As empresas portuguesas mais do que triplicaram as compras de alumínio aos EUA nas vésperas da entrada em vigor das tarifas aplicadas pela União Europeia a essas importações (em resposta às taxas lançadas por Donald Trump). As tarifas passaram a ser cobradas na Europa no início de abril e a consulta da base de dados do INE mostra que no mês anterior – março – essas importações saltaram para 225 toneladas, mais de três vezes a média dos meses anteriores. O aumento das compras aos EUA surgiu, também, após a proibição das compras de alumínio (primário) à Rússia, anunciada em fevereiro deste ano.
Anunciadas a 10 de fevereiro, foi a 12 de março que entraram em vigor as tarifas cobradas (aos importadores norte-americanos) nas entradas de alumínio estrangeiro no território norte-americano. Nesse próprio dia, em retaliação, a Comissão Europeia anunciou taxas alfandegárias até 25% sobre “o aço e o alumínio de qualidade industrial, outros produtos semiacabados e acabados de aço e alumínio, e também sobre os produtos comerciais derivados” – cobrindo até 26 mil milhões de euros em importações da UE vindas dos EUA (quase tanto quanto os 28 mil milhões sobre os quais incidiram as tarifas aplicadas por Trump nesse dia 12 de março).
União Europeia anuncia contramedidas a taxas impostas por EUA sobre aço e alumínio
As tarifas retaliatórias aplicadas pela Europa, que sublinhou tomar esta medida a contragosto porque “não é do nosso interesse comum sobrecarregar as nossas economias com tarifas”, foram anunciadas para entrar em vigor de forma faseada, a partir do início de abril.
Esse anúncio terá levado empresas nacionais que compram alumínio a fornecedores dos EUA a antecipar um grande volume de compras – compras essas que, em alguns casos, já terão sido encomendadas em fevereiro, dado que foi no dia 10 desse mês que Trump anunciou que iria aplicar uma tarifa de 25% a todas as importações destes materiais. A medida revelada por Trump terá levado os empresários nacionais a prever que a UE poderia aplicar as mesmas tarifas, em sentido contrário, tornando as suas compras mais caras.
Em média, ao longo de 2024, Portugal importou por mês 65 toneladas de alumínio dos EUA – o que significa que as 225 toneladas importadas em março foram quase o quádruplo da média mensal recente. E é necessário recuar a 2019 para encontrar valores superiores a 200 toneladas importadas dos EUA num só mês. Porém, pode ter havido um outro efeito em jogo, relacionado com a guerra na Ucrânia.
Os EUA são um dos países onde as empresas portuguesas vão comprar alumínio, embora a maior parte desta matéria-prima venha da Ásia (sobretudo, China e Índia). Mas outro grande produtor de alumínio é a Rússia, que sempre vendeu grandes quantidades de alumínio (matéria-prima e produtos trabalhados) à Europa mas passou a enfrentar alguns obstáculos devido às sanções aplicadas após a invasão da Ucrânia. No entanto, só três anos após o início da guerra, no pacote de sanções anunciado em fevereiro, é que, além da proibição às importações de produtos trabalhados, passou a ser proibido importar da Rússia o alumínio como matéria-prima.
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Essa foi uma proibição, ainda assim faseada, para “garantir uma transição suave” para as empresas europeias. Estas podem ainda, ao longo de 2025, importar 80% do alumínio (matéria-prima) que entrou na Europa no ano de 2024 – o que equivale a 275 mil toneladas. No entanto, mesmo sendo de aplicação faseada, essas novas sanções à Rússia poderão ter contribuído para que as empresas portuguesas se tenham virado para outros países, incluindo os EUA, para obter o alumínio de que necessitam.
Contactada pelo Observador, a Associação dos Industriais Metalúrgicos Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP) refere que em alguns subsetores que representa houve um aumento das importações “que pode ser fundamentado por toda a conjuntura que se vive, a incerteza quanto ao futuro e possíveis medidas de retaliação a serem aplicadas pela UE, bem como o novo pacote de sanções à Rússia”.
“Estamos perante uma conjuntura nova, invulgar e que está seguramente a conduzir a uma nova ordem mundial, a nível político e a nível comercial“, refere Sofia Veloso Ferreira, porta-voz da AIMMAP.
