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Já não é uma hipótese, é praticamente uma certeza. Os Estados Unidos da América vão pôr em marcha nos “próximos dias” uma operação contra território venezuelano, avançou este domingo a agência Reuters. Resta saber quando e qual será o modelo da ação militar — mas a administração Trump está pronta para avançar com um plano que poderá retirar do poder o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Esta segunda-feira, entrou em vigor a classificação do Cartel de los Soles — uma suposta rede narcotráfico que os EUA alegam que é controlada pelo chefe de Estado do país sul-americano — como uma organização terrorista internacional.
Esta decisão dá a base legal para operações militares na jurisdição norte-americana em território venezuelano e surge no momento em que o gigantesco porta-aviões USS Gerald Ford foi posicionado no sul das Caraíbas para combater o narcotráfico. Este navio militar, o mais avançado da Marinha dos Estados Unidos, transporta quatro esquadrões de caças e três contratorpedeiros de mísseis guiados — uma poderosa força militar que pode fazer a diferença no terreno.
Por sua vez, entre danças e discursos improvisados em inglês, Nicolás Maduro tem apelado à paz nas aparições que vai fazendo em público: “Guerra não. Nunca, nunca a guerra!”. Após a designação do Cartel de los Soles como uma organização terrorista, o ministro dos Negócios Estrangeiros venezuelano, Yván Gil, emitiu esta segunda-feira um comunicado em que recusa de “maneira categórica, firme e absoluta” a decisão norte-americana. O governo da Venezuela alega mesmo que essa organização não existe e é apenas uma “mentira infame e vil para justificar uma ilegítima e ilegal intervenção contra a Venezuela sob o formato de mudança de regime”.
Maduro baila y lanza un mensaje: "Guerra no. Nunca, nunca la guerra" pic.twitter.com/fAqKAnj7CW
— EL MUNDO (@elmundoes) November 22, 2025
O executivo venezuelano assegura no comunicado que esta “manobra fracassará”. No entanto, o Presidente venezuelano teme pela vida, avançam várias fontes que foram próximas do regime ao Telegraph. O antigo embaixador norte-americano na Venezuela, James Story, disse ao jornal britânico que o chefe de Estado não “está a dormir bem” com a possibilidade de ser assassinado pelos Estados Unidos a qualquer momento.
De acordo com o ex-vice-ministro dos Negócios Estrangeiros de Hugo Chávez, Eustoquio Contreras, entre os militares do regime — os principais apoiantes de Nicolás Maduro —, existe já a noção de que o Presidente pode cair a qualquer momento. É provável, segundo contou o agora crítico do regime ao Telegraph, que já tenha havido discussões para uma transição pacífica do poder, em concreto para a Nobel da Paz e principal rosto da oposição, María Corina Machado.
“Esta crise está a chegar ao fim. Existe a sensação coletiva de que [o regime] está numa fase terminal”, acredita Eustoquio Contreras, que espera que a transição de poder ocorra através de “negociações”. Mas vai Nicolás Maduro ceder assim o lugar? A dúvida mantém-se, mas o ex-vice-ministro avisa que a “violência será inevitável”, caso o atual Presidente não resigne.
Voos cancelados, a designação como narcoterrorista e a visita do general dos EUA. Os sinais de que a operação militar está próxima
Este sábado, surgiu um sinal de que os Estados Unidos estão a avançar com a operação militar. A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA, na sigla inglesa) alertou para uma “situação potencialmente perigosa” no espaço aéreo venezuelano, levando várias companhias — incluindo TAP, Iberia, Avianca, Gol, Latam, Caribbean Airlines — a cancelar voos de e para Caracas. A FAA aponta interferências no sistema de navegação GNSS e um aumento da atividade militar venezuelana como motivos para a recomendação de “extrema precaução”.
A FAA recomenda que os operadores mantenham “a prudência” a todas as altitudes, incluindo durante as fases de aproximação, descolagem e aterragem, e exige que qualquer plano de entrada no espaço aéreo venezuelano seja comunicado com 72 horas de antecedência, justificando a decisão com o aumento das interferências registadas desde setembro no sistema de navegação por satélite GNSS sobre o território venezuelano, perturbações que podem afetar de forma prolongada a segurança dos voos.
