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"Há muita gente à espera que o ayatollah morra. Depois, haverá uma luta pelo poder no Irão." Entrevista ao jornalista Hooman Majd

A vida de Hooman Majd mudou radicalmente após a Revolução no Irão. O filho de um diplomata leal ao xá encontrou a indústria musical, mas acabou no jornalismo. "Nunca tive um sítio para chamar casa."

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Esta entrevista foi originalmente publicada a 13 de de dezembro de 2025. É agora republicada após os ataques militares norte-americanos ao Irão

Estados Unidos da América (EUA), Tunísia, Índia, Reino Unido e, claro, o Irão. Desde muito jovem o jornalista Hooman Majd viveu em várias partes do mundo. É filho de um diplomata que representou em várias embaixadas o regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, que governou o Irão antes da Revolução islâmica. Entre colégios privados norte-americanos e britânicos, o jovem circulava entre as elites de vários países e tinha uma vida relativamente desafogada. Mas tudo mudou quando os ayatollahs tomaram o poder.

O Irão que mal conhecera — vivera no país durante pouco tempo sucessivamente — transformou-se de um momento para o outro. O pai, que na altura era o embaixador iraniano no Japão, foi despedido. Hooman Majd estava nos Estados Unidos a estudar e, deixando de receber dinheiro dos pais, ficou quase sem nada. Teve de sobreviver nos EUA, país onde vive hoje em dia, e até chegou a ser um imigrante ilegal no país.

As conexões e uma pitada de sorte levaram-no à indústria musical, onde trabalhou de perto com músicos como Carlos Santana, U2 e a banda The Cranberries. Nas funções que desempenhava, lembra ao Observador que era um “diplomata”, ou melhor, um “ministro sem portefólio” da PolyGram, a empresa onde trabalhava e onde servia de ponte entre as exigências dos artistas e as exigências do mundo corporativo. Mas a crise que o setor atravessou com a queda abrupta da venda de CDs — e a democratização da Internet — levaram-no a outras carreiras: à de jornalista e escritor.

Foi enquanto jornalista que Hooman Majd redescobriu o Irão. Após 32 anos sem ter estado no país onde nasceu, o cidadão norte-americano e iraniano voltou às ruas de Teerão. E criou uma extensa rede de contactos, colaborando com as autoridades do país e trabalhando para o canal de televisão NBC News. No seu novo livro de memórias — Minister Without Portfolio: Memoir of a Reluctant Exile (Ministro Sem Portefólio: Memórias de um Exílio Relutante, sem edição em português) —, o jornalista recorda o seu percurso da vida: desde ser filho de um diplomata do regime do xá até entrevistar os Presidentes da República Islâmica.

“Ao ser-se emigrante, não se tem um lugar a que se possa chamar casa”

No livro, aborda o sentimento de nunca pertencer a lado nenhum, de não ter nenhum sítio para chamar de casa. Pode explicar melhor como esse sentimento influenciou a sua vida?
Penso que muitos emigrantes têm a mesma sensação, ainda que de formas diferentes. A emigração é um processo de séculos de pessoas a andar de um lado para o outro e, especialmente no novo mundo, com a América e a América do Sul, os emigrantes vieram para criar uma nova vida e tornaram-se cidadãos e parte desse mundo. Houve sempre um elemento de deslocação. A diferença é que, no século XX, os países vivenciaram grandes convulsões políticas e há mais refugiados políticos do que emigrantes por motivos económicos. Tornou-se mais predominante esse sentimento de “Onde é que a minha casa?” O meu caso é que fui criado de forma muito particular. Fui sempre criado fora do Irão. Mas, de certa forma, como tinha dois pais iranianos, sentia que era iraniano, apesar de não viver no país. Era algo único relativamente aos meus pais — os meus pais não tinham uma base no Irão, ao contrário de muitas famílias. Eles não vieram da aristocracia, onde todos tinham uma casa em Teerão. Nós nem sequer tínhamos uma casa em Teerão.

