local e contexto em que as proferiu. Em declarações ao Observador, o dirigente sindical classifica a atitude de Neves como uma “desfaçatez”, “completamente inapropriada e descontextualizada” e até uma forma de “retirar valor à instituição”.

“Pode ser visto, como foi por muitos polícias, como algo que nos envergonha e retira valor que nos devia ser dado por quem nos dirige. Envergonharam-me aquelas declarações, não pelo conteúdo — isso deixarei para quem faça comentário político — mas pelo aproveitamento, que foi sentido e interpretado e lido pelos quase 21 mil polícias nessa instituição”. O ministro tem “direito ao contraditório”, mas teve “tempo e espaço” para fazê-lo fora do contexto de comemoração da PSP. “Pode estar mal aconselhado, não mediu bem o que estava a fazer”, sugere este dirigente.

Da parte do presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, Paulo Santos, a crítica a Neves é direta mas não se foca neste momento específico — antes nas inações como ministro. “A crítica que fazemos é que até este momento nada foi feito, nada evoluiu nos cerca de seis meses que tem à frente do ministério. Não houve qualquer evolução no acordo celebrado [em 2024]. A polícia está como está, com muitas dificuldades, e a verdade é que não há avanços. E continua-se a falar de questões que para nós não devem ser tão mediáticas, porque estão a desvalorizar a componente política”, lamentou em declarações ao Observador.

Tensão agrava-se desde Blasco. “Neves não aproveitou lastro de fazedor”

O grande braço de ferro entre polícias e poder político teve início depois de o governo de António Costa ter aprovado em 29 de novembro de 2023 o pagamento de um suplemento de missão para as carreiras da PJ, uma grande vitória para o então diretor da PJ, Luís Neves, deixando as outras polícias de fora. Sendo Neves um homem da PJ, existindo rivalidades e guerras antigas entre polícias e disputa permanente por competências no que respeita à investigação criminal, o facto de Neves ter aproveitado uma cerimónia institucional da PSP para fazer defesa da honra, também não ajudou a pacificar o setor.

Do lado do Governo, a leitura será, como seria de esperar, muito diferente. Até porque é possível ver o copo meio cheio das ações de Luís Neves enquanto ministro nesta área — desde o lançamento de um novo curso de formação de agentes da PSP e de uma reorganização das esquadras de Lisboa, Porto e Setúbal, reforçando o policiamento na capital, embora ainda haja uma falta de efetivo reconhecida por todas as partes; até à realização de duas rondas de negociações (entretanto suspensas) e a promessa de reforçar a Lei de Programação para as infraestruturas e equipamentos 2027-2031.

Mas o acordo de 2024, de que ambos os responsáveis sindicais falam e cujo cumprimento ambos reclamam, ajuda a explicar o nível de tensão, que não vem de agora nem tem apenas a ver com as últimas polémicas de Neves. Na verdade, o desconforto destes polícias começou ainda no consulado de António Costa, levou a protestos polémicos na rua e a um acordo fechado rapidamente com Luís Montenegro para rever remunerações, carreiras e suplementos no ordenado — que agora, queixam-se os polícias, tarda a ver a luz do dia.

O responsável não era Luís Neves; nem sequer a sua antecessora, Maria Lúcia Amaral; mas ainda a primeira ministra da pasta escolhida por Montenegro, Margarida Blasco. Desde então, a relação com o ministério foi-se degradando. “Ele veio com uma aura de homem vitruviano perfeito, adequado, com carisma, conhecimento, com linguagem inteligível. Foi qualificado como a pessoa certa, que não perderia trabalho como os que no passado não tinham contacto com o sistema. Não soube aproveitar o capital com que entrou”, lamenta Bruno Pereira, que diz que o ministro não soube “aproveitar o lastro de fazedor” que tinha criado ao longo de décadas. “Passados sete meses não vimos nada, está a fazer o mesmo que os anteriores.”

Os responsáveis sindicais queixam-se da última reunião com o ministério, no final de junho, depois de já ter existido uma segunda renovação dos termos do acordo de 2024. Para Bruno Pereira, foi o “pináculo” de uma série de negociações que só servem para “ganhar tempo”, como “manobras dilatórias”. “Pela quinta vez saímos sem discutir nada, com uma proposta completamente esdrúxula [a criação de um novo suplemento para os polícias colocados nas fronteiras, que valeria, pelas suas contas, 1200 milhões de euros no Orçamento do Estado]. Assim se vê que não há vontade de ser disruptivo nem reformista”.

O Governo discorda: perante as primeiras queixas dos sindicatos, após esta ronda negocial e o adiamento de uma reunião que estava prevista para julho, o ministério da Administração Interna respondia ao Correio da Manhã que “o diálogo formal e informal, direto e indireto, entre o senhor ministro e os dirigentes das estruturas, tem sido permanente”. “Desde a sua posse que o empenho do ministro da Administração Interna na valorização das forças de segurança é visível”. O jornal concluía que o ministério de Luís Neves espera retomar em setembro as reuniões exigidas por sindicatos e associações.

