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Evergrande. O gigante chinês dono de um clube de futebol que seduziu o povo com juros de 13% e malas Gucci /premium

A Evergrande, à beira da falência, pode significar o fim de uma era na China – a era do "construir, construir, construir", com base em dívida e mais dívida. Até onde podem cair os dominós?

Reza a lenda que havia na China, em tempos idos, um artista de rua que conseguia muitas moedas graças ao seu pequeno macaco, que fazia umas danças engraçadas. Um certo dia, porém, o macaco decidiu que não estava para aí virado. Então, o dono pegou numa galinha, degolou-a e, apontando a faca ensanguentada ao macaco, não precisou de muitas palavras para que ele percebesse que, se não começasse imediatamente a dançar, o próximo pescoço a rolar no passeio seria o seu. Daqui surgiu um antiquíssimo provérbio chinês: “Se queres assustar o macaco, mata a galinha”.

À medida que a promotora imobiliária Evergrande se aproxima do abismo, o governo chinês mostra (publicamente) que tem pouca vontade de colocar a mão por baixo – algo que está a gerar receios de um “momento Lehman” nas bolsas mundiais, com danos para os mercados e para as economias comparáveis aos que foram causados pelo colapso súbito e desordenado do banco de investimento norte-americano, em 2008. Estará Pequim a deixar morrer a proverbial galinha para pôr na ordem um “macaco” há muito bem identificado na economia chinesa – a gigantesca “banca-sombra” que alimenta a bolha de dívida de empresas como a Evergrande?

Segundo a imprensa financeira dos Estados Unidos, o poder central já pediu aos governos regionais para se “prepararem para a tempestade” que surgirá com uma possível falência. Entre os riscos a acautelar está a “instabilidade social”, isto é, protestos volumosos por parte de lesados que podem perder as poupanças que aplicaram na Evergrande – sejam ativos reais que podem perder valor ou, sobretudo, instrumentos financeiros que foram colocados no retalho com promessas de juros chorudos (até 13%), malas Gucci e purificadores de ar da Dyson. Foi dessa forma que se geraram os enormes fluxos de dinheiro, alheios à regulação bancária, que alimentam a chamada “banca-sombra” chinesa.

Evergrande. China pede aos governos regionais do país que se “preparem para a possível tempestade”

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A Evergrande é um dos maiores conglomerados empresariais chineses, focado na área da promoção imobiliária. Emprega cerca de 200 mil pessoas na China, tem mais de 1.300 projetos imobiliários em cerca de 280 cidades chinesas e é a principal dona de uma equipa de futebol bastante bem sucedida – a Guangzhou Football Club (que até há pouco tempo se chamava Guangzhou Evergrande Football Club).

É para esse clube que está a ser construído um estádio projetado para albergar 100 mil pessoas, que terá uma forma icónica de flor de lótus e abrirá portas no final de 2022, se nada correr mal.

Mas está tudo a correr mal. A Evergrande é, também, uma das empresas mais endividadas do mundo, sentada numa “montanha” de créditos equivalente a 305 mil milhões de dólares, ou 260 mil milhões de euros.

À medida que essas dívidas vão chegando à maturidade, está a ser cada vez mais difícil cumprir – sobretudo desde que no ano passado o governo chinês promoveu algumas alterações legislativas no mercado imobiliário, que levaram a que muitos promotores como a Evergrande se vissem obrigados a vender casas e prédios com grandes descontos. Ou a detoná-los.

Esses protestos até já começaram, de momento organizados por grupos de funcionários da Evergrande que dizem ter sido persuadidos pelo seu empregador a investir naqueles produtos de “gestão de património” – agora, estão confrontados com o sério risco de perder tudo, ou quase tudo. A alguns dos investidores já terão sido propostas extensões nos prazos de pagamentos, mas sem garantias. E há outro problema: se a Evergrande colapsar e as suas operações ficarem suspensas, quem já entregou dinheiro (depósitos iniciais) à empresa para lhes comprar casas arrisca, agora, ficar sem o dinheiro — e sem a casa.

Oficialmente, a empresa tem dito que os rumores de que está à beira da bancarrota são “completamente falsos“. Em comunicado, a Evergrande reconheceu que “a empresa está, com efeito, confrontada com dificuldades sem precedentes”, mas garantiu que “está empenhada em fazer tudo o que é possível para retomar as operações normais e proteger os legítimos interesses dos clientes”.

Os rumores de que está à beira da bancarrota são "completamente falsos", diz a Evergrande. "A empresa está, com efeito, confrontada com dificuldades sem precedentes", mas garantiu que "está empenhada em fazer tudo o que é possível para retomar as operações normais e proteger os legítimos interesses dos clientes".

