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Corbis via Getty Images

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Fernão de Magalhães e a aventura no Pacífico que se transformou numa epopeia histórica /premium

Como é que uma aventura se transforma numa epopeia? Nos 500 anos da circum-navegação, leia um excerto do livro "O Drama de Magalhães e a Volta ao Mundo sem Querer", de Luís Filipe F. R. Thomaz.

No livro “O Drama de Magalhães e a Volta ao Mundo sem Querer”, Luís Filipe F.R. Thomaz recupera a história da maior epopeia da história da navegação, a volta ao mundo iniciada por Fernão de Magalhães, iniciada há 500 anos, em 1519, e terminada mais de dois anos depois.

É a propósito da efeméride que o Observador faz a publicação de um excerto da obra, no qual o autor e historiador descreve uma série de acontecimentos que justificam o título: como uma aventura pelo Pacífico, oceano desconhecido dos navegadores europeus, se transformou na primeira viagem de circum-navegação, contrariando todas as dificuldades, técnicas e também políticas, consequência da divisão do mundo entre Portugal e Espanha, fruto do tratado de Tordesilhas.

“O Drama de Magalhães e a Volta ao Mundo sem Querer”, de Luís Filipe F. R. Thomaz (Gradiva)

Fernão de Magalhães é talvez, e a justo título, o mais conhecido navegador da história universal. O seu nome está, com efeito, ligado a uma façanha inédita — a circum‑navegação do Globo terrestre (1519‑1522) — que, como em breve veremos, apenas teve lugar porque ele pereceu no decurso da viagem que planeara. É óbvio que Magalhães jamais pensou em dar a volta ao Mundo: depois de se ter indisposto com el‑rei D. Manuel, de se ter colocado ao serviço de Espanha e, pior de tudo, de ter empreendido em favor desta uma viagem destinada a provar que as ilhas de Maluco não recaíam no hemisfério reservado a Portugal pelo tratado de Tordesilhas (1494), mas no hemisfério castelhano, jamais poderia dar a volta ao Mundo, regressando à Europa pela rota do Cabo da Boa Esperança, controlada pelos portugueses, sem incorrer em prisão e julgamento por traição. Já em Maio de 1518, quando a viagem estava ainda em preparação, houvera quem no conselho régio reunido em Sintra preconizasse a sua condenação à morte. E el‑rei de Castela, D. Carlos I (r. 1516‑1556) — mais conhecido por Carlos V, como imperador do Sacro Império Romano‑Germânico, dignidade para que foi eleito a 28 de Junho de 1519 — quer nas capitulações que a 22.III.1518 celebrou com Magalhães, quer logo no primeiro artigo das instruções que lhe deu antes de partir, interdizia‑lhe expressamente intrometer‑se por qualquer forma que fosse no hemisfério português. Portugal e Espanha estavam de há muito em paz, selada uma vez mais em 1518 pelo casamento de D. Manuel, viúvo pela segunda vez, com uma irmã de D. Carlos, e ninguém tinha interesse em quebrar essa harmonia.

Foi, como veremos, praticamente em desespero de causa, que a nau Victoria (uma das duas que restavam das cinco partidas de Sanlúcar de Barrameda a 19 de Setembro de 1519), se decidiu a empreender a jornada de regresso, de Maluco a Espanha, pela rota portuguesa do Cabo, transformando assim em volta ao Mundo o que se previa ser uma viagem de ida e volta pelo Pacífico.

O mérito de Magalhães não está, portanto, em ter organizado uma viagem de circum‑navegação do Globo — nem muito menos, como veremos, em ter provado a esfericidade da Terra, em seu tempo conhecida havia já bem dois mil anos, pois fora afirmada por Pitágoras (c. 580‑495 a. C.) — mas em ter atravessado à primeira tentativa a imensidão do Pacífico, até aí inexplorada. As suas reais dimensões eram já conhecidas ao tempo, como se pode ver pelas cartas geográficas atribuídas aos dois Reinéis, Pedro e seu filho Jorge, contemporâneas da expedição de Magalhães.

