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Quando se mudou para Auvers-sur-Oise, um dos quadros que Van Gogh levou consigo foi este autorretrato, pintado em 1889

Corbis via Getty Images

Quando se mudou para Auvers-sur-Oise, um dos quadros que Van Gogh levou consigo foi este autorretrato, pintado em 1889

Corbis via Getty Images

Foi a 150 metros do lugar onde vivia que Vincent van Gogh terá pintado pela última vez. Horas depois, tentou suicidar-se /premium

Um postal antigo de Auvers-sur-Oise terá desvendado o mistério da localização da paisagem de "Raízes de Árvores", um quatro enigmático identificado como o último de Vincent van Gogh.

Wounter van der Veen estava a olhar para alguns postais antigos de Auvers-sur-Oise que tinha digitalizado quando se apercebeu de uma estranha semelhança entre uma das imagens — que mostra um homem a empurrar uma bicicleta com um pneu furado ao longo de uma estrada de terra rodeada por árvores altas — e aquela que é considerada a última pintura de Vincent van Gogh, Raízes de Árvores. Depois de comparar o quadro, que faz parte da coleção do Museu Van Gogh em Amesterdão, e o postal do início do século XX, o diretor científico do Institut Van Gogh ficou convencido de que as árvores de um eram as árvores do outro.

Nos dias seguintes, Van der Veen tentou juntar as peças do complicado puzzle. A fotografia tinha sido tirada entre 1900 e 1910, ou seja, cerca de 20 anos depois da morte do pintor holandês. Seria possível que o lugar tivesse permanecido igual? E seria possível identificá-lo 130 anos depois? Depois de contar o que julgava ter descoberto à mulher e aos filhos, o investigador independente contactou Dominique Janssens, presidente do Institut Van Gogh — uma organização sem fins lucrativos criada para preservar o pequeno quarto onde Vincent viveu em Auver –, e, dez dias depois, Teio Meedendorp e Louis van Tilborgh, investigadores seniores do Museu Van Gogh e autores de um importante estudo sobre Raízes de Árvores.

Meedendorp e Tilborgh enviaram as informações recolhidas por Van der Veen para Bert Maes, um dendrologista que há 30 anos se dedica a estudar as árvores nativas dos Países Baixos e países vizinhos, incluindo as retratadas nas obras de Van Gogh. Maes tinha assinado em 2012, juntamente com Tilborgh, um artigo sobre Raízes de Árvores, que o confirmou como o último trabalho de Vincent. Enquanto admirador do pintor, tinha viajado anos antes até Auvers. Na companhia da mulher, que é bióloga, tentou descobrir o lugar representado no quadro de 1890, mas sem grande sucesso.

O postal que mostra os ulmeiros da antiga Daubigny (à esquerda) e uma sobreposição da pintura de Van Gogh sobre a fotografia original (à direita)

©arthénon

Van der Veen esperou cinco longas semanas pela resposta do dendrologista, mas a espera valeu a pena — a resposta não podia ter sido mais positiva: “Considero ser altamente plausível que seja este o local onde Raízes de Árvores de Van Gogh foi pintado”, afirmou Bert Maes, defendendo que as árvores da pintura são muito provavelmente ulmeiros, como as que surgem no postal. Também Meedendorp ficou convencido de que “o local identificado por Van der Veen está muito provavelmente correto” e que isso representa “uma descoberta notável”. As árvores do postal “são claramente semelhantes às formas das raízes na pintura de Van Gogh”, afirmou, citado num comunicado emitido pelo museu de Amesterdão, que alberga a maior coleção de obras do artista holandês.

