Não é o clássico speed dating, mas também saímos com números de telefone e promessas de um segundo ‘encontro’. Ao som de uma playlist romântica, que vai de Crazy little thing called love a Heaven is a place on earth e Kiss, investigadores suspiram por nós em mesas numeradas de 1 a 13 e sob guarda-sóis ligados por cordéis com filas de corações em tons vermelho e rosa. Querem conquistar-nos com conversas sobre restaurantes sustentáveis, inteligência artificial inovadora e luta pelos ecossistemas marinhos: que comecem os encontros.
Neste jogo com os investigadores e professores da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), as regras são simples: cada pessoa tem direito a seis dates, cada um com uns meros três minutos. Mas não há quem resista a esticar as suas intervenções mais uns momentos, o que leva ao ’empurrão’ para apressar os participantes a seguir para o próximo. Também não faltam pequenos enganos — e a entrada em cena de um pretendente não programado. Uma coisa é certa, desabafa um deles: “Isto é muita speed“.
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
Um laboratório de Inteligência Artificial contra o medo da mudança
No terraço da Nova SBE, com vista para as praias de Carcavelos e o Forte de São Julião da Barra, o primeiro ‘encontro’ do Observador é na mesa três ocupada por Lénia Mestrinho, professora auxiliar convidada da Nova SBE e diretora executiva do Centro de Conhecimento em Data Science. À semelhança de outros colegas, vem munida de alguns papéis e computador com notas sobre o projeto que lidera: a criação de um laboratório de IA que surge de uma parceria entre a Nova SBE, a Nova Medical School e o Digital Data Design Institute, da Universidade de Harvard.
“Podemos simular que estamos num consultório médico e testar como é que a utilização de IA generativa por um médico vai influenciar a confiança que um paciente tem no diagnóstico que o médico lhe está a dar. Podemos simular uma loja de retalho, uma sala de aulas”, exemplifica. A ideia é perceber os impactos e riscos, bem como o que funciona melhor ou pior.
▲ Lénia Mestrinho, diretora executiva do Centro de Conhecimento em Data Science
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
Por outro lado, pretende-se também educar para o uso de IA de uma forma que permita aos participantes “pôr a mão na massa”. “Nós até lhe chamámos AI playground [recreio] ou playdate [encontro para crianças brincarem], porque as pessoas vão poder ‘brincar’ com a tecnologia, perceber melhor a questão dos riscos, até onde podem ir com a IA e qual é a oportunidade para elas, seja qual for o domínio de atuação”, diz Lénia Mestrinho.
A professora acredita que esta formação pode ser fundamental para apaziguar alguns receios que as pessoas têm. “Ajuda-nos muito a retirar ou diminuir a nossa ansiedade no nosso meio relativamente à tecnologia, que é uma coisa que acontece muito, o medo da mudança, de não conhecemos, de acharmos que vamos ser substituídos. Tudo isso fica apaziguado“, defende.
O laboratório, que vai ser um espaço “altamente tecnológico”, ainda está na fase de montagem. Terá câmaras e sensores, que ainda estão a ser trabalhados, e computadores, que vão chegar em breve. Deverá permitir fazer experiências e formações com cerca de 100 a 120 pessoas de cada vez. “Queremos ter a sala cheia todos os dias”, assume Lénia Mestrinho, que antecipa que o lançamento pode acontecer durante o mês de setembro. Até lá, a ideia é ir já estabelecendo parcerias com diferentes organizações, desde municípios, a empresas e organizações sociais.
A aceleradora de restaurantes sustentáveis
There’s nothing you can do that can’t be done/Nothing you can sing that can’t be sung. As vozes são dos Beatles e o refrão em crescendo — All you need is love — é o alerta: está na hora de mudar de date. Mas ninguém sabia. “É esta a música, malta”, grita um elemento da organização ao ver que, perante o sinal combinado, ninguém se mexe e as entrevistas se estendem para lá dos três minutos previstos. Finalmente arrastam-se as cadeiras e, para o Observador, segue-se a mesa 11.
Daniela Afonso quer conquistar-nos pelo estômago, de certa maneira: vai lançar uma aceleradora de restaurantes sustentáveis para apoiar empresas da indústria a adotar melhores práticas, como a aquisição responsável de alimentos e a redução do desperdício alimentar. Para a diretora executiva do Westmont Institute of Tourism & Hospitality, basta olhar para os números e entende-se a importância de implementar mudanças: em Portugal são desperdiçados anualmente 1,9 milhões de toneladas de alimentos; o sistema alimentar é responsável por um terço de todas as emissões de gases com efeito de estufa causadas pelo homem; e 86% das extinções de espécies globais estão ligadas a práticas agrícolas.
▲ Daniela Afonso, diretora executiva do Westmont Institute of Tourism & Hospitality
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
A iniciativa, em parceria com a Associação de Turismo de Cascais, parte da certificação internacional Food Made Good da Sustainable Restaurant Association. Propõe um programa imersivo, de um dia e meio, durante o qual as equipas vão trabalhar com os restaurantes para criar um “diagnóstico” da situação atual e um método para acelerar uma transição sustentável. “Pelo que vemos em Portugal, temos muitos bons restaurantes em que o que falta é monitorizar o custo da água ou o tipo de materiais e energia que usam, mas em três ou seis meses, ou com pior maturidade num ano, vão conseguir dar esse salto“, explica.