O seu pai era diplomata durante os tempos do xá Mohammad Reza Pahlavi e andava sempre a saltitar de lugar para lugar. No meio desse processo e dessas mudanças de casa, sentia-se iraniano?
Tinha essa identidade muito forte como iraniano, mas também andava em escolas norte-americanas e tinha de jurar lealdade à bandeira dos Estados Unidos, algo que na altura era normal. Mas sabia que não era norte-americano. Os amigos eram norte-americanos, mas eu não era. E também havia essa sensação de que, ao ser-se emigrante, não se tem um lugar a que se possa chamar casa. Se alguém me pergunta, por exemplo, de onde sou, posso dizer que sou de Nova Iorque, mas não é bem verdade, mesmo tendo passado metade da minha vida na cidade de Nova Iorque e mais de metade da minha vida nos Estados Unidos. E quando digo que sou do Irão, a pessoa que está a colocar a questão não tem ideia de que tipo de pessoa sou. Existe essa confusão, que vai sempre existir.

Durante a infância, passou muito tempo em vários sítios — Tunísia, Reino Unido, Estados Unidos. Como é que isso o influencia hoje em dia?
A influência é que posso viver em qualquer lugar e sobrevivo. Ao estar exposto a tantas culturas diferentes —  não vou dizer que estou acostumado a cada uma delas, porque era uma criança —, adapto-me facilmente a diferentes ambientes. Acho que viajar se torna mais fácil e torna-se mais fácil relacionar-me em vários contextos. Vou dar um pequeno exemplo. Vivi na Índia quando era muito pequeno e não voltei ao país durante muitos anos. Até que fui convidado para uma conferência e voei para Nova Deli. E não só comi tudo sem ficar doente (o que é algo extraordinário para alguém que não tinha ido à Índia em 50 anos), como a atmosfera, os cheiros, entrar no táxi, andar de um lado para o outro… Foi algo familiar de uma forma estranha. Não tem muito sentido, porque não tenho memórias vividas da Índia, mas existe uma familiaridade. Outro exemplo que posso dar é que, quando comecei a ir para a Jamaica, relacionei-me muito rapidamente com o povo jamaicano. Não digo a classe alta jamaicana, com a qual normalmente me relacionava. Mas com as pessoas em bairros mais pobres em Kingston… Senti-me confortável.

"Se alguém me pergunta, por exemplo, de onde é que sou, posso dizer que sou de Nova Iorque, mas não é bem verdade, mesmo tendo passado metade da minha vida na cidade de Nova Iorque e mais de metade da minha vida nos Estados Unidos."

“O Irão tinha uma reputação muito positiva no Ocidente. Do dia para a noite, mudou tudo”

No livro refere que, quando era criança, o Irão era um país muito respeitado.
Sim, era bastante.

Como é que era? Porque hoje em dia a reputação é totalmente distinta…
Sim, completamente. Antes o Irão tinha uma reputação muito positiva. Por um lado, havia muito poucos iranianos na diáspora. Havia poucos migrantes, a maioria das pessoas ficavam no Irão. Não havia a onda de migração que há hoje em dia, que se formou depois da Revolução. Com um passaporte iraniano não se precisava de visto para ir a lado nenhum, basicamente. Entrava-se num avião e podia-se ir a todos os sítios, era-se respeitado. Todos os países pensavam que [os iranianos] iam gastar dinheiro. As pessoas pensavam que os iranianos eram ricos e realmente eram. Ia-se viajar para gastar dinheiro e não para causar problemas. Não havia qualquer menção a terroristas, nem ao terrorismo muçulmano. [O Irão] nem era sequer associado à Palestina. Era o oposto: o Irão era amigável com Israel. Por tudo isto, para o Ocidente, o Irão era um lugar incrível.

E depois da Revolução?
Do dia para a noite, mudou tudo. Eram precisos vistos para ir para qualquer lado. Os países não queriam emitir vistos, porque muitos sabiam que os iranianos que os estavam a pedir iam viver para lá. E muitos acabaram mesmo por fazê-lo. E a reputação dos iranianos… Os iranianos que emigraram, nos primeiros tempos da Revolução, tentaram manter-se discretos. Não queriam fazer alarido sobre ser iraniano, porque o que se via nas notícias eram coisas negativas sobre o Irão. E muita gente dizia que era persa, não iraniana.

