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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Manjerico, fotos de Isabel II com 70 anos, e passeio de elétrico: como foram as primeiras horas dos Duques de Edimburgo em Portugal

Na primeira visita real britânica em 15 anos, Eduardo e Sophie foram à Torre do Tombo e andaram de elétrico na Estrela, para uma viagem em que aprenderam a cheirar manjericos com Carlos Moedas.

– “Isto cá está cheio de seguranças.”
– “Vem aí um príncipe.”
– “O Aga Khan?”
– “Esse quem é? Não, não. Não é o ‘Ali Babá’. É um príncipe inglês”.

O diálogo acontece na receção do Arquivo Nacional Torre do Tombo. O homem que entrou no prédio assume-se curioso por ter visto um carro do corpo diplomático parado do lado de fora. Na verdade, pelas 14h55 a Alameda da Universidade já tem cerca de quatro viaturas pretas encostadas, duas range rovers com a condução à direita, duas carrinhas com os vidros escurecidos, um veículo da PSP e duas motas, além de vários seguranças vestidos com fatos pretos parados ao longo do passeio. Já passa das 15h e a temperatura ultrapassa os 26 graus celsius, com o sol a pique. Dois jornalistas internacionais entram para se refugiar do calor, e respiram aliviados ao chegar ao lobby do museu, bastante mais fresco. Depois chegam o Secretário de Estado para a Cultura, Alberto Santos; a Secretária de Estado para os Assuntos Europeus, Inês Domingos; e o Diretor do Arquivo Nacional Torre do Tombo, Paulo Batista. Aguardam no interior, também abrigados do sol. Afinal, a pontualidade britânica atrasou, mas apenas por poucos minutos.

▲ Os duques de Edimburgo chegaram na companhia da Embaixadora do Reino Unido em Portugal, Lisa Bandari

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Quando o carro que traz os duques de Edimburgo para em frente à escadaria que dá acesso à Torre do Tombo, já todas as autoridades esperam à porta. O príncipe Eduardo, com um fato cinza escuro num padrão xadrez discreto, surge na companhia da mulher, Sophie, num vestido fluido creme longo com um padrão de flores verdes, que combinou com uma carteira pequena e sapatos do mesmo tom nude, e a usar óculos de sol — um bom tempo que a duquesa confessou admirar ao conversar com Inês Domingos no interior. “A humidade é mesmo um problema. Quando está frio no Reino Unido sente-se muito mais do que num inverno seco”, desabafou Sophie.

Esta é a primeira visita da família real britânica a Portugal desde 2011, quando Carlos III e Camila, então príncipe de Gales e duquesa da Cornualha, estiveram no país. Eduardo e Sophie visitaram Portugal pela última vez em 2005, quando ainda eram condes de Wessex, e o príncipe regressou a Portugal sozinho quatro anos depois, em junho de 2009. A visita assinala o 640º aniversário do Tratado de Windsor, a aliança diplomática mais antiga do mundo, selada na ocasião do casamento do Rei de Portugal com D. Filipa, filha do Duque de Lencastre, a 11 de fevereiro de 1387. Entretanto, o documento foi assinado antes, a 9 de maio de 1386 entre o Rei de Portugal, João I, e o Rei de Inglaterra, Ricardo II. Nas suas 13 cláusulas, defende questões comerciais, militares e políticas de amizade, defesa e socorro mútuos — e foi invocado pela última vez em 1982, na Guerra das Malvinas.

Guiados pelos professores Manuela Santos Silva e Sean Cunningham, do The National Archives, os duques conheceram alguns dos documentos que integram a exposição “O Tratado de Windsor de 1386”, resultado de um trabalho conjunto de arquivistas e historiadores portugueses e britânicos, e que estará aberta ao público de 3 a 17 de junho. Eduardo e Sophie foram os responsáveis por inaugurar a exposição e levantar o pano que cobria os dois documentos originais, de 1386, em inglês e português — a cópia britânica fica exposta apenas até à próxima terça-feira, dia 2, sendo posteriormente substituída por um fac-símile.

8 fotos

“Os portugueses são mais cuidadosos do que nós ao guardar documentos”, brincou Eduardo, ao ver a diferença entre os dois tratados, que tem letras mais destacadas no documento português. “Vocês ainda têm todos os seus selos, nós já os perdemos. Somos muito pouco cuidadosos”, ri-se. Bem-humorados, colocam perguntas aos professores e observam atentos através do vidro para admirar as peças. Entre elas o Auto de Aclamação de D. João I, do ano de 1385, ou a bula emitida pelo Papa Bonifácio IX que confirmou o casamento de D. João I e Filipa de Lencastre, de 1391. “Havia muito mais atividade e comércio do que sabemos”, comenta o príncipe, enquanto a duquesa questiona como eram feitas as alterações nos contratos e destaca como “hoje em dia, com os computadores, é mesmo muito mais fácil”. Em determinado momento Inês Domingos apresenta à duquesa José Manuel Durão Barroso, que foi ao evento com a mulher, Joana Gonçalves.

Já à saída o casal é interpelado por Maria João Rodrigues de Araújo, a Presidente dos eventos de comemoração dos 650 anos da aliança luso-britânica, celebrados em 2022, na ocasião do aniversário da assinatura do Tratado de Tagilde, a 10 de Julho de 1372. Numa pasta trouxe uma cópia do postal em homenagem à data, criado na altura pelos CTT com uma tiragem de três mil exemplares. “É fruto do trabalho que foi feito”, justificou, ao exibir a peça aos duques, num momento que parece sair do protocolo combinado, mas que Eduardo e Sophie lidam com educação e atenção.