A alegria da resposta de Maes depressa deu lugar ao desalento — a situação pandémica impedia que Van der Veen pudesse viajar até Auvers, a cerca de uma hora de Paris, e ver o local com os seus próprios olhos. Foi preciso esperar mais dois meses até que a viagem se pudesse realizar. Em maio, quando chegou finalmente à Rue Daubigny, identificada no velho postal de Auvers-sur-Oise, o diretor científico do Institut Van Gogh não teve dúvidas: “Um enorme cepo mumificado, coberto por hera, ocupava o lugar central da localização que tinha identificado. Era a peça central da pintura.” Aquele era o lugar certo, onde, 130 anos antes, Vincent tinha pintado o seu último quadro, um aglomerado de raízes e troncos coloridos, talvez um símbolo do desespero que o atormentava. Horas depois, disparou sobre si, regressando trôpego ao Auberge Ravoux, a 150 metros da Daubigny, onde tinha um quarto alugado.

Louis van Tilborgh e Bert Maes confirmaram num artigo de 2012 que "Raízes de Árvores" é a última pintura de Van Gogh

Van Gogh Museum

Em Attacked at the very root, livro que dedicou à sua investigação e que disponibilizou gratuitamente online em formato ebook, Van der Veen admitiu que a sua teoria não passa disso mesmo — de uma teoria: “Não pode ser afirmado com absoluta certeza que o local foi identificado. É, na melhor das hipóteses, uma teoria altamente plausível. O argumento mais forte contra ela é que lugares similares podem ser encontrados ao longo de centenas e centenas de metros em Auvers. Quem é que pode dizer que a pintura de Van Gogh não contém uma interpretação livre de um lugar semelhante?”, questionou, lembrando que, na arte de Van Gogh, “não existem reproduções fiéis das cenas observadas” por causa da perspetiva que o pintor usava. Maes Bert, quando visitou a localidade em 2005 na companhia da mulher, achou que o local mais provável era a Rue Gachet, onde também existem ulmeiros.

Pelo menos a família de Van Gogh parece estar convencida. Esta terça-feira, Willem van Gogh, sobrinho-bisneto do pintor, esteve presente na inauguração de uma placa que assinala e o lugar, entretanto protegido por uma vedação para que possa ser visitado por quem se desloca até Auvers-sur-Oise, acompanhado por Emilie Gordenker, diretora do Museu Van Gogh. É no espaço museológico em Amesterdão, fundado pelo sobrinho do pintor e pelo governo holandês, que se encontra a coleção que estava junto da família de Van Gogh e que inclui algumas das suas obras mais icónicas, como Amendoeiras em Flor, quadro pintado para celebrar o nascimento do avô de Willem.

Além de fornecer informação sobre uma pintura que permanece em grande medida um mistério, a descoberta de Van der Veen lança uma nova luz sobre o dia em que Van Gogh decidiu morrer. Pouco se sabe sobre os acontecimentos que levaram a uma nova tentativa de suicídio (o pintor já o tinha tentado antes) no dia 27 de julho de 1890 e são muitas as teorias. Graças ao investigador sediado em França, existe uma nova pista sobre o local onde terá passado o seu derradeiro dia.

Na antiga Rue Daubigny, pouco parece ter mudado desde o tempo em que o postal foi feito. As mesmas árvores continuam a fazer cair a sua sombra sobre a estrada

FRANCOIS GUILLOT/AFP via Getty Images

Auvers-sur-Oise: a última esperança

Vincent van Gogh chegou a Auvers-sur-Oise a 20 de maio de 1890. O ano anterior tinha sido passado num asilo perto de Saint-Remy-de-Provence, onde deu voluntariamente entrada depois de um colapso mental que o levou a cortar a própria orelha, em dezembro de 1889. Vincent estava convencido que tinha sido o clima do sul de França, mais especificamente de em Arles, onde tinha vivido entre fevereiro de 1888 e maio de 1889, que tinha provocado a sua doença. Por essa razão, decidiu estabelecer-se mais a norte, na pitoresca localidade de Auvers, a cerca de uma hora de comboio de Paris, onde o irmão morava.