"Houve pessoas que mudaram o seu primeiro nome para não parecer que eram estrangeiros. Conheci um iraniano que se chamava Faramaz e mudou o nome para Fred para tentar enquadrar-se na sociedade e não ser associado ao novo regime."

E muitos não queriam ser associados ao novo regime, imagino…
Absolutamente. Houve pessoas que mudaram o seu primeiro nome para não parecer que eram estrangeiros. Conheci um iraniano que se chamava Faramaz e mudou o nome para Fred para tentar enquadrar-se na sociedade e não ser associado ao novo regime. Piorou depois tudo durante a crise dos reféns, quando os estudantes iranianos invadiram a embaixada norte-americana [em Teerão]. O Ocidente obviamente que se aliou aos Estados Unidos — esta ação era contra o Direito Internacional, contra todas as regras. E o Irão tinha uma muito má reputação em 1979, 1980. Esta má reputação continuou até o antigo Presidente, Mohammad Khatami, ter chegado ao poder em 1997. Tentou abrir o país ao Ocidente. É certo que não pediu desculpa pela crise de reféns, mas lamentou-a. Era o máximo que podia fazer — e ele realmente lamentou ter magoado a América.

Estava a estudar numa universidade norte-americana quando a Revolução começou. Como foram esses tempos? No livro diz que já havia alguns sinais, mas eram confusos. O seu pai estava a viver em Tóquio, certo?
Sim, estava a viver em Tóquio.

“Quando o ministro dos Negócios Estrangeiros do xá foi executado, percebemos que era o fim”

Como é que viveu a Revolução? Foi um evento que teve uma grande influência na sua vida…
Sem dúvida. Quando olho para trás, era entusiasmante ver essas mudanças. Apesar de o meu pai trabalhar para o xá, sabíamos que havia partes negativas do regime. O regime do xá não era, de todo, bom. Havia polícia secreta e tortura nas prisões. Não estou a dizer que era pior do que hoje em dia — não era tão mau com o xá —, mas ainda havia muitas coisas negativas. Como era universitário, estava bastante consciente do que se passava: não era contra o xá pessoalmente ou contra o sistema, era contra as coisas negativas do regime, como a falta de liberdade política. Por causa disso, era um momento entusiasmante, porque não sabíamos o que ia acontecer. O que sabíamos é que havia pessoas que estavam a rebelar-se contra a injustiça, a polícia secreta SAVAK, a tortura… Não sabíamos exatamente como, mas era entusiasmante.

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Aconteceu tudo muito rápido?
Sim, aconteceu. No verão de 1978, ouvia falar de protestos, mas ninguém diria que ia dar em alguma coisa. No outono, os protestos sobem de tom. Em dezembro, [Ruhollah] Khomeini [o primeiro Líder Supremo do Irão], que estava no exílio, tinha-se mudado para Paris e subitamente a imprensa mundial estava a cobri-lo e toda a gente estava a falar sobre uma Revolução. O xá saiu do Irão em janeiro e a Revolução deu-se. Acabou. Numa semana, estava terminada. E no início da Revolução não sabíamos bem o que significava. Mesmo o meu pai, que era embaixador no Japão, não sabia o que significava. E ele não foi logo despedido, porque não sabia como tratar esse assunto com o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ainda demorou um tempo.
As coisas acalmaram, a Revolução solidificou-se e [o novo regime] começou a executar pessoas de quem não gostava. O meu pai foi despedido do Ministério dos Negócios Estrangeiros e o ministro dos Negócios Estrangeiros [Abbas Ali Khalatbari], que era amigo do meu pai, foi executado. Ele não mandava nada, tinha apenas sido um diplomata. Mas, quando isso aconteceu, percebemos que era o fim. A antiga vida que tínhamos tinha acabado. Mas eu também já sabia que tinha acabado porque sabia que não era possível que o meu pai mantivesse o seu emprego com o novo Governo. Demorou alguns meses, mas despediram-no. Quando o despediram, deixei de ter dinheiro.