Vasco da Gama ficou célebre por ter descoberto, também à primeira tentativa, em 1497‑99, o caminho marítimo da Europa para a Índia; e no entanto a sua viagem mais não foi que o coroar de uma exploração metódica do Atlântico, que se iniciara em 1434 com a passagem do Cabo Bojador por Gil Eanes e ficara concluída em 1488 com a do Cabo das Agulhas, ponto mais meridional da África, por Bartolomeu Dias. A bem dizer, objectivamente falando, apenas descobriu a costa entre o Rio do Infante, onde Bartolomeu Dias fora obrigado a retornar, e o Cabo das Correntes, perto de Inhambane, termo tradicional das navegações de árabes e persas no Oceano Índico; subjectivamente pode ainda creditar‑se‑lhe o descobrimento da costa africana até Melinde, no actual Quénia, uma vez que foi apenas aí que obteve um piloto mouro que o conduziu à Índia. Ao invés, Magalhães apenas pôde beneficiar dos conhecimentos dos seus predecessores até ao Rio da Prata, penetrando aí no desconhecido, para só voltar a sulcar águas já doutrem navegadas ao atingir o arquipélago a que chamou de S. Lázaro, a que em 1542 Ruy López de Villalobos daria o nome de Filipinas, em honra do príncipe Filipe, futuro Filipe II de Espanha, filho e herdeiro de Carlos V.

Se a Magalhães assiste o mérito de haver conduzido a frota através do Pacífico, a Elcano assiste o de ter trazido a salvamento a sua nau, seguindo uma rota quase tão desconhecida como a adoptada por Magalhães no Pacífico, mas nitidamente mais perigosa.

Como toda a gente sabe, o Pacífico contém muito mais ilhas oceânicas, vulcânicas ou coralinas que todos os demais oceanos reunidos. Ao contrário do que sucedia no Atlântico — onde antes dos descobrimentos portugueses apenas eram povoadas as ilhas mais vizinhas das costas de uma e de outra banda, como as Canárias, Fernando Pó e as Antilhas — as ilhas do Pacífico eram praticamente todas povoadas, graças às migrações dos austronésios que se iniciaram no Neolítico. Os austronésios, também chamados malaio‑polinésios, não possuíam nesses tempos recuados uma tecnologia muito sofisticada; mas possuíam um instrumento de travessia oceânica que na sua simplicidade se revelava assaz adequado para as águas tropicais, geralmente calmas: a piroga ou almadia, a remos e à vela, equipada com flutuadores ou balanceiros que a impediam de se virar quando o mar estava agitado. Ainda hoje o domínio geográfico da almadia com balanceiros corresponde quase exactamente ao das línguas austronésicas, faladas desde Madagáscar, povoada talvez no século vii, a ocidente, até às ilhas da Páscoa e de Hawai, a oriente, estendendo‑se para sul até à Nova Zelândia, colonizada entre 1250 e 1300 da nossa era. No entanto, assaz curiosamente, às navegações descobridoras não se seguira, por parte dos austronésios, uma navegação comercial. A razão parece ser que os diversos arquipélagos do Pacífico, sitos todos eles à excepção da Nova Zelândia na zona tropical, eram ecologicamente quase uniformes, produzindo aproximadamente o mesmo, de modo que não havia necessidade de navegar de um para outro em busca de produtos raros nalgum deles. Se Magalhães tivesse seguido na sua travessia uma rota um pouco mais meridional, poderia ter utilizado várias ilhas como escala e ponto de refresco, mas dificilmente poderia ter beneficiado da prática náutica dos nativos como Vasco da Gama beneficiou da dos muçulmanos.

Na realidade, e é aí que deparamos com o seu toque genial, Magalhães seguiu a rota mais racional para quem não conhecia a topografia daqueles mares ainda virgens de navegação de longo curso: intuindo que o regime de ventos daquele oceano — a que chamou Pacífico, por o ter encontrado calmo ao nele entrar — devia ser idêntico ao do Atlântico, começou por rumar aproximadamente a norte, aproveitando os ventos alísios de sueste e a corrente de Humboldt que deles recebe a moção. Acompanhando a circulação do grande anticiclone do Pacífico sul inflectiu depois gradualmente para oeste, pondo‑se de ló com os alísios do hemisfério sul. Tendo cruzado a 13 de Fevereiro de 1521 a linha equinocial, pôs‑se finalmente a c. de 10° de latitude norte, para aproveitar dos alísios do hemisfério boreal e da corrente equatorial do norte; e com eles, ao cabo de três meses e meio de navegação no desconhecido (28.XI.1520-16.III.1521), atingiu as Filipinas, a dois passos de Maluco — que provavelmente não terá demandado em direitura para evitar as calmarias equatoriais, que o poderiam ter imobilizado semanas inteiras, pois o pequeno arquipélago situa‑se exactamente sob o equador. Se o não tivesse colhido entretanto a morte (27.IV.1521), é de presumir que, com igual intuição, teria empreendido através do Pacífico o regresso ao continente americano, colocando‑se a uma latitude mediana (c. 40°) em qualquer dos hemisférios, de modo a beneficiar dos ventos de oeste, que o teriam conduzido de volta ao seu destino.

