Ainda a propósito da lista com os livros que mais gostámos de ler em 2025, queria explicar melhor os motivos pelos quais considerei que a publicação em dois volumes pela E-Primatur d’As Confissões, de Jean-Jacques Rousseau, seria a novidade editorial do ano, apesar de se tratar de um livro publicado pela primeira vez há já 243 anos.
Evito sempre remeter a importância dos livros à sua atualidade temática, por me parecer que é da natureza da literatura pairar a meio caminho entre o extremo presente e a vaga distância. Seja como for, estou convencido de que estas Confissões assinalam um marco fundamental, ainda que por vezes menosprezado, na história da literatura moderna, constituindo um elo, talvez não perdido, mas decerto demasiado ignorado, que nos permite compreender melhor de que forma chegámos à literatura contemporânea.
Hoje em dia, não será fácil entrarmos numa qualquer livraria sem nos depararmos com volumes e volumes de autoficções e autoajudas assentes na ideia de que a compreensão da vida universal depende sobretudo da compreensão da nossa vida episódica. É certo que a enorme maioria dos livros contemporâneos deste género depende de uma confiança alarmantemente inflamada no poder visionário dos autores, confiança essa diretamente correlacionada com o desconhecimento da quantidade espantosa de outras pessoas que já pensaram tudo aquilo e o articularam bem melhor do que eles, ainda que talvez com consideravelmente menos alusões a bitcoins e vacinas. No entanto, a ideia de base referida no início deste parágrafo não deixa de assentar numa verdade: a nossa vida é o ponto de partida certo para compreendermos a vida alheia (basta, aliás, lembrar que a narrativa fundacional da sociedade ocidental conforme a conhecíamos assenta na premissa de que devemos amar os outros como a nós mesmos).
Ora, essa verdade tem uma linhagem, que poderíamos imaginar a começar em Santo Agostinho, nas suas Confissões, e a ter como eixos centrais quatro autores franceses: Montaigne, o Duque de Saint-Simon, Rousseau e, por fim, Proust, sendo que Proust — como o crítico Harold Bloom diria de Shakespeare — é um autor tão forte que consegue simultaneamente engolir os seus antepassados, constituir-se eixo central de toda esta linhagem e fundar outra nova, juntamente com Joyce, da qual depois brota praticamente toda a literatura subsequente.
No entanto, por fundamental que Proust seja, Rousseau parece robustecer esta linhagem, acrescentando-lhe três elementos decisivos (haveria mais, mas digamos que são apenas três para não vos maçar excessivamente), mais tarde reciclados em Em Busca do Tempo Perdido.
O primeiro destes elementos é a compreensão profunda dos efeitos da melancolia na nossa visão do passado. Nas primeiras páginas do livro, Rousseau explica que há trinta anos não regressa a Bossey e que não guardava exatamente as melhores memórias desse local onde crescera, mas que, agora, ao aproximar-se da velhice, sente “essas recordações renascerem enquanto outras se esfumam”, acrescentando: “Os mais pequenos acontecimentos desse tempo agradam-me precisamente por pertencerem a esse tempo”. Rousseau parece aqui pôr a nu a nossa tendência para engrandecermos melancolicamente o passado à medida que “descemos rumo à velhice”, procurando nesse passado um refúgio da morte cada vez mais iminente, um movimento que estaria na génese da busca do tempo perdido de Proust mas também, e sobretudo, da recente trend de partilha de fotografias de 2016 nas redes sociais. Tendência essa que seria resumida exemplarmente pelo próprio Rousseau quando escreve: “Já disse centenas de vezes que se me pusessem na Bastilha, pintaria aí o quadro da liberdade”.
