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Familiar do antigo xá do Pérsia em entrevista: é "plausível" que transição de poder no Irão seja como na Venezuela

Por adoção, é sobrinho-neto do último xá da Pérsia. Em entrevista ao Observador, Pierre Pahlavi fala sobre protestos no Irão, transição de poder se o regime colapsar e eventual ataque militar dos EUA.

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Pahlavi: este apelido voltou a ganhar destaque em todo o mundo. Os protestos que já duram há mais de duas semanas no Irão fizeram o príncipe herdeiro e filho do último xá da Pérsia ganhar projeção internacional. Reza Pahlavi converteu-se na principal figura de oposição à República Islâmica. Desde os Estados Unidos da América (EUA), onde está exilado desde o final dos anos 70 e a revolução, tem convocado protestos para as ruas iranianas e tem apelado à comunidade internacional — em particular ao Presidente norte-americano, Donald Trump — para agir contra a cúpula do regime liderado pelo ayatollah Ali Khamenei.

Depois de décadas a ser ignorado por muitos iranianos, Reza Pahlavi e a coroa parecem ter ganhado preponderância e até popularidade entre os mais jovens. Tem “coerência simbólica” e “capacidade de mobilização”. É o que diz, em entrevista ao Observador, Pierre Pahlavi, especialista em política iraniana e professor na Canadian Forces College. E o apelido não é uma coincidência: Pierre Pahlavi é membro da família real iraniana. 

Concretamente e por adoção, Pierre Pahlavi é primo adotivo do príncipe herdeiro e sobrinho-neto do último xá da Pérsia. A ligação familiar do agora académico começou com o casamento entre a sua avó que já viúva casou em 1946 com Ali Reza Pahlavi, o irmão mais novo de Mohammed Reza Pahlavi.

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▲ Reza Pahlavi, o príncipe herdeiro do Irão

AFP via Getty Images

Desse casamento, Ali Reza herdou um enteado de quatro anos. O irmão do último xá da Pérsia decidiu designar aquela criança como um filho adotivo e Christian adotou o apelido Pahlavi. O casamento durou pouco: em 1948, Ali Reza divorciou‑se.

Pierre Pahlavi é filho de Christian, o filho adotivo de Ali Reza, que, por sua vez, é o irmão do último xá da Pérsia, que morreu em 1953 num acidente de avião. Nasceu em Teerão em meados de anos 70 mas, juntamente com os membros da sua família, teve de sair do Irão para viver no exílio. Ficou a morar no Canadá e, hoje em dia, é um especialista em política iraniana. Ao Observador, fala agora sobre o que se passa no regime, como o ayatollah está a tentar sobreviver e como poderia ser o futuro no Irão sem o líder supremo e os clérigos islâmicos.

Muitos iranianos sentem que “atingiram um ponto de exaustão extrema económica e moral”

O quão mobilizados estão os iranianos contra o regime atual? Quão longe podem ir estes protestos?
A atual vaga reflete uma convergência ampla de reivindicações — económicas, políticas, sociais e ideológicas — mais do que um protesto contra apenas um assunto, caracteriza-se cada vez mais por apelos abertos à mudança de regime, em vez de reformas.

Concorda com a ideia de que os iranianos estão nas ruas porque não têm nada a perder?
É apenas parcialmente correta. Muitas pessoas sentem realmente que atingiram um ponto de exaustão extrema, económica e moral. Mas os iranianos também são instruídos, têm responsabilidades familiares e estão plenamente cientes da capacidade de coerção do regime. Nem toda a gente está preparada para arriscar perder a vida nas ruas — especialmente quando o medo do caos está tão espalhado.

Como é que a República Islâmica está a tentar sobreviver a esta vaga de protestos?
A estratégia de sobrevivência do regime incide sobre a resiliência coerciva e a profundidade organizacional. A Basij serve como milícia para intimidar nas ruas e o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica está no centro da segurança interna, informações confidenciais e contra-insurgência — apoiada pelos grandes interesses económicos.

