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Ignacio Peyró e a vida do "espanhol que encantou o mundo": "Para Julio Iglesias, nada mais existe senão ele"

Não é um ensaio antropológico, não é uma biografia típica nem uma análise musical. É tudo isto cruzado, para contar uma grande história de uma grande personagem. Entrevistámos o autor.

Está lá o futebolista, que afinal não queria desesperadamente ser uma estrela da bola, de tal forma que o acidente que o tirou dos relvados não foi assim tão grave. Está lá a voz aveludada — podemos dizer “caliente”? — que primeiro foi uma espécie de mascote, depois transformou-se numa potencial fonte de riqueza para quem nele viu investimento. Estão lá os primeiros sucessos, os festivais, a Eurovisão, as viagens e a sedução americana. Está lá o portento de vendas, que acumulou números com uma banalidade tamanha que as contas de somar deixaram de ter importância. Mas sobretudo está lá uma história que parece de ficção, protagonizada por uma personagem bem real, demasiado real, por vezes.

Julio Iglesias, é ele O Espanhol que Encantou o Mundo, título do livro que guarda todas estas histórias para construir uma narrativa que ainda não terminou — Iglesias tem 81 anos, vive nas Bahamas e está a tentar lidar com a idade, como qualquer mortal. Esta é uma biografia escrita como um ensaio crítico sobre uma vida. Ou como um exercício literário que não está muito preocupado com a quantidade de informação que passa. Tem 272 páginas e é óbvio que a vida de Julio Iglesias não cabe em 272 páginas. Porém, é espaço mais do que suficiente para nos enamorarmos por uma existência rara.

Além das canções e da fama, das casas em Miami e das celebridades que o rodearam, este Julio Iglesias é o dos dilemas familiares, dos romances nem sempre românticos, do coração despedaçado com Isabel Presley e da vida reencontrada com Marina Rijnsburger. Mas O Espanhol que Encantou o Mundo também é o egoísta e o solitário, o ambicioso e o territorial, o eternamente ligado à mãe e o angustiado com o pai e o filho. Não precisamos de chegar ao fim para concluirmos o que nos diz o início do livro, ainda na introdução assinada pelo autor: Julio Iglesias é fascinante.

Autor que tem nome, chama-se Ignacio Peyró, ilustre académico, com carreira feita entre as universidades e o Instituto Cervantes em cidades como Londres e Roma. Jornalista, escritor, seduzido pela forma como alguns parecem viver capítulos de um romance em carne e osso, poderia ter ocupado o tempo a dissertar sobre outras existências culturais, potencialmente mais dignas de créditos em circuitos menos populares. Mas para quê? É ele que o diz, numa conversa que recorda um outro elemento essencial: Julio Iglesias é o espelho da transformação de Espanha no último meio século. Mas é também seu produto, incluindo a espécie de relíquia em que se transformou.

▲ A capa de "O Espanhol que Encantou o Mundo", de Ignacio Peyró (Zigurate)

Este livro não parece uma biografia, no sentido clássico do termo, parece mais uma história de ficção, mas com uma personagem bem real. Isto faz sentido?
Faz e é muito melhor assim. Quis que o livro fosse uma espécie de crónica, mas uma crónica cheia de ação. A minha ideia era que Julio Iglesias se manifestasse aqui através daquilo que fez e não através daquilo que disse, daquilo que gravou.

É esse o tipo de biografias de que gosta? Foi por isso que escreveu esta desta forma?
Gostaria que houvesse mais biografias assim, mas é difícil encontrá-las. Sobretudo tendo em conta que a maior parte das biografias tende a ser algo mais próximo de um ensaio académico. A vontade de quem as escreve é, muitas vezes, a de fazer o “livro definitivo” sobre alguém. Ora a minha vontade não era essa, nunca foi. Não sou a pessoa certa para fazer um livro desses. Há um detalhe: todas as coisas de que falo no livro já se sabem. Não há aqui revelações bombásticas, não há grandes descobertas. O que tentei foi fazer uma crónica literária através da história de Julio Iglesias, mas enquadrando e lembrando, tentando fazer justiça à vida que construiu. Não é um ensaio de antropologia cultural, não é uma história de música ligeira espanhola, não é um estudo sobre o país. Mas é um pouco de tudo isto misturado. Até porque assim é possível que alguém que não seja espanhol consiga ler o livro sem se perder.