A nau capitânia, a Trinidad, do comando de Gonzalo Gómez de Espinosa, que tentou atingir o Panamá atravessando em sentido inverso o Pacífico, embora tenha atingido os 42° N, latitude a que deveria encontrar ventos favoráveis para o retorno, não conseguiu empreendê‑lo e, após vogar dois meses pelo oceano, acabou por regressar a Maluco e render‑se aos portugueses de Ternate — que, depois de quatro anos de cativeiro, reconduziram pela sua rota à Europa a maior parte dos seus tripulantes, que assim completaram também a volta ao mundo, mas a ferros…

Retrato de Fernão de Magalhães, Kunsthistorisches Museum, em Viena

Foi só em 1565, quarenta e três anos após ter Elcano concluído a primeira circum‑navegação do Globo, que Felipe de Salcedo, neto de Miguel López de Lagazpi, conquistador das Filipinas, assistido do cosmógrafo Frei Andrés de Urdaneta, outrora companheiro de Gómez de Espinosa, conseguiu ganhar o México a partir das Filipinas, colocando‑se à latitude do Japão para beneficiar dos ventos gerais de oeste. Concluiu assim a primeira travessia do Pacífico no sentido oeste‑este, abrindo o caminho ao célebre Galeão de Manila, que a partir daí sulcou anualmente o oceano, entre Manila e Acapulco.

Como adiantámos já, foi a nau Victoria, comandada por João Sebastião de Elcano, a única a completar a volta ao Mundo.

Se a Magalhães assiste o mérito de haver conduzido a frota através do Pacífico, a Elcano assiste o de ter trazido a salvamento a sua nau, seguindo uma rota quase tão desconhecida como a adoptada por Magalhães no Pacífico, mas nitidamente mais perigosa. Era, com efeito, imprudente passar perto de qualquer das posições que os portugueses detinham na Ásia, como Malaca, Colombo ou Cochim, pois poderiam ser facilmente interceptados pelos navios lusos que patrulhavam as águas adjacentes. De Maluco Elcano rumou por isso a Timor, que era frequentado por mercadores portugueses, mas que só em 1642 se tornaria protectorado português, para só em 1702 receber o primeiro governador; não corria, portanto, aí grande perigo de arresto ou de prisão, pois não existia lá nenhuma autoridade portuguesa. De Timor, arrojadamente, resistindo às pressões dos seus homens que preferiam refrescar‑se em Moçambique, decidiu atravessar directamente o Índico — por vezes designado nos textos e mapas concernentes à viagem por Laut Kidul, «mar do sul» em jau ou javanês — rumo ao Cabo da Boa Esperança. A despeito de a Victoria ser uma nau, com menos capacidade para bolinar que uma caravela, atravessou a 26 ou 27 de Fevereiro de 1521 o Trópico de Capricórnio e pôs‑se decididamente a trinta e tal graus sul, rumando em direitura ao Cabo, sito 34° 21’ S. Avistou assim, pela primeira vez na história humana, a ilha hoje chamada de Amesterdão, que jaz a 37° 50’ S. A essa latitude reinam todo o ano os ventos gerais de oeste, que assim colheu de proa; teve por conseguinte de navegar quase sempre à capa, ou seja, praticamente em árvore seca, arvorando uma só vela. Para eludir a vigilância das armadas portuguesas bastar‑lhe‑ia, por certo, ter‑se posto uns 10° a sul do equador, como Magalhães fizera no Pacífico, pois beneficiaria dos alísios de sueste e navegaria com maior segurança; mas jogou pelo seguro. A proeza que escolheu praticar era arriscada, mas Elcano conseguiu levá‑la a cabo — e a 15 de Maio, após nove semanas de navegação através do Índico, dobrava o Cabo das Agulhas, ponto mais meridional da África (34° 5’ S, 20° E) e entrava, enfim, no Atlântico.