As companhias aéreas começaram de imediato a ajustar as suas operações. TAP, Iberia (Espanha), Gol (Brasil), Avianca (Colômbia), Latam (Chile) e Caribbean Airlines (Trindade e Tobago-Jamaica) cancelaram os voos com destino a Caracas. Por sua vez, as companhias aéreas venezuelanas Laser, Estelar e Venezolana de Aviación e a colombiana Wingo informaram que vão continuar as operações normais na Venezuela.
A TAP cancelou o voo TP170 de sábado e o desta terça-feira, garantindo que todos os passageiros foram informados e poderão pedir reembolso. Numa nota enviada à agência Lusa, a companhia explicou que a recomendação norte-americana indica que “não estão garantidas as condições de segurança no espaço aéreo venezuelano”. A companhia sublinhou que não se trata de uma suspensão voluntária, mas de uma medida de precaução tomada num contexto de incerteza operacional e aumento de atividade militar na zona, reforçando que a decisão visa exclusivamente “garantir a segurança dos passageiros e da tripulação”.
No país vizinho da Venezuela, a Colômbia, a autoridade nacional de aviação civil do país confirmou que está a ajustar rotas e procedimentos para garantir a segurança, instruindo as companhias a reportarem incidentes e, quando necessário, a notificarem planos de voo com 72 horas de antecedência.
Esta segunda-feira surgiu mais um indício de que o conflito pode mesmo irromper em território venezuelano: a rede Cartel de los Soles foi colocada na lista de organizações terroristas internacionais. Antes do segundo mandato do Presidente norte-americano, essa categoria estava reservada para grupos como a Al-Qaeda ou o autoproclamado Estado Islâmico. Em fevereiro deste ano, oito organizações criminais da América Latina envolvidas no tráfico de droga, no tráfico de pessoas e outras atividades foram adicionadas à lista.
▲ Nicolás Maduro é Presidente da Venezuela desde 2013
MIGUEL GUTIERREZ/EPA
Numa entrevista, o secretário da Defesa norte-americano, Pete Hegseth, admitiu que esta caracterização do Cartel de los Soles “traz muitas novas opções” para os Estados Unidos na forma como poderão agir contra o regime da Venezuela. O governante não concretizou que opções serão essas, mas deixou claro haverá “mais ferramentas” para o Presidente para “decidir se o hemisfério [ocidental]” é ou não “controlado por narcoterroristas”. “Nada está fora da mesa, mas nada está automaticamente na mesa.”
A designação é também uma proteção jurídica. Ao rotular o Presidente venezuelano como líder de uma organização “narcoterrorista”, os Estados Unidos passam a dispor, no seu entendimento, de uma base legal para o prender ou matar. Aos olhos de Washington, todas as ações dirigidas contra Nicolás Maduro serão na lógica de ele ser um líder um grupo terrorista — e não um chefe de Estado. É, desta forma, uma maneira de Washington se tentar desresponsabilizar juridicamente no caso de prender ou matar um líder estrangeiro.
A lógica é que os Estados Unidos veem agora o Presidente da Venezuela como um criminoso procurado internacionalmente. Aliás, o FBI ofereceu uma recompensa de 50 milhões de dólares (cerca de 43 milhões de euros) a quem dê informações que levem à captura de Nicolás Maduro. Agora, como líder uma organização terrorista, a pressão intensifica-se.
▲ Cartaz na Colômbia a pedir captura de Maduro
AFP via Getty Images
Ainda assim, permanecem dúvidas sobre efetivamente o Cartel de los Soles se comporta como uma organização — e não há um consenso entre os especialistas. Como explica o analista Adam Isaacson à Associated Press, o cartel não é “bem um grupo”: “Os integrantes não se identificariam como membros. Não têm reuniões regulares. Não têm uma hierarquia”. O regime da Venezuela, por seu turno, tem negado categoricamente a existência do cartel.
À CNN Brasil, Gabriela Reyes, criminologista boliviana e especialista em segurança regional da América Latina, aclara que não existe uma “evidência sólida” de uma “estatização de um cartel monolítico dirigido desde a cúpula do Estado”. Em vez disso, o cartel desdobra-se em “múltiplos nós e redes fragmentadas, mais do que uma estrutura rígida e vertical”.