Na altura ainda estudava. O seu pai deixou de o apoiar financeiramente.
Tive de perceber como é que podia viver. É aí é que a minha história é diferente de outras pessoas: eu não conhecia o Irão. O meu persa não era muito bom. Antes da Revolução, pensei seguir as pisadas do meu pai e tornar-me um diplomata. Mas isso requeria que eu tivesse de voltar para o Irão e aprender persa — a ler e a escrever. Esse sonho tinha-se desvanecido com a Revolução. A minha escolha era ou ficar na América — não sei como nem por quanto tempo — ou ir para o Irão. E ir para o Irão era perigoso por causa do trabalho do meu pai. Além disso, eu tinha de me alistar nas Forças Armadas e começou depois a guerra contra o Iraque. A minha escolha foi, bem, ver como podia ficar na América. E fiquei. Estive em situação ilegal durante algum tempo, porque não era estudante e não tinha dinheiro para ir para a Universidade e acabar a minha tese de mestrado. Fiquei e, como muitos emigrantes, aceitei tudo o que me aparecesse, como conduzir limusines. Lembro-me dos primeiros tempos de Gorbachev na União Soviética e havia muitos russos a ir para Nova Iorque. E conduziam táxis, mesmo tendo doutoramentos e sendo engenheiros. E eles conseguiram sobreviver. Esta é a verdade de toda a comunidade migrante na América: todos os emigrantes que chegam cá, legal ou ilegalmente, fazem tudo para sobreviver.

Indústria musical tornou-se a sua “casa”: “Não importava se era do Irão, da América, aquilo podia ser a minha casa”

Depois de todas essas dificuldades iniciais, acabou por trabalhar na indústria da música ao lado de grandes nomes. Como é que isso aconteceu? Acredito que nunca tinha imaginado trabalhar nessa área quando era criança.
Sem dúvida, quando era criança nunca o teria imaginado. Nem sabia como funcionava — quer dizer, conhecia as estrelas e as celebridades. Era estranho para mim. Quando tinha 15 anos fui a um concerto de Carlos Santana para vê-lo tocar. E, de um momento para o outro, estou a falar com ele sobre a sua música. Foi muito divertido e senti-me muito sortudo. Entrei na indústria por causa das minhas conexões de amigos da escola — e senti que realmente tinha encontrado alguma coisa da qual poderia viver e, à falta de algo melhor, de algo a que poderia chamar casa. De ter finalmente uma casa. E a casa era a indústria da música. Não importava se era do Irão, da América, aquilo podia ser a minha casa. E foi. Foi muito agradável, gostei muito de estar na indústria.

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▲ Hooman Majd

The India Today Group via Getty

O nome do livro advém daí, dessa sua experiência na indústria da música, certo?
Sim, é dessa altura. E o título é apropriado por causa da ambição que tive de ser um diplomata — cargo que desempenhei na indústria musical. Era um diplomata: lembro-me, por exemplo, que a vocalista dos Cranberries, Dolores O’Riordan, recusou-se a falar com toda a gente na Polygram [a editora discográfica onde o autor trabalhou] a não ser comigo. E era porque eu era um diplomata — ela até me convidou para o casamento do irmão em Limerick, na Irlanda. Sentia-me bem naquela posição onde podia ter relações com os artistas, em que os podia beneficiar a eles e à empresa para a qual estava a trabalhar.

E também acabou de um momento para o outro, certo?
Não tinha ideia de que ia acabar. Acabou de uma forma rápida.

Há a sensação no livro de que o tombo na sua carreira foi muito rápido. Como é que isso aconteceu?
O que aconteceu na música, no início dos anos 2000, é que surgiram os MP3s. Antes, a indústria da música estava a dar-se muito bem, porque vendia CDs. Quando me juntei à indústria da música, foi justamente no início da explosão dos CDs. Antes eram os LPs. Todas as editoras começaram a transformar os seus catálogos de LPs em CDs, porque toda a gente queria substituir os LPs. As editoras musicais fizeram muito dinheiro com os CDs. Quando o MP3 se popularizou e as pessoas começaram a partilhar ficheiros na internet, de um momento para o outro tínhamos de perceber como concorrer com a gratuitidade. Como é que se compete com algo grátis? O que aconteceu é que, das cinco grandes editoras de música à escala mundial, ficaram três [Universal Music Group, Sony Music Entertainment e Warner Music Group]. E muitas pessoas perderam os empregos com a reestruturação do negócio. Agora, a indústria da música está a correr melhor, mas o que aconteceu nessa altura foi um desastre.
Com o fundador da Island Records, Chris Blackwell, deixámos a Island e criámos uma pequena empresa para fazermos filmes. Fiz alguns filmes, mas era muito difícil competir com as grandes companhias de filmes. E esperávamos ter financiamento e nunca se materializou. Acabámos por fechar. E percebi que tinha de encontrar outra carreira.

