Mais parecia um debate da campanha para as eleições presidenciais. Os deputados reuniram-se, como é normal a cada quinze dias, para escrutinarem o trabalho do Governo, mas Luís Montenegro não conseguiu fugir a responder constantemente sobre a sua anunciada neutralidade na segunda volta — nem aos momentos de lavagem de roupa suja, à direita, entre quem pede apoio ao PSD (caso do Chega) ou quem não compreende não o ter tido logo na primeira volta (Iniciativa Liberal). Com pressão sobre o assunto à esquerda e à direita, o primeiro-ministro acabou obrigado a falar sobre presidenciais durante a maior parte do debate — quase sempre para se justificar e voltar a explicar que não vai tomar posição.

O assunto arrancou logo com a expectável provocação do Chega: num momento em que André Ventura caracteriza a segunda volta como um embate entre a direita e o socialismo, Pedro Pinto tomou as rédeas no debate parlamentar para anunciar que a direita tem aqui uma “oportunidade única de derrotar o socialismo na segunda volta” e que por isso o PSD “não pode ficar em cima do muro”.

Lançou o desafio de todas as formas possíveis: a luta é entre quem “quer ou não quer o socialismo”; o PSD até tem feito acordos com o Chega, pelo que esse alinhamento seria mais natural; e não basta a Montenegro “dizer que somos o Ronaldo e depois jogar à defesa“.

Seria a primeira de muitas ocasiões em que Montenegro se veria obrigado a voltar a explicar a sua posição, aqui enquanto líder do PSD e não enquanto primeiro-ministro. Voltando a separar o Parlamento em três blocos (o da AD é o “central”) para argumentar que o seu não está representado na segunda volta (por culpa também do PSD, que não conseguiu travar a “dispersão de votos”, admitiu), considerou-se desobrigado de tomar posição agora.

Montenegro aproveitou, de resto, para entrar no combate partidário para falar da primeira e segunda volta que lhe interessam: as legislativas de 2024 e 2025, em que a AD ganhou e foi reforçada. “Não confunda as duas voltas das legislativas com as duas das presidenciais”, atirou ao Chega, frisando que André Ventura teve uma votação “mais ou menos equivalente” à do Chega em legislativas — ou seja, que não conseguiu superar as fronteiras do seu eleitorado e agregar a direita, numa altura em que Ventura reclama já a liderança desse espaço político. Montenegro tentava estancar os efeitos de umas presidenciais em que Mendes e a AD saíram derrotados, para que Ventura não possa cavalgar sem limites o seu resultado.

Hugo Soares aproveitou, de resto, para acusar o Chega de fazer um “flic-flac à retaguarda” — afinal, ainda na primeira volta Ventura criticava Montenegro por ter entrado na campanha, dizia que esse apoio ainda acabaria por prejudicar Mendes e rematava com um “que se lixe Montenegro”; agora queria contar com o apoio do PSD.

IL antecipa crise política, Montenegro lembra reforço “poucochinho” dos liberais

Mas esta não seria a única discussão que a direita, que aproveitou para lavar roupa suja no hemiciclo, protagonizaria sobre presidenciais e apoios. Na Iniciativa Liberal, Mariana Leitão quis culpar o PSD por não existir um candidato de centro-direita (leia-se Cotrim Figueiredo) na segunda volta, por ter “priorizado” os interesses partidários e “ignorado” a realidade. “Já consegue explicar aos portugueses porque é que decidiu colocar os seus interesses partidários à frente do país, levando a que não exista um candidato de centro-direita na segunda volta?”, atirou.

Mas o tom ainda subiu mais: “Sabemos bem o que vai ser o resultado final e sabemos o quão mau será qualquer um dos cenários”, atirou, acusando Montenegro de não fazer reformas e de ir a tempo de “corrigir a atitude que tem tido” — se não o fizer vai atirar o país para “uma crise política com consequências imprevisíveis”. Montenegro atacou de volta — “Se há alguém que encarou estas eleições pelo lado partidário foi a senhora deputada porque deixou de assumir a candidatura presidencial para assumir um cargo partidário”.

