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Durante metade do ano o sudeste asiático é um autêntico hotspot para turistas de todo o mundo que atravessam os diferentes países daquela área de mochila às costas para conhecer as suas mais variadas culturas. No resto do calendário, especialmente na reta final do ano e início do seguinte, a região é um íman de mau tempo, com chuvas intensas devido às monções, e ventos fortes, causados por tufões e ciclones tropicais. Este ano, no entanto, os fenómenos habitualmente recorrentes assumiram uma magnitude inédita.
Espalhados pelos territórios da Indonésia, do Sri Lanka, do Vietname e da Tailândia, uma série de ciclones ao longo do mês de novembro provocou a morte de mais de 1.300 pessoas. A estas, juntam-se milhares que continuam desaparecidas entre os escombros das casas que foram destruídas, bem como milhões que ficaram desalojados e atualmente estão hospedadas em centros de acolhimento provisório devido à intensidade das tempestades.
Mas se este é um fenómeno tão comum, porque é que este ano se está a ver um número de vítimas e ocorrências significativamente superior?
As tempestades são comuns, mas estão cada vez mais intensas?
“Os ciclones nesta altura do ano são normais”, garante ao Observador a climatologista e investigadora do Instituto Dom Luiz, Rita Margarida Cardoso. “O que se passa neste momento é que a temperatura do Pacífico está fria no região central, mas junto à Indonésia e à costa oeste da Austrália — e no centro do Índico —, a temperatura da água está acima da média”, explica a especialista. No caso da Indonésia, que é o país mais afetado até ao momento pelas cheias, a temperatura das águas “chega quase aos três graus acima da média” dos últimos 30 anos.
“Ou seja, quanto maior for a temperatura da água do mar, ao evaporar, mais calor vai libertar para atmosfera”, continua a climatologista, referindo que é este aumento das temperaturas que serve como “combustível” para os ciclones tropicais. “Tudo isto é como se fosse uma máquina, que se vai realimentando, e com as temperaturas do ar e do mar mais quentes que o habitual, ainda há mais combustível, traduzindo-se numa maior intensidade dos fenómenos”, acrescenta.
Por fim, Rita Margarida Cardoso conclui que apesar de estes fenómenos serem “normais” e “naturais” nesta altura do ano e nesta região do globo, tem-se verificado uma tendência crescente das suas intensidades, que é justificado pela maior retenção de vapor de água na atmosfera. “Quanto mais vapor de água a atmosfera retiver, quando chove, irá chover mais intensamente. É isso que se está a passar”.
De que forma é que os diferentes países foram afetados?
De acordo com a plataforma online da Agência Nacional de Gestão de Desastres da Indonésia, morreram 770 pessoas na ilha de Sumatra — a maior do arquipélago indonésio. Adicionalmente, mais de 450 pessoas continuam desaparecidas e centenas de milhares de residentes foram desalojados pelas cheias, anunciou a agência. Há, ainda, cerca de 2.600 feridos.
No Sri Lanka, o país no sul do continente que foi mais afetado pelos sucessivos ciclones (na verdade foram dois ciclones e um tufão), o número de vítimas mortais atingiu os 474, segundo a última atualização feita pelo Centro de Gestão de Desastres nacional. 356 pessoas continuam desaparecidas, com operações de busca e salvamento a decorrer nas várias localidades que sofreram com as cheias. E, neste sentido, as autoridades registam danos em mais de 40 mil casas.
O Vietname já foi atingido por 15 tufões em 2025. De acordo com o New York Times, as cheias e os deslizamentos de terra no mês de novembro provocaram 90 mortos. Também na Tailândia, na margem mais ocidental do sudeste asiático, foram registadas mais de 160 mortes e mais de dois milhões de desalojados como consequência direta das cheias.
Houve um aumento do número de tempestades na região?
Não. Como explica a climatologista consultada pelo Observador, “o consenso é que não há um aumento do número” de tempestades, mas sim um “aumento da sua intensidade”. “Se formos ver os registos dos últimos anos, o número de tempestades mais intensas— tanto no Atlântico como no Pacífico — é maior”, refere Rita Margarida Cardoso.
Nesta última semana, chegaram a existir três ciclones em simultâneo na região do sul e sudeste asiático e, só este ano, já foram registados 16 entre os oceanos Índico e o Pacífico. Contudo, este número não é “anómalo”. A especialista sublinha que se trata de uma “área enorme” e que “não é uma questão de número, mas sim de intensidade”.
Esperam-se mais ciclones ou o pior já passou?
A época das chuvas começa normalmente em outubro e termina no início do ano seguinte. Assim, é difícil afirmar que o pior já passou pelo sudeste asiático. A climatologista contactada pelo Observador dá conta de três depressões que se estão a formar atualmente na região superior do Pacífico.
Sublinha, porém, que apesar de representarem um indício de probabilidade que podem vir a transformar-se em ciclones — e, por sua vez, em chuvas fortes e mais cheias na região —, não é possível garantir que se venham efetivamente a converter no pior cenário. “Uma delas está quase na costa americana. Até chegar à Indonésia ainda faltam muitos quilómetros”, refere Rita Margarida Cardoso.
O que se deve fazer para reduzir o impacto destes fenómenos?
Para além das alterações climáticas — que têm sido as principais responsáveis pelo aumento da temperatura das águas do mar e, por consequência, pela maior intensidade dos fenómenos meteorológicos recentes —, a especialista do Instituto Don Luiz destaca o “fator humano” nestas regiões.
“A Indonésia é um país extremamente populoso. O Sri Lanka também tem uma grande população vulnerável e um desordenamento do território muito grande”, descreve Rita Margarida Cardoso. Por esse motivo, a consequência destes ciclones mais intensos acaba por ser ainda mais evidente. No caso específico da Indonésia, o país que tem sido mais afetado nestas últimas semanas, existe uma “grande desflorestação”.
“Ao desflorestar, estão a libertar o solo, que depois fica sem vegetação. Quando chove, e chove cada vez mais intensamente, temos estes deslizamentos de terra associados. Portanto, isto é tudo um ciclo vicioso que é amplificado neste sistema que está num equilíbrio muito frágil. A qualquer pequeno desequilíbrio, as consequências são muito graves”, acrescenta. Sem as árvores e a vegetação, o solo torna-se mais compacto e exposto e, fruto das grandes chuvadas, em vez de absorver a água, acaba por haver um escoamento à superfície, que “torna a situação ainda mais difícil”. Não é só o fator humano, mas “a junção destas decisões com os efeitos das alterações climáticas é o que leva a estes grandes desastres”.
Sendo já conhecida a tendência do aquecimento das temperaturas da água do mar, o aumento da intensidade dos fenómenos é inevitável. Porém, a especialista sublinha que podem ser tomadas medidas para garantir que a próxima época de mau tempo não produza os efeitos catastróficos observadados este ano. “Têm de voltar a reflorestar e de combater a desflorestação ilegal”, reforça Rita Margarida Cardoso, referindo que a perda da vegetação “não é viável” para o território. Aponta, ao mesmo tempo, para a construção de habitações em zonas perigosas e em áreas de elevado risco de deslizamentos.
“Os alertas existem, mas é preciso que depois, no terreno, os alertas tenham alguma consequência”, conclui.