Auvers-sur-Oise era um lugar de pintores. Por altura da chegada de Van Gogh, as suas ruas e paisagens tinham sido imortalizadas por pintores como Daubigny, Cézanne ou Pissarro. Em 1890, continuava a atrair artistas de origens variadas — o quarto do Auberge Ravoux que ficava junto ao de Van Gogh foi alugado por um outro holandês, Anton Hirsching, e, já depois de estabelecido, Vincent deu conta da presença de um grupo de norte-americanos na pensão. As idas e vindas de pintores levaram o dono do Ravoux, Gustave Arthur Ravoux, a transformar o quarto dos fundos numa espécie de ateliê coletivo, que os artistas podiam usar livremente para pintar. A proximidade a Paris (cerca de 30 quilómetros) facilitava também as visitas de Vincent a Theo, que vivia na capital francesa com a mulher, Johanna, e o filho bebé, Vincent Willem.

A única motivação de Van Gogh era a pintura, e foi a ela que se dedicou novamente com grande entusiasmo. Em Auvers, rapidamente estabeleceu, como era seu hábito, uma rotina, que consistia em sair de manhã bem cedo para o campo e regressar à hora de almoço ao Ravoux, onde passava a tarde dando os retoques finais na pintura que tinha começado de manhã. Por vezes, voltava a sair durante a tarde para trabalhar no local até serem horas de jantar. Adeline Carrié-Ravoux, filha do proprietário do estabelecimento onde o pintor vivia, confirmou isso mesmo, contando numa entrevista que Vincent tomava todas as suas refeições na pensão, “sem exceção”.

Uma das primeiras pinturas executadas por Van Gogh em Auvers-sur-Oise foi uma vista da igreja. Muitas obras deste período são paisagens sem qualquer presença humana

Thierry Chesnot/Getty Images

As obras do período de Auvers, são sobretudo paisagens, muitas delas sem qualquer presença humana. Um dos primeiros quadros que pintou na vila francesa foi o famoso A Igreja de Auvers, que hoje pertence ao Museé d’Orsay, em Paris. “O tamanho, a ambição, a dificuldade da técnica e a execução surpreendentemente bem conseguida fazem desta pintura uma das suas melhores, estando ao mesmo nível de Girassóis ou Noite Estrelada sobre o Ródano”, considerou Van der Veen no seu livro. “O conhecimento individualizado da perspetiva, o duche de luz com que ele banha as cenas e a flexibilidade das suas linhas dão ao monumento uma vida própria.”

Cerca de um mês depois da chegada a Auvers, algo terá mudado em Vincent Van Gogh. Conhecido pela sua grande humanidade, mas também pelo seu temperamento tempestuoso, marcado por explosões de fúria a que se seguiam períodos de grande melancolia, Van Gogh envolveu-se em confrontos com aqueles que lhe eram próximos — no início de julho, cortou laços com Paul Gachet, um médico e apreciador de arte com quem tinha travado conhecimento à chegada a Auvers, depois de uma discussão sobre um quadro de Guillamin que não tinha sido emoldurado. Uma visita ao irmão, que enfrentava uma fase complicada, só terá piorado o seu estado mental — “voltou a Auvers profundamente perturbado pelo que tinha visto e experienciado em Paris, convencido de que representava um sério peso financeiro e duvidando da felicidade conjugal de Theo”.

Theo foi desde sempre o grande apoio de Vincent. Foi ele que o incentivou a dedicar-se à arte, fornecendo-lhe dinheiro e material para que nunca deixasse de pintar. Em Paris, onde trabalhava como comerciante de arte, procurava divulgar as as suas obras e vendê-las a colecionadores que as soubessem apreciar, um trabalho depois continuado pela sua mulher, Jo, responsável por tornar por imortalizar o nome de Vincent van Gogh, cujo talento sempre soube reconhecer. Foi Jo van Gogh que publicou a primeira edição das cartas do cunhado em 1914. As cartas são um importante testemunho da vida e obra do pintor holandês, mas apresentam-se como pouco úteis na reconstituição das suas últimas semanas de vida — após ter estado com o irmão em Paris, Theo e Jo partiram para os Países Baixos para visitarem a família. Os inúmeros atrasos na entrega das missivas, enviada de diferentes locais, fazem com a correspondência desta época seja irregular e mais esparsa.