E porquê fazer um livro assim com Julio Iglesias? Poderia ter escolhida outras figuras…
Desde sempre que me lembro do Julio Iglesias. Não como fã, nem sequer me lembro de trautear as canções, mas é como se tivesse sido sempre uma presença constante. Julio estava sempre algures, em algum rádio ou em alguma conversa, em alguma revista, sempre. E a minha família nem sequer era especialmente adepta da obra de Iglesias. Mas há uma coisa muito interessante: Julio Iglesias, popular como foi e é, nunca despertou muita atenção junto de escritores, investigadores ou académicos. Muito menos do que merece. Artistas como Rosalía ou C. Tangana são alvo de muitos textos, reflexões, comentários e análises, despertam muita atenção até junto do meio universitário. E porquê, se nenhum espanhol alguma vez triunfou como ele conseguiu triunfar? Bastaria esse êxito para justificar fosse o que fosse. Aliás, a questão vai além de Espanha: nos EUA, nenhum europeu teve tanto sucesso como Julio Iglesias a cantar em língua não inglesa — apesar das gravações em inglês. E confesso que tudo isto ganhou para mim ainda maior relevância desde que Trump se tornou presidente dos EUA pela segunda vez e retirou até do site da Casa Branca todas as publicações em espanhol.

▲ "A relação com Isabel Presley — e sobretudo o fim dessa mesma relação — definiu o futuro de Iglesias, marcou-o profundamente e ditou muitas das suas angústias, dilemas e decisões"

E tendo em conta que a música latina é a mais popular do mundo.
Sim, e de alguma forma foi Julio Iglesias que abriu esse caminho. E por alguma razão — ou até várias — não foi e não é reconhecido como devia nesse campeonato.

E porquê?
Acho que foi vítima do seu próprio sucesso. O êxito alcançou um nível tão elevado que Julio Iglesias acabou por se transformar numa espécie de entidade abstrata, como se não fosse uma pessoa. Passou a ser uma personagem quase de ficção, não sendo, tomada por garantida, como se existisse há milénios, às vezes parece que é assim que é visto, com uma espécie rara e exótica. Ora isso faz com que o tal reconhecimento ou o tal estudo não existam.

Na introdução deste livro diz que ficou aliviado por não ter tido resposta de Julio Iglesias aos seus contactos, antes de começar a escrever.
Sim, tentei falar com ele algumas vezes, nunca consegui. A verdade é que isso me deixou muito contente porque eu já sabia exatamente o que queria fazer, tinha o modelo do livro na minha cabeça antes de começar a escrever. E se por alguma razão Julio Iglesias decidisse falar comigo, teria de fazer um livro completamente diferente. Adoraria tê-lo conhecido, ter convivido com ele, como é óbvio. A ideia de estar com Julio Iglesias numa casa ao estilo de Miami, abrindo umas garrafas de Bordéus, adoraria, seria um sonho… mas para o que queria para este livro, não era de todo o que importava. Gostaria sobretudo de ter falado com ele sobre coisas materiais, esclarecer detalhes. Quantos metros tem determinado barco? Ao longo de todos estes anos, teve 6 ou 7 aviões? Quantos litros de vinho tem na adega? Isso sim, adoraria ter-lhe perguntado isso. Mas nunca seria uma coisa extensa nem intensiva. Este livro é um retrato que quero que dê prazer a quem o leia.

"A relação com o pai, por vezes apaixonada, noutras ocasiões bastante complexa, gerou uma dinâmica essencial para a construção da personalidade de Julio, para a sua definição de uma estrutura emocional. Ao mesmo tempo, a relação com Isabel Presley — e sobretudo o fim dessa mesma relação — definiu o futuro de Iglesias, marcou-o profundamente e ditou muitas das suas angústias."

Nos tempos de enorme sucesso mundial, Iglesias era visto e sentido em Espanha como um artista espanhol? Ou como um artista internacional?
Tenho ideia que sempre foi tido como perfeitamente espanhol. E o próprio sempre fez questão de reforçar que era espanhol, que não vinha de outro sítio qualquer. Muitas vezes estava em palco a cantar com uma bandeira espanhola, falava sobre a sua terra, sobre as suas pessoas. Mas aconteciam coisas engraçadas, apesar dessa identificação. Nos EUA, por exemplo, os latinos viam-no como de facto um cantor latino — espanhol, mas abrangentemente latino. Já os brancos, viam Julio como um sofisticado cantor europeu. Talvez esse fosse o ponto inicial, e só depois então surgia o facto de ser natural de Espanha. Compreendi melhor esse fenómeno ao escrever este livro. Mas talvez o mais interessante tenha sido confirmar de facto que, nos últimos 80 anos, houve sempre algum Iglesias nos momentos mais importantes da História de Espanha, isso sim foi o mais extraordinário. Seja em relação à ETA e ao terrorismo, seja em relação à lei do divórcio, ou a propósito de Aznar em 1996, Zapatero e George Bush, em todas as partes aparece Julio Iglesias ou o seu pai. É inegável.

Como se explica isso?
É muito curioso, de facto, Não sei se é por sorte, azar ou destino. Às tantas quase parece que não podia ser de outra maneira, mas temos que ter cuidado para não nos deixarmos levar por esse tipo de emoção!