A AIMMAP refere que, no geral, as importações (não apenas de alumínio) do setor “caíram cerca de 3%, uma quebra justificada pela diminuição de 73% registada no material de transporte que reflete naturalmente a vontade de Trump proteger os clusters automóvel, aeronáutico e ferroviário americanos, e as políticas que tem implementado para o fazer”. A descida nesse subsetor (entre fevereiro e março) terá ofuscado a ligeira subida nas importações em outros subsetores, como máquinas e equipamentos, material elétrico, metalurgia de base, móveis metálicos e produtos metálicos.
Na análise feita pelo Observador à base de dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), atualizada na última sexta-feira com os dados de março de 2025, as importações de alumínio foram aquelas que evidenciaram uma reação mais nítida às tarifas de Trump e, neste caso, à expectativa de que a UE também iria retaliar – como acabou por fazer.
Nas importações de ferro ou aço, também afetadas pelas mesmas tarifas, as 21,3 toneladas de março superaram as 12 toneladas de janeiro e as 11 toneladas de fevereiro mas ficam, ainda assim, abaixo das 34 toneladas que foram a média mensal em 2024 (e cerca de metade das 43 toneladas de março de 2024). E o mesmo acontece com outro produto visado nas “contramedidas” aplicadas pela UE contra os EUA: os uísques, de marcas como o Jack Daniels, cujas 13 toneladas de importações em março foram o volume mais elevado deste ano mas que ficam abaixo da média mensal de 23 toneladas ao longo de 2024.
Onde também houve um aumento, de acordo com os dados do INE, foi noutro tipo de produtos que está entre aqueles que Portugal mais importa dos EUA, os plásticos. Aí, as mais de 5.600 toneladas foram o valor mais elevado desde outubro e superaram a média mensal de 2024 (um pouco acima de 5.000 toneladas). Mas tanto nas máquinas e aparelhos como nos instrumentos de ótica, fotografia e cinematografia, outros produtos que estão no top das importações portuguesas vindas dos EUA, os volumes caíram em relação à média mensal de 2024 e, também, em relação ao mês de março homólogo.
Nos materiais de transporte, de um modo geral, as importações em volume subiram 7,6% em relação a março de 2024. Mas dentro desta categoria, nas motos e seus acessórios – subcategoria onde se incluem as icónicas marcas norte-americanas Harley Davidson e Indian Motorcycles – as importações ascenderam a três toneladas em fevereiro mas caíram para 985 quilogramas em março, o mês em que foi anunciado que também esses produtos iam sofrer tarifas agravadas à chegada à UE (a média mensal de 2024 foi de 2,8 toneladas).
Euro teve valorização superior a 5% no primeiro trimestre de 2025, face ao dólar, regressando aos níveis do início de 2022. FONTE: TradingEconomics
Numa análise por valor (euros), diferente da análise por volume (quilogramas/toneladas), segundo o INE as importações vindas dos EUA mais que duplicaram em março de 2025, com um crescimento homólogo de 115,8%. Em março de 2024 tinha-se importado 88 milhões de euros e em março de 2025 foram 190 milhões, um aumento de 102 milhões de euros.
No primeiro trimestre, as importações portuguesas vindas dos EUA dispararam mais de 30% em termos homólogos, para cerca de 591 milhões de euros. Entre os principais parceiros comerciais de Portugal, só houve um crescimento maior das importações em relação à Irlanda (40,2%).
Esta é uma evolução, desde o início do ano, que deve ser vista à luz da valorização de mais de 5% do euro face ao dólar nesse primeiro trimestre de 2025. Na prática, com a subida do euro, os importadores portugueses (e europeus) puderam comprar mais produtos e matérias-primas em dólar gastando, para isso, menos euros. O crescimento de 115,8% em valor (para 190 milhões de euros) de março tem subjacente um aumento de 181% nas quantidades importadas, em quilogramas, em comparação com igual mês do ano passado.
Exportações caem 30% nos primeiros meses de Trump na Casa Branca
Do outro prato da balança comercial, as exportações portuguesas para os EUA caíram 30% no primeiro trimestre, em relação ao período homólogo (e 37% em relação à média de 2024), numa altura que corresponde aos primeiros tempos de Donald Trump no regresso à Casa Branca.