Vincent van Gogh estabeleceu-se no Auberge Ravoux, que pertencia a Gustave Arthur Ravoux. O pintor tornou-se amigo da família, que o acompanhou nos últimos dias de vida

Thierry Chesnot/Getty Images

“Não há absolutamente nada que possa ser feito. Só podemos esperar pelo fim”

A 27 de julho de 1890, Vincent van Gogh deixou o Auberge Ravoux pela manhã, como era habitual, e caminhou em direção aos campos para trabalhar. Depois do almoço no Ravoux, decidiu passar a tarde fora, aproveitando o bom tempo que se fazia sentir. Quando não voltou para jantar, a família, habituada à sua pontualidade, ficou inquieta. Sentados à porta da pensão aproveitando o final de dia quente, os Ravoux assistiram à estranha chegada de Vincent. Eram nove da noite. Preocupada, a senhora Ravoux perguntou-lhe se se tinha passado alguma coisa. “Espero que não tenha acontecido nada”, disse. “Não, mas…”, respondeu-lhe Van Gogh, que se apressou a entrar no edifício.

Gustave Ravoux decidiu segui-lo pelas escadas que levavam o sótão onde ficava o seu pequeno quarto. Encostou o ouvido à porta e ouvi Vincent gemer. “O que é que se passa?”, perguntou-lhe ao entrar na divisão. “Aqui, olhe”, respondeu-lhe Van Gogh, levantando as suas roupas e mostrando-lhe o sítio onde a bala tinha entrado no abdómen. “Tentei matar-me.” Ravoux  mandou chamar Gachet, o único médico na zona. “Ele chegou e confirmou que tinha sido uma tentativa de suicídio”, relatou Adeline. “Disse ao meu pai: ‘ Bem, ele está perdido. Não há absolutamente nada que possa ser feito. Só podemos esperar pelo fim’.” Talvez para não desanimar o doente, Gachet terá dito a Van Gogh que ainda havia esperança. “Então terei de fazer tudo outra vez”, ter-lhe-á respondido o pintor.

Theo foi informado do que se tinha passado na manhã do dia seguinte, 28 de julho. Partiu imediatamente para Auvers-sur-Oise, instalando-se ao lado do irmão, que se mostrou sempre consciente do que tinha feito. Quando dois polícias que o visitaram nesse dia, foi isso mesmo que lhes disse: “O meu corpo é meu e sou livre de fazer o que quiser. Não acusem ninguém, fui eu que quis matar-me”. São também essas as palavras que Émile Bernard, pintora e amiga, lhe atribuiu numa carta enviada ao crítico de arte Gabriel-Albert Aurie: que Vincent se tinha matado de livre e espontânea vontade.

O pequeno quarto que Van Gogh alugou ficava no sótão do Auberge Ravoux,. Foi aí que o pintor morreu, a 29 de julho de 1890

Thierry Chesnot/Getty Images

Gemendo com dores ou fumando o seu cachimbo, que se recusou a largar, Van Gogh manteve a consciência até ao fim. As suas últimas palavras foram para o irmão: “A tristeza vai durar para sempre”, terá dito a Theo antes de morrer, na noite de 29 de julho, depois de dois dias de agonia. A morte foi confirmada por Gachet e um caixão encomendado a Levert, o marceneiro local. Quando este ficou pronto, a 30 de julho, o corpo de Vincent foi colaco no ateliê do Auberge Ravoux, que foi decorado com os seus quadros, “criando uma espécie de halo para ele e o esplendor do seu génio que irradiava deles tornava a sua morte ainda mais dolorosa para os artistas que estavam presentes”, descreveu Émile Bernard. Havia flores amarelas por todo lado, incluindo os girassóis de que gostava tanto e que considerava a sua flor.