"Quando o MP3 se popularizou e as pessoas começaram a partilhar ficheiros na internet, de um momento para o outro, tínhamos de perceber como se ia concorrer com a gratuitidade. Como é que se compete com algo grátis? O que aconteceu é que, das cinco grandes editoras de música à escala mundial, ficaram três. E muitas pessoas perderam os empregos com a reestruturação do negócio."

Foi aí que surgiu o jornalismo?
Sim. Tinha amigos que eram jornalistas e falávamos sobre eu escrever pequenas histórias de quando estava na indústria da música. Eu gostava de escrever. Comecei depois no jornalismo a escrever sobre o Irão.

“Quando cheguei a Teerão… Teerão não se parecia com nada do que me lembrava”

Considera que redescobriu o Irão através do jornalismo?
Sem dúvida. Deu-me uma oportunidade de escrever e descobrir o Irão no início dos anos 2000. Não tinha ido ao Irão desde o Natal de 1972. E fui em 2004 e várias vezes nos anos seguintes. Tive um passaporte iraniano, porque não podia ir ao Irão com um passaporte norte-americano. E, no Irão, até fui capaz de entrevistar o ex-Presidente. Até quis voltar a esse conceito de casa: de tentar entender, não de um ponto de vista jornalístico, o que é o Irão. Viver lá e ver como é que seria. Aluguei até um apartamento.

Viveu cerca de dez meses no Irão, certo?
Dez, onze meses: tem de se pagar uma casa, tem de se pagar as contas, tem de se ir à mercearia e tem de se viver como um iraniano normal. O que aconteceu foi que o Governo iraniano me disse que podia viver no Irão, mas não podia escrever nada sobre o Irão. Não escrevi um único artigo, o que foi positivo. Em vez disso, organizei todos os meus pensamentos. E todos os meus pensamentos converteram-se num livro. Uma coisa que aprendi é que [o Irão] é uma das minhas casas, mas não a casa. É demasiado estranho para ser a minha casa.

"No Irão, até fui capaz de entrevistar o Presidente. Até quis voltar a esse conceito de casa: de tentar entender, não de um ponto de vista jornalístico, o que é o Irão."

E foi pela primeira vez ao Irão em 2004. Como é que foi voltar ao país depois de não estar lá 32 anos? Como é que foi a primeira experiência de estar no Irão após a Revolução?
Fascinante, mas estava um pouco nervoso, admito. Tinha medo de passar pelo controlo de fronteiras. Lá estava uma senhora que olhou para o meu passaporte, que estava vazio. Ela estava a tentar perceber qual tinha sido a última vez que eu tinha saído do Irão. Normalmente, os emigrantes saem um ano, dois anos. No meu caso era mais de 30 anos. Ela diz ‘Ó meu Deus, como é que esteve tanto tempo longe?’. Depois disse-me ‘Bem-vindo a casa’. Isso soube bem. Quando cheguei a Teerão… Teerão não se parecia com nada do que me lembrava. Autoestradas, milhões de pessoas, carros, era tudo moderno e sofisticado. Muitas pessoas veem estes países como países de terceiro mundo, mas são modernos — não [são] como a Coreia do Norte ou Cuba. Fiquei surpreendido e senti-me bem. Os cheiros eram familiares, a comida…

