i

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

João Cotrim Figueiredo e a saída de Carlos Guimarães Pinto: "Farei parte da solução de liderança da Iniciativa Liberal" /premium

  • Texto de Pedro Benevides, Rita Dinis, Rita Penela e Rita Tavares

O deputado único do Iniciativa Liberal falou sobre o seu futuro na liderança do partido, agora que Carlos Guimarães Pinto deixou o cargo. E não exclui uma candidatura. "Não serei um obstáculo".

João Cotrim de Figueiredo é o único deputado eleito pelo Iniciativa Liberal e, poucas horas depois de o partido ter perdido o seu líder, foi o convidado do programa Vichyssoise (que pode ouvir clicando aqui) na Rádio Observador. Fala sobre a hipótese de ficar à frente do partido, sobre o papel do Estado e sobre as suas prioridades no Parlamento.

Há poucas horas, soube-se que o líder do Iniciativa Liberal, Carlos Guimarães Pinto, vai deixar o lugar. O João Cotrim de Figueiredo chegou a dizer em declarações à rádio Observador que “não se podia pedir mais a Carlos Guimarães Pinto”. Porque é que não se pode pedir mais a um líder que só esteve um ano à frente de um partido político?
Tem a ver com a forma como os pequenos partidos funcionam, especialmente o Iniciativa Liberal (IL), que não tem estruturas profissionais. Portanto, as pessoas que colaboram na gestão, na organização e na direção de um partido como o IL fazem-no a tempo inteiro, em prejuízo a sua vida pessoal e profissional.

Isso significa que os líderes vão continuar a durar um ano cada um ou está com expectativa de que haja uma profissionalização?
Sei que leram bem as declarações do Carlos Guimarães Pinto. Ele menciona que há um novo ciclo na vida do partido e tem exatamente a ver com atingir representação parlamentar e o que isso significa do ponto de vista de recursos. É possível a partir desta altura tratar a gestão diária e política do partido de forma diferente. É verdade que esta possibilidade se colocou algum tempo antes das eleições, porque era um dos cenários possíveis: só se justificaria continuar a fazer esse sacrifício pessoal e profissional que referi se houvesse condições políticas e objetivos políticos diferentes.

"Muito do que a Iniciativa Liberal é hoje deve-se ao Carlos Guimarães Pinto e isso dá uma dívida de gratidão de toda a gente do partido, a começar por mim, que será difícil de pagar."

Está a falar da eleição de Carlos Guimarães Pinto pelo Porto, por exemplo?
Exatamente. A IL  teve um bom resultado eleitoral, acho que se pode dizer assim, mas poderia ter tido ainda melhor e nessa circunstância havia outras razões políticas para se poder dizer que fazia sentido continuar aquilo que era uma escolha de vida que o Carlos fez e admitiu fazer durante um tempo. E ele é muito claro nisso. Houve muitas coisas que no início do mandato dele se disseram que se queriam fazer, muitas delas não eram fáceis e muitas delas eram vistas como impossíveis, e o que é facto é que ele conseguiu. Muito do que a Iniciativa Liberal é hoje deve-se ao Carlos Guimarães Pinto e isso dá uma dívida de gratidão de toda a gente do partido, a começar por mim, que será difícil de pagar. A determinada altura, se não houver um motivo político para justificar que esse sacrifício continue, é muito difícil pedir a alguém — sobretudo a alguém de quem se gosta e de quem se é amigo — para continuar a fazer esse trabalho.

Mas isso não passa uma imagem de instabilidade para um partido que ainda agora foi criado?
Não sei. Dir-me-ão vocês, que estão do lado de fora. O que nós não queremos é arranjar uma situação onde não haja condições objetivas para as pessoas desempenharem as suas funções.

Este vazio vai ficar durante muito tempo? Já disse que estava a considerar a hipótese de avançar para a liderança do partido…
Com o devido respeito, não se pode usar as mesmas bitolas que se usam para outros partidos para analisar a Iniciativa Liberal. Isto porque nós costumamos dizer que somos um partido mais de ideias do que de pessoas. Durante muito tempo fizemos vingar as ideias sem sequer ter uma cara conhecida e isso faz com que ao desaparecer uma cara as ideias continuem lá. Não há vazio propriamente dito. E há estruturas dentro do partido: há vice-presidentes, uma direção, etc. O processo estatutário é o que é. Há consultas nas várias estruturas para preparar o próximo Conselho Nacional, que terá lugar no dia 17, a quem competirá marcar uma convenção. E será nessa convenção eletiva que se vai escolher um presidente. Para a IL isso não é um problema. Isso talvez seja uma novidade também: quando se está apostado em fazer vingar ideias a questão das pessoas é bastante mais secundária do que noutros partidos.