A necessidade de se refrescar levou os homens da Victoria a fazer escala em Santiago de Cabo Verde, onde se apresentaram como perdidos à volta das Antilhas. Para poderem adquirir vitualhas, viram‑se, porém, obrigados a vender algumas sacas de cravinho, o que levantou suspeitas. Uma dúzia de homens que haviam descido a terra foram presos pelas autoridades portuguesas, e a nau teve de partir sem eles. A tripulação reduzia‑se agora a 18 europeus e 3 malucos. Isso não significa, porém, que dos 242 que chegou a haver na frota só aqueles 21 tenham sobrevivido como erroneamente se tem escrito: há que adicionar‑lhes os 12 que ficaram presos em Cabo Verde mas foram libertados poucas semanas mais tarde, os 55 tripulantes sobrevivos da nau San Antonio, que desertara à passagem do Estreito e arribara a Sevilha em Maio de 1521, e 5 sobreviventes dos 18 tripulantes da Trinidad que haviam ficado em Maluco e foram repatriados entre 1524 e 1526. Não contando com 2 homens que se haviam rebelado contra Magalhães e foram deixados na Patagónia, cuja história posterior se ignora, nem com Henrique e mais alguns que desapareceram aquando do «massacre de Cebu», nas Filipinas, nem com dois homens que fugiram em Timor, houve, por conseguinte, pelo menos 93 sobreviventes da grande aventura, de que 33 deram com Elcano a volta ao Globo: 7 bascos e 12 outros espanhóis, 5 gregos, 4 portugueses, 3 italianos, 1 francês e 1 flamengo.

Na Malásia põem muito gosto em afirmar que o primeiro homem a concluir a volta ao mundo foi Henrique, escravo malaio de Fernão de Magalhães, mas não há a certeza de assim ter sido: Henrique era oriundo de Samatra, foi trazido por Magalhães de Malaca e não há notícia de alguma vez ter estado mais a leste.

Foi durante a escala em Cabo Verde que Elcano e seus homens constataram que, inexplicavelmente, haviam perdido um dia do calendário: quando pensavam estar em quarta‑feira, afiançavam‑lhes os habitantes da ilha que era quinta. A razão desse desfasamento só em Espanha o vieram a compreender, como vamos ver.

Finalmente, a 6 de Setembro de 1522, aportavam a Sanlúcar de Barrameda, de onde haviam partido para a sua odisseia dois anos, onze meses e dezassete dias antes. Assim se concluiu a primeira volta ao Mundo da história da humanidade.

Na Malásia põem muito gosto em afirmar que o primeiro homem a concluir a volta ao mundo foi Henrique, escravo malaio de Fernão de Magalhães, mas não há a certeza de assim ter sido: Henrique era oriundo de Samatra, foi trazido por Magalhães de Malaca e não há notícia de alguma vez ter estado mais a leste; e como após a morte de seu amo desapareceu nas Filipinas sem que se saiba se tornou ou não a Malaca ou a Samatra, é possível que dos 360° da redondeza da Terra tenha percorrido apenas 338°, faltando‑lhe, como a Magalhães, os 22° que medeiam entre Cebu e Malaca.

Em Sevilha puderam os companheiros de Elcano confirmar amplamente a misteriosa perda de um dia, pois o calendário coincidia aí com o de Cabo Verde. Decidiram‑se a consultar então Pedro Mártir de Angléria (1457‑1526), um humanista lombardo que em 1487 o Conde de Tendilla trouxera para a corte espanhola onde se tornara capelão de Isabel, a Católica. Foi ele quem lhes forneceu a chave do mistério: viajando para ocidente um navio atrasa‑se, a cada 15° de longitude, uma hora em relação ao tempo solar no ponto de partida; completando uma volta ao mundo, ou seja, 360°, atrasa‑se de facto 24 horas, pois 15 × 24 = 360. Em Cabo Verde, Elcano, sem dar conta disso, havia‑se já atrasado um dia: era, de facto, quinta‑feira e não quarta, como imaginavam os navegadores…

Como é bem sabido, este quiproquó serviria, trezentos e tal anos mais tarde, de argumento a Júlio Verne para o conhecido romance A Volta ao Mundo em Oitenta Dias.

Foi daí que resultou a necessidade de estabelecer a nível mundial uma Linha de Mudança de Data, pelo menos para as populações que seguiam o mesmo calendário, pois para os que seguiam o calendário chinês ou japonês o problema não se punha. Durante muito tempo, para os que observavam o calendário gregoriano, a linha passou entre Macau e Manila, pois os espanhóis das Filipinas conservavam a datação que haviam trazido do México, sem levar em conta o atraso de uma hora a cada quinze graus de longitude. Foi só em 1845 que o general Narciso Clavería, governador espanhol das Filipinas, decidiu acertar o passo por Macau e pelos demais portos do Extremo Oriente, agora bastamente frequentados pelos euro‑ peus; e foi em 1917 que uma convenção internacional colocou definitivamente a linha de mudança de data em torno dos 180° E ou O, ou seja, do antimeridiano de Greenwich — localização além de tudo o mais cómoda por serem pouquíssimas as terras habitadas sob essa linha, sita aproximadamente a meio das imensas solidões marinhas que Magalhães devassara outrora.

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