Esta é uma quebra de exportações medida em volume (quilogramas/toneladas), que expurga o efeito cambial e, assim, permite ter um retrato mais fidedigno das quantidades que são realmente comercializadas. Quando se olha para as exportações em valor (euros), estas foram em crescendo em cada um dos primeiros três meses apesar do efeito desfavorável do câmbio: somaram em março 565 milhões de euros, levando a uma média de 438 milhões no primeiro trimestre (pouco abaixo dos 446 milhões do trimestre homólogo e dos 443 da média mensal de 2024).
Na comparação homóloga, nesse mês de março, mês em que a retórica de Trump sobre tarifas subiu de tom, as exportações para os EUA, no entanto, caíram 8,6% – para os tais 565 milhões de euros. Foi a maior queda entre os principais parceiros comerciais de Portugal, já que para Espanha as exportações cresceram 12,8%, para a Alemanha caíram 3,5% e para França baixaram 0,8%.
Esse é o “top 3” dos países para onde Portugal exporta, sendo os EUA o quarto maior parceiro. O Reino Unido, o quinto maior destino das exportações portuguesas, comprou a Portugal produtos no valor de 284 milhões, uma descida de 6,6%.
O INE justifica essa queda homóloga de 8,6% nas exportações para os EUA, em março, com a evolução das vendas de produtos químicos. O instituto estatístico sublinha, porém, que esta comparação não é perfeita porque houve um “valor significativo de transações TTE registadas no mesmo mês do ano anterior – ou seja, negócios com vista a ou na sequência de trabalhos por encomenda (sem transferência de propriedade)”.
O que são "transações TTE"?
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As transações TTE são, explica o INE, “transações com vista a ou na sequência de trabalho por encomenda (sem transferência de propriedade): o trabalho por encomenda inclui operações de transformação, construção, montagem, melhoria, renovação, modificação, conversão, com o objetivo de produzir um item novo ou realmente melhorado”.
Estes negócios “não implicam necessariamente uma mudança na classificação do produto” e “não existe alteração da propriedade económica dos bens”.
Uma vez concluído o trabalho por encomenda, “os bens exportados são registados nas estatísticas do Comércio Internacional de bens, de tal modo que o valor inclui o valor original dos bens que chegaram para transformação, acrescido do preço do material e peças adicionadas em Portugal e do custo de transformação”, explica o INE no glossário do relatório divulgado na sexta-feira.
Esse é um efeito específico e localizado mas, de um modo geral, os volumes mensais médios no trimestre (por volume) mostram que a quebra é significativa. Foram exportados para os EUA 105,6 mil toneladas de produtos por mês em 2025 (média mensal entre janeiro e março), o que fica bem abaixo das 151 mil toneladas do primeiro trimestre de 2024 e as 169 mil toneladas da média mensal ao longo de 2024.
Nos produtos químicos e derivados, onde se incluem os fármacos, as exportações baixaram 38% em volume mas subiram quase 30% em termos de valor, para 172 milhões de euros, segundo o INE.
No vinho e outras bebidas alcoólicas, as exportações (em volume) caíram apenas ligeiramente (0,5%) na comparação entre o primeiro trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2024, para cerca de 1,97 mil toneladas. A evolução mensal das vendas de vinhos e outras bebidas de Portugal para os EUA não tem uma grande oscilação, a julgar pelos dados do INE, apesar de Donald Trump ter chegado a ameaçar, a 13 de março, impor uma tarifa de 200% aos vinhos provenientes da União Europeia em retaliação pelas taxas anunciadas na véspera pela UE e que incidiam sobre o uísque.
Exportações metálicas para os EUA caíram 14,2%, diz a AIMMAP
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A AIMMAP diz que “as exportações do METAL PORTUGAL para os EUA no primeiro trimestre de 2025 registaram uma variação homóloga negativa de 14,2%”. Este é “um registo que nos remete diretamente para as políticas protecionistas que têm vindo a ser anunciadas e implementadas por Trump”.
“No entanto, numa análise mais detalhada”, diz a associação, “observamos até um registo de crescimento entre fevereiro e março de 2025, particularmente no que se refere aos subsetores de máquinas e equipamentos, material de transporte e moveis metálicos”. “Nos outros subsetores houve quebra ( metalurgia base e produtos metálicos)”, acrescenta a AIMMAP, em declarações enviadas ao Observador.