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No dia 8 de janeiro de 2025, poucos dias antes de Donald Trump regressar à Casa Branca, o tabloide nova-iorquino New York Post colocava na capa um desenho do Presidente à frente do continente americano com a legenda “A Doutrina Donroe: a visão de Trump para o hemisfério”. A expressão resulta de um trocadilho entre o nome do chefe de Estado e a doutrina de política externa traçada por Washington no início do século XIX pelo então presidente Americano, a doutrina Monroe, que procurava travar a influência de outras potências internacionais na América. Passados duzentos anos, a doutrina Monroe foi incorporada na política externa de Donald Trump para justificar as suas ações no continente americano. “O Hemisfério Ocidental é a vizinhança d[os Estados Unidos da] América — e nós vamos protegê-lo”, declarou recentemente o secretário da Defesa de Trump, Pete Hegseth.
Neste momento, a política de Washington em relação ao continente americano está focado num vizinho em particular: a Venezuela. Com o objetivo declarado de combater o tráfico de droga em águas americanas e das Caraíbas — fluxo pelo qual os Estados Unidos responsabilizam o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro —, Washington mobilizou tropas e equipamento militar, lançou dezenas de ataques contra lanchas em águas internacionais, que já mataram 83 pessoas, e ameaçou mesmo incursões terrestres. Por trás do combate ao narcotráfico, emerge uma outra razão para estas movimentações: a retirada de Maduro do poder. Contudo, a pressão militar não é a única arma no arsenal de Trump para alcançar este objetivo, que recorre também à pressão política.
Exemplo disso é a intervenção do Presidente norte-americano nas eleições presidenciais das Honduras, que se realizaram no passado domingo, dia 30 de novembro. Nos últimos dias da campanha eleitoral, Donald Trump anunciou o apoio ao candidato conservador Nasry “Tito” Asfura que, feita a primeira contagem dos votos, ficou por pouco à frente do outro candidato do mesmo espectro político, Salvador Nasralla. Num terceiro lugar, mas distante — e ainda com a contagem manual dos votos a decorrer — ficou a candidata de esquerda Rixi Moncada, apoiada pela atual Presidente, que Trump classificou como “comunista”. A justificação de Trump para apoiar Asfura foi relativamente simples: “O homem que luta pela democracia e contra Maduro é Tito Asfura”, escreveu nas suas redes sociais.
▲ Tito Asfura, o candidato apoiado por Trump, ficou à frente por 500 votos na contagem preliminar dos votos
STRINGER/EPA
A clara derrota da esquerda nas Honduras e o apoio de Trump ao candidato ideologicamente mais distante de Maduro exemplificam duas tendências que se têm tornado cada vez mais claras na América. Por um lado, o continente parece estar a virar à direita, como é visível nos resultados das eleições na Bolívia, no final de outubro, ou na primeira volta no Chile, em meados de novembro. Por outro lado, a estratégia de Donald Trump — a tal “Doutrina Donroe” — tem passado por beneficiar os líderes que lhe são fiéis — como os líderes da Argentina ou de El Salvador — e atacar aqueles que o desafiam — como os Presidentes da Colômbia e do Brasil.
No entanto, as Honduras merecem particular destaque devido a uma outra ação de Trump relacionada com o país. Na semana passada, na mesma publicação em que declarava o apoio a Asfura, o Presidente norte-americano anunciou que ia perdoar o antigo chefe de Estado hondurenho, Juan Orlando Hernández (conhecido pelas iniciais JOH), que se encontrava a cumprir uma pena de 45 anos de prisão nos Estados Unidos. Esta terça-feira, JOH saiu em liberdade, depois de ter sido condenado pelos mesmos crimes pelos quais Nicolás Maduro é agora procurado pela administração norte-americana: tráfico de droga.