Com o 7 de Outubro, o Irão “tornou-se quase um Estado pária” para o Ocidente

Enquanto jornalista, escreve normalmente sobre o Irão. O Irão é uma teocracia, não é uma democracia. Como é escrever sobre um regime como este, tendo familiares em Teerão? Porque imagino que tem de encontrar um equilíbrio entre escrever sobre o Irão e escrever sobre pessoas que não gostam do que escreve. Como é que funciona o equilíbrio?
Eu tomei uma decisão: manter o meu viés pessoal fora da minha escrita. Para se ser um bom jornalista é preciso ser assim. Mas também somos humanos… Uma coisa que decidi é ser justo naquilo que escrevo. Quero contar a verdade naquilo que escrevo. Mas não sou um ativista. Não penso que se possa ser ativista e jornalista. E o facto é que o regime existe. Se estou a escrever sobre o regime, tenho de escrever o que observo. Não vou escrever sobre coisas de que não sei, escrevo sobre o que sei. Por exemplo, nunca passei tempo numa prisão, então não vou falar sobre como é estar preso. Posso falar com prisioneiros — foi o que fiz no meu terceiro livro —, posso falar sobre como são os interrogatórios do regime — algo que o regime odeia. Mas é a verdade.
E também ao escrever sobre o regime tem de se entender que nem tudo o que regime diz é verdade ou mentira. Sobre isso posso escrever. E também posso escrever como os iranianos se sentem perante isso. Às vezes, o regime está errado no que está a dizer sobre a forma como o Ocidente trata o Irão, por exemplo. Em alguns casos, está certo. Tem de se ser justo. O que acontece é que o regime não gosta de ti e os iranianos na América que são contra o regime também não gostam. O ex-Presidente Khatami perguntou uma vez como é que o meu primeiro livro foi recebido. Disse que vendeu bem, aliás muito bem, mas as pessoas a favor da República Islâmica odiaram e as pessoas contra também odiaram. Ele disse-me que tinha feito um bom trabalho.

No Irão, existe uma grande polarização política, certo? É tudo muito pessoal?
Sim, é. E se estou a escrever sobre o Irão, há um elemento pessoal. Mas tento manter as minhas opiniões e emoções fora disso. Quando estou a escrever um livro de memórias como este, posso ser mais emocional.

epa01739895 Former Iranian president Mohammad Khatami attending an election campaign meeting of former Iranian prime minister Mir-Hossein Moussavi during a campaign rally in Tehran, Iran, on 23 May 2009. The reform-oriented Khatami called on his supporters to vote for the moderate Mousavi who is considered as the main challenger of Iranian President Mahmoud Ahmadinejad in the June 12 presidential election.  EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

▲ Ex-Presidente iraniano Mohammad Khatami

ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

“O Presidente Trump é instigador por más razões” em relação ao Irão

Como é que vê atualmente as relações entre o Irão e o Ocidente com o Presidente Donald Trump de volta à Casa Branca?
A relação é má por um número de razões e não é necessariamente algo novo. O Presidente Trump é instigador por más razões, basta lembrar que em 2018 abandonou o acordo do programa nuclear iraniano que era popular quer no Ocidente, quer no Irão. Não era um acordo perfeito, mas o Irão estava feliz em poder reconhecer que tinha o direito de enriquecer urânio, mesmo que não o tivesse. Mas tinha o direito e isso era muito importante: se os outros países tinham esse direito, era bom que eles também tivessem. Quando Trump abandonou o acordo, o problema é que não foi apenas isso. Aplicou sanções e os europeus não podiam seguir os acordos que queriam. Assim, o Irão respondeu, acelerando o seu programa nuclear, causando mais preocupação, mesmo que o [regime iraniano] tenha alegado que o estavam a fazer para um novo acordo ou voltar ao acordo antigo.
Por causa disso, a relação acabou por piorar. Com Joe Biden, ele prometeu tentar voltar a um acordo nuclear e voltou a haver negociações difíceis no início. E depois aconteceu o 7 de Outubro. E toda a atenção dos Estados Unidos passou a ser Gaza e Israel.

