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epa12403512 Italian Prime Minister Giorgia Meloni speaks during the General Debate of the 80th session of the United Nations General Assembly (UNGA) at the United Nations headquarters in New York, USA, 24 September 2025.  EPA/SARAH YENESEL
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SARAH YENESEL/EPA

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Leal a Trump, "deixada de fora" pela UE e atenta aos italianos. O equilibrismo de Meloni sobre o reconhecimento da Palestina

Itália fez críticas inéditas a Israel, mas continua a recusar o reconhecimento incondicional da Palestina. Em causa estão muitos fatores contrários a pesar sobre Meloni, que vai adiando uma decisão.

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A intervenção da Itália no 80.º debate da Assembleia Geral das Nações Unidas estava marcada apenas para as 20h do segundo dia do evento (já na madrugada desta quinta-feira na hora portuguesa e italiana). Mas ainda antes de chegar a sua vez, a primeira-ministra Giorgia Meloni já utilizava a deslocação a Nova Iorque para fazer anúncios importantes. Em conferência de imprensa, a chefe do Executivo italiano anunciou que vai apresentar no Parlamento uma proposta para reconhecer o Estado da Palestina, sob duas condições: o regresso de todos os reféns israelitas e o afastamento do Hamas de qualquer solução de governação futura.

Na hora da sua intervenção, Meloni marcou novamente posição. Apesar da insistência em apontar o dedo ao Hamas por ter “desencadeado a guerra”, a líder italiana deixou as críticas mais veementes de sempre a Israel.”A reação a uma agressão deve respeitar sempre o princípio da proporcionalidade. Vale para os indivíduos e ainda mais para os Estados. E Israel ultrapassou esse limite“, afirmou, acusando o Governo de Benjamin Netanyahu de estar a “envolver excessivamente a população civil palestiniana”, de “infringir as normas humanitárias” e de causar “uma carnificina entre os civis”.

Apesar da condenação de Telavive marcar uma mudança na posição de Giorgia Meloni, esta continua a pautar-se pelo “equilibrismo”, como definia a imprensa italiana em maio deste ano. Na conferência de imprensa desta quarta-feira, a própria fazia este reconhecimento. “A nossa proposta combina duas necessidades: aplicar pressão e garantir indicações claras do Estado futuro da Palestina”, explicou, apelando à “responsabilidade” de todos os partidos italianos. “Não estamos aqui a jogar jogos, estamos a falar de uma guerra e da segurança das pessoas”, rematou.

"O que ela está a tentar fazer — e que é um clássico de Meloni ao longo dos últimos dois anos e meio — é tentar manter um pé de cada lado, o que continua a ser um exercício muito difícil."
Daniele Albertazzi, professor de Ciência Política na Universidade de Surrey

O “equilíbrio” de Roma é alcançado no cruzamento de uma série de fatores externos e internos: a posição dos seus aliados europeus, a liderança de Emmanuel Macron dessa mesma posição, a crescente insatisfação do povo italiano com a ofensiva israelita em Gaza, a longa relação de Itália com os países árabes, a boa relação de Meloni com Washington e a proximidade de fações da coligação de Governo aos seus homólogos israelitas. Recai sobre Meloni conseguir gerir todas estas variáveis.

“O que ela está a tentar fazer — e que é um clássico de Meloni ao longo dos últimos dois anos e meio — é tentar manter um pé de cada lado, o que continua a ser um exercício muito difícil”, argumenta Daniele Albertazzi, professor de Ciência Política na Universidade de Surrey. O especialista em política italiana não rejeita que a posição de Meloni possa sofrer nova mudança — e que o seu Governo reconheça mesmo o Estado da Palestina. Mas esta posição não é unânime.

