Reza a lenda que havia na China, em tempos idos, um artista de rua que conseguia muitas moedas graças ao seu pequeno macaco, que fazia umas danças engraçadas. Um certo dia, porém, o macaco decidiu que não estava para aí virado. Então, o dono pegou numa galinha, degolou-a e, apontando a faca ensanguentada ao macaco, não precisou de muitas palavras para que ele percebesse que, se não começasse imediatamente a dançar, o próximo pescoço a rolar no passeio seria o seu. Daqui surgiu um antiquíssimo provérbio chinês: “Se queres assustar o macaco, mata a galinha”.

À medida que a promotora imobiliária Evergrande se aproxima do abismo, o governo chinês mostra (publicamente) que tem pouca vontade de colocar a mão por baixo – algo que está a gerar receios de um “momento Lehman” nas bolsas mundiais, com danos para os mercados e para as economias comparáveis aos que foram causados pelo colapso súbito e desordenado do banco de investimento norte-americano, em 2008. Estará Pequim a deixar morrer a proverbial galinha para pôr na ordem um “macaco” há muito bem identificado na economia chinesa – a gigantesca “banca-sombra” que alimenta a bolha de dívida de empresas como a Evergrande?

Segundo a imprensa financeira dos Estados Unidos, o poder central já pediu aos governos regionais para se “prepararem para a tempestade” que surgirá com uma possível falência. Entre os riscos a acautelar está a “instabilidade social”, isto é, protestos volumosos por parte de lesados que podem perder as poupanças que aplicaram na Evergrande – sejam ativos reais que podem perder valor ou, sobretudo, instrumentos financeiros que foram colocados no retalho com promessas de juros chorudos (até 13%), malas Gucci e purificadores de ar da Dyson. Foi dessa forma que se geraram os enormes fluxos de dinheiro, alheios à regulação bancária, que alimentam a chamada “banca-sombra” chinesa.

Evergrande. China pede aos governos regionais do país que se “preparem para a possível tempestade”

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