▲ As capas das duas edições da E-Primatur que reúnem "As Confissões" de Jean-Jacques Rousseau
Em segundo lugar, Rousseau parece um percursor de Freud e, portanto, da modernidade, no sentido em que compreende como ninguém antes de si que os nossos amores são sempre variações de um amor inicial, como percebemos no momento em que o filósofo nos explica que “devorava com um olhar ardente todas as pessoas belas”: “A minha imaginação recuperava-as incessantemente, apenas para depois as usar à minha maneira e para fazer delas outras tantas Mlle. Lambercier”. Aliás, a relação com as teorias freudianas não poderia ser mais evidente do que quando percebemos que, uma vez que o nascimento de Rousseau provocara a morte da sua mãe, a relação de Jean-Jacques com o pai teria sempre uma tonalidade conjugal, bem mais do que filial, visto que este julgava reencontrar a mulher amada no rosto do filho, levando-o a acarinhá-lo lamuriosa e ternamente e a pedir-lhe, entre gemidos: “Ah, devolve-ma, consola-me, enche o vazio que ela me deixou na alma. Amar-te-ia eu tanto se fosses apenas o meu filho?”. Esta confusão entre amor filial e erótico seria celebremente catapultada para um patamar estratosférico pela relação de Rousseau com Madame de Warrens, que primeiro o adotaria, e a quem Rousseau chegaria a tratar por mamã, mas de quem mais tarde seria amante.
Por fim, Rousseau acrescenta a esta linhagem confessional um elemento que faltara em todos os seus antepassados: o ridículo. Rousseau, que já no início do livro afirmava que o difícil não era confessar os nossos crimes, mas sim o que fosse risível ou vergonhoso nas nossas vidas, acusava Montaigne (de cuja costela, aliás, nascera) de apenas confessar defeitos adoráveis. Aliás, o próprio Montaigne argumentava, duzentos anos antes, que devemos sempre pentear-nos antes de comparecer em público, acrescentando que se arranjava incessantemente porque se descrevia incessantemente.
Já Rousseau nunca hesita em apresentar-se da forma mais ridícula e grotesca que poderíamos imaginar, particularmente tendo em conta a data de publicação d‘As Confissões. É difícil concebermos isto devido à patina que cobre os autores clássicos e faz com que os vejamos sempre sisudos e impassíveis. Contudo, ao longo d’As Confissões, somos informados de que Rousseau rouba, mente, dá todos os seus filhos para adoção e, mais importante do que isso, masturba-se (“eu aprendera a usar esse perigoso substituto que defrauda a natureza”), mostra o rabo em ruelas escuras às mulheres que por lá passavam (“procurava becos sombrios e recantos escondidos onde me pudesse expor à distância perante pessoas do sexo oposto, no estado em que gostaria de me encontrar junto delas. O que elas viam não era o objeto obsceno, isso não me passaria pela cabeça; era o objeto ridículo”) e come bocados de comida que Mme. de Warrens cuspira inadvertidamente (“certo dia, à mesa, quando ela acabara de levar um pedaço de comida à boca, gritei que tinha visto ali um cabelo. Ela devolveu esse pedaço ao prato, eu peguei nele avidamente e engoli-o”). Ora, se isto, mais uma vez, aproxima Rousseau quer de Proust (cujo protagonista partilha boa parte destes comportamentos) quer das narrativas autoficcionais contemporâneas, tudo isto serve, em boa verdade, dois propósitos bastante prementes.
Um deles, como explica Patrick Coleman no prefácio à edição inglesa da obra, é uma certa pulsão masoquista de Rousseau, evidente neste exibicionismo tanto literal como literário, no qual o autor se expõe de rabo virado para nós, pronto a levar uns tabefes por conta das suas transgressões.
O outro, talvez mais interessante, prende-se com o objetivo concreto e prático d’As Confissões. Em vários momentos do livro, Rousseau explica que fora levado a escrever tudo isto para se defender de acusações que lhe eram imputadas por rivais, daí o tom tantas vezes judicial do livro, sugerindo em muitos momentos que, a ser verdade que nada é mais difícil do que confessar os nossos defeitos vergonhosos, então quem os confessa estará decerto a falar verdade em tudo o resto. É nesse sentido, aliás, que a confissão da masturbação se torna decisiva, por ser um comportamento tido por vergonhoso, mas, sobretudo, privado e, em princípio, sem testemunhas. Rousseau confessa-se para que acreditemos nele em tudo o resto. Confessa não em busca de um perdão ou de uma redenção religiosa, mas apenas para que o aparelho ficcional que montou se sustente. Confessa para que o livro constitua o refúgio dentro do qual gostaria de se abrigar. E assim, numa viela escura e de rabo ao léu, nasce a modernidade.