Itália quer ser “diplomata equilibrado e influente” e não “ficar de fora” ou ser ultrapassada por França

Antes de Meloni discursar perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, já tinham passado pelo púlpito os líderes de Portugal, França, Mónaco e Austrália, quatro dos dez países que reconheceram o Estado da Palestina à margem do encontro. Com esta movimentação, mais de metade dos Estados membros da União da Europeia (UE) reconhecem agora a Palestina. Itália está entre os doze (de 27) que não deram este passo.

Os especialistas ouvidos pelo Observador concordam que a mudança na posição italiana resulta, em parte, desta movimentação dos seus parceiros europeus. Não necessariamente porque foi alvo de pressão direta, mas porque levou Roma a recalcular a sua estratégia de política externa. “O Governo [de Meloni] trabalhou para construir legitimidade com aliados como a UE e a NATO. Esta nova posição na Palestina provavelmente é uma extensão deste esforço, que visa fazer de Itália um jogador diplomático mais equilibrado e influente“, argumenta Mattia Zulianello, professor de Ciência Política na Universidade de Trieste.

Mas o cálculo estratégico de Meloni não olha apenas para o que pode ganhar, mas para o que pode perder se não se ajustasse à política externa dos seus parceiros mais próximos. Principalmente, Meloni teme “ficar de fora sozinha”, considera o professor Albertazzi. “Felizmente para ela, não está propriamente sozinha”, ressalva, uma vez que uma das principais potências europeias — a Alemanha — continua a recusar igualmente avançar com o reconhecimento da Palestina. Mas os olhos de Meloni poderão estar noutra capital europeia que não Berlim.

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▲ Meloni pode ver na liderança de Macron uma "competição"

AFP via Getty Images

No início de agosto, depois de Israel ter aprovado um plano militar para ocupar a Cidade de Gaza, Giorgia Meloni telefonou ao presidente da Autoridade Palestiniana (AP), Mahmoud Abbas, para condenar a “escalada” israelita. No dia seguinte, fez novo telefonema, desta vez para o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed bin Salman Al Saud. Durante a conversa, a líder italiana classificou a intervenção das nações árabes como “fundamental”.

Esta semana, à margem da Assembleia Geral, dois dos encontros de Meloni foram com o Presidente interino da Síria e com o emir do Qatar. O telefonema, assim como estas reuniões, refletem a relação próxima que Itália cultivou com os países árabes desde o tempo do fascismo de Benito Mussolini, linha programática que foi mantida ao longo das décadas pela “direita pós-fascista”.

Ora, o outro país europeu que cultiva uma relação próxima com os países árabes é França. Para Daniele Albertazzi esta relação que Paris e Roma partilham cria um clima de “competição com Macron“. Tendo sido França a liderar o plano ocidental para reconhecer a Palestina, isso pode afastar os países do Médio Oriente e do norte de África de Itália, em detrimento de França, elabora.

Reformular a “fórmula” estratégica para se manter “leal” a Trump

Passou pouco mais de um mês desde a última viagem oficial da primeira-ministra italiana. Em meados de setembro, tal como em meados de agosto, o destino do avião que partiu de Roma era o mesmo: os Estados Unidos da América. Se a viagem de setembro tinha como destino Nova Iorque, para participar num encontro das Nações Unidas, a viagem de agosto passou pela Casa Branca, num convite de última hora partilhado com outros líderes europeus, em que todos tinham em comum a amizade com o Presidente Donald Trump — e o objetivo de pôr fim a outra guerra, a da Ucrânia.

Foi a segunda passagem de Meloni pela residência do Presidente norte-americano desde que este regressou ao poder — a italiana integra, assim, a curta lista de líderes que já repetiram a visita em menos de um ano. A proximidade entre Meloni e Trump não é uma coincidência, mas uma relação que esta se dedicou a cultivar e que define um outro pilar da política externa italiana: o transatlanticismo.