E aproveitou para questionar os posicionamentos do partido do lado: Montenegro, que tem acusado várias vezes os liberais de extremarem posições, quis dizer a Leitão que não percebe porque é que a IL se coloca “fora da esfera dos partidos disponíveis para convergir com o Governo”, porque é que chumbou um Orçamento do Estado que diminuía impostos “ao lado da esquerda mais radical ou da direita mais extremista”, porque é que não quer ter um “papel positivo” e, mais grave, porque é que quer extrair consequências sobre “condições de governabilidade” dos resultados das presidenciais.

“Tivemos eleições em maio e os portugueses pronunciaram-se com clarividência”, reforçando a AD e “poucochinho” a IL, disparou. Ainda rematou com o IRS Jovem: é o regime fiscal sobre trabalho “mais vantajoso do mundo” . “Um liberal acha que isto é pouco? Se tem vontade venha, se não assuma”.

Do lado da bancada parlamentar do PSD, Hugo Soares ainda se esforçou por recuperar o domínio da narrativa do debate: tirou do bolso e leu uma carta dirigida ao Governo por uma jovem de 33 anos que comprou casa e quis agradecer ao Executivo, em que votou e “voltaria a votar”, pelas medidas para facilitar a compra de casa a quem tem menos de 35 anos. Objetivo: frisar as políticas concretas que o Governo está a executar, desviando o foco das presidenciais e da discussão puramente política.

E terminou dizendo que o objetivo da política é resolver problemas concretos, incluindo progressos na Saúde ou aumentos nas pensões. “Temos de agradecer ao Governo porque está a fazer a sua obrigação. Há muito por fazer, mas era muito melhor que a oposição percebesse que o objetivo é resolver o problema das pessoas”. Também Montenegro reconheceu que há muito a fazer e que as medidas sobre habitação — “um dos maiores constrangimentos económicos” em Portugal –, por exemplo, levam por vezes “dois a três anos” a fazer efeito.

Sem anúncios nesta área (adiantou apenas que no Conselho de Ministros desta quinta-feira se tratará de medidas na área da mobilidade), Montenegro falou da vontade de reformar e de se focar na governação. Mas acabou também aí atingido por críticas à direita: o Chega falou da dificuldade de muitos emigrantes em votar (com o PSD a recordar que o Chega não apresentou nenhuma solução para isso, mas a comprometer-se a melhorar procedimentos) e pediu um prazo específico para resolver os problemas na Saúde.

Montenegro respondeu que a gestão está a melhorar relativamente ao passado, mas que há uma “desproporção entre a onda noticiosa” e a realidade. O SNS hoje “vive situações de dificuldade e constrangimento, mas funciona hoje melhor do que funcionava há um ano e há um ano já funcionava melhor do que há dois”, acrescenta.

Ainda à direita, o tema das presidenciais voltaria com uma intervenção particularmente inflamada do democrata-cristão Paulo Núncio, que quis lembrar que António José Seguro foi “humilhado durante anos pelo PS” e que o PS “não esteve no boletim de voto e não ganhou absolutamente nada”.

Depois, foi mais longe, contrariando o que tem sido a posição da maior parte dos dirigentes de direita em público: “Qualquer candidato que receba voto popular tem legitimidade democrática. O PS e a esquerda não são donos da democracia. Não aceitamos lições de democracia vindas do PS”. E perguntou se quem se abstiver ou votar no Ventura é “menos democrata — era o que mais faltava que o único voto legítimo e democrático fosse no PS”. Também frisou que o Chega também não ganhou as presidenciais — “basta que o símbolo da AD volte ao boletim de voto para o Chega regressar ao devido lugar na direita portuguesa”. À esquerda, o tema Belém também não cairia no esquecimento.