A solução poderá passar por vender alguns negócios em que o conglomerado se foi metendo nos últimos anos, como a produção de componentes para carros elétricos. Até agora, porém, nenhum investidor quis comprar esses negócios e dar à Evergrande algum encaixe financeiro que pudesse servir como “balão de oxigénio”.

A pressão financeira é “tremenda”, reconheceu a Evergrande, culpando os jornais e a imprensa pelas “notícias negativas” que estão a diminuir as vendas do grupo (e, presumivelmente, a tornar mais exíguas as entregas de dinheiro recebidas em troca dos produtos de investimento que distribui junto dos cidadãos).

Os dias do sufoco: irá Pequim ceder à pressão e pôr a mão por baixo?

Para esta quinta-feira, estava previsto o reembolso de um cupão de dívida a investidores externos que, à hora de publicação deste artigo, parecia caminhar para o incumprimento, com vários credores a dizerem que, até ao momento, ainda não receberam qualquer pagamento. Trata-se de 83,5 milhões de dólares em obrigações denominadas em dólares norte-americanos.

Outros reembolsos significativos vão ter de ser feitos nos próximos dias, daí a pressão financeira “tremenda”. Ainda assim, de acordo com as regras em vigor, se o pagamento não for feito até ao final dos prazos, a empresa só será considerada (formalmente) em incumprimento 30 dias depois.

Bem antes disso, a situação pode tornar-se um problema político para o Presidente Xi Jinping porque se gerou uma perceção de que, tendo em conta as particularidades da política económica chinesa o governo, no final, acaba sempre por intervir. Foi o que aconteceu em 2018 com o grupo financeiro Anbang – dono dos hotéis Waldorf Astoria, que chegou a estar interessado no Novo Banco – e, também, do grupo HNA, que em 2020 também foi alvo de uma reestruturação patrocinada por Pequim.

Chinesa Evergrande chega a acordo com credores e afasta (para já) receios de “momento Lehman” nos mercados mundiais

Talvez por isso os economistas e analistas de mercado pareçam estar relativamente tranquilos em relação a esta matéria. Uma sondagem feita esta semana pelo Deutsche Bank junto dos seus clientes, investidores institucionais, revelou na terça-feira que “apenas 8% dos inquiridos acreditam que a Evergrande poderá ter um impacto significativamente negativo para os mercados financeiros globais, com 68% a anteciparem “nenhum impacto ou um impacto limitado”.

Porém, com mais ou menos pressão diária, o que parece inevitável é que no fim da linha terá de estar Pequim. E o risco de o governo central mostrar relutância em garantir as dívidas da empresa é que, na realidade, a Evergrande não é apenas uma “galinha” insignificante, que está ali à mão de degolar. Com tanta dívida, ninguém pode prever até onde podem ir as ramificações de um incumprimento — no fundo, quantas peças de dominó podem cair depois.

Além disso, a Evergrande é um símbolo de um modelo económico que, para alguns economistas, tem os dias contados: construção excessiva e endividamento astronómico. Os problemas da empresa não são apenas seus, são o reflexo de um padrão de desenvolvimento desequilibrado – é no setor imobiliário chinês que se gera quase 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e, agora, esta atividade arrisca deixar de ser um motor de crescimento para ser um fardo.

Porém, com mais ou menos pressão diária, o que parece inevitável é que no fim da linha está Beijing.

O excesso de oferta deixa poucas dúvidas sobre a inversão que está a prestes a acontecer – ou que já terá começado. Como apontou recentemente Logan Wright, de uma consultora de Hong Kong chamada Rhodium Group, mesmo com as detonações que têm sido feitas em algumas “cidades-fantasma”, estima-se que existam na China casas vazias que poderiam albergar 90 milhões de pessoas. Seria suficiente para dar casa a toda a população de cinco países dos sete países do G7 – França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Canadá. E ainda sobrava espaço.

“Existe uma noção de que o velho modelo de construir, construir, construir, já não funciona e está, na verdade, a tornar-se algo perigoso”, comentou Leland Miller, de outra consultora, a China Beige Book, citado pelo Financial Times. “A liderança política, agora, parece reconhecer que já não pode esperar mais para alterar o modelo de crescimento económico”, acrescenta o especialista.

Exposição “direta” da instituição é “imaterial”, garante o UBS

Robert Carnell, economista do ING especializado nos mercados Ásia-Pacífico, diz em nota de análise que “parece, nesta fase, que a narrativa em torno da Evergrande deixou de ser de que pode ser um problema sistémico” – os investidores estão, agora, “a considerar provável que a Evergrande acabará por ser reestruturada e os danos colaterais serão apenas localizados”.