Já admitiu a possibilidade de avançar. O que é que lhe falta?
A minha posição é, espero eu, bastante clara. Quando fui desafiado para ser cabeça-de-lista pelo partido em Lisboa decidi que era isso que queria fazer e era a isso que me ia dedicar. E foi isso que aceitei perante o partido e perante mim próprio. A partir do momento em que se coloca esta nova situação vou ter de voltar a fazer esta reflexão. E mais uma vez digo: o meu compromisso com o partido é de tal forma grande que eu serei sempre parte da solução, seja ela qual for. A única coisa que quero que fique clara é que a solução de que farei sempre parte será a que melhor ajudar as ideias da IL. E, mais uma vez digo, porque não somos um partido igual aos outros: há várias maneiras de conseguir isso. Agora, nunca serei um obstáculo à solução.

Reconhece que tem recebido empurrões nas costas para avançar?
É normal. Porque também pela primeira vez na IL houve uma mediatização de uma das figuras, é a primeira vez que o partido está a conviver com isso. E eu também não quero que isso seja uma espécie de mudança de matriz. O partido tem de continuar a viver sobretudo das ideias. Se eu falo mais vezes dessas ideias e dou a cara por essas ideias vamos jogar com isso. Não queremos que isso signifique que o partido deixou de ser um partido de ideias.

"Nunca serei um obstáculo à solução" de substituição de Carlos Guimarães Pinto

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Mas não é mais difícil ter outra cara como presidente do partido e continuar a assumir que o João Cotrim Figueiredo é a cara do partido?
Admito que sim e esse é um dos motivos que me fazem refletir sobre como se deve organizar isto tudo. Agora, essa reflexão é feita com as estruturas do partido e deve ser comunicada em primeira mão às estruturas do partido. Não estou a fugir à questão nem a hesitar. Há um conjunto de ideias que vou discutir primeiro internamente para que o partido saiba em primeira mão aquilo que eu penso, é o mínimo da cortesia.

Então, para o Iniciativa Liberal o importante é o coletivo?
Agora, sim, vou hesitar porque essa pergunta traz água no bico. Não é o coletivo nesse sentido. Há ideias que resultam de um debate muito alargado, com muita gente. Agora, a maneira como as pessoas se organizam ou como se juntam para produzir essas ideias é que tem a ver com a matriz do partido, que é a matriz que reconhece a qualidade intelectual e a coerência ideológica das pessoas que são capazes de produzir essas ideias. E depois há alguns filtros de comunicação ou de oportunidade para decidir de que forma são transmitidas essas ideias.

Mais do que as pessoas interessam as políticas, como diz o PCP?
Certo. Mas essa ideia não é só do PCP. Há muitos que dizem, mas nós fazêmo-lo de facto.

É uma postura muito parecida com a dos partidos tradicionais, porque ninguém anuncia candidaturas porque diz que as tem de discutir internamente. É sempre essa a desculpa para das respostas evasivas.
Então vou dar outra desculpa: há três meses não estava na política profissional portanto ignorava como é que funcionam os outros partidos.

Nestes dois dias de debate do programa de Governo as intervenções do IL foram mais focadas em críticas ao Governo do que em ideias novas. Porquê? Isso não é pouco?
Não, não acho pouco. Pouco são os dois minutos e meio que temos para falar. Portanto, se se vai fazer uma análise do programa de Governo não sobra muito para as alternativas que daríamos. Mas não estou de acordo com o que diz, sobretudo pelo discurso de encerramento, onde em relação a cada crítica que fazíamos apontávamos qual seria a nossa solução. Não eram propriamente propostas políticas mas eram visões. Se tivesse de resumir essa intervenção era simples: este PS é há muito tempo um partido que quer que o Estado controle a vida das pessoas e o IL é o partido que aparece para defender a liberdade das pessoas.

"Nós não somos contra o Estado. Somos contra o Estado grande demais, que se mete onde não devia meter-se. Somos a favor de um Estado cada vez mais forte e cada vez mais competente em tudo o que são matérias que tenham a ver com a regulação ou com a supervisão."

Mas isso é sempre no campo da ideologia política e não das propostas concretas.
Mas faça-me perguntas sobre qualquer tema e eu digo-lhe como é que isto se declina. Em todas as ações do nosso dia podemos ser mais ou menos livres na nossa escolha. O primeiro pressuposto é que haja efetiva liberdade e que eu não esteja condicionado na escolha. O segundo é que haja opções, mais do que uma coisa para escolher. Porque se eu for livre e só tiver uma coisa para escolher vai dar ao mesmo. Só nestes dois domínios, em qualquer matéria da vida portuguesa, nós podemos encontrar situações onde as pessoas não são efetivamente livres.