▲ "Se dissermos que a família de Julio Iglesias é o sítio de onde ele veio, parece uma frase óbvia e desnecessária, mas não é assim tanto"

A família Iglesias é de facto é um dos protagonistas do livro. Ficamos é na dúvida se Julio procurou pertencer à família ou fugir dela.
É um dilema que o próprio nunca resolveu muito bem. Se dissermos que a família de Julio Iglesias é o sítio de onde ele veio, parece uma frase óbvia e desnecessária, mas não é assim tanto, se tivermos em conta a evolução da vida do cantor. A relação com o pai, por vezes apaixonada, noutras ocasiões bastante complexa, gerou uma dinâmica essencial para a construção da personalidade de Julio, para a sua definição de uma estrutura emocional. Ao mesmo tempo, a relação com Isabel Presley — e sobretudo o fim dessa mesma relação — definiu o futuro de Iglesias, marcou-o profundamente e ditou muitas das suas angústias, dilemas e decisões. Da mesma maneira que a difícil relação com o filho Enrique ainda hoje se mantém como uma das mais complexas realidades com a qual tem de lidar. E dificilmente haverá aspeto mais complexo do que estes na hora de moldar a personalidade de Julio Iglesias. Muito mais do que qualquer canção, sucesso, disco ou concerto.

Mesmo para alguém que acumulou sucessos a um nível inimaginável?
Claro. Julio Iglesias é muito solitário e, ao mesmo tempo e por essa razão, é muito territorial. Para Julio Iglesias, nada mais existe senão ele e tudo o resto e todas as outras pessoas têm de girar à sua volta, tudo acontece submetendo-se a essa entidade maior, tudo tem que se subordinar a esse facto.

Ao mesmo tempo, vivia com a família…
Porque, tal como dizíamos há pouco, Iglesias é muito espanhol. A família é demasiado importante. Levava a mãe a viver com ele. Levava os filhos, já adultos, a viver com ele, até para que fossem menos abordados em Espanha, estariam sempre mais distantes dos jornalistas.

Ou seja, tem um lado conservador.
Muito tradicional, muito conservador.

"Ninguém é santo, muito menos Julio Iglesias. Ainda assim, quando colocamos lado a lado as luzes e as sombras, as luzes destacam-se mais. Mesmo que ele consiga ser muito egoísta e ter total falta de empatia."

Como é visto Julio Iglesias em Espanha hoje?
Há um olhar de afeto, ao mesmo tempo que é visto como aquele senhor de idade avançada, de direita, antiquado. Mas muita gente tem uma espécie de efeito imediato e instantâneo quando ouve o nome de Julio Iglesias, que é o de sorrir. Na verdade, ambas as reações são normais, trata-se de alguém que, para muitos, está entre nós desde sempre, e isso raramente causa unanimidades. Além disso, é sobretudo uma memória, porque não está presente. Mas enfim, é uma das figuras mais usadas na hora de fazer memes. E claro, as eternas referências ao facto de ele ter sido um grande playboy.

A relação de Julio Iglesias com as mulheres, que lugar ocupa aqui, entre a família, o lado conservador e o egocentrismo?
Bom, talvez tenham sido tão importantes como as canções e os concertos para construir a imagem e o mito de Julio Iglesias. Iglesias é um adjetivo. Há quem chame a alguém “Don Juan”, há quem use a expressão “Julio Iglesias”. Talvez já não hoje, talvez isso tenha ficado preso noutro tempo…

Tal como as canções de Julio Iglesias parecem distantes, Espanha também está muito diferente?
Espanha mudou muito. Quando Iglesias começou, em 1968, tudo era diferente. Aliás, podemos usar Portugal como paralelismo, para percebermos como as coisas mudaram. Os dois países foram passando por transformações parecidas quase ao mesmo tempo. De tal forma que Julio Iglesias parece-se hoje como uma relíquia do passado, como se fosse alguém que representa uma realidade que já não existe, mas que naquela figura ainda tem uma espécie de monumento.

Na madrugada de quarta-feira, Julio Iglesias,

▲ "Julio Iglesias é alguém que, para muitos, está entre nós desde sempre, e isso raramente causa unanimidades"

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E o que é feito de Julio Iglesias, hoje?
Está a viver nas Bahamas, está bem, tem um barco novo e está muito melancólico em relação à idade. Mas não sei muito mais do que isto. E isso é interessante: apesar de todas as coisas que o tornaram num homem diferente de todos os outros, há coisas às quais ele não consegue escapar nem nunca vai conseguir, por muito que queira e que tente.

Sabe se leu este seu livro?
Sei que leu e que gostou, dito por pessoas que trabalham com a equipa que gere a carreira e tudo o que está relacionado com ele.

Curioso, tendo em conta que não terminamos o livro com a noção de que Julio Iglesias foi sempre extraordinário, bem pelo contrário.
Ninguém é santo, muito menos Julio Iglesias. Ainda assim, quando colocamos lado a lado as luzes e as sombras, as luzes destacam-se mais. Mesmo que ele consiga ser muito egoísta e ter total falta de empatia.

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