Mas os polícias estão com pouca fé. Bruno Pereira recorda os protestos de há dois anos, quando a PSP protestou por não ter direito a um suplemento igual ao da PJ, e acabou por aceitar (pela mão de vários sindicatos) o acordo que Montenegro propôs porque incluía várias matérias para melhorar as condições de trabalho dos polícias, incluindo tabelas remuneratórias e portarias de avaliação. “Já passaram três ministros e não vi nada, não há vontade aparente. Prefiro que o Governo diga que não somos prioridade e que os recursos são finitos. Não vou continuar com esta conversa estéril.”

Sendo Neves um homem da PJ, existindo rivalidades e guerras antigas entre polícias e disputa permanente por competências no que respeita à investigação criminal, o facto de Neves ter aproveitado uma cerimónia institucional da PSP para fazer defesa da honra, também não ajudou a pacificar o setor

Polícias querem voltar à rua e criticam Finanças

É neste ponto que os polícias decidiram abandonar as negociações e voltaram a ameaçar sair à rua, quando o ministro se vê atacado, ao mesmo tempo, a nível político por causa da série de polémicas que o veio envolvendo durante o verão. Esta semana, a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia anunciou que vai reunir a sua direção no dia 10 de setembro para definir o calendário e os moldes de uma nova vaga de protestos de âmbito nacional, como noticiava a Lusa, por causa do impasse negocial com o ministério.

Além do congelamento do diálogo político, a ASPP/PSP traçava um cenário operacional crítico no terreno, escrevia a Lusa. “Temos problemas gritantes na polícia. Temos esquadras a trabalhar sem recursos, temos ausência de carros de patrulha, temos esta crítica social que está a ser feita por ausência de policiamento de proximidade”, alertava o presidente do sindicato. E apontava baterias à própria direção nacional da PSP, que dizia estar em “total alinhamento com os erros governativos”. Neste caso, também a GNR se dizia “farta” de esperar por soluções para as questões laborais.

O acordo assinado em 2024 aprovava um suplemento de risco para as duas forças, e prometia um despacho conjunto de novos estatutos remuneratórios para PSP e GNR. Apesar disso, “não há progressões salariais, nem se fala em promoções. A atratividade na carreira continua em decréscimo”, explicava Paulo Santos. Por isso, o sindicato pediu mesmo uma reunião com o primeiro-ministro, “para que seja ele a pressionar o ministro Luís Neves a retomar o diálogo laboral” — mas teve como resposta um “encaminhamento burocrático” desse pedido para o gabinete do ministro da Administração Interna.

A pressão chega de várias frentes: além das exigências de diálogo com o MAI e com o próprio primeiro-ministro, o Sindicato Nacional da Polícia também veio pedir esta terça-feira uma reunião com caráter de urgência ao ministro das Finanças, por acreditar que esta pasta está a bloquear as negociações para a valorização salarial da PSP. E estabeleceu como limite para obter resposta dia 8 de setembro — caso contrário, também avançará com ações de protesto. “Não é aceitável que os polícias continuem à espera enquanto os ministérios remetem responsabilidades entre si”, defendia o sindicato.

Tensão começou com cerco ao Capitólio

Os protestos dos polícias fazem, de resto, parte de um dos primeiros momentos tensos que Luís Montenegro teve de enfrentar — na altura, ainda enquanto candidato a primeiro-ministro. Na noite do debate que o opunha a Pedro Nuno Santos, em fevereiro de 2024, no Capitólio, em Lisboa, largas centenas de polícias começaram a cercar o edifício, num protesto não autorizado relativo aos suplementos remuneratórios que durou até ao fim do confronto entre os candidatos do PS e do PSD.

Pedro Nuno Santos respondeu, na altura, que recusava negociar sob coação; já Montenegro disse concordar com as reivindicações sobre “uma injustiça criada” por esse Governo do PS e que seria “prioritário e ato imediato”, assim que tomasse posse retomar as negociações com os polícias.

Foi, por isso, essa uma das primeiras pastas que o Executivo agarrou, com Montenegro a prometer alcançar a paz com os polícias que António Costa não tinha conseguido. Após cinco reuniões com os sindicatos, Margarida Blasco conseguiu, na altura, que três assinassem o acordo com o Governo, prevendo um aumento faseado do suplemento de risco, entre outros aspetos.

“Através dos acordos que celebrámos hoje, vamos consumar a maior valorização remuneratória de sempre das polícias portuguesas, das forças de segurança. Nunca, até hoje, nenhum Governo, antes e depois de haver democracia, valorizou de uma forma tão alargada a remuneração dos profissionais que prestam serviço na GNR e na PSP”, celebrava então Montenegro.

Mas dois anos depois os polícias dizem-se desiludidos — e dizem ver um Luís Neves “diminuído” na sua autoridade política. O PSD contrapõe: Neves só seria um “peso morto” se não estivesse a tomar decisões e a mostrar obra nas áreas que tutela, como disse Sebastião Bugalho esta quarta-feira ao Observador, dando os exemplos da redução dos tempos de espera no aeroporto de Lisboa e da prevenção e combate aos incêndios neste verão. São essas as áreas que o PSD mais se agarra para mostrar a obra de Neves, e provar que vai além das polémicas.

[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]

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