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▲ Meloni procura manter-se "leal" a Trump

Getty Images

À semelhança da relação com a Europa e com os países árabes, a relação com os Estados Unidos também pesa na nova posição de Roma sobre a Palestina. Mas, neste caso, na direção contrária. Enquanto europeus e árabes se inclinam para uma posição mais próxima da Palestina, os Estados Unidos assumem-se inequivocamente como pró-Israel. Reconhecer a Palestina colocaria Itália no alvo de Trump, prejudicando os esforços de Meloni para se manter próxima do líder norte-americano. “Meloni precisa de se manter leal a Trump“, analisa Cecilia Sottilotta, professora na Universidade para Estrangeiros de Perugia.

“Portanto, ela criou esta nova fórmula em que diz: nós reconhecemos a Palestina, mas só quando os reféns forem libertados e o Hamas não tiver um papel no Governo”, resume o professor Albertazzi, que não se coíbe de criticar esta posição. “Isto não faz sentido“, declara, uma vez que considera que a segunda condição não pode ser assegurada para sempre.

As mudanças de posição, ora mais próximas da Europa, ora mais próximas dos Estados Unidos, permitem continua a contornar e a adiar uma decisão oficial de reconhecimento do Estado da Palestina. “É o que podemos esperar. Quando se trata de política externa, eles decidem primeiro onde é que vão acabar e, depois, vão à procura de razões para a justificar essa posição”, elabora o professor. A justificação tanto pode ser que reconhecer a Palestina neste momento é legitimar o Hamas, como dizer que o processo é meramente simbólico, desvalorizando-o — duas posições defendidas por Meloni e pelo seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, em declarações em Nova Iorque.

Greves gerais e a maré da opinião pública. As causas internas que afetam a posição de Roma

Na passada segunda-feira, na véspera de começar em Nova Iorque o principal encontro da ONU, Itália foi palco de uma greve geral, que levou às ruas cerca de 500 mil pessoas, segundo números citados pela Euronews. Os protestos organizados por grupos pró-Palestina exigiam a Giorgia Meloni que se alinhasse com os restantes aliados europeus no reconhecimento da Palestina.

A dimensão dos protestos reflete uma mudança generalizada na opinião pública italiana. Segundo um inquérito da empresa YouTrend, citado pelo mesmo canal, mais de 60% da população acredita que Israel está a cometer genocídio em Gaza, que respondeu de forma desproporcional aos ataques do 7 de Outubro e que deveria retirar-se totalmente do enclave palestiniano. Já a empresa Only Numbers revela que 40,6% dos italianos apoia o reconhecimento do Estado da Palestina — a opção mais popular entre todas as apresentadas, que incluíam também o apoio de um governo de transição.

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▲ Cerca de meio milhão de pessoas saiu à rua durante a greve geral de segunda-feira

AFP via Getty Images

A professora Cecilia Sottilotta vê nesta “onda de incríveis mobilizações da sociedade civil” “a grande razão” para o novo tom de Meloni na ONU. “Uma das principais razões por que Meloni escolheu utilizar palavras mais fortes contra Israel é porque viu como a maré mudou na opinião pública italiana”, afirma ao Observador.

A mudança não se fez sentir apenas entre os críticos de Meloni. Em maio, já tinha circulado entre os membros do seu Executivo uma sondagem que mostrava que as ações de Israel em Gaza eram impopulares mesmo na sua base eleitoral, o que fez soar alertas. No entanto, os especialistas apontam que, ainda que a opinião pública pese, não é interpretada numa lógica eleitoralista, uma vez que sucessivos estudos mostram que a política externa não é a prioridade dos eleitores italianos.

Esta lógica é visível na manutenção da coligação de Meloni com a Liga, o partido de extrema-direita de Matteo Salvini. A fação de Salvini é muito mais próxima de Benjamin Netanyahu do que os ministros dos Irmãos de Itália, o partido liderado por Meloni. Mas isto não causa necessariamente uma rutura no seio da coligação, da mesma forma que isso não acontece com as divergências quanto ao apoio europeu à Ucrânia. Em ambos os casos, a política doméstica sobrepõe-se aos interesses divergentes no estrangeiro — a isso soma-se ainda o interesse de ambas as partes em preservar aquele que é já o quarto governo mais duradouro da era republicana.