Só para esclarecer: o Iniciativa Liberal é contra o Estado, acha que há Estado a mais, nalgumas áreas? E em quais?
Nós não somos contra o Estado. Somos contra o Estado grande demais, que se mete onde não devia meter-se. Somos a favor de um Estado cada vez mais forte e cada vez mais competente em tudo o que são matérias que tenham a ver com a regulação ou com a supervisão. Em suma: tudo o que tenha a ver com a garantia das condições para que as pessoas possam escolher livremente. Isto não se aplica só ao Estado. Se tivermos empresas com demasiado poder e monopolistas, elas também estão a limitar o poder de escolha das pessoas. Aí, o Estado tem de ter o papel de intervir.

Logo a seguir às eleições, houve uma polémica com o IL porque disseram publicamente que iam abdicar da subvenção de campanha (cerca de 200 mil euros), mas não disseram que iam abdicar da subvenção de funcionamento (780 mil em quatro anos). Não abdicam dela porquê?
São completamente diferentes e temos posições diferentes sobre as duas matérias. Há de facto custos da democracia e temos duas opções: ou admitimos que os partidos se financiem com recursos cuja proveniência não fique limitada por nenhuma regra, ou admitimos que o Estado tem uma função de forma a que os partidos não sintam necessidade de se financiarem junto de privados dos quais possam ficar reféns de uma forma ou outra. Achamos que esta última é uma visão correta. Ao mesmo tempo, achamos que o valor devia baixar de três euros por cada voto para dois euros. Por princípio não temos objeção, mas achamos excessivo. Em relação à campanha, é diferente. Porque é que o Estado tem de pagar campanhas eleitorais? É para as campanhas não serem pagas por privados? OK, admitimos que esse argumento funciona mas tem de ser em escala pequena. Não podemos ter campanhas eleitorais a custar oito milhões de euros — como esta última — num ano em que também tivemos europeias e regionais. Não podemos dizer que o Estado tem essa obrigação sobretudo quando vemos para que é que esses oito milhões servem. Porque a partir do momento em que o Presidente da República marca a data das eleições há uma série de despesas que nós consideraríamos campanha que não podemos fazer, como a compra de espaço comercial nas redes sociais. Portanto, as subvenções de campanha acabam por financiar as famosas rotas da carne assada, comícios com artistas de vária índole, que não contribuem em nada para o esclarecimento e proliferação de ideias.

Começou por dizer que a democracia tem custos — esses não são os custos?
A democracia tem um custo do ponto de vista do funcionamento dos partidos, as campanhas também têm custos mas não têm de custar oito milhões de euros.

Uma campanha não é o funcionamento dos partidos?
Não, a campanha não é funcionamento dos partidos.

É o partido a funcionar para ser eleito.
Vou dar-lhe um exemplo: o IL fez a sua campanha com cerca de 60 mil euros. Não foi uma má campanha.

Mas tinha objetivos mais modestos do que o PS, por exemplo.
Muito bem. Mas o PS teve quatro anos com exposição mediática e teve muitas possibilidades para espalhar a sua mensagem — e quando chega a altura de campanha usa 60 vezes mais do que o nós usámos.

Quais são as suas prioridades agora que foi eleito deputado e é representante único do partido no Parlamento?
A primeira são as nossas bandeiras da campanha eleitoral: justiça fiscal, sobretudo com simplificação do IRS, liberdade de escolha na vertente da Saúde e Educação, e o combate à corrupção.

Mas já sabe qual é a primeira que vai apresentar?
Provavelmente, e em função do calendário do Orçamento do Estado, será o pacote de medidas que estão relacionadas com a área fiscal.

Preferia fazer jogging com Miguel Relvas do que com José Sócrates porque corro mais rápido do que ele e conseguia fugir dele mais depressa

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Carne ou Peixe: “Fui feliz a vender cabides”

Preferia voltar a comer todos os dias couves de Bruxelas ou almoçar uma vez por semana ao lado de Catarina Martins na cantina do parlamento?
Ah, prefiro almoçar uma vez por semana ao lado de Catarina Martins.

Preferia ter mais tempo disponível para as intervenções no Parlamento ou um cartaz em cada praça principal de Lisboa e Porto?
Mais tempo de intervenção.

Tem mais saudades de Passos Coelho na liderança do PSD ou de Carlos Guimarães Pinto na liderança do Iniciativa Liberal?
Do Carlos Guimarães Pinto na liderança do Iniciativa Liberal

Preferia voltar a vender cabides de porta em porta ou ser presidente do Turismo de Portugal num governo do PS?
Já fiz as duas coisas, mas fui muito mais feliz a vender cabides, apesar do abuso todo com que levei.

Preferia fazer jogging de manhã com José Sócrates ou com Miguel Relvas?
Acho que com Miguel Relvas porque corro mais rápido do que ele e conseguia fugir dele mais depressa.

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.