No que diz respeito ao tráfico de droga, Gabriela Reyes assinala que a Venezuela, através do Cartel de los Soles, funciona mais como um corredor estratégico do narcotráfico. Ou seja, serve como intermediária entre os “grandes cartéis mexicanos e colombianos”, que estes, sim, “controlam de facto a produção e distribuição global” de cocaína — que depois entra nos Estados Unidos. Neste contexto, é difícil perceber a dinâmica e a organização do cartel.
Independentemente das dúvidas, os Estados Unidos têm lançado vários ataques contra embarcações norte-americanas na costa das Caraíbas, alegando que transportam droga da Venezuela. Foram atacadas 20 lanchas perto da Venezuela e morreram 83 pessoas.
Em breve, noutro sinal da escalada da tensão, o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas norte-americanas, reunir-se-á esta segunda-feira com militares do Comando Sul dos Estados Unidos em Porto Rico, onde a presença militar norte-americana tem aumentando à medida que a Casa Branca pondera a ação militar contra Caracas, avançou o Pentágono em comunicado citado pela Bloomberg.
Dan Caine e David L. Isom, outra alta patente nas Forças Armadas norte-americanas, vão visitar o território norte-americano onde se acredita estarem estacionados a maior parte dos cerca de dez mil militares dos EUA no teatro de operações nas Caraíbas. Adicionalmente, os dois homens também estarão com os soldados antes do Dia da Ação de Graças.
EUA querem voltar a ser uma “potência hegemónica na região”. O que pode acontecer?
O New York Times apurou que a Casa Branca está a desenvolver vários planos para o futuro da Venezuela — e praticamente todos eles coincidem que o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tem de sair do poder, apostando em pressão militar, deslegitimação diplomática, coerção judicial e tentativas discretas de negociação. Já se ouviu a hipótese, vinda de Maduro, de se exilar… mas só daqui a dois anos. Algo que os EUA rejeitam categoricamente.
O historiador Bruno Cardoso Reis explica, à Rádio Observador, que existe “claramente uma intenção de fazer pressão militar sobre o regime”, sublinhando que Washington quer recentrar a atenção nas Américas e “retomar uma posição de potência hegemónica na região”. Para o especialista, Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, tem sido determinante na agenda anti-Maduro, motivado pelo combate ao narcotráfico e pela necessidade de travar fluxos migratórios.
Quanto ao objetivo final, Bruno Cardoso Reis nota que permanece um clima de incerteza. “Se Donald Trump já decidiu o que mais fazer — ataques aéreos, operações encobertas ou até intervenção terrestre — isso levanta muitas dúvidas”, afirmou o historiador.
Do ponto de vista militar, não há meios suficientes na região para uma invasão total, mas há capacidade para ataques cirúrgicos contra alvos ligados ao narcotráfico ou à defesa aérea venezuelana, como referiu, à Rádio Observador, o coronel José do Carmo. “O tipo de meios que estão ali concentrados não permite uma invasão terrestre. É pressão. Pressão para tirar Maduro do poder”. Como recorda o especialista, a CIA já terá autorização para ações de subversão no país, procurando fortalecer a oposição interna e enfraquecer as estruturas leais ao regime.
Venezuela. “Objetivo é fazer pressão militar sobre o regime”
Daqui para a frente, não se sabe ao certo que se pode esperar. O cenário mais provável, segundo Bruno Cardoso Reis, não é o de invasão terrestre, mas o de operações militares limitadas combinadas com pressão diplomática e clandestina. José do Carmo partilha a mesma opinião, afirmando que “a ideia é que alguma oposição interna se faça forte, com as costas quentes. Não há força suficiente para uma invasão”.
No terreno, de acordo com o New York Times há três possibilidades. A primeira é a escalada militar, com ataques aéreos contra instalações militares, algumas das quais envolvidas no tráfico de droga. O objetivo é colapsar o apoio militar ao regime de Maduro, que, neste cenário, poderia procurar fugir da Venezuela ou então sair de Caracas, o que tornaria mais fácil a sua captura.