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O apoio a Tito, a ameaça e a acusação de fraude. A intervenção de Trump nas eleições hondurenhas
Nos últimos dias da campanha presidencial nas Honduras, Donald Trump pronunciou-se sobre a corrida em duas ocasiões. Numa primeira publicação, anunciou o apoio a Tito Asfura, como o único candidato capaz de impedir as Honduras de percorrerem o mesmo caminho autocrático a que a Venezuela tem assistido. Na visão do Presidente norte-americano, a candidata da esquerda é uma “comunista” que tem “Fidel Castro [como] ídolo”. Já o outro candidato conservador é “um quase comunista [que] finge ser anti-comunista apenas com o propósito de dividir o voto em Asfura”. “Nasralla não é um parceiro confiável para a liberdade e não se pode confiar nele”, escreveu, referindo-se ao facto de, no passado, Nasralla já ter concorrido a eleições em coligação com as forças de esquerda.
Dias mais tarde, Trump voltou à Truth Social para vincar o apoio a Tito Asfura — e para deixar ameaças em caso de qualquer outro cenário que não a sua vitória. “Se ele não ganhar, os Estados Unidos não vão atirar dinheiro bom na direção do mal, porque um líder errado só pode trazer resultados catastróficos a um país”, avisou. Tenha sido pelas lembranças do passado político de Nasralla ou pelas ameaças contra as Honduras, a intervenção de Donald Trump parece ter tido impacto nas eleições, avaliou Juan Carlos Aguilar ao Politico. O diretor da ONG More Just Society apontou que os resultados preliminares das eleições mostram que Asfura conseguiu um resultado melhor do que as sondagens realizadas antes da declaração de apoio de Trump indicavam.
Reyna Vega, habitante de Tegucigalpa, a capital que já foi liderada por Asfura, e Fabricio Paz Munguía, que vive no norte do país, confirmaram ao jornal este cenário. Os dois cidadãos hondurenhos relataram conhecer pessoas que estavam indecisas entre Asfura e Nasralla e acabaram por decidir votar no primeiro depois dos comentários de Donald Trump. No entanto, a interferência do Presidente norte-americano nas eleições nas Honduras não terminou com a ida às urnas.
▲ Em 2017, as acusações de fraude eleitoral resultaram em protestos violentos e vários mortos
Gustavo Amador/EPA
Na segunda-feira à noite, no dia a seguir às eleições, Trump regressou à sua rede social, para declarar que “parece que as Honduras estão a tentar mudar os resultados das suas eleições Presidenciais”. “Se o fizerem, haverá um inferno para pagar”, ameaçou ainda. Em causa estava o facto de o relato da contagem de votos ter parado. No entanto, como explica o New York Times, esta paragem pode ser explicada com a forma como os votos são contados nas Honduras. Uma primeira parte dos votos é contada de forma digital, imediatamente depois de as urnas fecharem, sendo estes considerados os resultados preliminares.
Esta primeira contagem, de 57% dos boletins, resultou num empate técnico entre os dois candidatos conservadores, com uma distância de apenas 515 votos entre os dois. Os mais de 40% dos restantes boletins foram depois contados de forma manual pelos funcionários eleitorais, de forma a colmatar as falhas na rede digital, que não cobre todo o país de igual forma. Esta contagem manual, que decidirá o próximo Presidente das Honduras, só começou depois de Trump ter recorrido às redes sociais para criticar os métodos da Comissão Eleitoral Nacional.
Esta terceira declaração de Trump, que aponta para a possibilidade uma fraude eleitoral, não surgiu no vácuo. Ao longo da campanha eleitoral, o risco de fraude ou de interferências eleitorais já tinha sido levantado, tanto pelos candidatos como por analistas especializados na região. Os alertas eram feitos com base nos acontecimentos das eleições de 2017, cujos os resultados foram questionados pela população, que saiu à rua em protesto. As manifestações resultaram em várias mortes e o Governo acabou por emitir um recolher obrigatório, para reprimir os motins que agitavam o país.
À recordação desse rescaldo eleitoral, somava-se ainda a reação da candidata de esquerda, Rixi Moncada, que não assumiu a derrota, apesar dos resultados preliminares mostrarem que a sua eleição é praticamente impossível, e já tinha sido acusada pelos seus opositores de poder tentar “roubar” a eleição. Apesar dos alertas de Donald Trump e dos candidatos do centro e da direita hondurenha, as eleições mostraram-se, até agora, muito diferentes das de 2017. Na noite eleitoral, a Comissão garantiu que tudo tinha decorrido com normalidade, uma leitura que também foi feita pela Missão de Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos, que elogiou a participação democrática.