Em Portugal o SEM, gerido por George McLeod e Lara Espírito Santo, é o único restaurante com esta certificação internacional, obtida de forma independente do projeto em janeiro deste ano. Daniela Afonso quer ver este número crescer para pelo menos 50. Por agora, conta com dez inscrições de restaurantes e grupos hoteleiros na sua iniciativa.
“Temos um exemplo de um restaurante que até as espinhas do peixe usa, outro que aproveita um tipo de vaca específica daquela região e garante que aquele tipo de vaca está bem tratado, que se reproduz, que continua”, refere. Este foi só um de vários exemplos de estratégias de sucesso pelo país recolhidos pela equipa da Nova SBE e que serão expostos num documentário. “Parece um bocadinho cómico, mas a realidade é essa: temos de crescer com os fornecedores que estão no nosso perímetro e os fornecedores têm de crescer connosco.”
Restaurar ecossistemas marinhos e aumentar a resiliência climática
“Isto é muita speed“, exclama Daniela Afonso quando os Fab Four interrompem uma nova ronda de entrevistas com os investigadores. E com a pressa, o Observador baralha-se e vai parar ao posto errado. As questões sobre o restauro de ecossistemas marinhos e o aumento da resiliência climática são adiadas para depois da conversa com Marco Berti, do Leadership for Impact Knowledge Center e autor de um estudo sobre os comportamentos das empresas durante conflitos.
O investigador trabalhou com colegas do Líbano e de França para compreender qual pode ser o papel das empresas para favorecer as condições de paz. “Não é tanto algo que possa acontecer durante uma guerra, como a crise da Faixa de Gaza; a questão é, uma vez alcançado um cessar-fogo, como é que as empresas podem prevenir condições que gerem novos conflitos“, diz. Marco Berti salienta a importância de contratar pessoas de diferentes backgrounds, garantir que não há uma distribuição hierárquica rígida — por exemplo todos os israelitas em cargos de topo e os palestinianos na base — e criar oportunidades de socialização pouco a pouco. “Para que possam realmente aprender como podem ajudar-se uns aos outros na resolução de problemas comuns.”
▲ Marco Berti, do Leadership for Impact Knowledge Center
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
O guião é cortado a meio e segue-se Carolina Santos, investigadora no Nova Health Economics & Management Knowledge Center, a explicar que atualmente a maioria das unidades do SNS não conseguem perceber com precisão, por falta de sistemas atualizados, quanto custa tratar um doente com uma determinada doença ou onde é que estão a ser desperdiçados recursos. Já Leid Zejnilovic, professor auxiliar e membro do Data Science Knowledge Center, debruça-se sobre a criação de um laboratório independente para reguladores, políticos e outros atores trocarem experiências, conhecimentos e receios sobre o impacto da tecnologia.
Depois da troca de mesa, só no final é possível falar com o investigador João Vaz sobre o A-AAGORA, um projeto financiado pela Comissão Europeia para restaurar ecossistemas marinhos e costeiros em três regiões: Portugal, Irlanda e Noruega. O objetivo é “testar soluções inovadoras de restauro de ecossistemas marinhos para, caso funcionem, criar um modelo de replicação e de expansão para outras regiões na Europa e assim atingir um restauro a uma escala mais alargada”, enquadra João Vaz.
“A nossa missão é fazer um estudo de viabilidade económica das soluções que estão a ser testadas nas áreas de demonstração, calcular os custos e os benefícios associados a essas medidas e ver de que forma podem ser sustentadas ao longo do tempo sem o financiamento da Comissão e para além da duração do projeto”, explica.
Uma das coisas que está a ser testada é a medição da taxa de sequestro de carbono – remoção do dióxido de carbono da atmosfera da Terra e ao seu armazenamento em reservatórios – associada a estas zonas. “As pradarias marinhas são ecossistemas com grande potencial de sequestro de carbono e a ideia é poder medi-lo, o que pode levar a uma autenticação desse carbono para ser depois convertido num crédito que possa ser comercializado nos mercados voluntários de carbono, onde entidades privadas ou mesmo públicas podem compensar as suas emissões comprando estes créditos”, aponta.
Esta iniciativa, que junta entidades como a Universidade de Aveiro (líder de projeto), a Agência Portuguesa para o Ambiente, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, ajudaria a resolver um problema: “Um dos maiores desafios da ação climática é o défice de financiamento climático, sendo que as metas ambientais dificilmente vão conseguir ser alcançadas apenas com financiamento público.” Importa, por isso, criar interesse económico para atrair capital privado, nota.
Em Portugal, este projeto que começou há cerca de dois anos está focado nas pradarias da Ria de Aveiro e vai prolongar-se até ao verão do próximo ano. Já o nosso speed dating científico termina ao fim da manhã — não seis, mas sete dates depois. O romance não tem limites.