E o Irão apoiou o Hamas…
Sim, o Irão apoiou o Hamas no início do conflito. A conexão do Irão com o Hamas, com os Houthis, com o Hezbollah… Tornaram o Irão quase num Estado pária. E isso não ajudou na relação com o Ocidente. Agora, o que aconteceu com Trump é que houve uma guerra com Israel a bombardear o Irão e depois os Estados Unidos a bombardearem as instalações nucleares iranianas. As relações ficaram mesmo más. E, para Trump, ao ter alegado ter destruído o programa nuclear, já sente que derrotou o Irão e de que não precisa de um acordo. Pode até falar de um acordo, mas seria nos seus termos, porque o Irão está mais frágil. E o Irão não vai aceitar isso.

“O Irão é bem forte. É mais forte do que as pessoas pensam”

O Irão está mesmo frágil? Corrobora esse ponto de vista?
O que muitas pessoas não querem entender é que o Irão ainda tem algum poder. É uma nação com quase 90 milhões de pessoas. Ainda tem Forças Armadas poderosas. Tem mísseis que provaram ser eficazes contra Israel, que atingiram Telavive. E não se trata apenas de Israel. Muitos países árabes não têm o mesmo tipo da defesa de mísseis de Israel. E toda a gente deveria ficar preocupada com entrar num conflito contra o Irão, porque o Irão é bem forte. É mais forte do que as pessoas pensam. Não está mais numa Revolução.

"Toda a gente deveria ficar preocupada com entrar num conflito contra o Irão, porque o Irão é bem forte. É mais forte do que as pessoas pensam. Não está mais numa Revolução."

E o filho do xá? Após a Guerra dos Doze Dias, Reza Pahlavi tentou voltar a ter o apoio dos iranianos. Considera possível?
Tentou, mas não ressoou. Em primeiro lugar, as pessoas não gostaram de que ele tivesse assumido esta posição quando o Irão estava a ser bombardeado por outro país. Depois, é difícil… É que mesmo sendo o rosto mais reconhecível da oposição, ele não tem uma equipa competente que realisticamente possa assumir uma liderança se a República Islâmica cair.

“Penso que os iranianos estão prontos para a mudança. Para uma grande mudança”

Neste contexto, existe o rumor de que, quando o ayatollah Ali Khamenei morrer, pode ser uma nova era para o Irão. Acha isso realista?
Totalmente, penso que é realista. Penso que há muita gente à espera que ele morra, ele também já teve cancro. Quando ele morrer, haverá uma luta pelo poder. Não sabemos o que vai acontecer ou se vai haver uma revolução ou um golpe de Estado, mas pode acontecer mesmo um golpe de Estado. Alguns líderes militares podem decidir que precisam de assumir o poder. Pode acontecer o que aconteceu no Egito com Al-Sisi. Mas não sabemos. De qualquer forma, penso que os iranianos estão prontos para a mudança. Estão prontos para uma grande mudança — não apenas gradual ou lenta, mas uma grande mudança. E já estão a acontecer grandes mudanças.

Que grandes mudanças são essas?
Há mulheres que andam na rua sem o hijab, o véu islâmico. Há rapazes e raparigas a dar as mãos na rua, algo que nunca poderia acontecer há dez anos. Há muitas mudanças sociais a acontecer. O Irão está conectado à internet e os jovens veem e sabem bem tudo. Eu não posso ir ao Irão, porque teria problemas. Mas ao ver de longe e ao falar com pessoas — os meus primos — é muito claro, especialmente quando se vê os vídeos nas redes sociais: há mulheres em cafés sem o chador, sem o hijab, e até mulheres a conduzir motas, algo que nunca acontecia. E tudo mudou. O que está a acontecer, pelo menos na minha opinião, é que o Governo do Irão não quer pressionar a sociedade numa altura vulnerável. Dá algum espaço à sociedade civil. E quer evitar protestos, como os que aconteceram há dois anos com a morte de Masha Amini [espancada pelas autoridades por não usar o véu islâmico].