Porém, já estão a fazer-se contas a quem são as instituições financeiras ocidentais mais expostas, caso aconteça o pior. E, segundo uma análise da Morningstar, divulgada já esta quarta-feira, o gigante dos fundos de investimento BlackRock, o maior banco do mundo HSBC e o suíço UBS estão entre os mais expostos a títulos de dívida da Evergrande. Já esta quinta-feira, porém, o presidente do UBS foi à antena da televisão da Bloomberg garantir que a exposição “direta” da instituição é “imaterial”, ou seja, é pouco significativa.

Numa situação de grande gravidade como esta, envolvendo uma empresa com tanta dívida, o risco é que possam existir exposições indiretas ou impactos de segunda ordem como aqueles que podem surgir se um eventual colapso levar a um congelamento dos mercados monetários – como aconteceu na falência do banco de investimento Lehman Brothers.

Para já, não é essa a visão partilhada pelos bancos de investimento. “São limitados os riscos de um contágio financeiro com impacto para os mercados globais”, assinalou Paul Lukaszewski, responsável pela pesquisa em dívida empresarial asiática do Aberdeen Standard Investments. “A exposição à Evergrande é predominantemente detida dentro do país, a China, e mesmo o mercado obrigacionista estrangeiro é muito especial porque os investidores domésticos representam 80% ou mais dos títulos denominados em dólares norte-americanos, emitidos por empresas chinesas”, acrescenta o especialista.

“Para que o contágio atingisse os mercados financeiros globais, seria necessário que houvesse efeitos de segunda e terceira ordem, em que a situação da Evergrande levasse a uma crise mais vasta no país – e acreditamos que isso é improvável“, termina Paul Lukaszewski.

“Para que o contágio atingisse os mercados financeiros globais, seria necessário que houvesse efeitos de segunda e terceira ordem, em que a situação da Evergrande levasse a uma crise mais vasta no país – e acreditamos que isso é improvável."
Paul Lukaszewski, responsável pela pesquisa em dívida empresarial asiática do Aberdeen Standard Investments.

“Extrapolação preocupante” sobre o crescimento futuro da China (e do mundo)

Por cá, o economista João Moreira Rato disse à Lusa acreditar que o Estado chinês “estará pronto para lidar com o problema” da Evergrande, rejeitando “grandes razões para alarmismos” relativos ao grupo imobiliário.

“Isto tem a ver com medidas que o Estado chinês tomou no verão, que visavam, de alguma forma, regulamentar o grau de alavancagem destas empresas imobiliárias, de alguma forma para proteger o retalho chinês e a população em geral destas tendências especulativas”, indicou o antigo presidente do IGCP e atual professor universitário. “Essas limitações é que tiveram impacto na Evergrande”, acrescentou o economista, considerando que “o Estado chinês estará pronto e tem capacidade suficiente para lidar com o problema internamente”.

Porém, outros analistas alertam que, mesmo que o impacto imediato nos mercados financeiros possa ser gerível, olhar apenas para isso pode ser uma visão redutora sobre o que o possível fim da era do “construir, construir, construir” na China pode significar.

“Continuamos a achar que a importância da Evergrande não está no facto de poder ser um gatilho capaz de desencadear uma crise sistémica mas, sim, na extrapolação preocupante que pode ser feita acerca das perspetivas de crescimento futuro da economia chinesa, com implicações para o crescimento global”, aponta a equipa de economistas do holandês Rabobank, liderada por Richard McGuire.

“Continuamos a achar que a importância da Evergrande não está no facto de poder ser um gatilho capaz de desencadear uma crise sistémica mas, sim, na extrapolação preocupante que pode ser feita acerca das perspetivas de crescimento futuro da economia chinesa, com implicações para o crescimento global."
Rabobank, equipa liderada pelo economista Richard McGuire, em Londres.

Nesta fase, todavia, a aparente serenidade dos especialistas também pode encontrar explicação no provérbio do artista de rua. Porquê? Porque o governo chinês também tem beneficiado do modelo de crescimento turbinado por empresas como a Evergrande. E porque o governo de Pequim é o principal interessado em manter a paz social que pode estar em perigo se muitos investidores perderem fortunas e a economia tropeçar.

No fundo, a razão pela qual o homem cortou o pescoço à galinha foi porque, embora ela pudesse não ter grande valor para ele, o macaco ainda tinha – desde que estivesse disposto a dançar.

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