Depois, há o envio tropas de operações especiais norte-americanas para tentar capturar (ou eventualmente matar) o Presidente venezuelano. Existe ainda a possibilidade do envio de brigadas antiterrorismo para a Venezuela, com a finalidade de controlar algumas bases militares, petrolíferas e infraestruturas vitais. Esta opção é mais arriscada para as tropas norte-americanas no terreno.
Em última instância, a decisão caberá ao Presidente norte-americano, Donald Trump. O Chefe de Estado quer evitar que as tropas norte-americanas corram riscos desnecessários, assim como deseja prevenir um falhanço para os Estados Unidos. Em paralelo, a presidência pretende não incomodar as vozes que defendem políticas não intervencionistas da sua base eleitoral. Mas este posicionamento está a ser questionado por Marco Rubio, juntamente com o conselheiro de Segurança Interna Stephen Miller, que estão a influenciar o Chefe de Estado a agir de forma mais agressiva e assertiva contra a Venezuela.
O Presidente norte-americano também está focado noutro assunto: nas reservas de petróleo que a Venezuela tem. Mas ainda não é claro o que aconteceria se Nicolás Maduro saísse do poder: se os Estados Unidos se apropriariam das mesmas, ou se as geririam em conjunto com o futuro líder venezuelano, que, em teoria, seria María Corina Machado.
Agora, após duas semanas de várias reuniões de alto nível, sabe-se apenas que Trump já terá sido informado das várias possibilidades operacionais, numa reunião de alto nível na quinta-feira na sala de situação da Casa Branca. O Presidente dos Estados Unidos já terá tomado uma decisão sobre as ações militares que pretende tomar em relação à Venezuela, mas nunca a tornou pública.
Rússia coloca garras de fora para proteger Maduro — e terá enviado general
Oleg Makarevich. Este coronel-general das Forças Armadas Russas estará a comandar a missão Equator Task Force (ETF) do Ministério da Defesa russo, composta por mais de 120 militares — espalhados por vários pontos do território venezuelano como Caracas, Maracaibo, La Guaira e na ilha de Aves —, que estão a monitorizar a situação no país da América do Sul.
O Presidente russo, Vladimir Putin, nunca escondeu a proximidade com o homólogo venezuelano. A Rússia tem sido uma parceira económica, diplomática e política do regime da Venezuela — e não deseja que Nicolás Maduro saia do poder. Por causa disso, terá enviado militares para estarem atentos à situação no terreno e tentar apoiar o chefe de Estado.
A informação de que Oleg Makarevich — que já tinha sido mobilizado para combates na Ucrânia — está na Venezuela foi avançada pelo chefe dos serviços de informação do Ministério da Defesa da Ucrânia, Kyrylo Budanov. Em declarações à imprensa ucraniana, o responsável militar informou que a Rússia está a treinar as forças venezuelanas em diversas áreas, incluindo infantaria, forças especiais, operações com drones e na partilha de informações secretas.
Segundo Kyrylo Budanov, a missão do ETF na Venezuela é de longa duração e não constitui uma resposta iminente à recente intensificação da presença militar norte-americana nas Caraíbas. “Isto é apenas um jogo. Eles ficarão nos bastidores e a Rússia tentará negociar com os EUA porque as suas unidades estão na Venezuela”, afirmou o líder das secretas militares.
▲ Vladimir Putin recebeu Nicolás Maduro no Kremlin em setembro de 2019
Anadolu Agency via Getty Images
O aniversário de Nicolás Maduro foi no domingo. Numa mensagem de parabéns, o Presidente russo destacou que o homólogo “superará com dignidade todas as provas e defenderá os seus interesses legítimos”, confirmando a solidariedade russa com o povo venezuelano. Mas ainda não é claro até onde o Kremlin está disposto a ir para defender o seu aliado, principalmente numa altura em que se negoceia um acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia. Vladimir Putin não pode arriscar irritar Donald Trump — e pode preferir não intervir na queda do Presidente venezuelano.
Depois de meses de antecipação, o regime chavista parece estar com os dias contados. Os Estados Unidos deverão agir em breve com a finalidade de derrubar Nicolás Maduro, ainda que se mantenha a incógnita sobre como é que isso vai acontecer. Depois disso, o Presidente venezuelano aparenta ter duas opções: ou renuncia ao cargo, ou prolonga o conflito.