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▲ Ruas de Teerão em novembro de 2025

AFP via Getty Images

Os iranianos estão então a desafiar as regras islâmicas?
Sim, há algumas liberdades em relação a isso. E [o Irão] não é muito restritivo em termos de liberdades políticas. Há muita discussão do que o Irão deve ou não fazer, há muitas críticas contra o sistema. Claro que há linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas: não se pode criticar o Líder Supremo. Se se faz isso, é provável ter-se problemas. Mas entre os mais extremistas e os reformistas há muitas conversas. Não se pode defender a mudança de regime — isso é uma linha vermelha e o Irão não é um país livre. Mas os professores universitários e profissionais do género podem criticar algumas ações do Governo. Podem questionar porque motivo é que se gasta tanto dinheiro com o Hezbollah. Não se vai para a prisão por isso, mas vai-se se se disser que o regime deve acabar.

“Para Israel, não é bom que o Irão seja um país poderoso e tenha estabilidade”

Está a viver nos Estados Unidos. Como foi acompanhar, em termos pessoais, a Guerra dos Doze Dias?
Foi terrível. Terrível ver a Praça Tajrish a ser bombardeada. Quando vivi com a minha mulher e filho no Irão durante dez meses, vivíamos perto da praça. Costumávamos fazer compras ali. Quando se vê pessoas a morrer… É horrível. É como ver a cidade de Nova Iorque a ser bombardeada. Aliás, eu estava em Nova Iorque quando aconteceu o 11 de setembro… Senti-me terrível. E não fiquei nada feliz por saber que os Estados Unidos aprovaram os bombardeamentos [no Irão]. Um dos meus primos não teve água na sua casa por alguns dias. Trump achou que era uma boa solução livrar-se assim do programa nuclear iraniano e Israel também.

Qual é, na sua opinião, o grau de influência de Israel sobre os Estados Unidos em relação às políticas que o país adota para o Irão?
Para Israel, não é bom que o Irão seja um país poderoso e tenha estabilidade. Atualmente, o Hamas e o Hezbollah não têm poder para prejudicar Israel e os Houthis podem fazer apenas um pouco de danos. Israel quer definitivamente que o Irão seja mais fraco e uma das coisas que denuncia é o programa nuclear e os mísseis balísticos. E exige que o Irão não os possa ter. Isso não faz sentido. E isto não é defender o regime. Mesmo que o xá estivesse no poder, diria a mesma coisa. Duvido mesmo que o filho do xá concorde em não ter mísseis porque Israel o diz. Todos os países têm de ter defesas e armas ofensivas. E Israel não é exceção. Depois há a Palestina. Se os palestinianos decidirem fazer um acordo com Israel, o Irão não vai estar no seu caminho.

"Israel quer definitivamente que o Irão seja mais fraco e uma das coisas que denuncia é o programa nuclear e os mísseis balísticos."

Mas não acha que o regime iraniano também faz da sua rivalidade contra Israel uma bandeira?
Totalmente. Mas a inimizade com Israel tem a ver com o apoio à Palestina. E também existe um elemento religioso, especialmente libertar Jerusalém. Mas também é certo que para os muçulmanos xiitas — e o Irão é um país xiita — Jerusalém não é o terceiro lugar mais sagrado no Islão, isso é apenas para os sunitas. Os xiitas têm outros lugares como Karbala, Najaf, Medina e Meca e também os lugares onde os imãs estão enterrados.

Qual seria a sua visão para o Irão? Que Irão gostava de ver no futuro?
Desde que seja democrático… Nunca me posicionei contra em ter um rei. Não estou contra, agora. Inglaterra tem um rei, Espanha tem um rei, a Dinamarca tem um rei, a Suécia tem um rei, os Países Baixos têm um rei. Se é uma monarquia constitucional como o Irão originalmente tinha — mas que depois se tornou ditatorial com o golpe de 1953 —, concordo. Desde que exista representação parlamentar e que as pessoas possam votar… Passei a maior parte da minha vida na América e quase toda fora [do Irão], em países na sua grande maioria democráticos, ou países que são muito diferentes de uma teocracia. E preferia que o Irão fosse uma sociedade livre, com direitos iguais para homens e mulheres.
Não significa que fosse viver para lá. Mas para a minha família, para o bem das pessoas, seria melhor que o Irão tivesse uma democracia parlamentar. Uma democracia que permitisse às pessoas escolher os seus líderes, seja um rei ou um Presidente. É isso que espero, aliás, para todos os países.

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