Quais são as suas capacidades reais para suprimir os protestos?
É importante perceber antes que a Guarda Revolucionária não age apenas na base da ideologia. Também é pragmática e é também fortemente incentivada a preservar os seus privilégios — seja a defender o sistema ou seja negociando os desfechos que salvaguardem os seus interesses. Em resumo: o regime ainda consegue reprimir eficazmente os protestos desde que os meios à sua disposição permaneçam coordenados e coesos.

"O regime ainda consegue reprimir eficazmente os protestos desde que os meios à sua disposição permaneçam coordenados e coesos."
Pierre Pahlavi

Acredita numa intervenção militar norte-americana?
Uma intervenção de larga escala dos Estados Unidos é improvável e uma operação terrestre ainda mais. O cálculo político de Washington favorece os atritos internos e o colapso, não uma guerra direta.

Até que ponto pode um ataque dos Estados Unidos ajudar a acabar com o regime?
Mesmo que haja um ataque, não produz automaticamente mudança de regime — pode até ser contraproducente ao permitir que as autoridades do regime apelem a um sentimento nacional. A ‘ajuda’ mais plausível seria indireta e focada: restaurar/ajudar a conexão da internet, pressão cibernética contra as infraestruturas repressivas e a condução ao isolamento dos principais instrumentos do regime.

Cenário de transição de poder como o da Venezuela é “plausível” no Irão

Se o regime colapsar, que cenários de transição considera serem mais prováveis?
A principal variável é saber se esse colapso será acompanhado por uma fragmentação das forças de segurança ou por uma desescalada gerida pelos centros de poder. Como acontece frequentemente, ‘a rua por si só’ raramente derruba um Estado tão forte em termos de segurança. O momento decisivo costuma exigir fraturas dentro das forças de segurança internas, a entrada de atores económicos (historicamente, os funcionários que trabalham nos bazares) e — mais importante ainda — algum tipo de mudança dentro do Exército regular (Artesh) que controle os ativos mais pesados.

O que aconteceria se o regime colapsasse? Quem ficaria a mandar?
Acho que um cenário plausível (mas frágil) lembra a lógica do que aconteceu na Venezuela, em que parte das elites que controlam a segurança do país permanecem temporariamente a liderar para evitar um colapso do Estado, enquanto se negoceia um quadro de transição.

Onde é que entraria aí o príncipe herdeiro Reza Pahlavi?
Nesses cenários, o papel mais realista de Reza Pahlavi é tornar-se um símbolo unificador e um potencial interlocutor político, que seja capaz de falar com a diáspora, delinear um quadro de transição e tranquilizar uma sociedade que tem muito medo do caos. Isto, apesar de qualquer tentativa de entrar no Irão durante uma sequência revolucionária representar um risco pessoal extremo [para o príncipe herdeiro].

"O papel mais realista de Reza Pahlavi é tornar-se um símbolo unificador e um potencial interlocutor político, que seja capaz de falar com a diáspora, delinear um quadro de transição e tranquilizar uma sociedade que tem muito medo do caos."
Pierre Pahlavi

Pode Reza Pahlavi governar? “Depende de conseguir transmitir simbolismo em planos institucionais credíveis”

Quão bem preparado está o movimento em redor do príncipe herdeiro Reza Pahlavi para liderar o Irão no futuro?
A vantagem comparativa do movimento é a coerência simbólica e capacidade de mobilização: num contexto em que a oposição está normalmente dividida, uma figura reconhecível pode ajudar a estruturar expectativas e a reduzir o medo de vácuo [de poder] e desordem.

Acha credível que o filho do último xá da Pérsia possa assumir o poder?
A preparação para governar vai depender se o movimento consegue traduzir o simbolismo em planos institucionais credíveis (em termos de segurança, ordem pública, estabilização económica e alívio de sanções). A questão central depois de um regime colapsar é: ‘Quem manda?’, porque os generais iranianos tornaram-se frequentemente os árbitros [do regime] quando a legitimidade civil se deteriora.

E pode haver outros atores?
Há outros atores organizados, como o Conselho Nacional de Resistência do Irão ou a Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano. E podem participar [numa transição de poder], mas é improvável que sejam um veículo singular de liderança, dada a legitimidade contestada que têm dentro do Irão.

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