PS não insiste sobre apoio a Seguro. Resto da esquerda não resiste

Depois de se alinhar toda atrás de Seguro, a esquerda não deixou passar a oportunidade para comentar a neutralidade de Montenegro na segunda volta das presidenciais. Ou melhor, todos o fizeram menos o partido do próprio candidato presidencial. José Luís Carneiro preferiu reclamar a autoria do PS relativamente aos contratos de investimento estrangeiro assinados na terça-feira em Sines, assim como o anúncio das novas ambulâncias para o INEM feito no último debate quinzenal.

O primeiro-ministro respondeu que a “origem das ideias remonta muitas vezes a tempos imemoriais” e que a assinatura do contrato aconteceu esta terça-feira — “Não foi nem há um mês, nem há um ano, nem em 2022”. Depois, Carneiro virou atenções para os dados de uma agência europeia que indicam um número de óbitos 20% acima do esperado neste inverno.

Sendo Portugal o único país da EU em que isso aconteceu, o socialista sugeriu que os serviços do Ministério da Saúde deveriam apurar o que levou a este incremento face aos valores expectáveis. Mas o líder socialista quis mostrar elevação e frisou que não estava a utilizar os óbitos como arremesso político: “Não farei aquilo que [Montenegro] fez aos Governos do PS quando estava na oposição.”

Se Carneiro — que já tinha condenado o primeiro-ministro por não anunciar apoio a Seguro na segunda volta — deixou as presidenciais de lado, os restantes partidos não lhe seguiram o passo. Isabel Mendes Lopes perguntou a Montenegro como vai explicar aos membros do Conselho Europeu, na reunião em Bruxelas desta quinta-feira, que escolheu não apoiar “um democrata” na segunda volta quando a alternativa é um “admirador de Trump” que “quer quebrar o regime”.

Montenegro respondeu que todos os restantes Chefes de Estado da UE conhecem os seus princípios e atirou uma farpa a Jorge Pinto: “Não sou daqueles que são candidatos e não se importam que votem noutros”. Lembrando a Operação Irmandade, a co-porta-voz do Livre ainda acusou o primeiro-ministro de estar a “contribuir para uma cultura de ódio” por não cumprir o seu princípio do “não é não”. Montenegro ouviu mas não se comprometeu e garantiu que tem um Governo “implacável” relativamente a qualquer tendência de crimes de ódio.

Já Paulo Raimundo tentou expor a “tática” de Montenegro na segunda volta: por um lado, quer “chantagear” o PS e, por outro, não quer alienar Ventura, que “nunca faltará” ao executivo no apoio às suas principais políticas. Acima de tudo, o primeiro-ministro quer “salvar a sua política desastrosa” ao não declarar o apoio a Seguro, acusou o líder dos comunistas. “O senhor deputado acha que as nossas políticas são desastrosas, nós achamos que são virtuosas”, frisou Montenegro, afastando qualquer taticismo na sua neutralidade. “Se não é tática, ainda é mais grave”, respondeu Raimundo.

E não foi só na resposta ao PCP que a discussão redundou em perceções. Fabian Figueiredo voltou a pedir a demissão de Ana Paula Martins e criticou Montenegro por rejeitar reconhecer o “caos na Saúde”. “Perceções é o que podemos ter no museu de arte moderna, no SNS temos a realidade dos factos com que os utentes se confrontam todos os dias”, assegurou. Para chegar ao silêncio de Montenegro sobre as presidenciais, o deputado único trouxe para a conversa o pacote laboral. Após a ministra do Trabalho ter assumido que a reforma avança mesmo sem acordo na concertação social, o bloquista sugeriu que o primeiro-ministro não apoia Seguro porque conta com o voto do Chega para conseguir a aprovação do pacote laboral.

Se o BE tentou descortinar as razões de Montenegro, Inês Sousa Real “não vê bem onde está a dúvida” sobre quem apoiar, quando um dos candidatos representa “três Salazares”. Montenegro apenas repetiu que já foi acusado de participar excessivamente na campanha presidencial e agora, pelo contrário, de ser “muito neutral”. De Filipe Sousa, do JPP, o primeiro-ministro não ouviu palavra sobre as presidenciais, apenas a crítica de que o Governo está a “empurrar os custos da insularidade para quem vive nas ilhas”.