Na noite de segunda-feira, o correspondente do New York Times em Tegucigalpa, descrevia que, apesar da estreita margem, “a nação estava calma e alguns negócios até começaram a remover o contraplacado que tinham instalado nas janelas em caso de protestos”. Mesmo sem resultados definitivos e com os alertas de Trump, a normalidade democrática parece imperar.
A “teimosia” de Maduro e as ordens de Hegseth. As primeiras fissuras na “doutrina Donroe”
Nas declarações de apoio que fez a Asfura, Donald Trump não escondeu que o candidato hondurenho era, em grande parte, um meio para alcançar um fim: “lutar contra Maduro”. “Tito e eu podemos trabalhar em conjunto para combater os narcocomunistas, e trazer ajuda ao povo das Honduras”, elaborou na primeira publicação. O combate a Maduro, sob a fachada do combate ao tráfico de droga, pode ser explicado com o interesse de Trump em controlar toda a América Latina, através da colaboração com aliados nos vários países.
“Ele acredita que vivemos num bairro. E não se pode ser uma potência global proeminente se não se for uma potência regional proeminente”, argumentou Mauricio Claver-Carone, antigo enviado especial de Trump à América Latina, ao New York Times. Mas além do poder político, o continente traz outros benefícios para Washington, destaca o jornal: recursos naturais, posições geoestratégicos e amplos mercados. Ora, é impossível aceder a estes recursos em Estados governados por adversários de Washington — dos quais, o maior exemplo é a Venezuela. O estreitar de laços entre Washington e os vizinhos de Caracas — neste caso, as Honduras — contribui para isolar ainda mais o regime chavista e pressionar Maduro a abandonar do poder.
A pressão não é feita apenas de forma indireta, através de intermediários regionais. Aliás, esta pressão é muito visível na pressão militar, nos ataques a barcos no Mar das Caraíbas, na possibilidade de uma incursão terrestre. Numa primeira fase, as ações pareceram surtir resultados: Maduro revelou-se mais cauteloso e menos desafiador e parecia mesmo temer pela vida. Porém, nas últimos dias, a estratégia norte-americana começou a exibir as primeiras fissuras.
Por um lado, Maduro não cedeu à pressão. No final de novembro, os dois Presidentes falaram ao telefone, durante uma chamada em que o líder venezuelano aceitou abandonar o país em troca de amnistias para si, para toda a família e perdões para grande parte dos seus apoiantes, e na formação de um governo interino liderado pela sua vice-Presidente. Trump recusou as contrapartidas e deu a Maduro uma semana para abandonar o país. O prazo expirou na passada sexta-feira e o Presidente chavista continua na Venezuela, avançou esta terça-feira a Reuters.
Em vez disso, Maduro apelou novamente ao diálogo, procurando uma segunda chamada com Donald Trump, avançaram três fontes citadas pela agência noticiosa. “[Maduro] está a preparar-se para uma ronda de negociações, para que não tenha de abdicar de nenhuma carta no seu baralho, a menos que seja forçado”, declarou uma fonte diplomática em Caracas à CNN. A “teimosia” de Maduro, como descreve o analista do canal norte-americano, Stephen Collinson, é uma herança do seu passado como líder sindical, que treinou a sua paciência — uma característica pela qual Donald Trump não é conhecido.
▲ Depois do "medo" inicial, Maduro mostra-se agora "paciente" e procura dialogar com Trump
Miguel Gutierrez/EPA
A isto soma-se a leitura de Maduro de que a ameaça de uma incursão terrestre não passa de um “bluff“, dada a promessa eleitoral de Trump de não envolver os Estados Unidos em conflitos armados. Apesar da pressão dentro da sua administração, a opinião pública pode servir de travão a um novo escalar da ação contra o regime chavista. O analista Stephen Collinson destaca ainda outro fator que pode refrear a vontade de Washington de atacar diretamente a Venezuela: a resposta doméstica e internacional aos ataques a lanchas no mar das Caraíbas e no Pacífico Oriental. Em particular, o primeiro ataque, no dia 2 de setembro, durante o qual, terá sido ordenado um segundo ataque, que matou dois sobreviventes, segundo avançou o Washington Post na semana passada.