▲ Durante a visita a duquesa foi apresentada a José Manuel Durão Barroso. Mais tarde, foi abordada por Maria João Rodrigues de Araújo

Longe dos longos discursos, o príncipe usa menos de dois minutos para falar. “Obrigado por organizar esta exposição e por trazer os dois tratados juntos. Fico muito feliz por apoiar e celebrar esta aliança, tão antiga e duradoura, que tem sido renovada em inúmeras ocasiões. Falam em relações de povos, comércio, algo muito importante, e vamos terminar a nossa pequena viagem no Porto“, destaca o duque, que logo faz referência ao vinho. “Os ingleses sempre foram muito apreciadores de vinhos. Mas o vinho do Porto, por ser um vinho fortificado, viaja muito melhor. Provavelmente não sabiam disso…”, ri-se.

O príncipe também usa o seu tempo para agradecer e assinalar a presença portuguesa no seio da realeza britânica. “Alegra-me muito, mais recentemente, que a tragédia do incêndio no Castelo de Windsor tenha sido superada. E Portugal quis participar no trabalho de restauro. Somos sempre muito gratos por essa oferta. Se alguma vez visitarem a Crimson Drawing Room, verão que todo o trabalho de passamanaria nas coberturas foi feito por Portugal. Portanto, vocês também fazem parte do Castelo de Windsor. E agradecemos-vos por isso.”

O aparato de segurança posicionado na Alameda da Universidade
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Os duques despedem-se das autoridades
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Eduardo e Sophie deixaram a Torre do Tombo rumo ao Jardim da Estrela
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
O casal esteve sempre sorridente
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Antes de entrar no carro, um último aceno
INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Jardim da Estrela, Manjerico e passeio de elétrico

De um primeiro compromisso tímido, Eduardo e Sophie seguem para o evento seguinte. O aparato de segurança à porta do Arquivo permanece o mesmo, e o trânsito é cortado momentaneamente para a saída dos duques. O príncipe acena às autoridades que se despedem ao cimo da escadaria, e o carro segue para o Jardim da Estrela.

Demoram menos de 15 minutos a chegar. Ao portão são recebidos por Carlos Moedas, que os guia por um passeio pelo parque, entre famílias que ainda desfrutam da programação especial do Dia da Criança. Na entrada, param para cumprimentar os bombeiros. A duquesa quer saber o que fazem quando não estão a usar a farda — um serve às mesas, o outro trabalha numa IPSS, respondem. Fazem o trajeto até à Praça da Estrela, em frente à Basílica, em menos de 10 minutos.

▲ Os duques de Edimburgo param para falar com os Bombeiros que expõem os materiais de trabalho no Jardim da Estrela. Sophie quis saber o que fazem quando não estão a servir

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Neste momento o passeio já está tomado por fotojornalistas de agências, e repórteres de imagem das televisões, que acompanham a visita. A polícia interrompe o trânsito, e não há remédio aos motoristas senão olhar para aquela pequena multidão, a tentar adivinhar o que se passa.

Eduardo, Sophie, e a comitiva atravessam a rua em direção à Basílica da Estrela mas não entram: seguem para a lateral esquerda, onde embarcam num clássico elétrico amarelo. É lá dentro que o casal é presenteado com um manjerico. Moedas ensina os duques a sentir o aroma: esfrega os dedos nas folhas e leva ao nariz. “É tão bom”, diz Sophie. “Não se pode sentir diretamente”, explica o Presidente da Câmara de Lisboa. “A tradição diz que é preciso tocar e cheirar. Se não, pode parecer que se quer matar a planta”, ri-se Moedas. “Pode-se comer?“, quer saber a duquesa. “Não, mas tem o mesmo aroma que o manjericão”, justifica o autarca de Lisboa.

Acompanhados por Carlos Moedas, Sophie e Eduardo cruzaram o Jardim da Estrela em cerca de dez minutos
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O casal visitou o local no Dia da Criança, enquanto o parque recebia atividades para as famílias
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Os duques de Edimburgo cumprimentaram as pessoas com sorrisos
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Depois do Jardim da Estrela, seguiram em direção à Basílica, onde apanharam um elétrico
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Eduardo e Sophie subiram no elétrico, onde receberam presentes
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O casal aprendeu a sentir o cheiro do manjerico com Carlos Moedas
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E recebeu uma miniatura de um elétrico
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O autarca de Lisboa ainda ofereceu aos duques de Edimburgo duas fotografias da visita de Isabel II à cidade em 1957
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Depois de Eduardo e Sophie serem presenteados com uma miniatura de um elétrico, Carlos Moedas tem outra lembrança para os duques de Edimburgo. “Vão ficar surpreendidos. Isto é histórico”, diz o autarca, ao tirar de dentro de um envelope duas fotografias de quando a Rainha Isabel II esteve em Lisboa, em 1957.

Uma delas mostra a monarca no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa, na companhia do marido, o príncipe Filipe, na ocasião em que recebeu uma medalha de honra da cidade; na segunda vê-se Isabel II a descer as escadas dos Paços do Concelho na companhia do então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Álvaro Salvação Barreto.

▲ As fotografias da visita oficial de Isabel II a Lisboa em 1957, oferecidas aos duques de Edimburgo por Carlos Moedas

Direitos Reservados

Por alguns segundos Eduardo e Sophie admiram as imagens, feitas há quase 70 anos, na primeira viagem oficial da Rainha a Portugal. Mas o tempo está a contar. Não se passam nem 15 minutos desde que os dois descem do carro, do outro lado do Jardim da Estrela, quando o elétrico parte para um passeio por Lisboa. Da janela os duques acenam — entre turistas e locais que circulam pelas ruas e parecem viver o dia à parte desta visita real. O breve atraso do início já está compensado e o passeio termina exatamente no horário previsto, very british.

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