O funeral aconteceu às três da tarde, sob o sol quente de finais de julho. Estiveram presentes alguns artistas (Bernard disse ter reconhecido Pissarro e Lauzet), amigos de Theo de Paris e os poucos amigos que o pintor tinha feito em Arles. Gachet tentou dizer algumas palavras, mas não conseguiu parar de chorar. Ao saber do seu suicídio, Claude Monet, que tinha elogiado os girassóis de Van Gogh expostos num restaurante de Paris, questionou: “Como é que um homem que amava tanto as flores e a luz que as retratou tão bem podia ter vivido tão infeliz?”. Mesmo na morte, as flores de que o holandês gostava tanto nunca o abandonaram — durante anos, Gachet plantou girassóis junto à sua campa.

O trabalho final

Campo de Trigo com Corvos foi muitas vezes apontado como a última obra de Vincent van Gogh. Datável de julho de 1890, a pintura mostra uma paisagem obscura, com um céu negro, coberto de corvos, anunciando uma tempestade que muitos interpretaram como uma referência ao estado mental do pintor e à ideia que o estaria já a obcecar — o suicídio. A dar ênfase a esta interpretação encontra-se a história de que Van Gogh terá disparado sobre si próprio num campo de trigo. Até hoje não se sabe ao certo onde o pintor terá tentado matar-se (na altura, dizia-se que tinha sido “nas traseiras do castelo” de Auvers, que aparece num dos seus quadros de 1890), mas é possível que tenha sido no campo onde um agricultor descobriu em 1960 um revólver que foi vendido no ano passado como sendo o do artista. A arma usada por Vincent nunca foi encontrada, apesar das buscas realizadas naquele fim de julho tanto pelos Ravoux como por Theo, após a sua chegada a Auvers.

O problema em estabelecer Campo de Trigo com Corvos como o último trabalho de Van Gogh está sobretudo no período da sua execução. Não se sabe o dia exato em que o pintor holandês o concluiu, mas parece mais ou menos certo que isso aconteceu no início de julho, ou seja, várias semanas antes da sua morte, no dia 29. Além disso, “o trigo ainda não foi colhido, como noutros trabalhos terminados mais tardiamente”, o que, na opinião de Van der Veen, é prova mais do que suficiente de que “esta não pode ser a sua última pintura”, um lugar que hoje se acredita pertencer a Raízes de Árvores.

"Campo de Trigo com Corvos" (à esquerda) foi pintado no início de julho, antes do trigo ser ceifado. "Campo de Trigo sob Céu Nublado" (à direita) terá sido executado posteriormente, já depois da ceifa

Wikimedia Commons

Esta hipótese foi levantada pela primeira vez pelo historiador de arte Louis van Tilborgh, no catálogo de uma grande exposição organizada pelo Museu Van Gogh para assinalar os 100 anos de morte do artista holandês, e reafirmada pelo mesmo Tilborgh e por Maes, em 2012. Na base da teoria está o testemunho de Andries Bonger, o irmão favorito de Jo, que afirmou que o quadro tinha sido pintado na manhã do dia em que Van Gogh se tentou matar. O facto de a pintura não ter sido terminada, o que não era habitual em Vincent, sustenta, na opinião de Tilborgh e Maes, o que foi dito por Bonger. Tilborgh e Maes não conseguiram na altura identificar com certeza o local onde o quadro tinha sido executado, mas sugeriam a Rue Gachet como o sítio mais provável porque era possível encontrar nessa via um conjunto de árvores semelhante ao do quadro, tal como é possível fazê-lo na Rue Daubigny e em vários lugares da localidade francesa. Se assim é, porque é que Van Gogh terá, segundo a teoria de Van der Veen, apoiada por Maes, escolhido aquela rua?