O segundo ataque terá sido realizado segundo uma ordem direta do secretário da Defesa, Pete Hegseth, para “matar toda a gente”, avançaram fontes com conhecimento da operação. A confirmar-se, o ataque constituiu um crime de guerra, condenado pelo Direito Internacional Humanitário. As acusações e as críticas têm pairado sobre o Pentágono e, consequentemente, sobre a Casa Branca, o que pode contribuir para fragilizar a estratégia de Trump para fazer frente a Maduro.
A “hipocrisia” e as “mensagens contraditórias” de Trump entre Hernández e Maduro
Nasry “Tito” Asfura, o candidato presidencial hondurenho apoiado por Donald Trump, lidera o Partido Nacional das Honduras (PNH). Herdou o cargo em 2022, depois de o antigo Presidente, Juan Orlando Hernández, ter sido extraditado para os Estados Unidos, onde foi condenado por tráfico de droga e lavagem de dinheiro. Por volta de 2013 ou 2014, o então Presidente hondurenho terá trabalhado com gangues nacionais para “enfiar drogas pelo nariz acima dos gringos“, como terá dito o próprio, utilizando a expressão depreciativa utilizada pelos latino-americanos, para se referirem aos habitantes dos Estados Unidos.
Passada uma década dessas declarações, JOH saiu esta terça-feira em liberdade. “De acordo com muitas pessoas que eu respeito imenso, [ele] foi tratado de forma muito dura e injusta”, justificou o Presidente norte-americano na semana passada, quando anunciou o perdão. Na mesma publicação, apoiava Asfura para Presidente. Asfura agradeceu o apoio, mas, apesar da filiação partidária, procurou manter alguma distância do seu antecessor. Isto porque o legado de JOH dentro das Honduras não é unânime.
Algumas pessoas lembram os seus mandatos presidenciais consecutivos como uma altura em que a vida “era melhor”. “Ele dava casas, um cabaz de bens essenciais era mais barato, a gasolina [também]”, elaborou Jair Ávila, ao Politico que, aos 20 anos, votou pela primeira vez: escolheu Asfura pelas boas lembranças que tem do seu antecessor. No entanto, apesar da perceção de alguns hondurenhos, a governação de JOH também foi marcada por “dez anos de autoritarismo e representa, para uma grande parte da população, violência, repressão, controlo das instituições, tráfico de droga e a impunidade das forças de segurança estatais“, recordou Joaquin Meija, advogado hondurenho e ativista ouvido pelo Le Monde. A liderança prolongada de Hernández só foi possível devido a uma violação do texto constitucional, que apenas permite um mandato.
▲ Juan Orlando Hernández cumpriu dois mandatos presidenciais, desafiando o texto constitucional
GUSTAVO AMADOR/EPA
A dicotomia entre as prioridades declaradas por Donald Trump para a América Latina — a defesa da democracia e o combate ao narcotráfico — e o legado de JOH — um mandato autoritário e uma condenação por tráfico de droga nos Estados Unidos — levam várias pessoas a apontar a “hipocrisia” do Presidente norte-americano.
“Isto só mostra que todo o esforço de Donald Trump contra a droga é uma charada — é baseado em mentiras, é baseado em hipocrisia”, criticou Mike Vigil, antigo responsável das operações internacionais da Administração para o Controlo de Droga dos EUA (DEA, na sigla em inglês). Sem acusar o Presidente de ser hipócrita, a congressista republicana Maria Salazar afirmou à CNN que o perdão envia “uma mensagem contraditória”, principalmente no âmbito da atual campanha contra Nicolás Maduro.
Orlando Pérez, académico na Universidade do Norte do Texas especializado na América Latina, aponta ao The Guardian que o perdão a JOH expõe uma realidade que é cada vez mais percetível na ação contra a Venezuela. “É tudo ad hoc e baseado em considerações políticas. Um [Hernández] é um apoiante dos EUA de direita — o outro [Maduro] não é. É ideológico, é político. É um interesse próprio em termos de promoção de uma agenda ideológica — e não tem nada a ver com políticas eficazes de combate à droga“, argumentou.