A proteção da flotilha como “sinal” da posição italiana quanto à Palestina

Ainda antes de discursar nas Nações Unidas ou de anunciar a apresentação de moções no Parlamento, a viagem de Giorgia Meloni a Nova Iorque já se revelava “atormentada“, escreve o La Reppublica. A tormenta estava no Mar Mediterrâneo, onde a Global Sumud Flotilla (onde segue a líder partidária portuguesa Mariana Mortágua), com destino a Gaza, foi atacada na terça-feira à noite. A bordo, seguem quatro deputados italianos. Meloni passou a noite reunida com os ministros que a acompanhavam e ordenou telefonemas a todos os líderes da oposição, para que convencessem os seus deputados a aceitar mediação.

Na manhã seguinte, foi anunciada uma decisão: uma fragata da Marinha italiana iria acompanhar os navios civis que carregam ajuda humanitária para a Palestina, de forma a dissuadir ataques futuros. “A decisão é quase inevitável: ela não pode permitir que italianos sejam vítimas de um novo ataque”, resume o jornal italiano, que acompanhou os bastidores de uma noite animada. Em troca, a flotilha deve aceitar a mediação da Santa Sé e descarregar os mantimentos no Chipre, a partir de onde a sua entrega em Gaza será assegurada pelo patriarca de Jerusalém, missão que seria coordenada pelo líder da Conferência Episcopal Italiana.

epa12342453 Some of the 20 ships hoisting the Palestinian flag dock in the port in Barcelona, Spain, 01 September 2025. The Flotilla Global Sumud had to return to Barcelona due to adverse weather conditions after departing from Barcelona for Gaza on 31 August 2025, in a humanitarian effort to support the Palestinian people. The initiative involves groups from 44 countries.  EPA/Quique Garcia

▲ O Governo italiano ordenou a proteção dos navios civis que tentam chegar a Gaza

Quique Garcia/EPA

Para Cecilia Sottilotta, esta ação do Executivo é um sinal da posição que escolheram assumir sobre a Palestina. “Eles não estão a envolver-se em operações militares com Israel, claro, mas aperceberam-se que, se algo de mal acontecesse à flotilha, o Governo italiano seria visto como não tendo feito nada para proteger os seus próprios cidadãos”, elabora. Ou seja, Roma está a tomar “ações políticas” para não poder ser acusado de inação, mas não é tão definitivo ao ponto de reconhecer a Palestina. A professora mostra-se cética que esse passo alguma vez chegue a ser concretizado, dada a oposição do atual Governo de Israel à coexistência com o Estado da Palestina.

Porém, a leitura não é unânime. Mattia Zulianello corrobora que o reconhecimento da Palestina é um ato político e que Meloni está a ter “uma abordagem cuidadosa“. Porém, ressalva que pode haver um reconhecimento futuro que “provavelmente seria apresentado como um passo construtivo na direção da solução de dois Estados”. Já Daniele Albertazzi não recusa que Itália dê esse passo caso ainda mais países avancem nessa direção ou — numa opção mais provável — se Israel continuar a violar “linhas vermelhas” na sua ofensiva em Gaza. A título de exemplo, menciona a destruição de hospitais e números de mortes diárias que ultrapassam a centena. Ou seja, se os ganhos políticos em reconhecer a Palestina forem vantajosos, esse passo poderá surgir.

Por agora, o passo seguinte será a aprovação da moção para o reconhecimento condicional no Parlamento. O momento poderá acontecer, estima a imprensa italiana, no dia 2 de outubro, em que já está agendada uma declaração do ministro Antonio Tajani sobre o tema no plenário. Cabe, então, aos partidos da oposição que defendem o reconhecimento incondicional e acusaram o Governo de “megalomania” e “charada hipócrita“, decidir: votam a favor de um reconhecimento sem data no horizonte e com duas condições?

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