Em 1890, a estrada, então conhecida simplesmente como Rua Principal, ligava Lisle-Adam a Pontoise, passando pelas encostas e pelo rio. Era uma rua com muito tráfego e seria também utilizada regularmente por Van Gogh. “Um argumento importante a favor da teoria de que Raízes de Árvores foi pintado na Rua Principal (depois chamada Rue Daubigny) é o facto de que é consistente com um dos hábitos mais firmes de Vincent: pintar o que ele achava interessante no ambiente que o rodeava.” As árvores que terão servido de modelo ao artista ficavam a apenas 150 metros do Auberge Ravoux, ou seja, a caminho de casa. “Esta abordagem, tão típica dele, estava enraizada na simplicidade e na habilidade que tinha em encontrar o extraordinário no mundano”, defendeu o diretor científico do Institut Van Gogh.

Para o investigador, faz também todo o sentido que o último quadro de Vincent van Gogh seja um conjunto de raízes, um tema que já tinha ligado à luta pela sobrevivência ao descrever a Theo dois trabalhos, um deles intitulado Raízes, em que estava a trabalhar em maio de 1882: “Queria expressar alguma coisa da luta pela sobrevivência (…) naquelas raízes negras retorcidas. Ou melhor, porque tentei sei qualquer filosofia ser fiel à natureza, que tinha à minha frente, alguma coisa dessa grande luta entrou nos dois quase inadvertidamente”. Num artigo de 2013, Tilborgh e o colega Teio Meedendorp também concluíram que o tema da pintura “refletia o desespero característico de uma mente suicida”. “Tendo trabalhado durante horas num quadro que mostra a preocupação com a luta implacável entre a vida e a morte, Van Gogh, sentido-se sozinho e não vendo outra alternativa, decidiu encontrar o descanso com o pôr do sol, nos arredores da vila, olhando para um campo de trigo acabado de ceifar”, sugeriu Van der Veen.

Vincent van Gogh foi sepultado no cemitério de Auvers-sur-Oise. Theo, que morreu seis meses depois, foi depois trasladado para junto do irmão

Thierry Chesnot/Getty Images

O investigador independente acredita que, além de esclarecer o que Van Gogh terá feito durante o dia 27 de julho de 1890, a identificação da localização das árvores de Raízes de Árvores dá ainda mais ênfase à teoria do suicídio em oposição à do homicídio. Em 2011, Steven Naifeh e Gregory Smith publicaram uma biografia de Vincent van Gogh que causou controvérsia por afirmar que o pintor tinha sido acidentalmente assassinado por dois jovens, os irmãos Secrétan. Os autores basearam-se nas considerações de Vincent em relação ao suicídio, que considerou uma prática imoral e um pecado numa carta, na dificuldade que o pintor teria em caminhar até à pensão com um ferimento no abdómen causado por uma bala e no facto de a arma usada nunca ter sido encontrada. A teoria de Naifeh e Smith foi descartada pela grande maioria dos especialistas, mas as biopics mais recentes, “Loving Vincent” e “À Porta da Eternidade”, inspiraram-se nesta versão dos acontecimentos.

A vida e morte de Vincent van Gogh está repleta de mistérios e não é certo que Wounter van der Veen tenha desvendado algum. Com tão poucas certezas e tantos mitos, haverá sempre quem discorde e ponha em causa novas teorias sobre a vida, a morte ou a arte do pintor holandês. O investigador tem noção disso, mas está confiante de que, “com a informação atualmente disponível, a melhor opção é considerar que o lugar que Van Gogh pintou no seu último trabalho foi encontrado — até, claro, provas em contrário sejam apresentadas. Teorias científicas nunca são, dada a sua natureza, definitivas e vão sempre mudar com o advento de novas ideias — quer sejam contra-intuitivas, perturbadoras ou, como acontece na maioria dos casos, fonte de admiração”. Tal como foram, e continuam a ser, as obras de Vincent.

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